A LIBERDADE É AMORAL

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 O PUMA E A MANDIOCA...

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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Out 29, 2010 9:09 pm

A mulher do Comandante abriu os olhos, esticou os braços e as pernas, atirou o lençol de seda para o lado, e procurou os chinelos de quarto com pompons cor de rosa.
Quando se via ao espelho da casa de banho, reparou que as toalhas não tinham sido mudadas.
O Lourenço - ordenança preto do marido - não andava a controlar as empregadas como devia ser. Tinha que chamar-lhe à atenção.
O espelho reflectia uma mulher cansada logo ao acordar. Não podia aceitar que a juventude fosse tão curta. Com menos de quarenta anos sentia-se envelhecer. Que merda de vida...
Chamou o Lourenço para resolver logo o problema.
- Não mudaram as toalhas porquê?... E a banheira?... As empregadas são umas lesmas e tu não queres saber!
Vida estúpida. Nascer, ter filhos, lutar contra as rugas e por fim vir com o marido para uma terra de pretos e moscas.
E dizia o palerma do médico que as dores de cabeça que a afligiam podiam ser devido a viver em dissonância cognitiva...
- O quê?... - perguntara assustada.
- Possivelmente não gosta da vida que leva... - explicou o médico.
Aquele estúpido tinha andado tantos anos na Universidade para dizer o que qualquer pessoa via logo, sem receber um balúrdio pela consulta.
Quando reparou que só tinha vestido uma camisa de noite quase transparente, lembrou-se do Lourenço que continuava em silêncio à entrada do quarto.
- Olha lá, não tens mais nada para fazer?... - perguntou enquanto lhe apontava a porta para sair.
Lavou o rosto e aplicou os cremes lentamente. Os cabelos tinham perdido a pujança da juventude, mas continuavam ainda com o brilho natural.
- Minha senhora, o pequeno almoço está pronto. - avisava o Lourenço.
Gostava das torradas feitas na hora e o sumo de laranja mesmo acabado de sair.
Aquela povoação era pequena demais. Não havia nada para fazer, nem amigas de quem falar...
O cigarro depois do pequeno almoço era dos poucos prazeres que tinha.
O fumo do cigarro fazia-lhe lembrar o amor, que se esfumava no ar, levado pelo vento. Eram dois vícios sem remédio. O tabaco ao menos deixava ficar um cheiro extravagante na pele e na roupa, mas o amor não lhe ia deixar qualquer recordação.
O marido - Comandante da Zona Militar - dizia que ela não conversava, que não se abria com ele e só queria passar a vida fechada no quarto.
Ela nunca lhe explicou que não tinha sido habituada a muita conversa ou carinhos. O pai ganhava muito dinheiro e a mãe cuidava da casa. Tinha tudo o que queria mas os pais não tinham tempo para falar com ela. A restante família dizia que eles tinham uma vida maravilhosa.
Chamou o Lourenço e ele apareceu de imediato como se estivesse estado sempre à espera.
- Manda fazer para o almoço aquele prato de frango que o Comandante gosta! Para mim arranja um bife de vaca. Não quero porco...
Por vezes, perdia a paciência e a vontade de continuar a viver, mas só se lembrava do veneno para ratos e não queria acabar como aqueles bichos nojentos.
Depois do almoço, quando fazia uma pequena sesta, acordou com gemidos e vozes em surdina. Da janela, deparou com o filho da cozinheira em cima de uma negra que ela não conhecia.
- Lourenço! - gritou enquanto o procurava pela casa. - Não quero poucas vergonhas na minha casa. Vai ver o que se passa no jardim...
Como ela gostaria de sair daquela terra e ir conhecer países civilizados...
Mas o Comandante nunca abandonaria o seu posto.
A única coisa boa que tinha era poder contar com o Lourenço, sempre pronto e disponível...
Os dias foram passando e o Lourenço continuava sempre presente.
Nunca tinha tido ninguém para cuidar dela...
Um tarde, durante a sesta, chamou o Lourenço para a sua cama...
O Lourenço estava pronto e disponível...
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Out 31, 2010 2:20 pm

Nem se despediu do Manuel quando abriram o Portão para a saída de Fim de Semana, mas tinha boleia para Lisboa e não queria perder nem um minuto.
Quando saiu de casa, encontrou a Helena . A calça justa e a camisa bem aberta recordou-lhe que gostava sempre de a ver.
- Olha o General !...
A saudação pareceu-lhe carinhosa, e deu por si a pensar como era bom poder estar ali. A Helena fora a melhor amiga e namorada que tivera desde que se lembrava de existir, mas quando lhe confessara o romance com a Luísa, as relações tinham arrefecido.
- Há quanto tempo...
- Tens andado muito ocupado, não é ?...
- Aonde vais ?
- Depende do convite.
Apenas se lembrou que a Luísa estava à sua espera, quando a abraçou, na semi-escuridão da pequena pista de dança da discoteca.
Sentia-lhe os seios através do tecido.
Na segunda feira voltaria ao Quartel, à tarimba, à ordem unida, a limpar a espingarda, a aturar o sádico do tenente...
No sofá de canto ela aconchegou-se nos seus braços, e desapertou mais botões da camisa quando Pedro lhe afagou o seio.
- Pedro ?... - sussurrou entre breves beijos. - Gostas muito dela ?
- Que interessa isso agora ?
- Gostas, Pedro ? - insistiu
Levou o copo à boca, sem saber o que dizer. A culpa quebrava o encantamento. Desfez o abraço e evitou-lhe o olhar...
- Não sei... - disse por fim - Juro que não sei mesmo...
- Mas eu sei, Pedro. Sempre soube...
Recordou as brincadeiras de miúdos, as tardes na esplanada do parque,
tantos momentos...
Mas já não eram miúdos...
- Era tudo tão simples, Helena...
Com os pensamentos num turbilhão, afagava-lhe o rosto e beijava-a ternamente nos lábios, quando sentiu um objecto cair-lhe na cabeça e depois saltar para cima da mesa. Procurou às apalpadelas e encontrou uma azeitona verde e grande. Quando olhou em redor, no balcão do bar, o empregado fazia-lhe que não com o dedo.
Aquela era uma casa de respeito.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Nov 03, 2010 11:10 pm

- Pedro?
- Hem ?… - respondeu sem deixar de limpar a G-3.
- Não me apetece mesmo nada fazer a ordem unida…
- Tens aqui mais duzentos amigalhaços com a mesma ideia…mas como sabes, a tropa gosta é que tu faças o que não gostas - passou a escova pelo interior do cano, que teimava em continuar com impurezas nas estrias. - Tens aí óleo?
- Toma… - estes gajos são uns cabrões…
- Coitados dos cabrões…estes são piores. O sonho deles é conseguirem que tu mates os teus pais se te mandarem…
- Os meus pais ?…
- Não ligues. Vais ver que quando fores Sargento, também mandas fazer o que não gostas agora …
- …
- Porque é que pensas que te levantas às sete da manhã ?
- Para aproveitar o dia…
- Não acredito… É só para chatear…
- Eu gostei sempre de levantar-me cedo. Atira aí o óleo…
- Tem cuidado. Eles que não saibam, porque senão passas a ter o pequeno almoço na cama, e só podes levantar-te ao meio dia.
- Tás marado…
- Sim?.. Tu gostas de miúdas não gostas?…
- …
- Convence-os que és maricas, que o Comandante até mandava a mulher toda nua ir levar-te o pequeno almoço com uma maçã entre as mamas. Mas tinhas de lha tirar com os dentes…
- Pedro, tu acreditas no que dizes?…
- Queres mesmo saber?…
- Não, nem me digas nada! - e recomeçou a polir o cano com redobrado entusiasmo.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qui Nov 04, 2010 4:51 pm

