A LIBERDADE É AMORAL

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 O PUMA E A MANDIOCA...

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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Mar 26, 2010 9:38 pm

O Testas, com 17 anos de sofrimento, magro e de modos correctos, parecia mesmo um rapazinho educado e respeitador.
Seguia alguns metros à frente do grupo principal, e passava sorrateiramente com a mão pelas ancas e pelos peitos das senhoras, que ao vê-lo tão pacato ficavam indecisas perante o acto.
O riso dos restantes era então elucidativo, mas quando iniciavam o ralhete, o Testas já ia tão longe e indiferente que ninguém conseguia identificar o visado.
Nos Restauradores, frente à Napolitana, parou a olhar para o ar, sendo imitado pouco a pouco pelos restantes do grupo.
Em breve vários transeuntes paravam a olhar também, só desistindo quando se apercebiam da marosca.
Foi bem divertido, excepto para o Testas. Quando se lembrou de apregoar “Pomada para o pescoço, quem quer?”, levou um tabefe no nariz dum velhote sem sentido de humor.
Mesmo assim foi uma tarde bem passada.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Mar 27, 2010 11:50 pm

O pai do Testas considerava fascistas a maior parte das Instituições Nacionais.
A Pide tinha a família debaixo de olho, mas o Testas só queria ser bom aluno e aprender o mais possível .
A Caderneta Escolar era para ele uma Bíblia e, enquanto a imaginação dos colegas vagueava nas tácticas a usar nos jogos de futebol que se realizavam durante os intervalos, o Testas estudava.
Era um dos “marrões” do Liceu, sempre a tomar apontamentos. Sabia as respostas com as vírgulas e os pontos finais, conforme vinham no livro.
Nas aulas estava sempre muito atento com a lição na ponta da língua.
Acreditava em tudo que os professores diziam...
O Matacão dizia-lhe para ele aprender tudo bem que depois pedia ao pai para lhe dar emprego...
Constava que o Pai do Matacão era da Pide...
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Mar 29, 2010 3:38 pm

Depois de passar-lhe com o pano ligeiramente húmido, esfregou-a com o feltro até ficar a brilhar.
Verificou os travões, deu uma revisão geral, e ficou contente com o aspecto.
Baixou a viseira do capacete, deu ao pedal e nada. Outra vez, e nada.
- Estou lixado! - consultou o relógio.
Estava prestes a iniciar-se a última prova do campeonato de moto-cross organizado pela escola.
Detectou a vela molhada. Após a troca, pegou logo à primeira.
Quando chegou ao Monsanto, deixou a estrada e foi a corta mato para aquecer. As pistas para cavaleiros eram os percursos utilizados nas provas.
Chegou mesmo na hora, mas ficou com muitos à sua frente.
A partida foi repetida duas vezes por alegadas irregularidades, mas, à terceira, como só houve 3 ou 4 reclamações, foi a valer.
Aproveitou a confusão para ganhar lugares, e ficou tão entusiasmado que tentou ultrapassar mais um na curva. Ia mesmo conseguir, quando a roda dianteira resvalou numa pedra. Para se equilibrar não continuou a curvar e seguiu em frente. Eram só arbustos, mas ficou com vários arranhões.
- O Pedro já bateu com os cornos numa árvore!
Ainda combalido reconheceu a voz do Matacão a relatar a prova alegremente.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Mar 30, 2010 10:38 pm

- Olá!…
Não precisou de olhar para saber que era a Luísa. Eram cada vez mais frequentes os encontros entre eles. Pedro ainda não tinha tido coragem para acabar a relação com a Helena, e temia ser descoberto a todo o momento.
- Por aqui ?!…
As dores da queda quase desaparecerem como por encanto. Talvez por continuar tonto, conseguiu perguntar o que o atormentava havia muito tempo.
- Quantos anos tens, Luísa?…- e sem a deixar responder atalhou: - Não interessa!… És mais velha. Tens a tua vida. Que queres de mim?!…
-…
- Não acredito que seja só para teres boleia de moto!
- É uma oferta? - perguntou Luísa sorrindo.
- E o teu carro?…
- Não vim de carro. Acho que tu não gostas…
- O que me interessa isso?!…- Na realidade interessava-se.
- Dás-me ou não boleia?
- Se precisas mesmo…
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qui Abr 01, 2010 9:03 pm

O corpo estava dorido da queda, e parecia que o tempo fazia aumentar as dores. Acabaram por ir dar uma volta no carro da Luísa.
- Onde vamos?…
- Tanto faz…
Queria continuar a demonstrar indiferença, não tornar-se ridículo.
- Diz lá…- insistia Luísa.
- Com este calor…para um sítio fresco.
- Praia?…Parque?…
- Como queiras…
Seguiram para a marginal, sem trocar palavra. O vento e a musica atenuava o silêncio.
Pararam no Motel de Oeiras.
- Está apinhado…
- Isso quer dizer que queres estar só comigo?… - e sorria .
Pedro não sabia que responder, e limitou-se a encolher os ombros.
- Estou intrigada, sabes?…Não me voltaste a perguntar o que é que eu quero de ti!...
- Ainda estou a tempo!
- Gostava que me conhecesses melhor, Pedro…
- Talvez fosse pior…
- Talvez não…
- Como queiras…- olhou em redor para que ela não se apercebesse da sua confusão.
Estavam estacionados junto ao gradeamento que dava para o mar.
- Gostas?…
Enquanto esperava pela resposta de Pedro, acariciou-o levemente no rosto.
- Sei lá!… Tornaram tão vulgar o Mar…
-…
- É quase obrigatório ter de ficar romântico perante o Mar… Compreendes?… - olhou-a e voltou a olhar em frente.
- Queres ser inédito?…- perguntou Luísa.
- Não é bem isso…
Realmente era, mas temia estar a ser também vulgar.
- Sabes…- decidiu-se por fim Pedro. - Parece que tudo já está dito e feito, o que nos leva a concluir não ser possível criar ou sentir algo de novo…
- Mesmo o amor?…- e voltou a acariciá-lo com maior insistência.
- Amor?!…
Ficaram em silêncio. De fora chegava o murmurar das ondas, misturado com a algazarra da criançada em animada brincadeira.
- Vamos?…- apontou para a saída, sem lhe responder.
Percorreram a Marginal em silêncio. Viraram para o Monsanto e encostaram na berma à sombra dos eucaliptos.
- Sabes, arrepia-me dizer a alguém “amo-te”. É uma palavra tão vulgar que me custa ser apenas mais um a dizer o mesmo…
Luísa pareceu surpreendida por instantes, mas acabou por sorrir.
- Gostava de ser eu a inventar o amor…
Ela desligara o motor, e o silêncio era apenas interrompido ao longe, por algum carro mais barulhento na subida da Duarte Pacheco.
- Pedro, podes crer que compreendo…- enlaçou-lhe o braço enquanto lhe acariciava a face meigamente.
- Luísa…- interrompeu o que ia a dizer quando se apercebeu do ruído de ramos a quebrar.
Empoleirado num ramo, um mirone tentava atabalhoadamente passar despercebido.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Abr 11, 2010 12:17 am

