A LIBERDADE É AMORAL

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 O PUMA E A MANDIOCA...

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Anarca

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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Jul 12, 2010 9:27 pm

Ainda não eram 9 horas e já havia fila à porta do Centro de Recrutamento de Lisboa.
Os soldados que iam entrando nem os olhavam, e o Pronto que estava na entrada lá ia repetindo:
- Ainda falta… - e fechava o portão com estrondo.
Manuel ia observando os futuros camaradas, e não tinha ideia de ter alguma vez visto um grupo de pessoas tão diferentes.
Por fim, entraram para uma grande sala e receberam um questionário para preencher.
Quando viu que podia escolher a Força Aérea ou a Marinha, ainda teve dúvidas, mas depois recordou que lhe tinham dito que “na tropa nunca te ofereças para nada”, e deixou em branco.
Depois, de papel na mão ficou à espera …
Percebeu que não valia a pena ser o primeiro, porque conforme gritara o Cabo a um mais apressado, “o rebanho não se separa!”
Finalmente, passaram para um largo corredor com bancos corridos, para colocar a roupa.
Depois, nus e com o postal do recenseamento e o questionário, outra fila para a inspecção médica.
Alguns, transportavam grandes envelopes com radiografias, exames e atestados de doença nos quais depositavam as suas esperanças.
Sentado na secretária, o inspector anotava o peso e a altura que o ajudante indicava, e perguntava, mecanicamente :
- Queixa-se de alguma coisa? - enquanto ia puxando da ficha e lhe aplicava o carimbo APTO a azul.
- Mas eu sou epilético, tenho aqui os electrocardiogramas, pode ver - dizia um magricelas ao inspector da fila do lado.
- Precisas é de exercício rapaz…
- Sou epilético … - repetia sem deixar de agitar a papelada.
- Bem… se quiseres vai ao Hospital Militar, que aqui ficas Apto.
- …
O seguinte apresentava-se com uns óculos tão graduados que pareciam fundos de garrafas de champanhe e com um papel a dizer que era mudo.
- Não vês sem óculos ? - perguntou o inspector.
- Vai para a luta corpo a corpo! - atalhou o ajudante.
Felizmente, depois de consultar a papelada e os óculos, acabaram por concluir que as dioptrias eram suficientes para a isenção do serviço militar, não sendo preciso averiguar se era mudo ou não.
- Vais ao Hospital Militar, e aí resolvem a tua situação. Está bem? – e esperou pela resposta para o apanhar, mas o rapaz ou era mesmo mudo, ou tinha treinado muito…
Chegara a sua vez…
- Nome?
- Manuel Augusto da Silva Pereira…
- Pode subir para a balança! Queixa-se de alguma coisa?
- Queixo-me de estar bom…
Depois do peso, da altura, nenhuma anomalia visível…
- APTO!
Saiu e voltou a esperar no corredor até que fossem todos inspecionados para poder devolver a Cédula de Recenseamento.
Um Cabo velhote passou com um cestinho de vime repleto de fitas verde e vermelho. A troco de umas moedas a rapaziada ia ficando com as fitinhas, que diziam “Recordação do dia da minha Inspecção Militar”
Manuel deu por mal empregues os cinco tostões gastos…
Quando finalmente todos tinham acabado e esperavam sair dali, apareceu um Capitão do Quadro Permanente a atirar discurso.
- A partir de hoje, esta é a vossa casa. São mancebos e portanto já têm responsabilidades.
E foi falando, até que alertou para o dinheiro que se dispendia na educação militar, e atirou para a geral:
- E quem é que paga estas despesas?…
- É o Zé !… - atiraram do fim do corredor.
Ficou indeciso entre procurar o engraçadinho ou continuar, mas lá avançou.
- É o Estado, suas bestas ignorantes…
Quando tudo acabou, e Manuel se dirigia ao Campo das Cebolas para apanhar a camionete, perguntava a si mesmo para que tinha ido lá, pois poderia ter poupado aquela viagem e continuar a ser apto para todo o serviço militar.
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qui Jul 15, 2010 10:26 pm

Na camioneta, encontra o Tio Jacinto. Sem poder evitar, este senta-se ao seu lado e vai falando sem parar.
Manuel vai ouvindo e dormitando…
Em certas épocas do ano, o campo pode dispensar alguns braços, mas como a barriga não faz o mesmo, é preciso trabalhar.
O Tio Jacinto ouvira dizer que nas obras que se erguiam por todo o lado junto da cidade havia trabalho.
Um dia, madrugara e foi correr os prédios em construção, oferecendo trabalho barato e poucos conhecimentos.
- O que é que você sabe fazer? - perguntou-lhe o Encarregado.
- Sei cavar , e posso fazer tudo o que quiser…
Teve sorte porque os guindastes eram desconhecidos naquela obra, e andar com baldes de massa às costas não precisa de muita experiência.
Pensou que depois poderia ser pedreiro, mas antes tinha de acartar com cimento e tijolos.
A monotonia do trabalho sem pausas e a falta do espaço do campo a que estava habituado tenta-o a fechar os olhos e a imaginar-se na horta, enquanto vai subindo os degraus que já conhece de olhos fechados…
- Andas a dormir? - berra-lhe o Encarregado, que por malfadada sorte se cruza com ele nesse preciso momento.
Continua a acartar de olhos abertos, e acaba por pensar que é fácil ser pedreiro. Aliás, se aprender ali, depois já pode ir oferecer-se noutra obra, mas para pedreiro.
O Chico Catinga, para quem está a acartar massa e tijolos, já o deixou fazer um bocado de parede, e não lhe custou nada, ao contrário do balde da massa que já não encontra carne descansada nos ombros para o suportar.
Como ele gostaria de ser o Chico Catinga, já que não pode ser o Encarregado que manda nesta e noutras obras.
- Pois é Tio Jacinto, é esta a vida do pobre… - atirou-lhe Manuel, envergonhado de estar calado há tanto tempo.
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Jul 25, 2010 3:57 pm