A única justificação que Pedro encontrava para se fazer ordem unida depois do almoço, era para que ficasse bem assente quem mandava ali. O Sol estava tão quente que nem parecia por acaso, mas antes uma encomenda para castigar ainda mais o Pelotão, a marchar na Parada, com o esquerdo-direito a martelar a cabeça.
Mesmo a posição de descansar, com a arma na mão, com o sol em cheio, servia para fazer homens de barba rija.
- Não mexe aí atrás! - avisa o Instrutor que se encontrava estratégicamente na sombra de uma das poucas árvores existentes.
Quando algum desfalece de exaustão e cai, é ronha. Se não acaba por se levantar é um menino copo-de-leite.
Quando algum é arrastado para a sombra, todos o invejam enquanto pensam em desmaiar também…
- Pedro ?
- Hem ?…
- Parece que adivinhava que isto hoje ia ser a doer…
- Desmaia…
O calor estava insuportável. Pedro sentia o suor escorrer pelo rosto.
- Pedro ! - tornou a murmurar
- Diz !…
- Olha, se uma mãe dá à luz um filho para isto, não quero dar à luz uma mãe…
- Pois é…não deviam é ter inventado as mães…
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Nov 10, 2010 10:23 pm

A caserna estaria em completo silêncio, não se verificasse um ou outro ressonar mais vigoroso. Eram três da manhã, e os madrugadores que se entretinham a vazar copos de água junto aos ouvidos dos que dormiam na tentativa de os levar a urinar na cama, ainda estavam no seu melhor sono.
As vitimas dos que tinham entrado à meia noite, já tinham limpo a pasta de dentes das orelhas e do pescoço, e acabavam de adormecer, exaustos de tantos nomes chamarem aos anónimos brincalhões.
O toque a levantar do corneteiro, mesmo à porta da caserna evocava o apocalipse.
As cabeças estalavam e a confusão estabelecia-se.
- Dentro de dois minutos, formados na Parada - gritavam os Instrutores que tinham aparecido como que debaixo do chão.
Os incitamentos e a ameaças misturavam-se...
- O 1º Pelotão é aquela máquina! Os lesmas que fiquem... - encorajava o Mijas, Instrutor do 1º Pelotão, cujo lema de vida tinha por principio, que ao urinar, por muito que se sacudisse, a última gota caia sempre nas calças.
As camas estavam muito apertadas - o espaço entre elas era de cerca de 80 centímetros - e as caixas com os pertences ficavam debaixo, pelo que quando estas se puxavam e abriam, deixava de existir espaço para os pés.
Para dois homens ensonados, e ainda por cima com pressa, fardarem-se era quase uma missão impossível.
- Leva-se a espingarda?... - perguntava um.
- Sei lá! Eu levava mas era um pano encharcado em merda para atirar na tromba destes cabrões...
A apertar ainda os últimos botões enquanto iam correndo pelas escadas, foram formando pouco a pouco na Parada, aproveitando a confusão para um último aperto nos atacadores.
- Que é esta merda? - berrava o Instrutor, colocado na ponta da fila dianteira, a corrigir o alinhamento. - Isto está uma merda, vamos lá a alinhar!
Ordenou sentido, depois pela direita perfilar, e todos viraram a cara para a direita, com a mão esquerda no quadril e a direita no ombro do vizinho, para controlar a distância.
- Aí no meio um bocadinho para trás. - orientava - Alto! Está bom.
Mandou descansar, mas sem tirar o pé direito do sítio.
Quando o Comandante do Esquadrão apareceu, todos pensaram que iam finalmente saber o que se passava.
- Vamos lá a alinhar como deve ser... - ordenou.
A manobra de alinhamento voltou a ser repetida por todo o Esquadrão.
- Pedro?
- Hem ?...
- Parece que é a sério...
- Deve ser...
Constava que os Turras tinham invadido a Guiné, e que o pessoal ia já partir.
- Vamos a casa primeiro, não achas?...
- Não sei...
Finalmente o Esquadrão ficou milimetricamente alinhado.
E o grande momento chegou, na forma de uma folha A4 distribuída a cada um.
Em cima, e a toda a largura da página, uma pergunta:
“Em caso de acidente mortal deseja funeral católico?”
No fundo da folha, “Sim” e “Não”, com uma nota que informava “Riscar o que não interessa”
O canto inferior direito era reservado para a identificação.
- Pedro?
- Hem ?... - olhava para o papel indeciso.
- Porque é que fazem isto a esta hora?...
- Estou farto de te dizer, tu é que não ouves... És católico?
- Acredito em Deus...
- Mas em qual Deus?...
- ...
- Sabias que Alá não te pode perdoar as ofensas que fazes ao teu semelhante?... Se ofenderes o teu vizinho, só o teu vizinho te pode perdoar... Sabias isso?...
- É o Maomé, não é?...
- O Maomé comparado com os Padres que podem perdoar tudo, é um pobre profeta... Escolhes o funeral católico, não é?
- Pois escolhi...
- Fica descansado que esta malta toda, também é católica...
- Mas porque é que fazem isto a esta hora?...
- Pensa antes que quem muito dorme pouco aprende...
- Ai sim?... Então ou eles não sabem essa, ou tu andas enganado...
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qui Nov 11, 2010 11:04 pm