Morava numa rua normal, num bairro da periferia de Lisboa, sem passeios nem rede de esgotos. Era uma rua longa e com muitas casas abarracadas que davam para um denso matagal que servia de refúgio a marginais e prostitutas durante a noite....
Era um rapaz comum como muitos outros da periferia, que trabalhavam durante o dia e estudavam à noite.
Morava com os pais e tinha dois irmãos. Com 18 anos estava no 5º ano e não tinha vícios nem costumava sair com os amigos para farras ao fim de semana.
Era tímido e pacato. Contribuia para as despesas da casa e era considerado um rapaz responsável e ajuizado.
Não tinha namorada mas nos fins de semana ia ao cinema ou a um jogo de futebol, sempre sozinho.
Os pais notavam que ele era reservado e passava tempo demais na privacidade do quarto que não queria dividir com os irmãos, e onde ninguém podia entrar.
No quarto sempre fechado, guardava no roupeiro, escondido nas roupas, um arquivo que actualizava todas as noites.
Por ordem alfabética, tinha as fichas de todas as mulheres do bairro com as mais diversas informações que considerava importantes.
A idade e a situação cívil encabeçavam os registos. Depois tinha anotado o local de trabalho, horários de saída e regresso a casa, etc…
Ainda não sabia bem o que queria fazer com aquelas mulheres. Esperava por um sonho ou um acontecimento especial que lhe indicassem um caminho.
Entretanto, começou a passar os fins de semana a percorrer a mata do Monsanto, a espreitar os casalinhos que namoravam…
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Abr 11, 2010 7:11 pm

III - Manuel

Tinha sido um dia divertido...
Manuel e o primo, espreitavam pelo buraco do portão para a pedra que tinham embrulhado em papel de jornal, mesmo em frente da porta do Toninho, que só pensava em futebol...
Era o filho da dona da mercearia, onde o tio gostava muito de mandar o primo ir comprar dez tostões de electricidade em pó...
O Toninho adorava jogar à bola, e nunca perdia a oportunidade para praticar em tudo que encontrava no chão, enquanto corria de casa para a mercearia.
Manuel e o primo esperavam que o Toninho, ao sair de casa, não conseguisse resistir àquela bola de jornal mesmo a jeito...
Começava a escurecer, e o dia teria sido ainda mais divertido se não tivesse acontecido aquele acidente com o tio.
Tinham observado tudo, instalados na figueira da encosta, enquanto comiam os figos mais maduros sem deixar de espreitar o dono que teimava em preferir que os figos caíssem para o chão, a deixar alguém colhê-los...
Por entre as folhas, bem escondidos, Manuel tinha visto muito bem o tio levar com uma roda pedaleira de bicicleta na cara.
O ladrão, antes de fugir, tinha-lhe deixado bem marcados na orelha os bicos da roda.
- Já viste quem lá vem ?... - o primo parecia assustado.
Manuel espreitou e reparou que a leiteira com a bilha na cabeça iniciava a distribuição de leite aos clientes da rua...
A bola de jornal estava mesmo irresistível...
A leiteira espalha-se ao comprido, com a bilha a rebolar no empedrado e o leite a sair às golfadas.
A rua fica num pandemónio em segundos, com os alucinantes gritos de dor da leiteira a sobressaírem na barafunda...
O Toninho tinha de ficar para outro dia...
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Abr 18, 2010 6:28 pm

A tarde estava no fim, o sol já se tinha escondido por detrás do horizonte, mas a noite ainda vinha longe.
O Manuel e a restante criançada brincavam em alegre e feliz algazarra.
O primo do Manuel já tinha sido chamado várias vezes pela mãe para ir tomar banho antes do jantar. E precisava mesmo…
Gostava tanto de andar na rua a brincar com a miudagem, que quando precisava de ir à casa de banho, com medo que a mãe depois não o deixasse voltar à rua, nunca ia.
Quando a vontade apertava mais, sentava-se no chão com as pernas cruzadas, e fazia caretas de esforço para evitar evacuar.
Nem sempre conseguia…
Pelo cheiro, todos tomavam conhecimento quando ele fracassava.
Era uma bela tarde de Verão com uma brisa quente a soprar muito ao de leve. O dia ia acabar com a prova de valentia…
O Russo, que era o campeão - 35 vezes a cabeça partida - traçou um grande círculo no chão onde todos se colocaram com duas pedras na mão…
Cada um devia atirar as duas pedras ao ar e continuar dentro do círculo até todos atirarem as deles. Quando uma pedra acertava em algum, terminava a prova de valentia, e eram todos valentes.
Felizmente que o medo de fazer cair a pedra na própria cabeça, provocava que quase todas as pedras fossem cair fora do círculo.
O primo do Manuel, que devido ao cheiro estava afastado do resto do grupo, por sorte ou azar, fez a pedra cair mesmo no alto da cabeça do Toninho.
Depois de um baque surdo, o Toninho deu um grito de dor e começou a cambalear. Ao princípio ficaram todos em silêncio, assustados pelo grito de dor.
Quando o viram cair, correram todos para o levantar. Um fio de sangue escorria pela cara e pingava no chão.
Manuel, aflito, correu a chamar a mãe do Toninho que estava a pesar feijão branco na mercearia.
O saco do feijão entornou quando ele não conseguiu parar a corrida a tempo.
- O Toninho desmaiou! - disse, sem ligar ao feijão espalhado pelo chão.
Quando regressou para junto do Toninho, o sangue fazia uma pequena poça. Manuel nunca na vida tinha visto tanto sangue assim!
- Chamem os bombeiros, rápido! - pedia a mãe do Toninho, assustada sem conter o pranto.
- É melhor chamar um médico! - dizia uma vizinha.
Era tal o alvoroço na rua que a polícia tinha aparecido pensando ser alguma desordem.
Toda a gente falava, o Toninho perdia sangue, e a mãe chorava…
Finalmente alguém ligou para o 115, e daí a minutos aparecia uma ambulância com pessoal médico, que lhe prestou os primeiros socorros e o transportou para o hospital.
Quando o colocaram na maca, o lençol junto à cabeça ficou vermelho de sangue.
Manuel nunca tinha visto tanto sangue na vida.
A brincadeira tinha acabado. O primo do Manuel foi levado pela orelha para dentro de casa. As mães aflitas agradeciam a Deus não ter sido com os filhos.
Manuel ficou até anoitecer sentado no passeio a falar sobre o Toninho.
- Viste bem o buraco na cabeça?… - perguntava o Russo.
- É capaz de morrer… - desabafou o Manuel
- Ele vai todos os Domingos à Missa. Deus vai tratar dele… - dizia convencido o Marcelino que era filho do sacristão.
- Do Toninho?… - exclamava o Russo. - Ele vai à missa mas é para apalpar o cu às miúdas na catequese…
- Eu acho que Deus vai tratar dele… - repetia o filho do sacristão.
- O gajo diz asneiras todo o dia. O padre na última confissão mandou-lhe rezar dez Avé-Marias… Dez…
No dia seguinte a mãe do Toninho contou que ele tinha feito um traumatismo craniano, mas já estava fora de perigo.
Manuel por precaução, deixou de dizer palavrões a partir desse dia.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Abr 25, 2010 11:28 am