O Tio Jacinto estava feliz enquanto esperava pela camionete, com o vencimento da semana de trabalho no bolso.
Um rapaz que ele não conhecia pedia-lhe um favor.
- O senhor vai apanhar a camionete? - perguntou.
- Vou sim senhor...
- O meu amigo é que me podia ajudar...
- Diga lá...
- Tenho aqui um bilhete premiado na lotaria!... - e exibia uma cautela. - Só na segunda-feira é que posso levantar o dinheiro e tenho que fazer hoje um pagamento senão estou perdido...
- ...
- Este número está premiado com duzentos contos... Veja lá o senhor o meu azar...
Um casal muito bem posto, aproximou-se deles oferecendo ajuda.
- Podemos ajudar ?... - perguntou o homem.
O rapaz repetiu a história novamente, com o Tio Jacinto a escutar atentamente.
- Essa cautela foi premiada com duzentos contos ?... - perguntava mais uma vez a senhora.
- É verdade minha senhora. Eu não posso é esperar por segunda-feira...
O Tio Jacinto sentia que podia existir ali uma oportunidade, mas não sabia bem o que fazer...
Felizmente a mulher tomou a iniciativa.
- Nós pudemos ficar-lhe com a cautela, mas não temos tanto dinheiro...
- Desculpe lá minha senhora, mas estamos a falar de duzentos contos! É uma vida de trabalho...
- Isso é verdade!... - concordou o Tio Jacinto.
- Olhe, nós temos aqui vinte e dois contos, se você quiser, muito bem... Se não quiser... - disse o homem que tinha permanecido calado, com um ar pensativo.
- Estamos a falar de duzentos contos!... - repetia o rapaz.
O Tio Jacinto sentia que estava a perder o controlo da situação...
- Podem ir ali ao quiosque da Estação conferir o número da cautela e o valor do prémio !... - dizia o rapaz.
Aquelas palavras acabaram com as dúvidas do Tio Jacinto.
- Eu tenho aqui mil e oitocentos escudos... - acabou por dizer.
- Estamos a falar de duzentos contos!... - voltava a repetir o rapaz.
- Mas o senhor só com mil e oitocentos escudos, só pode ficar com vinte dos duzentos contos... O restante é para nós... - dizia a mulher.
O Tio Jacinto nunca tinha visto vinte contos...
- Está bem... - concordou. - E quem é que guarda a cautela até segunda-feira ?...
- O senhor tem aí o Bilhete de Identidade? - perguntava a mulher.
O Tio Jacinto já pensava como poderia ficar com os duzentos contos...
Foram ao quiosque conferir o número da cautela, e não havia dúvida.
Segunda-feira era só receber os duzentos contos...
Deu o nome e o número do B.I. e lá ficou com a cautela depois de juntar os mil e oitocentos escudos aos vinte e dois contos do casal.
- Duzentos contos... Se eu não estivesse aflito... - continuava o rapaz a choramingar...
Na camionete, com a cautela junto ao peito, o Tio Jacinto só pensava como é que ia fazer para ficar com o dinheiro todo para ele...
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qui Jul 29, 2010 3:09 pm

Como de costume, eram cinco da manhã, quando o despertador toca.
O Tio Jacinto levanta-se e inicia os preparativos para mais um dia de trabalho.
A cautela premiada permanecia em cima da mesinha de cabeceira...
Era um dia igual, mas bem diferente dos anteriores...
Um clarão no horizonte anuncia o dia.
A mulher já colocou lenha no fogão para aquecer a água para o café com leite.
Um galo canta, e um cão responde lá muito ao longe...
No rádio dão as primeiras notícias do dia, iguais às dos outros dias...
A marmita com o almoço está pronta, e o Tio Jacinto sai para o trabalho como se tivesse asas nos pés.
Passa o dia a acartar massa e tijolos para o Chico Catinga, que de vez em quando o deixa assentar alguns tijolos...
Até parecia que o sacana do preto sabia que ele tinha ganho duzentos contos na lotaria.
Aquela segunda-feira parecia nunca mais acabar...
Quando finalmente foi à Santa Casa da Misericórdia levantar o dinheiro, ficou a saber que aquele número tinha sido mesmo premiado, mas no sorteio da semana anterior...
A emoção e o arrependimento foram demais para o coração do Tio Jacinto. Não suportou a perda dos duzentos contos ...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Ago 06, 2010 9:17 pm

Choviam pentes de plástico na praça quando chegou à aldeia. Na carrinha parada no centro, um fulano falava sem parar para um microfone atado ao pescoço com arames.
- Agora são pentes, e daqui a bocado vão canetas…- anunciava.
- Hoje venho de cabeça perdida! Vou arruinar o patrão…
O povo vinha aos magotes enquanto o vendedor ia abrindo caixas.
- Meus senhores e minhas senhoras, eu não venho aqui para enganar nem um, nem dois nem três…eu venho aqui para enganar toda a gente…- gritava enquanto ia fazendo sinais com a mão a desmentir.
Desdobrou um cobertor de papo, verde e salmão, atirando uma ponta para a mão da Tia Zulmira para ela apalpar.
- Vejam-me bem esta maravilha!
Tirou mais um e repetiu a manobra.
- Estão a ver estes dois cobertores? Eu hoje dou cabo do patrão…- e levava a mão à cabeça.
A assistente passou-lhe uma manta vermelha e azul com enfeites debruados, a qual juntou aos cobertores.
- Mas isto ainda não fica assim… eu hoje estou maluco. Vai ainda um adereço de cama. Dá aí um desses - pediu à assistente.
Juntou tudo num monte, e simulou arrepender-se e voltar a guardar tudo, mas depois murmurou : - Seja o que Deus quiser…
- Está calado aldrabão! - atirou um rapazola que passava.
- Como disse? Chama-me tudo menos teu padrasto! - e voltou ao negócio.
- Sabem quanto pagavam por este lote em qualquer casa onde lá fossem comprar? Pelo menos 1.500$00… Mas eu não vou pedir 1.500$00, nem 1.000$00, nem mesmo 900$00…
A miudagem manifestava-se aguardando a prometida remessa de canetas “à rebanha”.
- Hoje estou maluco. Nem 900$00, nem 800$00, nem sequer 700$00. Para as primeiras pessoas que aparecerem aqui com uma nota de 500$00, levam este lote todo. Apressem-se porque estou maluco, e se mudo de ideias, depois não vale a pena pedir…
Os fregueses não se fizeram esperar.
- Quero um verdinho escuro…- pedia uma.
- Está a acabar, não posso vender mais…- gritava enquanto ia vendendo.
- Estou a arruinar a casa. Mais um para aquele amigo…outro para aquela senhora ali e pronto…tenho de terminar.
Despachava os últimos compradores e continuava:
- Estou perdido! Dou cabo da casa. Então, não há dinheiro?… Não aproveitem não... e depois venham cá pedir quando me passar a maluqueira...
A miudagem continuava à espera das canetas, mas os que tinham ficado sem pentes não se conseguiram desforrar…
Quando a carrinha partiu, alguns pentes sem dentes, abandonados pela rua, atestavam que não tinham passado o teste da primeira penteadela.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Ago 09, 2010 3:12 pm