Estava um belo dia quando saíram do refeitório após o almoço. O prato tinha sido bacalhau à Brás, e apesar de ter passado a refeição a ouvir que era um lateiro, Pedro comeu bem do seu prato preferido.
A tarde prometia, e ainda por cima se anunciava para as horas seguintes uma apetecível instrução de tiro, para a qual a expectativa era imensa.
O entusiasmo esmoreceu um pouco, quando carregados com a G-3, capacete e HK-21 repartida por dois, se deu inicio à partida, a passo de corrida.
O sol escaldante e a barriga cheia não combinavam nada bem...
- Manuel, isto não me está a agradar...
- Que tens?...
- Vamos muito depressa...
Sentia-se cada vez pior. Estava agoniado e o calor abrasador tornava-se insuportável. Tentava descortinar a cada curva a Carreira de Tiro na esperança de conseguir chegar ao destino, e parar finalmente. Não compreendia porque tinham de ir a correr e não a marchar.
Quando atingiu o limite saiu da formatura. Abeirou-se da cerca que ladeava a estrada, e aí se encostou, curvado com a cabeça entre os braços.
Uma velhota que passava, ao vê-lo assim, aproximou-se.
- Coitadinho, não aguenta... - lamuriava a velhota.
Para Pedro, aquelas palavras caíram fundo, e ficou desesperado por se encontrar naquela situação, provocando pena.
- Não é nada! - ofegava - É apenas má disposição.
As lembranças de casa cruzavam-se com as botas sujas de poeira, e com a velhinha que continuava a lastimá-lo.
- Não pode, coitadinho... - repetia a velhinha, sem parar.
A má disposição passou-lhe quase de repente. Apenas sentia uma fúria crescente, e vontade de chorar.
- Raios partam esta merda toda! - gritou sem se puder conter.
- Está melhor? ... - perguntava a velhota.
- Estou sim...
Sentia-se cada vez melhor.
O instrutor acabara por vir atrás buscá-lo.
- Vamos embora, está tudo à tua espera... - berrava de longe, da curva da estrada.
- Fiquei mal disposto...
- Os outros não ficaram! Vamos embora!
Pedro ajeitou a correia da espingarda, e antes de recomeçar a correr, virou-se para a velhota.
- Almocei muito e fiquei mal disposto. - disse para se justificar.
Quando chegou à Carreira de Tiro, o pelotão já estava formado.
- Na ronha não é? - atirou-lhe o instrutor de tiro.
Sentiu vontade de lhe responder, mas conseguiu conter-se, mesmo tendo ainda de suportar as piadas do resto do Pelotão.
- Estás melhor ?... - perguntou-lhe Manuel.
- Estou porreiro...
O instrutor já estava a debitar.
- A arma deve estar sempre nesta posição - exemplificava - quando não estamos a fazer fogo. Nunca se vira a arma para ninguém. Não quero chatices com isso. Se acontecer qualquer problema, põem a arma como vos disse, e levantam o braço. Não fazem mais nada !...
Formaram-se duas linhas e foram distribuídas duas caixas de balas a cada um. A primeira linha avançou e recebeu ordem para meter cinco balas no carregador.
Tinha esvaziado as caixas para o bolso, e o peso era agradável.
A ordem de introduzir o carregador foi dada, e em seguida a de atirar ao alvo.
Quis esmerar-se e apontou com todo o cuidado.
Os estampidos foram enormes. Quando deu lugar à segunda linha, ejectou o carregador, e ao puxar a culatra atrás viu que não tinha disparado a última bala.
Pensou ficar com ela como recordação, e meteu-a disfarçadamente na bota para a esconder.
Ao voltar à frente para nova série de disparos, o Brutus - um calmeirão que gostava de provocar todos - atirou-lhe um valente encontrão quando se cruzaram.
De imediato Pedro reconsiderou uma melhor utilização da bala que guardara para recordação. Numa instrução nocturna em que se utilizavam balas de salva , quem sabe o que podia acontecer.
Entusiasmado com a idéia, optou por guardar mais balas, e quando acabou a sessão de tiro, tinha deixado cair mais duas para dentro da bota.
O incómodo sentido nos pés provocava-lhe grande excitação.
No entanto, de regresso ao quartel, arrependeu-se de ter usado tal esconderijo, porque não fora feita qualquer revista ou controlo, e com o andamento o incómodo era cada vez maior. Só a esperança que poderia provocar com elas um incómodo muito maior a um esperto qualquer, lhe deu ânimo para suportar a dor.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Nov 13, 2010 12:51 am

Quando tocou a silêncio, o Pronto avisou que iria apagar as luzes, dando origem aos habituais pedidos e reclamações.
- Só mais cinco minutos... - pediam com voz meiga.
- Não pode ser, já disse...
Apagou a luz, mas mal se tinha deitado quando começou a ser bombardeado com lixarada. Saltou da cama furioso, acendeu a luz de presença, e percorreu a Caserna para o espectáculo do costume.
- Seus cobardes ! - gritava.
- Caluda, quero dormir ! - respondiam de baixo dos cobertores.
- Zezinho?... - chamavam em coro. As vozes vinham de todo o lado, e o Pronto desesperava.
- Filhos da puta ! - foi repetindo até apagar a luz e sair da Caserna para mais tarde regressar sem darem por ele.
O silêncio foi invadindo gradualmente a camarata.
- Manuel ?...
Não obteve resposta, e não voltou a chamar. Não conseguia adormecer.
No fundo da Caserna, com uma vela em cima da caixa, jogava-se à lepra. Tentavam jogar em silêncio, mas as discussões venciam os sussurros.
Pedro continuava sem dormir e as ideias que o atormentavam a toda a hora não o abandonavam, só pensando em desertar. Não sabia se odiava mais a tropa ou os companheiros.
Tinha medo quando a ignorância se juntava à estupidez, e existiam ali dezenas de exemplos dessa mistura explosiva.
Todos dormiam em redor. Depois de se certificar que não o viam, foi buscar as botas do Brutus que as deixara no chão, junto à cama.
Deitado, atirou-as com toda a força para cima dos jogadores, e tapou-se de imediato como se estivesse a dormir.
A confusão foi maravilhosa...
O melhor iria ser ao levantar, quando o Brutus tivesse que ir buscar as botas - se ainda lá estivessem - ao meio da Parada.
Adormeceu por momentos, mas voltou a acordar com a bexiga a doer. O urinol era ao fundo da Caserna, e finalmente decidiu levantar-se e ir. Os jogadores já estavam a dormir.
Ao percorrer o corredor entre as camas, levou com ele as botas de um sacana que tinha a mania de lhe andar sempre a tirar a boina.
No urinol mijou para dentro das botas, dividindo cuidadosamente as quantidades. Receando que as botas não fossem completamente estanques, acrescentou alguma água para compensar eventuais perdas.
No regresso, deixou-as tal como estavam. Sabia que o gajo vestia as calças em cima da cama, e depois atirava-se lá de cima, onde dormia, para dentro das botas que deixava bem abertas. Pedro só pedia que no dia seguinte o rapaz não falhasse o salto.
Antes de adormecer viu que já eram duas da manhã, e ficou contente por já haver pouco tempo para muitas perdas, mesmo que as botas não vedassem muito bem. O Bigodes iria ter uma bela surpresa.
Sentia alguma culpa por ter feito aquelas coisas, mas era necessário desviar as atenções, para evitar andar na berlinda. Quantas mais energias gastassem uns com os outros, melhor para ele.
Acordou com o Corneteiro a tocar a alvorada.
- Acende a luz Zezinho ! - apelaram logo para o Pronto, que se tinha de tal maneira habituado ao clarim, que nunca acordava com o toque.
- Acende a luz, Pronto de um cabrão!
- Acende a luz, Zezinho...
Finalmente lá se levantou tão ensonado que nem respondeu. Acendeu a luz e voltou a deitar-se.
- Olá, Zezinho querido ! - cumprimentava um com voz de cana rachada.
De repente, um urro tremendo ecoava na Caserna, acordando o Pronto, que saltou da cama assustado.
- Grandes paneleiros! - berrava o Bigodes que tinha calçado as botas em vôo acrobático.
O berro assustou Pedro, que demorou algum tempo a lembrar-se do que tinha feito. O seu esquecimento fora providencial, porque o Bigodes olhara logo para ele, mas ficou convencido com a indiferença demonstrada.
Passou logo a embirrar com outro de quem também não gostava, sem parar de fazer ameaças e juras de vingança.
Pedro registou o alvo das ameaças, para as cumprir na primeira oportunidade.
- Esse Pronto dum cabrão só quer é dormir, não guarda nada... - opinou o Brutus que tinha finalmente acordado.
- Zezinho, Zezinho... - cantavam em coro.
Tinha começado mais um dia...
Enquanto descia as escadas para a formatura, viu passar o Brutus descalço, em grande velocidade.
Só faltou ele cair e partir um osso qualquer, para aquele dia começar bem...
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Nov 17, 2010 1:06 am