O tio do Manuel era Carteiro e gostava de Espanholas - nomeadamente das Sevilhanas.
Para ser feliz só precisava de ter o dinheiro que os vizinhos diziam que ele tinha, ter as amantes de que a mulher o acusava, e a potência sexual que ele dizia ter.
Mas era um grande brincalhão...
Toda a rua gostava de ver passar a Matilde - empregada a dias - quando ela ia aos Correios do Aeroporto de Lisboa meter as cartas para o namorado que estava na tropa em Angola.
O tio do Manuel tinha-a convencido que as cartas por avião tinham de ser obrigatoriamente metidas no Aeroporto.
E quem sabia mais de cartas do que um Carteiro?...
O Assoa o Ranho - um velhote que passava a vida a tentar acertar com a bengala na miudagem - adorava o tio do Manuel.
O cartão de funcionário dos Correios, com uma faixa verde e vermelha na diagonal, era o grande sonho do Assoa o Ranho.
O tio do Manuel gostava de lho mostrar, chamando-lhe à atenção, que, de acordo com o que estava escrito no verso, o portador podia entrar em edifícios públicos, e mesmo usar arma de defesa pessoal...
O Assoa o Ranho não pensava em mais nada.
Num dia de inspiração, o tio do Manuel disse-lhe para tirar uma fotografia tipo passe, porque ia arranjar-lhe um cartão.
Nessa mesma noite, o Assoa o Ranho levou uma fotografia.
O tio do Manuel tinha muitas ideias, mas não era grande coisa em trabalhos manuais, pelo que teve de pedir ajuda ao filho e ao Manuel.
Cortada uma cartolina à medida, pintaram com guache verde e vermelho as faixas diagonais. Ficou lindo...
Mas faltava ainda o toque de mestre. Meteram a cartolina numa velha máquina de escrever Remington, e, no verso, registaram o que o tio ia ditando:
- O portador está autorizado a entrar onde muito bem desejar... Já está?... perguntava impaciente.
- Mais se declara que pode usar arma de fogo, inclusivamente um canhão.
- Um quê?... - perguntava o Manuel.
- Um canhão... Põe lá! - ordenava o tio
Depois de colada a fotografia, só faltava o selo branco. Uma moeda de dez escudos levou uma martelada de tal maneira que deixou uma marca que enganava mesmo os funcionários do Registo Civil.
- Está perfeito... - disse o tio.
Conforme o combinado, dois dias depois, o Assoa o Ranho estava à porta do tio do Manuel à espera que ele chegasse do trabalho com o cartão.
- Cuidado... Este cartão dá acesso a todo o lado. - avisava o tio.
- Obrigado! O País pode contar comigo. - repetia o Assoa o Ranho sem poder conter as lágrimas.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Abr 28, 2010 11:56 pm

A mãe, todas as semanas ajudava nas limpezas e na mudança das flores da Igreja Paroquial, que tinha paredes meias com as celas do Presídio Militar.
Manuel acompanhava sempre a mãe, aproveitando por vezes a oportunidade para tirar algumas moedas das caixas de esmolas da Igreja, ou aliviar os mealheiros com os donativos para as Missões, que os Catequistas conseguiam arrancar todos os Domingos aos miúdos que andavam na Catequese para fazer a primeira comunhão.
Era tão fácil que acabou por obrigar o Padre a falar na situação durante a homilia dominical...
Ficou com tanto medo que a mãe sonhasse que tinha sido ele, que nunca mais voltou a tocar em nada.
Passou então a andar pelo forro do tecto da Igreja, para onde se subia através de um alçapão mesmo por cima da cabeça da Nossa Senhora que estava por cima do altar...
Deitado nas vigas cheias de teias de aranhas, espreitava pelas frestas do tecto para dentro da Igreja sem ninguém o ver.
E as coisas que ele via...
Um dia quando brincava no adro da Igreja, viu uma cabeça entre as grades da prisão, que o observava.
Quando se deixou vencer pela curiosidade e se aproximou ficou sem pinga de sangue...
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Maio 01, 2010 3:51 pm

A vida daquele homem mudara quando ele tinha apenas oito anos de idade, devido à queda de uma garrafa com álcool para cima do fogão onde se preparava o almoço. O líquido derramado inflamou-se e, num instante, as chamas, quase invisíveis, devoravam-lhe o corpo.
Depois de tratamentos doloroso em hospitais, ficou com todo o corpo coberto de cicatrizes, mas o rosto era o que mais impressionava...
Passou o resto da infância e a adolescência a sofrer a crueldade dos colegas, mas acabou por se adaptar.
Mesmo durante o pino do Verão usava sempre camisas com mangas compridas, e um boné enterrado na cabeça.
Não tinha vida social nem amorosa.
Tinha um trabalho simples e solitário num armazém, sem contacto com outras pessoas.
Quis o acaso que um dia, uma vendedora da loja tivesse de ir com urgência ao armazém para levantar um artigo para um cliente importante e apressado.
Sentiu que era o destino...
Ela era uma morena de estatura média, com cabelos escuros compridos, e feia logo ao primeiro olhar.
Quando se olhava melhor, era mesmo feia...
Mas ela não ficou incomodada com as cicatrizes. Via um homem forte que a olhava como ninguém mais fazia...
Depois de alguns meses de namoro juntaram os trapos.
A pedido da mulher ele tinha tirado o boné e deixado o cabelo crescer. Era finalmente feliz e já nem se achava tão feio...
Quando a olhava de um certo ângulo até ela lhe parecia bonita...
Aquela noite estava tão quente que só a cerveja gelada parecia conseguir manter o corpo a funcionar.
O petisco no quintal com o vizinho avançou noite dentro, com cerveja bem gelada à descrição...
O cheiro da carne assada já se tinha esfumado quando ele acordou, com a boca seca e a cabeça a doer devido à dureza do tampo da mesa.
O céu estava repleto de estrelas...
Quando chegou ao quarto, a mulher estava na cama com o vizinho...
- Porquê, diz-me lá porquê ?...
- Ele diz que eu sou bonita... - respondeu-lhe ela sem dominar o choro.
- E tu acreditaste ?... - perguntou-lhe antes de perder a memória.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Maio 07, 2010 9:03 pm

Manuel acabou por lhe levar de vez em quando algum tabaco, que lhe entregava através das grades da janela.
Uma manhã encontrou-o com roupa limpa, acabado de tomar banho. Queria despedir-se..
O mundo tinha desabado sobre ele. No julgamento efectuado no dia anterior, tinham-lhe dito que matara a mulher e o vizinho a golpes de machado.
Uma fotografia que mostrava muito sangue fazia parte das provas...
O Juiz tinha ficado horrorizado com a frieza com que ele amarrou as vítimas e os golpeou à machadada sem piedade.
Ele não se lembrava de nada...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Maio 10, 2010 10:49 pm