O Manuel não gostava mesmo do Dr. Gonçalves - Presidente da Junta - que tinha sido nomeado para o lugar pelo seu grande amigo - Presidente da Câmara Municipal - que tinha sido escolhido pelos militantes da Acção Nacional Popular, por indicação do Governador Cívil - grande amigalhaço de todos…
Quando o Manuel ouvia o Dr. Gonçalves falar, recordava sempre a citação de que Deus tinha dado o dom da palavra aos homens, para que estes pudessem dizer o contrário do que pensavam…
Mentir era pecado, mas o Dr. Gonçalves transformava o pecado numa arte…
Os grandes artistas acabam por ser sempre reconhecidos.
Para se conformar, Manuel lá ia pensando que todo o poder que é dado pode ser retirado a qualquer momento.
Mas não gostava mesmo do aldrabão do Dr. Gonçalves…
Reconhecia no entanto que era um grande político…
Tinha o curso de Direito e uma veborreia que deixava as pessoas sem compreenderem o que ele dizia…
Quanto menos compreendiam mais lhe gabavam as ideias geniais…
Podiam lá ficar atrás dos outros…
O Dr. Gonçalves subia na vida à custa dos amigos e da ignorância do povo.
Era um sujeito de aparência frágil mas com voz grossa. Dizia-se tímido por natureza, e simulava um olhar triste e desinteressado.
A manipulação, depois da mentira, era o seu melhor atributo. E como maravilhava quando prometia o impossível…
Tudo que dizia era bom de se ouvir, mesmo quando não era humanamente possível acreditar.
E quem se atrevia a dizer que não era uma pessoa honesta ?…
O Dr. Gonçalves era um grande político…
Podia até ir trabalhar no Circo com animais selvagens ou insectos domesticados. Tinha grandes capacidades para ser um mágico de sucesso, um bailarino famoso, mesmo até um trapezista sem rede…
Já tinha sido muitas vezes palhaço e conseguira fazer rir toda a gente…
Não tinha carteira profissional, mas era um trabalhador de excepção.
Era mestre na arte do compromisso e excepcional em criar climas de confiança.
Ninguém sabia muito bem qual era o seu salário…
Ele estava ali para servir o povo, não lhe falassem de dinheiro…
O que ganhava por fora lá ia dando para viver.
Sim, porque ele simulava um olhar triste, mas os olhos estavam sempre bem abertos…
As pessoas é que pareciam cegas.
Ao menos tinham Circo com muitos palhaços.
O Dr. Gonçalves era um grande político…
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Ago 18, 2010 11:44 pm

O Dr. Gonçalves também era um homem pragmático. Preferia as putas, que davam menos trabalho e eram objectivas.
Um homem que dominava a arte do compromisso, não se queria comprometer com ninguém...
Quando ele explicava, todos lhe davam razão.
Quando se sai com uma mulher para jantar e depois a uma discoteca ou um bar para criar ambiente, nada garante que a cama esteja a seguir.
Depois, mesmo no quarto do hotel ainda tudo pode acontecer...
Nesta perspectiva, as putas eram a melhor solução. São objectivas e depois de receberem o dinheiro, acabou a conversa.
Ainda por cima evitava ter decepções porque não queriam chupar, não gostavam de sexo anal, só faziam amor debaixo dos lençóis ou com as luzes apagadas, etc...
Com uma puta era tudo pago e combinado antecipadamente...
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Ago 22, 2010 10:02 pm

A mãe da Tia Zulmira tinha fama de curandeira desde a mocidade. Diziam que além de curar muita gente através de ervas e orações, os mortos falavam pela boca dela a pedir o cumprimento de promessas que os defundos não tinham pago.
Aos 70 anos era muito branca e de corpo curvado pela idade. De uma magreza descomunal, parecia só ter pele e ossos. As mãos, de unhas compridas, assemelhavam-se a garras.
A Tia Zulmira, sua única filha, contrastava muito com a mãe. Era de uma beleza angelical, a pele macia como algodão e os olhos de um azul sem fim que lembravam o mar...
Apesar da sua beleza, os eventuais pretendentes desistiam quando ouviam comentar que ela também viria a ser uma bruxa, como a mãe.
Mesmo depois da mãe morrer, a Tia Zulmira continuou sem ninguém...
Mas um dia Nossa Senhora avisou-a:
- Zulmira, vais passar por dificuldades durante seis anos....
A partir daí, a Tia Zulmira teve uma vida de sofrimento e doenças. Os médicos não descobriram a sua doença, e ao fim dos seis anos Nossa Senhora reapareceu para lhe dar a seguinte penitência:
- Deves rezar três rosários por dia, vestir roupa branca ou azul e fazer caridade...
A Tia Zulmira acabou por ir ter com o Padre que a aconselhou a seguir a penitência que Nossa Senhora lhe tinha dado.
Dias depois, começaram a aparecer as primeiras pessoas à sua porta, pedindo consultas. Ela dizia que, quando toca no corpo de alguém, o vê por dentro como se fosse uma radiografia, vendo mesmo o sangue a correr nas veias.
Os estudiosos apareceram logo para explicar que é um fenómeno que se chama Cumberlandismo.
Uma pessoa podia captar as reações de outra e fazer observações sobre o seu estado fisiológico, a sua personalidade, as suas tendências, o seu passado clínico e futuro, assim como de tudo o que se está a passar no seu organismo, apenas com um contacto corporal.
A Tia Zulmira não percebia nada daquela conversa. Só queria ser uma pessoa normal...
Quando não atendia as pessoas que a procuram, a Tia Zulmira não podia descansar...
Todos tinham uma história de dor, sofrimento e doença para lhe contar.
- A minha missão é fazer caridade... - disse um dia em que deixou de lutar contra o destino.
Com o tempo, a Tia Zulmira passou a ser chamada a outras aldeias.
- A Tia Zulmira sabe mais do que muitos médicos! - afirmavam os clientes que espalhavam as suas curas miraculosas de boca em boca.
Continuou pobre com uma vida modesta, vivendo exclusivamente, segundo afirmavam os vizinhos, para fazer o bem.
O Padre não se cansava de lembrar todas as vezes que podia, que o curandeiro passava sempre uma imagem de bondade e santidade aos seus clientes e nunca cobrava pelo seu trabalho mas aceitava donativos.
Dizia ainda, que as pessoas que se diziam curadas eram geralmente aquelas que, cansadas de ir a tantos médicos, estavam predispostas a acreditar no poder do curandeiro, sendo esta confiança fundamental para o processo de cura. Quanto à eventual aparição de Nossa Senhora, o Padre esclarecia que não havia aparições. O que havia, na verdade, eram visões e projecções com origem na própria pessoa.
A Tia Zulmira só queria ser uma pessoa normal...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Ago 28, 2010 6:44 pm

O correio trouxe finalmente o postal que o convocava para se apresentar na Unidade a que fora destinado.
A única pessoa a ficar triste foi a Lurdes.
- A tropa faz homens. - comentou o pai.
A falta de roupa para levar não constituía problema porque lá lhe dariam tudo o que precisava, e o rancho não devia ser tão mau, pois nunca ninguém morria de fome.