O tão falado - e temido - “vale da merda” tinha chegado finalmente. O Esquadrão foi dividido em grupos de cinco elementos que receberam uma bússola e um mapa, com instruções para percorrer um determinado percurso.
Ficaram no mesmo grupo, e partiram na décima oitava posição, dois minutos depois da equipa anterior.
Como não queriam ser os mais mal classificados, iniciaram a prova em passo de corrida. Chegaram ao primeiro controlo sem problemas.
Depois, perderam-se por uns instantes, mas atravessaram um campo plantado com milho e retomaram o caminho certo.
Anoitecia quando atingiram o sétimo posto. O Aspirante Cagão registou a hora de chegada e indicou-lhes onde estava a comida.
- E agora ?… - perguntou o Pedro.
Chegava outro grupo, e o Cagão não deu resposta.
Pensavam que tinha terminado, mas, quando escureceu, recomeçaram.
Receberam um croqui e saíram na ordem da chegada.
Andaram poucos minutos até encontrarem uma linha de água que não conseguiram determinar se era um esgoto, ou um regato pestilento e poluído.
- Pedro ?
- Hem ?…- respondeu enquanto consultava o croqui.
- Não me digas que o caminho é por aqui adentro…
- Podemos tentar ir pela beira. Que dizem?…
Concordaram todos, mas tiveram de desistir rapidamente. As margens eram preenchidas com silvas impenetráveis, que ocultavam o curso da água.
- Temos de ir mesmo por dentro…
Voltaram à entrada e enfiaram-se por ali adentro, tentando seguir o mais possível junto à margem. Em breve se formaram abóbadas de silvas, formando um túnel que os empurrava para o meio do regato.
O cheiro era nauseabundo. Nos locais mais fundos, Manuel ficava atolado até ao pescoço, e levantava bem a cabeça para defender o rosto.
O Pinheiro Manso seguia na rectaguarda, pois a sua pequena estatura era motivo de grande preocupação.
Pouco a pouco, o líquido foi-se tornando cada vez mais pastoso, até fazer justiça ao nome “vale da merda”.
A repugnância impelia-os para as margens, mas longas varas surgiram da escuridão, com panos encharcados de porcaria que lhes caíam em cima furiosamente.
Uma pancada mais certeira acertou nos óculos de Pedro, que revolveu os excrementos para os recuperar, sem que as pancadas parassem, sendo ainda mais certeiras, devido à sua imobilidade.
Acabou por os encontrar e fugir para o meio do esgoto, sem saber como os limpar.
- Limpa-os ao boné ! - lembrou o Manuel.
- Está encharcado…
- Toma o meu…
As balas que guardara vieram-lhe à cabeça. Conseguiu identificar a voz do Aspirante Cagão, e lamentou não estarem em instrução nocturna, no meio da mata.
Chegaram ao quartel exalando um cheiro terrível. Correram para os chuveiros para tomar duche, onde depararam com os letreiros pendurados nas torneiras que diziam “Chicotada Psicológica”.
A água só veio horas depois…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Nov 17, 2010 11:58 pm

O Pinheiro Manso estava inconsolável. Tinha quase a certeza que tinha sido condenado logo à nascença quando a natureza lhe tinha atribuído aquele corpo atarracado. Mesmo quando lhe faziam ver que o pai também era baixo e largo, ele não desistia de assegurar que não acreditava nessas histórias de hereditariedade ou de transmissões genéticas. Tinha sido vítima de uma tramóia qualquer e não aceitava outra hipótese.
Nem mesmo a saúde de ferro que sempre tivera atenuava aquela maldição.
Ainda por cima, fora o palerma do vizinho - um velhadas esquelético que trabalhava numa empresa de petróleos - quem lhe tinha metido a alcunha.
Nunca lhe chegou a dizer como o achava ridículo, com aquela liga à volta da cabeça, durante os jogos de voleibol promovidos pelo Grupo Desportivo da Empresa.
A careca parecia sobressair ainda mais, e, ainda por cima, não jogava mesmo nada.
Ai se o apanhasse ali naquele momento...
Não podia deixar de pensar que tinha comido merda por ser tão baixo...
- Tu estás a exagerar... - dizia o Pedro para o animar.
- Pois estou, mas a ti não te tocou a merda! - respondia zangado.
- Olha, estamos cansados... Vais a ver que amanhã não pensas nessa merda.
Pedro arrependeu-se mal disse merda, mas já não podia voltar atrás.
Enquanto tentava adormecer, recordou que o Pinheiro Manso contara que tinha andado no Rugby do Sport Lisboa e Benfica.
O campo de treinos era no Campo Grande, mesmo por detrás da Churrasqueira e, depois dos treinos, quando passava pelo cheirinho do frango assado, repunha sempre as calorias perdidas.
O que Pedro não daria naquele momento por um frango no espeto ou umas sardinhas assadas na Feira Popular - o único sítio em que serviam garrafas de vinho tinto carrascão gelado.
Tinha desistido do Rugby porque não gostava de passar os treinos a correr com os colegas às cavalitas. Se ele já era atarracado, com aqueles treinos ainda ficava pior...
Mesmo antes de adormecer, Pedro recordou que ele dizia ocupar a posição de pilar esquerdo. Não fazia a mínima ideia do que fazia um pilar esquerdo, mas o corpinho do Pinheiro Manso podia ser pilar principal em qualquer sítio.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qui Nov 18, 2010 11:24 pm

O Aspirante Cagão pertencia a uma família de militares de carreira a quem o País muito devia.
Apesar de respeitar o pai, um Coronel de Cavalaria austero e de poucas palavras, recordava com algum incómodo os tabefes que ele dava na mulher à frente de toda a gente.
O Aspirante Cagão era mais brando. A mulher dele, proveniente também de uma família de militares, não precisava de levar tareia, porque sabia bem qual era o lugar dela.
Todos sabiam que ele estava acima de todos. Apenas abria uma excepção na cama, pois tinha percebido que ela gostava de ficar por cima quando faziam amor, e ele, como se considerava um liberal, por vezes lá contemporizava com aquele comportamento desviante.
Dentro em pouco seria promovido a Alferes e, depois de uma comissão em África, só precisaria de tirar o Curso de Comandante de Companhia e ser promovido a Capitão.
Até o pai devia ter inveja daquela progressão tão rápida na carreira militar. Sempre valia a pena ser um pouco mais liberal…
Entretanto, tinha de preparar e disciplinar aquela massa bruta que aparecia por ali, e que só pensava em regressar à vida civil.
Eram uma cambada de inúteis para quem a Pátria pouco interessava. Graças a Deus que havia Portugueses que acreditavam num Império multirracial e pluricontinental.
Constava no Quartel que um recruta - o Psicólogo - dizia que esta história de uma Nação multirracial e pluricontinental não passava de uma ilusória mistificação do Estado Novo, cujo mentor era o Salazar.
O Aspirante Cagão já andava em cima do espertalhão. Um militar de carreira estava sempre ao serviço do País.
A tradição militar da família estava assegurada…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Nov 19, 2010 11:57 pm