Tinha chegado à conclusão de tinha de dar uma tareia ao Quim, quando ele fosse à mercearia.
As corridas de arco eram renhidas, e sempre que Manuel tinha de passar pela rua de cima, o Quim metia-se na frente.
- Esta é a minha rua! - dizia o palerma.
Manuel bem tentava acertar-lhe com a gancheta com que conduzia o arco, mas não lhe acertava e ainda por cima perdia o controlo do arco.
O Quim tinha o cabelo russo, era gordo e tinha-se mudado para a zona havia pouco tempo.
Na escola, quando Manuel falou no assunto, chegaram à conclusão de que todos tinham queixas do Quim.
Foi decidido agir rapidamente, antes que o gordo conseguisse a ajuda da turma dele - dos repetentes - mais velhos e numerosos.
Manuel e o primo ficaram incumbidos de espiar o Quim, para se encontrar a melhor maneira de o apanhar.
Os fundos do quintal do Manuel davam para a casa do Quim, e logo nessa tarde começou a observação. Instalado na pereira que ficava mesmo junto do muro montou o posto.
O cão passeava pelo quintal que dividia em paz com o gato. A mãe recolhia a roupa da corda. O gordo não aparecia...
De repente apareceu uma miúda linda, com cabelos castanhos e olhos negros. Como era bonita e alegre...
Finalmente o Quim apareceu. Ficaram a brincar com o cão, enquanto Manuel pensava como era possível o gordo ter uma irmã assim.
No dia seguinte, na escola, Manuel não sabia o que fazer. Uma tareia no gordo não o ia ajudar mesmo nada a chegar até à irmã do Quim, mas como é que ele iria sair daquela situação?...
Durante o dia falou o menos possível e fingia não ouvir quando algum falava no assunto.
Quando o primo lhe disse que já estava combinado aplicarem-lhe a tareia no dia seguinte à saída da escola, ficou sem palavras.
Jantou pouco e mal dormiu com tantos pesadelos. No dia seguinte, para faltar à escola queixou-se de tantas dores de cabeça que os pais só ficaram sossegados depois de chamarem o médico.
Na segunda-feira quando regressou à escola, soube que o Quim tinha saído com os colegas e não tinha levado a tal tareia.
Passou o resto do ano lectivo a fugir dos que queriam apanhar o gordo e nunca conseguiu conhecer a miúda...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Maio 14, 2010 10:01 pm

Andar pelo forro do tecto da Igreja era maravilhoso. A parte mais perigosa era subir para cima da cabeça da Nossa Senhora, de onde se alcançava o alçapão que dava para o sótão da sacristia.
Percorria as vigas de madeira cheias de teias de aranhas, e pelas frestas do tecto via todo o interior da Igreja sem ninguém sonhar que ele estava a ver e ouvir tudo.
E as coisas que ele ouvia...
A Igreja era antiga com marcas negras nas paredes. Depois do almoço, os anjos dos vitrais refletiam-se no chão, e Manuel tinha medo das imagens que pareciam vestidas de teias de aranha. Ao fim da tarde, as velas brilhavam no altar sombrio e os sinos tocavam para o terço. O coro das vozes invadia a Igreja.
O povo tinha uma devoção especial pelo Santo Expedito, cuja imagem ocupava um lugar de relevo, mesmo debaixo da abóbada mais bonita da Igreja. O tecto tinha pinturas bíblicas com molduras em talha dourada. No cimo, mesmo ao centro, e por cima do genuflexório onde as pessoas se ajoelhavam para pedir graças ao santo, havia um respirador que dava para o forro da Igreja.
Era o sítio preferido pelo Manuel...
Os sons chegavam a ele como se fossem amplificados pela grelha. Ouvia perfeitamente todos os sussuros e acabou por concluir que aquilo só podia ser malandrice de alguém interessado em ouvir as conversas dos crentes com os santos.
- ...este mundo é uma injustiça meu santinho, ninguém me deu nada no meu aniversário. - queixava-se ao santo a mulher do Joaquim Sacrista.
Manuel gostava muito de observar o sacristão a recolher as esmolas das caixas da Igreja.
- Desgraçados... - murmurava o Joaquim Sacrista quando as moedas eram poucas.
Depois do Padre numa homilia dominical ter falado do roubo de moedas das caixas, Manuel nunca mais tinha voltado a tocar em nada, mas não podia deixar de tremer sempre que via a reacção do sacristão quando as esmolas não eram ao gosto dele...
Nem queria pensar como era quando ele assaltava as caixas.
Depois de limpar as caixas, o Joaquim Sacrista metia sempre umas moedas para o bolso enquanto ia a caminho da sacristia, sem se esquecer de se curvar quando passava em frente do altar.
- ...dívidas não tenho graças a Deus, mas os preços da fruta e do pão são um roubo. Aquela mercearia... - continuava a mulher do sacristão, de mãos postas e olhos rasos de água. - ... sou tão doente e os meus filhos em vez de ajudar e cuidar da mãe, só me dão ralações. Meu santinho, pede a Deus por mim, porque o senhor não está a ser justo comigo, que rezo o terço todos os dias e vou sempre à missa aos Domingos e às Sextas Feiras...
O padre gostava muito de revistar os livros de orações que ficavam nos bancos. Quando encontrava algum papel escondido ou apontamentos nos missais, sentava-se no banco a estudar o que tinha encontrado, enquanto se tentava recordar de quem ocupava aquele lugar.
- ... meu santinho, olha para esta pobre criatura tão sofredora. Desde pequena só tenho tido sofrimento apesar de ser tão religiosa e ajudar todas as pessoas. A minha pensão é uma miséria que não dá para nada...
O que o padre parecia gostar mais, era de se esconder no confessionário para espreitar os casais que vinham receber a preparação para o casamento.
- ...quando partiu o braço ao cair da bicicleta, o hospital deixou-lhe o osso torto. Agora tem de fazer tratamentos. Os médicos são uns desavergonhados duns incompetentes que não querem saber dos pobres... - a mulher do sacristão, revoltada, levantava a voz. - Ai meu Santo Expedito olha pela Margarida, que só pensa em namoricos.
A Tia Zulmira entrava sempre pela porta do lado direito e saía pela outra. Dizia que os espíritos malignos não passavam da porta, mas ficavam à espera que as pessoas voltassem a sair para continuarem com elas.
Se um dia a Tia Zulmira saísse pela porta errada ia levar com espíritos que já estavam havia anos à espera que ela voltasse a sair.
Também só tocava na água benta quando entrava. Não queria levar à saída algum espírito que estivesse a tomar banho na água benta...
- ... ai meu santinho, como é possível que a irmã do Zé Lambreta tenha casado vestida de branco e com flor de laranjeira?... E a minha Margarida sem sorte nenhuma com os rapazes...
Manuel via tanta coisa lá de cima, que nem ligava muito à mania que a Tia Zulmira tinha de levar as folhas secas que caíam das flores do altar.
Pior era o Joaquim Sacrista que raspava a cera derretida das velas e levava tudo para casa. Constava que voltava a fazer velas para vender...
- ... só pedia que ela arranjasse um homem para a sustentar porque eu e o pai, não vamos durar para sempre.
Manuel já sabia que quando ela se levantava no fim da oração era a melhor parte.
- Ai os meus joelhinhos. Meu santinho, estes bancos são duros como cornos. Olha como tenho as minhas pernas inchadas... Tanto dinheiro que os padres recebem e nem almofadas para as pessoas idosas se ajoelharem...
Depois seguia para a sacristia para cumprimentar o padre.
Manuel já não sabia quantas vezes tinha apanhado o Joaquim Sacrista a beber o vinho da Eucaristia. O pior é que ele não se ficava só pelo vinho da missa, e acabou por apanhar uma cirrose que o atirou uns meses para o hospital.
O sacristão que o veio substituir era um bocado esquisito...
O Zé Lambreta era o que lhe reprovava mais o comportamento, demasiado delicado daquele rapaz. Achava-o delicado em excesso, e com uns modos efeminados.
A verdade é que era muito popular entre a rapaziada, e principalmente com os rapazes que cantavam no coro.
Na verdade era um bom sacristão que ajudava muito o padre nos serviços da igreja, e tinha tudo num brinquinho. A sacristia estava sempre limpa - Manuel nunca o apanhou a beber o vinho da missa - e as imagens dos santos eram limpas todas as semanas.
O cálice e a patena, assim como todas as peças usadas nas cerimónias estavam sempre a brilhar.
Varria a igreja todos os dias, encerava o chão e os bancos de madeira e depois da missa de Domingo ia para o Salão Paroquial distribuir roupas e alimentos para as pessoas mais necessitadas.
O novo sacristão era o desespero das beatas a quem não tinham nada para criticar, e que ainda por cima as tratava com muita educação.
Um dia Manuel compreendeu o que queria dizer o ditado popular que “No melhor pano cai a nódoa”
Deitado numa viga de madeira, viu pelas frestas do tecto o sacristão a beijar apaixonadamente um rapazinho que fazia parte do coro.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Maio 16, 2010 8:27 pm