Finalmente, com peugas novas e sapatos engraxados, iniciou a viagem para a estação onde apanharia o comboio para o quartel.
A camionete parava de minuto a minuto para entrarem passageiros e bagagem, e cada paragem lhe parecia interminável.
Olhava os ciclistas que iam passando com o chapéu de chuva nas costas, preso pelas pontas com um cordel que lhes cruzava o peito, e deu por si a pensar na espingarda…
Notou que alguns usavam antes a parte de trás da gola do casaco para prender o chapéu, talvez por não terem ido à tropa…
Reparou num passageiro, com as calças atadas com cordel, e a comer pão com queijo…
Manuel pensou que tinha de ter muito cuidado com os novos colegas, para não pensarem que ele também era um “matarruano”!
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Ago 30, 2010 11:47 pm

IV - Pedro e Manuel

Na bilheteira da estação, quando comprou o bilhete, Manuel sentiu que estava a iniciar uma grande viagem. Depois, para comemorar, foi ao bar comer uma sandes e beber uma cerveja.
Quando o comboio chegou, já dormitava…
Era dia de Feira, e as grades com galinhas e as hortaliças atravancavam as entradas das carruagens.
Finalmente conseguiu um lugar sentado, junto à janela, e foi olhando a paisagem, sentindo um aperto no peito que não sabia explicar.
Já tinha escurecido quando o comboio parou para receber o transbordo de outra composição que vinha de Lisboa.
Os novos passageiros foram ocupando os lugares disponíveis, e Manuel ficou curioso acerca do rapaz da sua idade que atirou com a mala para o banco à sua frente, e se instalou como se a carruagem fosse dele…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Set 18, 2010 3:08 pm

Com grande dificuldade, Pedro acabara por a convencer a deixá-lo apanhar o combóio em Santa Apolônia, em vez de o levar ao quartel onde tinha de apresentar-se para a maldita recruta.
Não conseguia dizer-lhe que estava de tal maneira com medo de ficar só, que queria terminar rapidamente com o sofrimento de tal expectativa, para saber se iria resistir…
Consultava ansioso o relógio, para poder sair do carro e despedir-se dela o mais depressa possível. Luísa bem tentava fazê-lo esquecer a partida durante mais uns momentos, mesmo sentindo que era impossível…
- Na Sexta vou lá buscar-te, está bem? - sussurou-lhe, aludindo ao regresso para o animar.
- Depois telefono, é longe…
- Não sejas pateta. Vou adorar dar boleia a um homem fardado…
Faltavam 10 minutos para o comboio partir.
- Depois telefono! - disse-lhe enquanto a beijava rapidamente.
- Não te esqueças…
- Vai devagar para casa…
- Pedro, não fiques…
- Não fico, descansa… - e ensaiou um sorriso que não podia convencer.
Quando entrou na estação, voltou-se para um último aceno, sorrindo, mas com vontade de gritar-lhe para ir com ele.
O barulho das rodas nos carris pareciam troçar dele, dizendo sem parar “estás preso…estás preso…estás preso…”
Sentia vontade de chorar…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Set 19, 2010 2:36 pm

Quando mudou de comboio, sentou-se em frente de um saloio que trazia também uma mala. Adivinhou que era mais uma vítima, e a sua presença deu-lhe algum conforto.
O saloio tirou dum saco uma sandes, e ao sentir o olhar de Pedro, estendeu o braço.
- É servido?…
- Não, obrigado. Comi agora mesmo. - mentiu Pedro
Sentiu de imediato uma estranha solidariedade com aquele companheiro de viagem.
- Também vais para a guerra?
- Pois vou...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Set 25, 2010 3:08 pm

Depois das apresentações não pararam de falar. Era noite cerrada quando chegaram ao destino e souberam que da Estação até ao Quartel eram vários quilómetros, não havendo já camionetes àquela hora.
Os dois únicos Táxis existentes já tinham partido, entre ruidosas discussões e promessas de vingança dos que ficavam à espera.
As cigarras cantavam, quando conseguiram, por fim, apanhar um táxi que os deixou à porta do Quartel.
Bateram à porta de armas, até se abrir uma pequena porta que revelava um soldado ensonado, de mau humor e enrolado num sebento cobertor castanho.
- O portão só abre às 7 da manhã! - berrou, enquanto atirava a portinhola com estrondo.
O grupo ia engrossando com os recrutas que iam chegando, e recomeçaram as batidelas na porta...
- Já disse que só abre às 7 horas! - gritou novamente lá de dentro, sem aparecer.
- Mas não abrem agora porquê?... - perguntava teimosamente de fora um mais renitente.
- O Oficial de Dia disse para não o acordar, e não posso abrir a porta sem ele estar presente, não chateiem mais... - sussurrou, para acabar com a conversa.
Pois é...- atirou alguém envolto na escuridão - O sono de um, deixa os outros sem poder dormir...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Set 26, 2010 2:04 pm

As poucas pensões estavam já cheias com os que também não tinham conseguido entrar antes. Em frente ao Quartel existia um pequeno jardim, cuja penumbra tornava mais acolhedor.
A estação do ano apregoava calor, mas as madrugadas eram sempre frias.
Continuavam juntos, e acabaram por deitar-se ao comprido nos bancos ainda livres.
Enquanto Pedro lutava para se acomodar, tentando ultrapassar a falta de uma ripa mesmo no meio das costas, Manuel continuava sentado, com a mala ao lado.
- Já tinhas dormido num banco de jardim? - perguntou-lhe Pedro
- Não, e tu ?...
- Não, nem sequer imaginei essa possibilidade algum dia... - murmurou baixinho, enquanto se ajeitava, já exasperado com a maldita falta da ripa. Depois, protegido pela escuridão, deixou finalmente cair algumas lágrimas que havia muito teimavam em sair, por nada em especial, mas apenas porque queriam sair...
Quando o nariz ameaçava fungar, teve receio de ser ouvido, e deitou-se de costas até acordar frio, muito frio...
- Manuel, estás a dormir?...
- Hem! - respondeu por fim estremunhado.
- Não tens frio?
- Assim assim...- mas notava-se que não tinha.
- Está cá um barbeiro... E se fossemos para uma escada - atirou Pedro enquanto encaixava as mãos debaixo dos braços.
- Está bem...
Pegaram nas malas, e foram empurrando as portas que lhes parecia dar para escadas, até encontrarem uma aberta.
Mal tinham acabado de se instalar, quando Pedro se levantou.
- Manuel ?...
- Hem!
- Isto é pedra. Dá cabo dos ossos ... - e esfregava as costas enquanto Manuel o olhava interrogador.
- Vamos para o Jardim outra vez?... - disse por fim.
- Não, vamos procurar uma escada de madeira. Está bem?...
- É melhor... - acabou por concordar na esperança de que Pedro o deixasse finalmente dormir descansado.
Demoraram bastante tempo a descobrir uma escada em madeira, e quando a encontraram, já estava habitada. Mesmo assim, cabiam mais dois, e o ambiente parecia ficar mais confortável.
Infelizmente para eles, os que lá se encontravam consideravam que dormir numa escada era motivo de festa, e deviam comemorar...
Batiam nas portas do r/c e faziam ameaças encostando a boca ao ralo da porta. Sabiam que os residentes não se atreviam a abrir a porta para reclamar.
- Onde é que tens o dinheiro, velhinho?... - perguntava um com a voz pastosa.
Percebiam-se os passos furtivos dos habitantes da casa, escutando junto da porta, sem saber o que fazer, arrependidos por não ter telefone.
Às 5 da manhã, num tropel, chegou o anúncio de que a estação de camionagem já estava aberta, e que as salas de espera tinham sofás.
Era verdade, e ainda conseguiram arranjar lugares...
Antes de adormecer, Pedro deu por si a pensar que na vida, é tudo uma questão de hábito. Dormir num sofá de uma estação de camionetes seria mau, se não tivesse passado antes pelo banco do jardim e pelas escadas. Naquele momento era maravilhoso, e desistiu de tentar adivinhar a que mais se iria habituar durante os próximos 3 anos.
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Out 01, 2010 3:17 pm