As sextas feiras eram dias maravilhosos, e nem o Teste de Avaliação de Conhecimentos e o Cross Matinal, estragavam o dia. Se tudo corresse bem, estava à porta o Fim de Semana.
O Teste realizava-se logo pelas nove horas, com as mãos geladas, e o chão ainda molhado da geada. O Esquadrão era alinhado por toda a Parada, espaçados de dois em dois metros. Sentados no piso húmido, recebiam o Teste para resolver. Como a arma não podia ficar no chão, era atravessada em cima das pernas, o que incomodava, mas acabava por servir de prancheta.
As questões eram tipo totobola, havendo quatro hipóteses de resposta para cada pergunta.
Uma classificação negativa implicava o corte do próximo Fim de Semana, mas com o cu e as mãos geladas era difícil a concentração.
- Pedro, a 24?... – sussurrava.
- C, e a 8, sabes ?...
- Não. Sabes a 9 e a 11 ?...
- Devem ser D as duas...
Apesar da vigilância conseguiam trocar respostas, mesmo sabendo que, se apanhados, teriam zero, e três Fins de Semana no Quartel.
Depois de uma hora, com o frio entranhado nos rins, as perguntas ainda sem solução eram respondidas ao acaso, porque o importante era levantarem-se e entregar as folhas.
Os mais teimosos e resistentes conseguiam aguentar até terminar o tempo e serem obrigados a entregar os Testes.
A parte mais engraçada da avaliação era que a pontuação para as perguntas não era fixa, sendo a média fixada em função dos resultados totais. Este método resultava que responder certo à maioria das perguntas tanto podia dar 30% ou 80% na classificação final, dependendo do desempenho global. Quantos mais estudavam e respondiam certo, mais difícil se tornava conseguir ter os 50% para ir a casa.
Como era bom promover a competição...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Nov 20, 2010 10:37 pm

O Cross até podia servir para aquecer, pois seguia-se ao Teste, mas a intenção era outra.
Quem não aguentava, não tinha Fim de Semana.
De arreios e espingarda às costas para dar estofo e criar músculo nas pernas - dizia o instrutor - formavam duas filas, uma de cada lado da estrada.
Ninguém percebia como é que o aperto do peito e da barriga podia contribuir para fortalecer as pernas.
Passados alguns quilómetros em passo de corrida, as botas pesam quilos, e a G-3 toneladas.
Quando um ombro já está dorido, a arma passa para o outro. O cano bate sem parar na perna e prejudica a passada, incomodando cada vez mais. Dói o ombro, dói o peito, mas a dor de perder o Fim de Semana seria maior.
O Brutus é um atleta...
Vai para a frente puxar. Os mais fracos choram para acompanhar o ritmo, enquanto os malandros e os meninos bonitos do Aspirante se deixam ficar para trás e se enfiam para dentro dos arbustos, a fumar uma cigarrada.
Quando o Pelotão regressa pelo mesmo caminho, voltam a entrar no grupo e chegam ao Quartel na frente, frescos como uma alface e a puxar bem forte.
Os mais fracos e honestos só querem chegar, mesmo que no fim do Pelotão.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Nov 21, 2010 10:27 pm

O Brutus era o segundo dos cinco filhos de um casal de alcoólicos.
Miúdo sem regras, desmotivado para qualquer tipo de aprendizagem, apresentou desde muito novo um acentuado atraso do desenvolvimento psicomotor e da linguagem.
Comia tudo o que a irmã mais velha conseguia trazer para casa, e, entre as brincadeiras e as brigas na rua, dormia quando queria e não se lavava porque não gostava.
Quando ao sete anos entra para a escola, não se quer sentar e não ouve ninguém. Para ele, letras e números são pura perda de tempo.
Não tem o mínimo desejo de aprender, e como em casa não há livros, não vale a pena saber ler...
Nas férias esquece o pouco que aprendeu, e o professor diz à mãe que ele não dá para as letras...
Uma das irmãs mais velhas, uma menina meiga e envergonhada, chora por não conseguir aprender na escola como os outros meninos, e por não ter ninguém que a ajude a fazer os trabalhos da escola.
O Brutos faz pouco dela...
Adora as aventuras do pai quando bebe e provoca distúrbios na rua ou em casa.
Para se verem livres dele na Escola, vai passando de classe, marginalizado por não conseguir aprender as regras de postura social.
A mãe reparte-se entre o cuidar da casa, os internamentos do filho mais velho, as consultas da mais nova e as tareias do marido, que bebe e acha que a esposa deve lavar a roupa à mão, proibindo-a de usar a máquina de lavar porque a boa vida é a mãe de todos os vícios.
Com doze anos acaba a instrução primária sem saber ler e escrever correctamente, mas já ninguém o podia aturar na escola.
A baixa capacidade de tolerância à frustração e a pobreza das relações interpessoais acompanharam-no até ser chamado para o serviço militar.
O enexplicável milagre deu-se quando entrou no quartel para a recruta, parecendo Paulo de Tarso a caminho de Damasco...
Obedecia a todos os superiores e estava sempre pronto para tudo que fosse necessário fazer...
Foi um dos propostos para passar do Contingente Geral para o Curso de Sargentos Milicianos.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Nov 22, 2010 11:50 pm