Manuel era quem se esforçava mais em todos o jogos. Ambicionava que algum responsável de um clube importante gostasse dele, e chegava mesmo a pensar no Benfica aquando de uma jogada mais bonita.
O campo estava cheio, mas não vislumbrava possíveis caça talentos nos barrigudos expectadores, que viviam acaloradamente o jogo entre uma sandes de couratos assados e um copo de vinho branco velho.
Dançava com a bola à sua frente, sem saber o que fazer, quando o adversário entrou a matar e o deixou estendido na terra.
- Não é nada!…- asseverou o árbitro, indicando que se levantasse.
- Sr. árbitro, eu é que sinto!… Esta a ver?… - apontava para a meia rota na canela.
- Vamos embora! - confirmava o árbitro.
Concluiu que não levava nada e lá foi para o seu lugar na defesa. Era pena não estar no mesmo lado do gajo que lhe tinha aplicado a sarrafada, mas ficou com ele debaixo de olho.
- Manuel, o gajo deu-te bem…- troçou um assistente.
- Não perde pela demora…- sussurrou entre dentes.
E não perdeu.
Até era uma grande jogada. Não tirou os olhos de cima dele desde o início. Tinha recebido a bola no peito, amorteceu-a e dominou-a com o pé direito. Mudou-a de pé e fintou o primeiro. Veio outro lançado, mas quando este ia a varrer, puxou a bola com a sola da bota e o defesa foi em frente até cair. Depois já em corrida perante outro defesa, atirou a bola pela esquerda , passou-o pela direita, e foi apanhá-la mais á frente, bem dominada.
Porém, ia ter azar. O Manuel esperava por ele para acerto de contas, e sentia-se como o Coluna, o grande jogador do Benfica que ganhara a fama de mestre da sarrafada sem ninguém ver. Só estava indeciso sobre a maneira como lhe ia dar.
Mas deu-lhe, e a grande jogada morreu entre os gritos de dor do adversário, e os aplausos dos adeptos da casa.
- É assim mesmo, se passa a bola não passa o homem. - apoiavam do balcão do bufete.
Como o árbitro lhe mostrou o cartão amarelo e o avisou que à próxima ia logo para a rua, ficou o resto do jogo sem se meter em molhadas onde estivesse o outro.
Fora das linhas o espetáculo também era animado. Os expectadores chamavam nomes ao árbitro e aos fiscais de linha, gritavam tácticas para dentro do campo e apelidavam de chulo o treinador que recebia bem e não percebia nada de futebol.
Com o entusiasmo, uma pedrada acertou no fiscal de linha que já tinha marcado vários fora de jogo à equipa da casa.
Não se descobriu quem lançara a pedra e o jogo continuou, mas a partir daí os casos mais duvidosos eram assinalados pelo fiscal de linha a favor dos da casa.
- Gatuno!…Gatuno!…- gritava a assistência em coro e bem afinada, atestando grande prática.
O jogo foi decorrendo com uma ou outra discussão amena. A equipa da casa estava a ganhar, e chegava-se mesmo a sorrir para os adeptos adversários.
Quando o árbitro apitou para o final, os jogadores correram para tomar banho antes de esgotar o depósito. Os da casa foram mais despachados. Os visitantes já precavidos, tomavam duche dentro dum alguidar de plástico, cuja água voltava a ir para o depósito as vezes necessárias até todos conseguirem tirar o sabão.
Manuel recebia os aplausos dos companheiros enquanto bebiam a cerveja que o clube oferecia quando ganhavam. Depois dividiram o dinheiro que os expectadores tinham deixado numa taça que era posta em cima de uma mesa com a bandeira do clube, à entrado do campo, e com um letreiro que dizia: “Ajuda o Clube e os rapazes da nossa equipa”
Metade da receita era para o Clube, e destinava-se a contribuir para a manutenção do equipamento e despesas com deslocações.
Depois dos arredondamentos, deu 8$50 a cada um.
Gastaram parte em sandes para recuperar forças e despediram-se até Quarta à tarde para treinar e combinar tácticas.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Maio 21, 2010 9:07 pm