- Pedro, acorda!...
Com os abanões despertou confuso, demorando alguns instantes a perceber onde se encontrava.
- O CMS entra primeiro, e já estão a entrar. - ouviu alguém gritar.
Levantou-se rapidamente, esfregando os olhos que teimavam em manter-se enevoados.
- Adeus! Depois encontramo-nos! - acenou para Manuel que permanecia sentado à espera para o acompanhar, e ficou a olhar enquanto Pedro se dirigiu rapidamente para a saída.
No portão mostrou a Guia de Marcha e ficou a olhar para a Parada, repleta de miúdos, com as malas aos pés, sem saberem o que fazer.
Quando reparou numa fila, que ia engrossando, optou por começar por aí. Olhava para os soldados que passavam, e todos lhe pareciam mais velhos. Mesmo sabendo que dentro em breve todos os novos recrutas iriam receber uma farda, continuava a vê-los como colegas da escola e não como soldados.
Quando chegou a vez dele, entregou a Guia de Marcha a um Pronto com ar chateado. Tiraram-lhe as impressões digitais a todos os dedos, e entregaram-lhe um papel com o Nº Mecanográfico, o Pelotão e o Nº de Ordem. O nome ficava à porta do Quartel.
- Anda sempre com este papel enquanto não decorares!
- O quê?...
- Anda com o papel, pá!
Com o papel na mão, ficou sem saber o que fazer. Ninguém parecia ter pressa, e foram-se sentando ao longo da Parada, olhando uns para os outros. Os mais extrovertidos iam formando grupos, e a animação parecia subir de tom.
Pedro não deixava de pensar como seria bom estar em casa naquele momento...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Out 05, 2010 2:36 pm

Eram nove horas da noite, quando o cornetim tocou o recolher. O Pronto da camarata avisou que daí a meia hora apagaria as luzes.
Nem a escuridão parou o tropel de pensamentos que o atormentavam...
Já nem sabia se valia a pena esperar para ver se seria ou não mobilizado para o Ultramar. O melhor era desertar o mais depressa possível, de preferência logo na primeira vez que o deixassem sair do quartel.
O barulho na camarata era tanto que nem conseguia pensar, e acabou por adiar para depois o problema...
A coberto da escuridão, a bagunça ia subindo de tom.
Cantavam, lançavam bocas foleiras, e provocavam o Pronto de plantão à Caserna, que de minuto a minuto chamava a todos Maçaricos.
- Já cá cantam 33 meses, e daqui a pouco deixo de vos aturar, seus cabrões!... - berrava quando lhe caia em cima uma lata de conservas vazia ou uma peça de fruta podre.
A colocação da cama do Pronto não era das mais felizes, pois estava no canto da camarata, junto à saída, o que originava que tudo lá ia cair. Ou directamente, ou batendo na parede, ia para cima dele...
Saltava da cama, e corria pelo corredor por entre as tarimbas.
- Cobardes... Cabrões!... Se não me faltassem só 3 meses eu matava um de vocês, meus merdas!
Toda a caserna ria, e lá do fundo, com voz de falsete, alguém chamava:
- Zézinho, meu menino...
O Pronto afinava mesmo com o Zézinho.
- Não sejas mau, Zézinho... - gritavam-lhe outros da entrada, quando ia desvairado procurar o engraçadinho do fundo da camarata.
Pedro não sabia se rir... Se chorar.... Tudo parecia ficar de fora quando se passava o portão do Quartel.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Out 08, 2010 2:56 pm