Antes de cada refeição formava-se na Parada, e só depois de muito bem alinhados, se marchava para o refeitório ao ritmo do tambor.
A formatura não estava correcta enquanto o Instrutor, do fundo da fila, conseguisse ver mais que uma cabeça. Sem um alinhamento perfeito não se comia. Às pernas doridas juntavam-se as barrigas vazias, mas havia sempre um nariz rebelde fora do alinhamento.
Quando, finalmente, os Aspirantes ficavam contentes, tocavam a sentido e iam chamar o Oficial de Dia.
- Ai do sacana que desfizer o alinhamento ! - ameaçava o Aspirante Cagão para passar o tempo - Mesmo que vos passe uma picha pela boca não mexem, hem?...
Era uma maneira simples de explicar a importância do alinhamento.
As barrigas rezavam para que encontrassem o Oficial de Dia, que apareceu finalmente ao fundo da Parada.
- Pedro?
- Hem ?...
- Já viste quem é o meco?
- Caguei...
O Alferes Marreta tinha fama de maluco. Vinha da Academia Militar, o que não abonava nada a dita Instituição.
Um Pronto da cozinha apresentou-lhe para provar, numa bandeja, o menu do dia. Provou e gostou muito.
Ninguém o tinha visto trocar a messe dos oficiais pelo refeitório, mas até mandou dar os parabéns ao cozinheiro...
- Mande descansar ! - ordenou
- Estás a ver Pedro ?...
- Que é que este gajo quer...
Se não tinha dado ordem para entrar para o refeitório, era porque queria festa.
- Quem é o Sr. José Santos Silva ? - perguntou do meio da Parada.
O título utilizado indicava a importância do procurado, mas ninguém respondeu.
- E Santos Silva, é alguém ? - perguntou num tom mais agreste.
A resposta continuava a ser o silêncio.
- E Silva ?
- Sim, meu Alferes ! - respondeu receoso, um infeliz do 3º Pelotão. Não seria o único Silva do Esquadrão, mas teve o azar de ser o primeiro a falar.
- Ah! Então é você... - aproximou-se irado
- ...
- Então deixas o carro estacionado mesmo junto ao meu, de tal maneira que me fartei de fazer manobras para conseguir sair..
- Não tenho automóvel, meu Alferes...
- Mas o teu pai tem, não tem ?...
- Mas... - balbuciou.
- Então foi o teu pai !
- Está em Lisboa, meu Alferes...
- Mas veio cá visitar o menino, não foi ?...
- Não, meu Alferes...
- Ai sim... - voltou-se para o Instrutor do Pelotão - Tire o número a esse soldado que isto não fica sem castigo...
Ninguém percebia o que pensava o Oficial de Dia.
- Pedro !
- Caguei... não me digas nada.
Finalmente lá iniciaram a marcha para o refeitório a toque de tambor. O passo devia ser certinho. Alguém do 2º Pelotão tropeçou alterando por instantes a cadência do passo.
Infelizmente o Alferes Marreta estava a olhar...
- Esse Pelotão dá mais cinco voltas à Parada ! - ordenou, a rir e a esfregar as mãos.
Com a barriga cada vez mais vazia, foram marchando debaixo do Sol.
No refeitório, o restante Esquadrão em pé, aguardava pelos castigados para se poder iniciar a refeição.
Era uma tortura estar em pé. O banco estava tão junto à mesa que não havia espaço para as pernas estarem direitas, sendo necessário apoiar as mãos na mesa para manter o equilíbrio.
Dez por mesa, um quarto de pão e uma laranja mirrada para cada. Os talheres amontoados na ponta da mesa iam sendo tirados por cada um, tal como os pratos de alumínio muito riscados. Nem toalha nem guardanapos.
Os cozinhados com molho ficam por vezes a escorrer pelo queixo abaixo, e não se pode limpar à manga da farda porque a gordura deixa nódoa. Quando o lenço está mais ou menos limpo ainda se usa, mas a melhor solução é limpar a boca ao quico, mas da parte de dentro, para as nódoas não ficarem à vista. Os que não têm caspa são os que mais utilizam esta técnica.
- Hoje há instrução nocturna! - o cabrão do Alferes continuava. - Pelo que ninguém tem dispensa de recolher.
A saída era feita por mesas. Quando todos acabavam de comer, juntavam os pratos, metiam os restos na terrina e organizavam os talheres para serem contados. Ficavam de pé até o Oficial de Dia se dignar vir conferir os talheres e mandar sair.
Se algum gostava de comer mais devagar ou tinha mais apetite nesse dia, tinha problemas.
- Acaba lá de comer, lateiro ! - começavam os mais apressados.
- O gajo em casa nunca comeu assim... - gracejava outro.
Enquanto esperavam iam arrumando o que podiam, aproveitando para tirar o apetite aos que ainda comiam. Atiravam com os restos para a terrina e esfarelavam o pão lá para dentro, enquanto iam remexendo com a concha.
Os mais criativos, voltavam a servir para os pratos, e depois, novamente para a terrina.
- Para que é essa porcaria? - perguntara Pedro uma vez.
- É para os pratos ficarem sujos, a fingir que comemos esta merda! - respondeu-lhe o porcalhão.
- E não comes?...
- Só como conservas que trago de casa! - respondeu com ar superior.
Pedro já tinha constatado que eram quase sempre os mais desgraçados e os que se adivinhavam estar habituados a piores condições de vida, os que mais reclamavam e diziam mal da comida.
Quando saíram do refeitório Manuel ia calado.
- Que é que tens?
- Nada...
- Diz-me lá, vá... - encorajou-o Pedro.
- Não te vais chatear ?...
- Diz lá o que é ...
- Não compreendo porque é que comes do rancho. - disse, por fim.
- Tu não comes ?...
- Sim... mas...
- Olha lá, no mato tens conservas?... Sei lá se acabo por ir lá para fora, e depois?...
- Porque é que não respondestes isso ao gajo!
- Para quê ?... Para o ajudar?... Fica descansado que aquele é dos que está habituado a comer merda...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Nov 24, 2010 11:46 pm

A anunciada Instrução Nocturna acabara por ser adiada para o dia seguinte, voltando a ser possível a dispensa de recolher.
Aplicou-se o auto brilhante mais uma vez nas botas; penteou-se um tufo de cabelo mais crescido com ajuda de água para melhor acamar; passou-se com a gilete a seco nas zonas em que se adivinhava a barba apesar da última escanhoadela.
O tempo não dava para mais e estava na hora de formar na Parada.
Estavam formados dois grupos. Os que tinham dispensa de recolher e podiam voltar para o Quartel até à uma da manhã, e os que precisavam de estar de volta para a formatura de recolher às nove horas.
No entanto, para saírem era necessário passar na revista que se adivinhava muito difícil dado a ser o Marreta que estava de Oficial de Dia.
A formatura abriu alas para ele poder passar cada um a pente fino. Todos calculavam que iria ser uma razia, e não ficaram espantados quando vários foram de volta, por não estarem em ordem.
Pedro tinha as botas pouco espelhadas, e o Manuel logo o seguiu devido a ter um botão do blusão preso com um arame, que quase não se via.
- Cabrão ! - desabafou depois de assegurar que já não podia ser ouvido.
- Pedro, eu queria ir lá fora. Não conheces a sentinela ?
- Deixa os gajos saírem que já lá vamos. Por mim tanto me faz sair ou não.
A cidade onde se encontrava o quartel era pequena e tinha pouco para ver. A maior parte saía apenas para queimar tempo até à hora da formatura de recolher.
Era proibido deitar antes do recolher, e mesmo se estivessem cansados e com sono, tinham de esperar pela formatura para poder dormir.
Ficaram a ver o resto da revista…
O Marreta já estava havia muito tempo de volta de um que parecia estar impecável. Puxou-lhe com força pelos botões, mas nenhum saiu. Levantou-lhe o blusão, e o cinto lá estava, limpinho. A barba tinha sido acabada de fazer, e o cabelo estava à escovinha. Até as unhas estavam limpas e as orelhas lavadas.
- Muito bem… - disse finalmente sem grande entusiasmo.
Aquela situação era assumida como uma derrota pessoal.
- Está então convencido que vai sair ? - perguntou irónico.
Teve então uma ideia luminosa e meteu-se de cócoras, para gáudio da assistência. Nem reparou na risota geral enquanto olhava atentamente para as botas do examinado.
- Cá está !… - gritou contentíssimo - Tem grãos de terra entre a sola e o cabedal.
- Mas, meu Alferes … - balbuciou atarantado.
- Mas o quê ?… - perguntou ameaçador.
O Instruendo estava sem palavras. A reentrância onde o Alferes dizia estarem os grãos de areia era um local quase inacessível à vista.
- Tem dúvidas ?… - perguntou-lhe, mesmo junto da cara não evitando atirar “gafanhotos”. - Podemos resolver isto com uma queda facial em frente. Está bem?…
- Mas …
- Sim ou não ?… - gritou.
Em frente do soldado estava uma pequena poça de água. Conseguiu dar a queda facial evitando a água. As mãos ficaram molhadas, mas os salpicos, milagrosamente não o atingiram.
- Vamos lá acabar com isto. Se fizeres dez “enchimentos” podes sair…
O importante agora, já não era a sair, mas conseguir poupar a farda de saída que se tocasse na água suja iria inviabilizar a ida a casa no Fim de Semana.
- Vai abaixo… vem acima. - marcava o compasso entusiasmado. - Vai abaixo… descansa em baixo… descansa…
E o infeliz lá ficou de braços flectidos, suportando o peso do corpo, esforçando-se por não tocar a água enquanto descansava…
A assistência fazia apostas se ia conseguir ou não…
- Quando isto acabar vai chamar-me ! - pediu Pedro enquanto voltava para a Caserna, sem querer ver como acabaria.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Nov 26, 2010 12:28 am