A partir dos sete anos de idade era obrigatório ir à Missa todos os Domingos. Era pecado e motivo de falatório na aldeia qualquer falta sem motivo grave.
Manuel acreditava em Deus e tentava ser bom, mas havia já muito tempo que perdera o interesse nas práticas do padre, e mesmo na celebração.
Não tinha nada contra os padres em geral, mas não gostava de ver o pároco fugir para não dar a mão a beijar a pobres, ciganos e negros.
Duvidava mesmo que Deus gostasse duma cerimónia tão insípida e automatizada. Já sabia de cor os evangelhos repetidos ano após ano e todas as maneiras de ir parar ao Inferno…
Nada diferenciava este Domingo dos anteriores. A assistência, como sempre, limitava-se a cantar mais ou menos ao mesmo tempo, e a responder em coro de vez em quando.
Sabiam a música mas desconheciam o que repetiam havia anos…
A Igreja estava cheia, mas continuava a entrar povo.
Os quadros a óleo da via sacra conseguiam reter-lhe alguma atenção, e já conhecia todas as personagens, assim como os estragos nas telas devidos à falta de conservação.
Um buraco no peito de Jesus, precisamente no lugar da chaga no coração, no quadro que retratava a recolha do corpo da cruz, era o estrago que mais o confundia. Não podia compreender porque é que alguém tinha feito um buraco na tela para realçar aquele golpe.
Os mais atrasados continuavam a chegar…
Uns, acomodavam-se junto da porta, silenciosamente. Outros, atravessavam calmamente todo o átrio, pavoneando-se enquanto lançavam sorrisos aos conhecidos, indo finalmente sentar-se nos lugares que tinham os seus nomes gravados numas chapinhas cromadas, cravadas nos bancos.
A Tia Zulmira, às avessas com o reumático, pensando que o dono do banco já não vinha, ocupara um lugar reservado, mas apressou-se a levantar e a pedir desculpa ao senhor e aos meninos, que nem a olharam.
Manuel deu por si a pensar se os lugares no Céu já estariam também marcados, e ele e outros ficariam eternamente em pé.
Recordou-se então da parábola do pobre Samaritano que rezava ao fundo do Templo, e do rico Fariseu junto do altar.
Acreditava que depois seria diferente, e a frustração que o invadia por não ter o seu nome numa chapa cromada, era ligeiramente atenuada quando repetia a si mesmo que “os últimos serão os primeiros”…
Chegara à parte do ofertório, e Manuel esperava que a bandeja viesse até ele para calcular quanto tinham dado hoje os “Fariseus”. Estes, miravam cautelosamente o que os vizinhos davam, para não passarem pela vergonha de darem menos que os outros.
Acabou por não poder ver a bandeja. O Joaquim Sacrista, que fazia o peditório, tinha avaliado de um golpe de vista os crentes situados no fundo da Igreja, e decidira que não valia a pena passar para além dos bancos. Evitava assim os olhares de cobiça à bandeja repleta, e nem se perdia muito…
Quando voltou a si já decorria a consagração, e ficou triste por não ter estado com mais atenção. Era a única parte que aproveitava da Missa, na qual pedia fé e protecção a Deus. Talvez por estarem todos calados…
Mal o padre deu a benção final, os crentes benzeram-se à pressa, e como num contra-relógio, procuraram sair rapidamente como se a Igreja fosse ruir. Enquanto avançam a custo na fila que se forma, trocam cumprimentos e beijinhos, esquecendo que ainda estão na Igreja. Apertam, empurram, e quando atingem finalmente a porta, ralham com os que ficam calmamente a falar impedindo a saída.
Enquanto os observava, Manuel perguntava a si mesmo onde estava a veemência religiosa demonstrada por aquela gente durante a celebração.
Quando o adro da Igreja está à pinha, o pároco vem finalmente cumprimentar alguns paroquianos mais importantes, ou repreender aqueles que faltaram a alguma missa, lembrando-lhes que trabalhar ao Domingo é pecado.
Encostados ao muro do cemitério, em frente do adro, os católicos gazeteiros assistem à saída com o fato domingueiro.
Para Manuel não há beija-mão! Os donos das chapinhas cromadas tapam a visão do padre e monopolizam as atenções, o que lhe permite atravessar todo o adro e descobrir finalmente a Lurdes, que lhe acena por entre as cabeças. Logo depois descortina a mãe dela logo ao pé, e dá por si a pensar que se as mães são o retrato futuro das filhas, ele não está muito bem servido.
No íntimo, sabe que Lurdes não é o que ambiciona, mas não sabe como fugir ao destino, ou a maneira de o mudar.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Maio 23, 2010 8:37 pm

O Joaquim Sacrista era o sacristão da Paróquia e passava a vida a cismar nas confissões de hora e meia que o Padre fazia na sacristia.
Na verdade, algumas das meninas que se vinham confessar semanalmente, bem precisavam da confissão, devido àquelas saias que só serviam para tapar o umbigo de tão curtas...
O pedido do Padre para que ele não entrasse na sacristia - onde estava o confessionário, que dava para a arrecadação - durante as confissões, levantava muitas suspeitas.
Se o Padre pecava, ele também tinha direito...

O Manuel fora o seu primeiro e único namorado. Todo o povoado a tinha como séria e trabalhadora. Tanto trabalhava no campo como na costura, o que a tornava uma boa ajuda para um homem.
Namorava aos Domingos depois da missa. Gostava muito dele e ainda recordava como lhe custara quando ele acabou a 4ª classe e foi estudar para a cidade.
Ficou contente quando ele teve de regressar após 2 anos, e nem podia compreender que isso o fizesse ficar triste.
- Mas, Manuel, não estás melhor aqui com os teus pais? - gostaria de dizer com ela, mas tinha vergonha.
- ...
- Era uma grande despesa, os teus pais não podiam mais, deves compreender...
- Qual compreender qual quê! Era melhor não ter sequer aprendido a ler! - desabafou finalmente.
- Isso também não...
- Fazes uma pequena ideia do que não sabes?...Aposto que não!
Viu que a entristecia e quis dizer-lhe a frase que tinha guardada para um momento daqueles e que, a seu ver, explicava completamente o que sentia. Já esquecera o autor, mas se ela perguntasse podia inventar um qualquer.
- Quanto mais sabemos, mais queremos saber...
Não a viu reagir e duvidou que a frase original fosse mesmo assim, mas recapitulou e concluiu que, se não era assim, a ideia era aquela.
- Não compreendes?...
- Mais ou menos...
- Deixa lá...
Depois, pouco a pouco, Manuel fora esquecendo essas ideias e deixara mesmo de falar em estudar. Ela esforçava-se por o fazer feliz...
Também namoravam por vezes ao entardecer quando ele regressava do campo, mas vinha normalmente tão cansado, que mesmo ela achava que não era propriamente namoro ele ficar ali sentado, enquanto ela costurava ou bordava num banco ao pé, e a mãe os observava em silêncio. Mas para ela isso bastava por agora.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Maio 30, 2010 2:45 pm

A mãe da Lurdes não precisava de relógio despertador para acordar a tempo de ir tratar dos animais. O marido ficava na cama.
Felizmente a terra era fértil e sustentava bem toda a família. As crianças já tinham acordado e preparavam-se para ajudar a mãe na lavoura.
Naquela casa nunca faltavam legumes, cereais e frutas...
O marido acordava tarde, só regressando de madrugada, bêbado e irreconhecível.
A mãe de Lurdes tinha dificuldade em reconhecer o homem que a tinha levado ao altar, e agora, chegava a casa a cambalear e impotente para o amor.
Desesperada, procurou a Tia Zulmira para que ela afastasse do marido os espíritos maus que o dominavam...
Antes de adormecer, espalhou cânfora pelos cantos da casa e disse as palavras que ela lhe tinha ensinado.
Acordou com uma mão a deslizar sobre o corpo, que já estava desacostumado de carinho. Os afagos nos seios e os beijos nas costas despertaram-na totalmente.
Recordou o marido amoroso e sensual quando as pernas dele se juntaram às suas, e se sentiu possuída como não acontecia havia tanto tempo.
A Tia Zulmira fazia milagres...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qui Jun 03, 2010 4:59 pm