Tinham-no avisado, que nos primeiros tempos, principalmente à noite, as praxes podiam ser mesmo estúpidas.
Já grande parte da Caserna dormia, quando eles apareceram.
- Tudo já em sentido! - gritavam enquanto abanavam com brutalidade alguns mais ferrados no sono.
- Para o chão! Em sentido! Que é que estão à espera?
Pedro ainda não conhecia os postos, mas via amarelos nos ombros e isso parecia-lhe suficiente.
Desceram descalços para a pedra gelada e ficaram em sentido enquanto os visitantes passavam a revista. Após percorrerem a Caserna, fixando por vezes o olhar num ou outro recruta, voltaram à entrada.
- Boa noite meus senhores!
Voltaram as costas e apagaram a luz.
Enquanto ia ouvindo os comentários e se preparava para dormir, sentiu os pés gelados, e por precaução, calçou dois pares de meias.
Tinham passado alguns minutos, quando os visitantes voltaram à entrada.
- Há aqui muito barulho. Se não se calam, depois não se queixem!
Iam a sair, mas os murmúrios foram motivo suficiente para concretizar a ameaça.
- Tudo já em sentido! - e iam acendendo todas as luzes.
- Não se pode dormir?... - perguntou a medo um recruta mais ensonado.
- Quem é que falou?
Percorriam a zona de origem do comentário, e o autor ficou aterrorizado ao ver tal reacção.
- Fui eu... - disse por fim.
- Ai sim?... O menino é do contra?... - reuniam-se à volta dele. - É contra o sistema, não é verdade?...
- Foi sem querer... - balbuciava.
- Não interessa! - atalhou o que parecia mais graduado.
Acenou para o Pronto e ordenou:
- Tire o número a este...
- O número?... - murmurava o infeliz. - Mas foi sem querer...
- Diz isso depois. O número? Vá lá!
O Pronto batia com a caneta no bloco perante o desespero do Maçarico.
- Foi sem querer... - repetia, sem dizer o número.
- O número, vá lá! Não há discussão!
Um amigo do visado, tentou ajudá-lo:
- Dá lá o número pá, não fizeste nada de mal...
O tom de voz desafiadora, chamou as atenções sobre ele.
- Olá, temos aqui uma Manuela?...
Que raio será agora uma Manuela, pensou Pedro.
- O que é que você disse?...- soletrava as palavras com a cara encostada ao já arrependido intrometido.
- O rapaz não fez mal nenhum... - repetia, com a voz muito mais suave.
- Ai não?... Tire o número a este também!
- Não dou... não fiz mal nenhum...
- Bem... - interrompeu novamente o mais graduado. - Se demonstrarem que passam a obedecer à hierarquia militar, podemos evitar uma piçada logo no primeiro dia...
Os dois concordaram imediatamente.
- Olha lá - perguntou ao primeiro - Já alguma vez papaste uma miúda?
- Já... - e ria, aliviado.
- Não ria que não é caso para isso. Pois então, já que você é um machão, vai papar uma miúda para o pessoal ver como é que se safa...
- ...
- Bem, aqui a Manuela faz de miúda. - e apontava o segundo.
- O quê?... - reclamou o aludido.
- Vá lá deitar-se e caladinho!
Com relutância acabou por se deitar, puxando o cobertor bem para cima.
- Agora você vai ensinar como é, está bem?... Tem de começar com uma declaração de amor, heem?...
Depois de várias ameaças, conseguiram deitar os dois na mesma cama a balbuciar baboseiras.
- Quero mais alma nisso!... - pedia o graduado
- Preliminares, suas bestas! Preliminares, seus maricas... - incitavam os outros.
Pouco a pouco, toda a Caserna foi começando também a rir e a gozar com a situação, até que o graduado reparou na bagunça.
- Ai os meninos estão a rir? Estão a gozar ?...
Apesar de algumas manifestações de má vontade, voltaram a ficar todos em pé junto das tarimbas.
- Sentido!
Um dos oficiais explicou rapidamente o direita volver.
- Vamos lá a ver se isto não sai certo... - ameaçou.
- Quero todos certos! Atenção! Direita...vol...ver! - ordenou com voz de trovão.
Quando se deram por satisfeitos, mandaram formar um círculo e de cócoras, agarrar os tornozelos com as mãos. Depois, e sem desfazer o círculo andar até mandarem parar.
Pedro sentia uma dor terrível nas pernas, mas os oficiais iam gritando ordens à mistura com ameaças e ofensas.
- Mais depressa! Parecem feitos de merda...
Os que caiam eram empurrados para retomar o seu lugar.
A dúvida que a todos assaltava sobre a identidade dos carrascos, impedia a revolta da Caserna.
Finalmente, mandaram parar, e foram novamente buscar a Manuela, que estava perto do desespero.
Disseram-lhe para se agarrar aos varões da cama, e meteram no chão, por trás, dois colchões de palha dobrados ao meio.
- Agora, vais dar coices e dizer que gostas muito de estar em cavalaria!
Depois de mais ameaças, lá começou.
- Gosto muito da cavalaria! - e imitava escoicear nos colchões.
Depois mandaram mudar o refrão.
- Diz agora, que queres que estes filhos da puta se lixem todos! - e apontava para os colegas oficiais.
- E dá coices também, não esqueças...
- ...
- Vá lá, diz! Não tenhas medo...
Não precisou de ameaças. Notava-se que o fazia agora com gosto. Em cada coice libertava parte da fúria que o invadia.
- Que estes filhos da puta se lixem todos! - gritava sem poder evitar lágrimas de raiva.
Pouco a pouco foi acalmando, até ficar aliviado e parar por fim.
- Não é possível! Não se compara este entusiasmo com o anterior.
- Não se pode tolerar isto! - reforçava outro oficial.
- Então preferes que os oficiais se lixem em vez de gostares da cavalaria?
- Não pode ser!... - e abanava a cabeça, com ar sério.
- Tens que repetir que gostas de cavalaria... - e apontava o colchão.
- Queremos ver o mesmo entusiasmo! Vá lá!
Só o deixaram, quando a exaustão o invadiu, como uma maré de sofrimento.
Quando saíram sem apagar as luzes, a Caserna foi invadida por uma onda de indignação. O inimigo estava no exterior daquela sala. Era todo o mundo lá fora.
Os próximos que os fossem chatear, levavam nos cornos. Desenroscaram as lâmpadas para tudo se passar na escuridão, e deitaram-se preparados para a vingança.
Como desconheciam que o Oficial de Dia fazia a ronda pelas Casernas, pensaram que fosse outro brincalhão, e saltaram-lhe em cima com todo o gosto.
Este, voltou de imediato acompanhado do Reforço de Serviço, de baionetas armadas, e não deixou de avisar que seriam tomadas providências para descobrir e castigar os culpados.
O Pronto, por seu lado, prometeu logo a si mesmo fazer uma lista dos mais reguilas.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Out 09, 2010 2:20 pm

Manuel ia mordiscando a última sandes que tinha trazido de casa, enquanto apreciava o que o rodeava. Gostava de ter ocupado o beliche de cima, mas tinha de se contentar com o de baixo.
Mastigava calmamente deitado, quando receberam a visita do Comandante do Esquadrão.
- Estamos aqui para vos fazer soldados!
Percorria a Caserna para lhe admirarem o fardamento impecável.
- Amanhã, quando receberem as fardas, não se julguem militares, pois serão apenas civis mal fardados.
Continuou a tecer considerações e a dizer palermices. Puxava com tiques nervosos o blusão de cabedal para baixo, e batia com um pingalim no cano das botas altas.
Manuel estava sem saber se o homem era simplesmente maricas ou apenas vaidoso.
- Deixam de existir colegas, amigos ou camaradas.
Enquanto andava, batia com os tacões para fazer tilintar as esporas.
- Colegas são as putas! Amigos são os paneleiros! Camaradas… não é preciso explicar, pois não?…
Olhou em redor, mas parecia não haver dúvidas.
- Quem mijar fora do penico, lixa-se!
A voz subia de tom, e os que já o tinham catalogado de maricas ficaram indecisos.
- Aparecem por cá filhos de muitas mães, e por isso não venham cá com espertezas, pois levam logo uma piçada… Eu posso ser vosso amigo, mas não quero nada com malandros… - e foi saindo calmamente, depois de olhar para todos, como a tentar descobrir logo ali os tais malandros.
O Pronto acompanhou o comandante até à saída, e Manuel conseguiu ouvir as suas últimas instruções.
- É preciso especial cuidado com estes! Já vêm todos infectados. Quando lhes falei em camaradas… até tremeram!
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qui Out 14, 2010 9:08 pm