As pressões políticas no país aumentavam, mas as revoltas são controladas pelas forças conservadoras que dominam a tentativa de golpe.
Apesar da Lua e de o Sol terem desaparecido completamente dos céus, os seus soldados lambiam calmamente gelados de limão na parada.
Tudo funcionou como ele tinha planeado, e agora, todos só pensavam em ser amigáveis para com ele.
O Alferes Marreta derrotara as tropas inimigas.
- Isto está mesmo mal... - pensava o psiquiatra.
- O que ele tem doutor? - perguntava uma velha senhora que o Alferes Marreta teimava em expulsar, por não saber o que é que ela estava ali a fazer.
- É complicado...- tentava explicar o doutor.- Os sentimentos são muito difíceis de compreender.
O Alferes Marreta batia na mesa situada num canto do consultório da prisão.
- O meu Alferes é um génio - atirou para o acalmar.
- Ele tem cura, doutor? - perguntava a velhota.
A mãe não ouvia mais nada, com as lágrimas doces escorrendo de seus olhos escancarados.
Ela estava em estado de choque ao ver o filho quase deitado na cadeira a rir, sem se mover.
O Alferes Marreta proclamava-se um mártir que combatia o comunismo e escrevia todas as suas confissões e memórias em pedaços de papel, que ele próprio arrancava das mesas do refeitório.
Finalmente tinham concluído que o Alferes Marreta não estava em condições de fazer o Oficial de Dia...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Nov 29, 2010 10:57 pm

Era já noite cerrada quando saíram do quartel em coluna de três. Os da frente levavam peitorais florescentes para sinalizar a posição aos automobilistas.
A instrução decorria nuns terrenos desertos junto ao rio. O acesso era feito por uma azinhaga com o pavimento em cascalho solto, que as botas ao pisar faziam recordar o bater de ondas nos seixos da praia.
Os mais ensonados marchavam meio adormecidos, alguns mesmo de olhos fechados, que só abriam quando saíam da formação e batiam no vizinho ou nas bermas. Havia pisadelas de calcanhares para todos os gostos.
Cada noite de instrução fazia parecer o caminho mais longo, e o percurso passou a constituir a pior parte do programa.
O programa da noite consistia em como reagir a emboscadas. O Esquadrão deveria seguir em fila de pirilau, e quando sofresse um ataque devia atirar-se para o chão, de qualquer maneira e onde quer que fosse. As posições deviam manter-se, até o Aspirante verificar se estavam ou não correctamente colados ao chão.
Foram distribuídas balas de salva a cinco elementos de cada pelotão, que à vez, fariam o papel de atacantes.
Pedro fazia parte de um grupo atacante, que partiu com o Aspirante para procurar um bom local para a emboscada. Já estava farto de andar e na tentativa de acabar com a busca, apontou um grupo de árvores que lhe pareceu razoável.
- Meu Aspirante, aqui parece bom...
A seguir, o caminho serpenteava por entre arbustos, o que, de acordo com os Manuais, permitia uma fuga rápida aos atacantes.
- Isso também não... Ali em baixo é só lama, e os gajos ficam todos cagados !...
Pedro não tinha reparado nesse pormenor, mas daí a instantes já corria pelo Esquadrão que ele queria fazer-lhes uma emboscada para os cagar a todos com lama.
Mal regressou ao Esquadrão sofreu logo represálias.
- Grande cabrão ! - ameaçava o Bigodes enquanto tentava arrastar outros. - A malta é que te afoga na lama meu filho da puta !
Só a proximidade do Aspirante evitou o pior.
- Depois falamos, meu merda ! - ameaçou com ar desafiador.
Pedro sentiu que não podia mostrar medo.
- Quando quiseres, meu monte de merda... - murmurou-lhe a sorrir.
- Estão a ver ?... - chamava ruidosamente a atenção dos restantes - Este cabrão ainda goza !...
A ordem para formar veio arrefecer um pouco os ânimos. Pedro sabia que iria ter de gerir a situação com muito tacto, mas o Bigodes era um caso especial. Nos dias seguintes ao episódio das botas, ele passara a olhar antes de as calçar, mas depois voltara ao mesmo, e atingira mesmo a perfeição no salto para dentro das botas. Quem sabe se não iria repetir o programa, mas com algo mais sujo. O problema seria camuflar o cheiro, mas tinha de pensar no assunto...
O regresso ao Quartel foi difícil, não só porque o percurso era sempre a subir, mas também porque teve de ir a ouvir ameaças e piadas ao longo do caminho. Felizmente que chegaram tão cansados à Caserna e com tanta vontade de se deitarem, que os incitamentos do Bigodes para lhe darem uma ensinadela, não foram atendidos.
Deitou-se com uma imensa sensação de alívio, que apenas foi abalada por instantes quando as luzes se apagaram e receou um ataque do Bigodes no escuro.
Finalmente, deixou-se vencer pelo cansaço e adormeceu...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Nov 30, 2010 11:29 pm

O Bigodes era uma prova evidente de que era falsa a afirmação de que ninguém é tão mau que não tenha qualquer coisa boa, nem tão bom que não tenha qualquer coisa má.
O Bigodes era mesmo só mau...
Como também era estúpido, formava uma mistura explosiva muito instável e perigosa.
Pedro preferia os maus aos estúpidos, porque ao menos os primeiros faziam intervalos...
Quando o Tenente das Operações Especiais apareceu no Quartel para recrutar elementos para os Comandos, o Bigodes excedeu-se de tal maneira nas provas de selecção, que até o Tenente ficou com dúvidas sobre a sanidade mental do palerma, mas como era preciso carne para canhão...
Correu durante tanto tempo em cima do pórtico - a oito metros de altura - e fez tantas habilidades, que o Tenente quase teve de lhe pedir por favor para ele descer...
O Bigodes acreditava de tal maneira que na tropa eram todos gatunos até prova em contrário, que roubava tudo o que podia, só para não ficar atrás dos outros...
Era um infeliz que nem com as calças do pai conseguia ser um homem...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Dez 03, 2010 11:03 pm