- Vamos ver quem paga os finos?...
De mão no bolso fazia chocalhar as moedas. Ajeitaram as cadeiras e prepararam a jogatina.
- Patas para cima da mesa! - e exemplificou com um murro que fez tremer os copos.
- Quantos jogam?...
Eram todos como sempre.
- Posso pedir eu primeiro?... - atirou o Zé Lambreta.
Acederam.
- Oito! Tu!
Se o gajo pedia oito era porque tinha uma ou duas, com mais duas quatro...
- Pediste oito não foi?...- perguntou para fazer tempo.
Os outros gajos levavam aí umas cinco...
- Nove! - olhou para a mão temendo ter deixado alguma moeda visível, mas ficou descansado porque não se via nada.
O outro pensou que era golpe, e fez as contas como se ele não tivesse moeda alguma na mão.
Foi o segundo a acertar e saiu de jogo. Recostou-se na cadeira, com ar feliz, pois seria outro a pagar a despesa toda. Foram saindo até restarem apenas dois.
- Sabes muito, rapaz... - murmurava um deles. - Mas para aprenderes, vais pagar que te lixas... - ameaçava com ar convicto.
De fora choviam palpites, e cada pedido era acompanhado de comentários nem sempre bem aceites pelos que estavam ainda em jogo.
- Está calado! Deixa-o lá pedir! - repetia um deles pela centésima vez.
As cabeças pouco habituadas a trabalhar com números ameaçavam gripar. Já misturavam os 4$00 da despesa com as 5 que o outro tinha pedido e demoravam a decisão. Tinham a mão vazia mas chegavam a ficar indecisos entre pedir 3 ou 4 moedas, quando o número máximo de moedas por cada jogador eram 3. E assim estiveram largos minutos, para gáudio dos mais experientes no jogo mas nem por isso mais espertos.
Finalmente um acabou por acertar.
Com relutância, o outro lá tirou o porta-moedas, deixando o dinheiro na mesa com uma sonora palmada.
- Até porque foi azar... - e repetia-se sem parar, na esperança que algum o confortasse concordando com ele.
Manuel constatou mais uma vez que alguém tem sempre de perder para existirem vencedores.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Jun 06, 2010 10:34 pm

O Zé Lambreta não gostava de viver naquela casa tão pobre. A porta do quintal com a rede rasgada não impedia as moscas de entrar para a cozinha.
A mãe, depois do almoço, sentava-se numa cadeira junto da mesa, a dormir, enquanto as moscas zuniam à volta de bocados de pão e dos pratos com restos de sopa em cima da mesa.
Dois degraus de pedra separavam a cozinha do quintal, onde a mãe estendia a roupa que esfregava e torcia na pia, com uma cara de esforço.
O melhor do quintal, cheio de couves e cebolas, era a figueira que dava uns figos tão saborosos que, mesmo quando arrebentavam com a boca, valia a pena comer.
O Zé Lambreta, gostava de se sentar no degrau da porta que dava para a rua, com o sol quente a dar-lhe no rosto. Quando não adormecia, ficava a admirar as motorizadas que iam passando.
Aos domingos, a mãe fazia cozido à Portuguesa e as tardes eram passadas em redor do rádio bem alto a dar o relato de futebol.
O vizinho da frente era mecânico. Começara com uma bicicleta mas tinha comprado depois uma mota, e o Zé Lambreta escolheu a profissão no momento em que o viu chegar com aquela maravilha...
Quando acabou a 4ª classe foi como aprendiz para a oficina. No primeiro dia de serviço, foi a um tanque de óleo e lambuzou as mãos e o fato macaco, para chegar em casa sujo e a mãe perceber que ele era mecânico.
Com o primeiro dinheiro que ganhou deu a entrada para uma máquina de lavar roupa para a mãe e comprou uma lâmpada que atraía e matava as moscas...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qui Jun 10, 2010 1:48 pm

O dia não lhe tinha corrido nada mal e sentia-se com ânimo para uma ida até ao Café para ver televisão.
A programação não puxava conversa e ficaram sem assunto muito antes de serem horas de deitar.
-E se fossemos até à velha da ponte?...- lembrou o Mocas.
O Manuel já tinha ouvido falar na mulher, mas nunca tinha querido aprofundar o assunto.
- Por 10$00 vale a pena, Manelinho…mas vê lá se ficas em baixo de forma e depois no Domingo não tens canetas e perdemos o jogo…
Receou mais piadas e decidiu acompanhá-los. A noite estava quente e o passeio parecia agradável.
O Mocas era o mais entusiasmado…


O Mocas dizia-se irresistível para todas as mulheres. Quando era a esposa ou a filha do melhor amigo ainda pensava duas vezes, mas as restantes eram todas dele.
Manuel bem o avisava de que o pai - baseado em exemplos - dizia que todos os grandes conquistadores acabavam por casar com mulheres feias que ainda por cima lhes metiam os cornos, mas o Mocas não queria saber…
Cada conquista reforçava a sua convicção de que era mesmo um grande engatatão. Não se cansava de repetir que devia era ter nascido em Lisboa, e não naquela parvoeira, rodeado de milho, feijão e hortas.
No entanto, sabia lidar com a gente simples do campo, com os trabalhadores rurais, e com as mulheres a quem penetrava no coração e descobria os segredos mais profundos.
Contrariamente ao que dizia o pai do Manuel, o Mocas acabou por casar com uma bonita e prendada moça que conseguia até ser tolerante com aquele temperamento de eterno conquistador.
Nas festas da aldeia ou nos bailes, deixava-o dançar com todas as mulheres e moças bonitas que houvesse até ele se cansar.
Um dia, quando regressavam em grupo de uma festa, o Mocas cometeu o erro da sua vida.
- Quando casamos até parece que perdemos a liberdade. - comentava para o Zé Lambreta. - Tenho saudades dos bailaricos até de madrugada, dos bares, das praias, das mulheres...
A partir desse dia a mulher ficou fria e distante.
Conforme ela se afastava, o Mocas ia recordando os bons momentos que tinha passado de cigarro ao canto da boca, nos bares do Cais do Sodré.
Como se arrependia do tempo que perdia a trabalhar…
Um Domingo foi para a praia do Meco com os amigos e voltou entusiasmado.
- São metros e metros de mulheres nuas !... - dizia ele ao Zé Lambreta.
A mulher falava com as vizinhas, com um ouvido no que eles diziam.
- Fala baixo… - avisava o Zé Lambreta.
- A minha mulher conhece-me bem. Sabe que um homem a sério tem de divertir-se com outras mulheres. - continuava o Mocas sem baixar a voz.
Enquanto se dirigiam para a velha da ponte, Manuel recordava o que o pai lhe tinha dito acerca dos grandes conquistadores…
O Mocas não tinha casado com uma mulher feia, mas toda a aldeia sabia do caso dela com o Zé Lambreta.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Jun 27, 2010 8:09 pm