Fazia-lhe confusão estar deitado por debaixo de outra cama. Imaginava um grande número de acidentes, e já se via a levantar-se de noite e a bater com a cabeça nas traves de ferro que sustentavam o colchão de cima.
Os quatro pés do beliche superior encaixavam no prolongamento dos da cama de baixo, e quando reparou que um deles não estava completamente enfiado, ou por estar empenado, ou por não ter ainda suportado peso suficiente, ficou apavorado.
Decidiu esperar que o vizinho subisse, para ver se o tubo enfiava ou não. Tanto dizia a si mesmo que aquilo não tinha importância, como imaginava o tubo a desenfiar-se totalmente e a vir enfiar-se-lhe na cabeça, enquanto dormia.
O outro lá subiu finalmente, mas o tubo continuou sem encaixar.
Não parava de pensar no assunto, e mesmo depois de apagadas as luzes, não conseguia descansar.
- Pá ! - acabou por chamar, batendo na parte de baixo do colchão do vizinho de cima.
- Que é?…
- Um pé da cama está mal enfiado, podes fazer peso na cabeceira do lado direito para ver se o enfiamos? - Sentiu-se desconfortável, e o tempo que o outro demorou a fazer-lhe a vontade, ainda o incomodou mais.
Com um enorme ranger, o vizinho lá se sentou na cabeceira, em cima do pé teimoso.
Mas nem assim o tubo encaixou…
- Espera aí que deve estar empenado e eu vou dar um jeito!
Na tentativa de endireitar o eixo, Manuel fez pressão mesmo no encaixe, enquanto o outro continuava aos saltos lá em cima.
De repente, o pé encaixou totalmente, e uma dor aguda revelou-lhe que o rebordo lhe tinha tirado uma lasca da parte interior do dedo médio.
Sentia sangue a escorrer, mas a escuridão não o deixava ver a profundidade do golpe, e optou por embrulhar o dedo no lenço para estancar o sangue.
Tentou adormecer, mas mesmo no escuro, adivinhava-se uma mancha negra a alastrar no pano branco. Acendeu um fósforo e só viu sangue. Tirou o lenço, acendeu outro fósforo, e ficou assustado com o ferimento. Um círculo de carne viva expelia golfadas de sangue. Enrolou mais um lenço e voltou a deitar-se, rezando para o sangue estancar. Por sorte já lhe tinham tirado as impressões digitais, porque senão ficavam sem as puder tirar daquele dedo.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Out 16, 2010 4:23 pm

No dia seguinte, o dedo não apresentava melhor aspecto. Depois de sofrer as dores ao tirar o lenço que tinha colado, o buraco lá estava, sem sinais de querer cicatrizar.
Perguntou ao Pronto onde podia ir fazer um curativo, mas só estava alguém na enfermaria a partir das cinco horas da tarde, após acabar a instrução.
Ficou a saber que era uma forma de não haver doentes a fugir aos deveres nas horas de actividade diária.
Começara a distribuição da roupa, e lá foi para a fila.
Vinham saindo com grandes trouxas que lhes tapava a cabeça e lhes dificultava a visão. Iam deixando cair peças, que os outros apanhavam do chão e lhes atiravam para cima, para voltarem a cair várias vezes até conseguirem chegar à cama, para onde atiravam tudo.
A conferência revelava quase sempre a falta de acessórios que tinham caído pelo caminho, ou não lhes tinham sido dados.
Felizmente o Pronto fazia o favor de vender por um preço em conta as peças que faltavam…
Quando chegou a vez dele, Manuel ficou a pensar como iria agarrar naquela tralha toda com o dedo assim.
Deu o número mecanográfico, e logo estenderam no chão uma gabardine verde, aberta, para onde foram atirando com os restantes artigos, enquanto o 1º Sargento ia registando as saídas, sem que Manuel tivesse a hipótese de controlar devidamente o que estava a receber.
Os Prontos que distribuíam o equipamento eram os mesmos que vendiam aos novos recrutas as peças que se perdiam, e ficou com a certeza de que nem tudo se perdia no percurso até à Caserna.
Já ouvira mesmo dizer, que durante a noite, os Prontos roubavam as botas aos Maçaricos para depois lhas venderem outra vez.
Um favor, é claro…
A gabardine ficou cheia rapidamente. Juntou as mangas com as pontas, para fazer a trouxa, mas, por recear esforçar o dedo, não conseguia sair dali. Felizmente, um Pronto lá o ajudou a despachar-se, para que o espaço ficasse livre e fosse aviado o seguinte.
Apertou a carga com força de encontro ao peito, com o queixo a pressionar a enorme trouxa. Caminhou cuidadosamente, olhando amiúde para trás, receando deixar cair alguma coisa. Quando atirou tudo para cima da cama e constatou que não lhe faltava nada, nem quis acreditar.
A Caserna parecia uma gigantesca sala de provas de um pronto a vestir. Trocava-se tudo por todo o lado.
- Troco uma Camisa nº 2 por uma nº 3! - gritava um de cima da cama.
Outros anunciavam botas, calças e tudo o resto...
Permaneceu deitado, com o braço elevado para atenuar a dor, olhando aquela confusão. Uns mais vaidosos não desistiam enquanto não se sentiam elegantes.
Pouco a pouco, os pregões foram morrendo, ficando apenas os que não conseguiam as desejadas trocas, acabando por ir tentar a sorte nas outras Casernas.
Como que acordando, levantou-se então, e provou rapidamente a roupa e as botas. Nada lhe estava apertado, o que era o mais importante. As botas tinham ambas o mesmo número, mas uma delas parecia-lhe mais larga. Nada que dois pares de meias não resolvesse.
O Pronto chamava-lhes agora feijões verdes, contente com as vendas realizadas.
Vestiu o fato de trabalho como lhe tinham dito, e arrumou tudo dentro da caixa que lhe pertencia, e que devia ficar debaixo da cama.
À noite dormiu vestido e fechou as botas na caixa.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Out 18, 2010 12:13 am

Os dias seguintes foram passados em testes e inspecções médicas.
Cruzara-se duas vezes com o Pedro e quase não o reconhecera, primeiro por estar fardado e depois pela tristeza que se lhe adivinhava no rosto.
Perdeu a conta às vezes que teve de se despir pelos mais variados motivos, até que teve a certeza de que era de propósito para os obrigarem a estarem nus ao frio, o tempo que lhes apetecesse.
Mostraram-lhe placas com pintas coloridas. Umas com números, outras com figuras geométricas, e outras ainda sem nada em concreto. Ele foi dizendo o que via, com medo de errar as respostas.
Depois preencheu cadernos com várias folhas de perguntas, e com limite de tempo. Achou fácil, e completou quase todos os cadernos antes do tempo acabar.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Out 19, 2010 3:49 pm

Soube depois que se tinha tratado de Testes Psicotécnicos, e os resultados demoravam uns dias, que passaram sem nada para fazer, fechados no Quartel.
Uma tarde, do Centro dos Estudos Psicotécnicos do Exército chegaram os resultados dos testes.
Era um dos propostos para passar ao Curso de Sargentos Milicianos, mas também o avisaram de que poderia recusar, pois esta promoção implicava, de certeza, que lhe fosse atribuída a Especialidade de Atirador, o que provocaria a ida quase certa para o Ultramar.
Não teve grandes dúvidas, pois entre ser soldado atirador e furriel atirador, era preferível furriel, até porque devia ser muito triste passar tantos meses só a obedecer, sem mandar em ninguém.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Out 23, 2010 10:14 pm

O Esquadrão do Pedro ainda estava incompleto. Aguardava pelos promovidos do Contingente Geral. Quando soube que o Manuel era um deles, tirou o colchão da cama livre mais perto dele, para lhe marcar o lugar.
Por acaso ou não, o lugar era em cima, e Manuel ficou de tal modo entusiasmado que parecia ter recebido uma grande prenda.
- Estou a ver que gostas disto, e ainda vais para Chico!... - atirou-lhe Pedro para o provocar.
- Eu?...
- Sim tu! Já estou a ver o 1º Sargento Manuel, com uma grande barriga.
- Pois é, já viste o meu dedo...
Enquanto fazia conversa, Pedro pensava que o dedo era o menos, o pior era ele já ter atirador escrito na testa. Por instantes teve inveja dele... Pelo menos já não tinha de esperar, como ele, para saber...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Out 25, 2010 8:59 pm


A revista para a saída de fim de semana seria feita pelo Comandante de Esquadrão que ainda não conheciam.
Estavam formados na Parada, enquadrados pelos Instrutores, que os tinham alinhado e repetiam de minuto a minuto:
- O pé direito não sai do lugar...
A espera parecia não ter fim.
- Pedro?... - sussurrou.
- Hem?...
- Espero que este seja melhor que o maricas que tinha lá no Contingente Geral.
- Caga nisso...
- Caluda! - avisou o Instrutor.
Finalmente o Comandante apareceu. O Esquadrão ficou em sentido, até ser dada a ordem para passar à posição de descansar.
- Pedro?
- Já vi! Estamos bem lixados com este gajo...
Afinal, todos já conheciam o Comandante de Esquadrão, sem o saber. Não fora por acaso que aquele Tenente os andava a rondar desde o inicio, chegando mesmo, por vezes, a dar-lhes conselhos.
- Sou o vosso Comandante de Esquadrão! - Começou, dando uns passos em frente a esfregar as mãos, enquanto tentava abranger todos os rostos.
- O Cabrão olha por baixo! - sussurrou alguém na última fila.
- Já vos disse que quando entram aquele portão - e apontava a Porta de Armas - deixam tudo lá fora. Aqui vão limitar-se a cumprir ordens, e os que não as cumprirem podem contar com a respectiva recompensa.
Não deixava de esfregar as mãos. Sorrindo, foi-se aproximando do Psicólogo - um recruta alto, que frequentava em Itália um curso de Psicologia, e tinha vindo a Portugal para cumprir o serviço militar.
Os contactos anteriores não prometiam nada de bom, pois naqueles dias, o Psicólogo tinha sido um alvo privilegiado das piadas do agora comandante. Todos tinham assistido a troca de palavras entre os dois, e adivinhava-se o ajuste de contas.
- Então Sr.Psicólogo?... É então você que diz que o corte dos fins de semana é anti-qualquer coisa?...
- Sim, posso...
- Não pode nada! - interrompeu. - Não venham cá com tretas para tentar sabotar o sistema! Compreende?... Compreendem todos?...
Passou a vista por todo o Esquadrão e repetiu :
- Compreendem bem?... Podem ter muita razão, mas não quero saber disso para nada! Só têm que obedecer e bico calado!
Voltou a aproximar-se do Psicólogo, enquanto olhava cuidadosamente para o chão, até encontrar uma beata.
- Aqui está um Fim de Semana... - apontava a beata. - Quem atirou esta beata para o chão ganhou um Fim de Semana por não ter sido apanhado. O Sr. Psicólogo fuma?
- Fumo sim, meu Tenente!...
- Então pode ter sido você o porcalhão, não é verdade?
- ...
- Apanhe lá isso antes que o caso se agrave!...
- Não tenho ninguém para visitar no Fim de Semana, meu Tenente. Os meus pais estão em Itália - respondeu sem dar mostras de pensar cumprir a ordem.
- Ai sim?... - olhou muito sério para o restante esquadrão. - Mas os outros têm, meu filho! Se não apanhas já essa beata, ficam cá todos este Fim de Semana, porque o que estás a dizer é que a beata é dos outros...
Não era preciso ter estudado psicologia em Itália para perceber que estava bem arranjado se não apanhasse a beata. Ninguém gostaria de ter à perna um esquadrão inteiro de castigo, que não tinha ido a casa por culpa dele...
E lá apanhou a beata...
- Muito bem! Vais ver que ainda consegues ir de Fim de Semana!
O Comandante encaminhou-se então para o 1º Pelotão, mandando preparar para a revista das armas.
Do seu lugar, sentindo o pé dorido devido à imobilidade, Manuel dava disfarçadamente a última inspeção à arma.
Existia um ponto na arma, o chamado “cu de galinha”, na extremidade interior do cano, junto à culatra, que era quase impossível de limpar corretamente. A ponta do dedo mendinho conseguia lá chegar, mas com grande esforço.
Foi esse o local escolhido pelo Comandante para avaliar a limpeza da arma. Mas o medo que invadiu o esquadrão passou a puro terror, quando o viram calçar uma luva branca, e a enfiar os dedos no “cu de galinha” e rodar os dedos para arrastar a sujidade.
Quando sujou a ponta de três dedos, parou.
- Isto está uma merda. Durante a próxima semana não há dispensas de recolher para ninguém.
Depois da ordem de sentido, voltaram à direita e destroçaram finalmente, batendo com o pé esquerdo com toda a força...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Out 27, 2010 9:09 pm

O Comandante de Esquadrão passava grande parte do dia a passear pela Parada com um blusão de cabedal e botas de montar a brilhar onde batia com um pingalim que nunca abandonava.
Constava que já podia ser General se não tivesse morto na Guiné, a golpes de baioneta, um ordenança negro que ele tinha apanhado em flagrante com a mulher.
As ambições do Comandante eram de tal modo desmedidas, que acabava por não ter qualquer ambição…
Não valia a pena ser Presidente da República num país tão pequeno…
Mesmo se fosse Americano, ainda faltava a maior parte do Mundo…
Nem mesmo ser Deus lhe interessava, não só porque existia mais do que um, mas porque milhões de pessoas não queriam saber de Deus algum.
Num contexto Universal, que importância tinha ser Deus só na Terra?...
O que ele gostaria mesmo era de poder matar mais uma vez o ordenança que o tinha enganado com a mulher…
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