Debaixo da ponte do comboio distinguia-se um vulto.
Depois de anunciar ruidosamente a chegada, fizeram fila na parte de cima da ponte, sentando-se na ponta dos barrotes que suportavam os carris.
- O Manel é o primeiro! Concordam?…
Todos concordaram. Sabiam que ele nunca lá tinha ido e adivinhavam as reacções do novato.
-Não tenhas medo, vá lá!…- troçavam.
-Medo? Eu?…
Para se fazer forte já tinha desapertado o cinto, motivando o aplauso dos compinchas.
- É assim mesmo, mostra lá como é…
Enquanto descia o declive foi desapertando as calças para reforçar a sua determinação.
Quando chegou debaixo da ponte e viu aquela mulher, percebeu que lhe chamavam velha com razão.
Não conseguiu disfarçar o embaraço perante a mão estendida pelos 10$00, que retirou amachucados do bolso e deu a tremer.
Depois, ficou paralisado, olhando para a velha que deitada de costas e saias arregaçadas, esperava indiferente de pernas abertas.
- Já nem falas?…- perguntava o Zé Lambreta entre gargalhadas. - Diz qualquer coisa!
- Sabes lá se o rapaz tem a boca ocupada ! - opinava outro.
E riam cada vez mais…
- Cada um come o que quer! - dizia o Mocas.
E mais risos, mais gargalhadas…
Finalmente, a velha, estranhando a demora atirou-lhe com brusquidão:
- Então?… Estou aqui a noite inteira?…
Depois olhou-o com mais atenção.
Estava pálido, e de calças nas mãos…aterrorizado.
- A senhora desculpe…- balbuciou sem saber o que dizer ou fazer.
- Senhora… - repetiu vagarosamente a velha com um ar irónico e simultaneamente espantada, a saborear a palavra.
Baixou as saias e bateu no chão a seu lado, num convite a Manuel.
- Vem sentar aqui um bocado.
As piadas continuavam a chover de cima da ponte…
- Então e nós Manel?…
Sentado, olhos na escuridão, sentia o peito bater como se fosse sair a qualquer momento.
- Já podes ir! - disse-lhe ela por fim.
Ao levantar-se, os olhares cruzaram-se, e Manuel viu-lhe os olhos brilhar…
Chorava, mas voltou a levantar as saias e gritou:
- Outro !
Depois, acenou para Manuel e sussurrou:
- Adeus rapaz!…
- Adeus…- conseguiu Manuel murmurar.
Quando chegou junto dos outros recebeu acanhado as excessivas manifestações e as palmadas nas costas.
- Já podes andar com os homens…
- É mesmo assim Manel, a malta cá da terra não quer maricas!
A noite antes quente, parecia-lhe agora fria, muito fria…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Jun 30, 2010 10:12 pm

Os cabelos da velha da ponte já tinham sido belos, muito diferentes daqueles, colados à cabeça, quase brancos e oleosos de tanto estar deitada.
Emanava um cheiro misto de suor, perfume barato e sujidade. Não tomava banho muitas vezes, nem tinha vontade de o fazer.
O hálito revelava álcool e soníferos, que tomava para esquecer, para não pensar em nada.
A sua alma gémea era como ela, um ser destinado à dor e ao sofrimento. Tinha sido impossível amar em paz e harmonia, condenados a agredirem-se mutuamente até se destruirem em nome do amor que sentiam um pelo outro.
Ainda não sabia se tinha sido só o ciume o culpado…
A maldita dúvida nunca lhes dera sossego, sempre a pairar, a transformar as carícias em contínuas humilhações.
Quantas vezes tinha ficado só, com os seios cobertos de saliva e morta de desejo, devido a uma palavra sem sentido.
Quando ele partia perdido, ela ali ficava, esperando…
Voltou sempre, até um dia…
Como gostava de o sentir gozar dentro dela, em orgasmos de prazer e lágrimas.
Ficava doente quando duvidava que era amada, sem se comover com o pranto e a dor que provocava.
Era impiedosa quando louca de ciumes ameaçava procurar outro, apesar da sua alma acorrentada sangrar.
Ele voltava sempre, até um dia…
O remorso e a angústia arrastou-a para a miséria extrema.
Por vezes sonhava que ele um dia voltaria…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Jul 04, 2010 3:08 pm

Nem o pai sabia dizer-lhe quem transportara o tronco para aquele canto da rua. Era um banco muito conhecido, e a parte superior estava polida por tantos fundilhos ter já gasto.
As árvores ao seu redor garantiam sombra todo o dia, e a vista abrangia toda a rua e ainda a praça principal.
Quando o calor apertava, aumentava a sua admiração pela pessoa que levara para ali aquele tronco, por ter considerado tantos pormenores…
Aguardava a camionete para a cidade onde iria apresentar-se para a inspecção militar.
A fila ia aumentando e as mães com crianças ao colo iam pacientemente trocando de braço.
Quando a camionete apareceu ao longe, chamaram os miúdos e pediram aos céus que existissem lugares.
Mas nunca havia os suficientes…
Era necessário esperar pelo desdobramento…
Manuel via a miudagem brincar, e pensou no Vitinho, o primo mais novo que estava sempre doente na cama.
A tia já não podia levá-lo ao médico à cidade, e ele lá ia andando uns dias melhor e outros pior…
Ainda se houvesse posto da Caixa na aldeia…
Mas como poderia viver ali um médico? Que sentiria quando, depois de uma boa refeição, quisesse tomar uma bica no café da aldeia?
Nem máquina de café tinham! Só de saco…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Jul 07, 2010 11:35 pm

Tinha acabado o tempo frio de Fevereiro, e o Vitinho brincava na rua com os miúdos da vizinhança.
Os pais bem o avisavam para não apanhar chuva, mas o jogo do pião, a cabra cega e o arrebenta, eram muito mais importantes.
Andavam com as fisgas à caça de passarinhos, que tinham a favor deles a pouca eficácia daquelas armas, quando o Vitinho se começou a sentir mal.
Tinha passado a manhã à chuva, a tentar apanhar pardais à mão. Estivera diversas vezes tão perto de conseguir o objectivo que pensava que era questão de tempo conseguir agarrar algum. Quando se convenceu que era impossível aproximar-se o último metro, já estava encharcado até aos ossos.
A mãe ficou admirada por ele voltar para casa tão cedo. Lanchou sem apetite, e estava um pouco quente e mortiço.
Até à hora do jantar, foi ficando cada vez mais fraco, com os olhos a arder e muito frio no corpo.
Uma mariposa escura e feia que gravitava à volta da lâmpada caiu de repente no chão da sala.
O Vitinho sentiu um arrepio por todo o corpo, e o coração bateu como louco. A mariposa atordoada tentava voar, mas apenas conseguia dar pequenos saltos, batendo no chão várias vezes. Ele seguia o movimento do insecto movimentando apenas os olhos, assustado e imóvel.
Quando a mãe queria enxotar as mariposas que entravam em casa, o pai dizia sempre que não valia a pena ligar aos bichos porque só viviam um dia. O Vitinho não sabia se era verdade, ou era uma desculpa do pai para não ter o trabalho de as matar.
O Vitinho parecia hipnotizado pelos movimentos desesperados do insecto, que cada vez se contorcia mais lentamente.
Ele gostava muito de animais, de falar e ser reconhecido pelos coelhos, pombos, gato e cachorro que andavam à solta pelo quintal.
Adormeceu alagado em suor pedindo a Deus para não deixar morrer o bichinho.
Quando acordou no dia seguinte estava na cama para onde o pai o tinha transportado. Sentia-se tonto, doía-lhe o corpo todo e a boca estava muito seca.
A mãe tinha varrido a casa e atirado para o lixo a mariposa morta.
Aquela constipação tinha desencadeado uma doença rara e incurável, que acabaria por lhe tolher os movimentos e torná-lo paralítico.
O Vitinho sofria muito, e passou a sofrer muito mais quando passou a viver numa cama do hospital.
A última vez que o Manuel o visitara, o Vitinho apenas conseguia mexer os olhos e os dedos da mão direita. Quando a doença se agravou e paralisou os órgãos internos, teve de ser ligado a um aparelho respiratório.
Os pais do Vitinho nunca souberam porque passava ele tanto tempo a olhar para as mariposas que passeavam pelas lâmpadas do tecto da enfermaria.
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