Tinham percorrido durante toda a tarde os campos abrasados pelo sol, ensaiando corridas defensivas e quedas na máscara.
Agora descansavam entre os pinheiros do costume, esperando pelo homem das cervejas que já vinha a caminho.
Quando ele apareceu, foi imediatamente rodeado pela turba, ante o pavor do velhote que tentava evitar as inevitáveis borlas devidas à confusão que se gerava.
Depois das gargantas tratadas, voltava a calma. O homenzinho lá ia recuperando do chão as garrafas vazias, murmurando queixumes sempre que encontrava algumas em cacos junto aos troncos das árvores.
Partiam as garrafas por o preço ser elevado, sem pensar que este era ainda mais caro para compensar as perdas das garrafas partidas.
- O gajo é um ladrão, mas assim fica lixado - repetia o Brutos enquanto partia a segunda garrafa da tarde.
Nestas alturas, Pedro sentia-se tentado a propor um acordo com o vendedor, tendo em vista a redução do preço com o compromisso da devolução do vasilhame intacto.
Desde miúdo, que se recordava de ver o Peidocas pelas zonas pobres de Lisboa, a apregoar Esticas para as criancinhas.
Aquela figura de fato branco, muito largo, e mala de viagem de papelão, veio-lhe à memória e recordou os campos em redor do Quartel de Caçadores 5, junto à Escola Primária, para onde fugia para colher azedas.
Os soldados metiam-lhe lagartixas nas costas por dentro do casaco enquanto se fazia a venda dos Esticas, que se assemelhavam a rebuçados mas muito compridos. Nesses tempos ficara-lhe gravada a imagem de soldados adultos, o que contrastava com a sensação actual de meninos a brincar aos magalas.
Desejava que o Peidocas aparecesse ali, para o ajudar a crescer. Por vezes pensava ouvir ao longe o pregão que antecedia a sua presença - Ai!... Ai!... - gritava sempre quando se aproximava, para chamar a atenção. Ao ouvirem gritar, toda a gente vinha à janela, e de curiosos passavam a clientes bem dispostos.
Mesmo enquanto vendia, não se calava...
- Suas desgraçadas... - berrava.- Andam a dar à língua e não dão sopa aos filhos !
Toda a assistência ria, incluindo as mães, enquanto o Peidocas ia chamando as crianças com ar protector, dizendo-lhes para irem pedir aos pais cinco tostões para comprar um chupa.
Os mais novos assustavam-se com as rápidas mudanças de tom, quando ele se dirigia aos mais velhos que observavam sem comprar...
- Só querem andar com a merda dos carros de esferas !... - e passava de imediato a imitar as mães que chamavam os filhos para os desviar da mala dos chupas...
- Vem para casa meu cabrão... - e todo o mundo ria enquanto continuava a apregoar os chupas de mistura com mimos - Suas vacas, comprem chupas aos filhos !...
O Peidocas não só vendia como era adorado pela miudagem e até os pais gostavam de o ouvir chamar aqueles nomes aos vizinhos...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Dez 04, 2010 11:00 pm

A sessão de ginástica iniciava-se após o Pelotão se dispor em círculo, e naquela manhã, no entender do Aspirante Cagão, havia muita gente na balda.
- Já não torno a avisar ! - ameaçou por fim.
Ninguém ligou à ameaça e os exercícios continuaram com muito pouco entusiasmo. O Instrutor lá percebeu que assim não iria a lado nenhum.
- Deitar, virados para mim ! - ordenou do centro do círculo. - Tudo a rastejar até aos meus pés, depressa...
Já tinham decorrido dois meses de recruta e poucos se assustavam como no início. Ficaram indecisos, mas quando concluíram que ainda era cedo para deixarem de cumprir algumas ordens, já era tarde. No fim do curso poderiam mandar aquele Aspirante cagão à merda, mas por agora tinham de rastejar por uma ladeira enlameada. O último não teria dispensas durante uma semana, e todos se esforçaram por não chegar no fim.
A manhã estava estragada...
- Querem brincar, não é ?... - continuava o ressabiado do Aspirante. - Não quero baldas na pista de obstáculos. Quem se baldar vai falar com o Comandante !
Formaram fila indiana e iniciaram o percurso. A paliçada e o muro foram vencidos por todos, mas na vala acumularam-se os que receavam saltar.
Quando a maioria terminou, a pista ficou vazia, com excepção dos que permaneciam junto à vala, ensaiando corridas que terminavam antes do salto.
- Saltam ou não ?... - perguntava o Aspirante Cagão agastado com a demora.
- Não sou capaz... - disse o Mongo.
- Não és... vamos lá a saltar! - e empurrava-o para a corrida de balanço.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Dez 07, 2010 9:04 pm

O Mongo viajava ao passado enquanto o Aspirante continuava a gritar.
Acontecia-lhe sempre aquilo quando estava nervoso...
As festas de aniversário com balões e cornetas de plástico coloridas, os brinquedos e as velas do bolo ainda a fumegar pareciam tornar-se uma realidade.
Em miúdo, o tambor da máquina de lavar roupa era o seu esconderijo preferido. Tantas horas de paz e sossego...
Os pais, para evitar uma possível desgraça, tinham decidido que a única pessoa a ligar aquela máquina era o Mongo, e mais ninguém.
Um dia compraram uma máquina nova, que brilhava como uma nave espacial.
Ia ser como uma partida para outros mundos.
Abriu a porta e enfiou as pernas mas o tronco não passou. Depois meteu a cabeça, mas também não entrava e acabou por desistir.
Os colegas da escola bem diziam que ele era gordo quando gozavam com a sua lentidão...
Ao longe ouvia o Aspirante gritar...
Da janela de casa costumava ver as empregadas a ir para o baile aos Domingos. Só falavam de namorados...
A empregada tinha deixado o tanque com roupa suja para lavar.
Acabou de o encher e enfiou-se bem lá dentro...
Quando deu por isso, estava estendido no chão do quintal, com a mãe aflita a chorar.
- Foi um milagre... Foi um milagre eu dar com ele enfiado dentro do tanque. - e chorava sem conseguir parar.
O Mongo ficou triste por lhe terem cortado o sonho...
- Vamos lá a saltar! - o Aspirante não desistia.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Dez 11, 2010 3:47 pm

As ameaças aumentavam de tom...
Finalmente, abafando as lágrimas decidiu saltar.
Após uma corrida sem confiança foi bater com a canela na borda de cimento do lado da chegada. Rebolou-se no chão com dores, até ser levado para o Hospital Militar, devido à gravidade da lesão.
Tentaram aproveitar os eventuais remorsos do Aspirante que o obrigara a saltar, mas não tiveram sorte - o programa continuava.
Seguia-se o salto para o desconhecido, que consistia em correr ao longo de um estrado, e no fim saltar em frente sem parar. Nesse dia não tinham conseguido atestar o buraco com esterco de cavalo, limitando-se a distribuir generosamente lama, acima do nível habitual.
Quando chegaram ao Quartel enlameados, formaram para a refeição. Uma primeira revista para o Fim de Semana tinha sido marcada para as duas da tarde...
Quem não estivesse impecável ficava fora da revista de saída final...
Aqueles que tinham feito a barba de manhã receavam que seis horas de barba podiam ser fatais. As botas molhadas teimavam em não brilhar por mais pomada que levassem, e o risco de utilizar as botas de saída era imenso, porque desconheciam o programa da tarde, existindo grandes hipóteses de ficarem danificadas em qualquer actividade o que implicaria grandes desgraças.
Para 80 homens - toda a Caserna - se barbearem e lavarem, existia apenas uma sala de seis por seis metros com espelhos nas paredes, mas às duas horas lá estavam todos formados com a esmagadora maioria de botas a brilhar e barba impecável.
Pedro costumava tentar adivinhar em cada revista, se quem a efectuava imaginava o sacrifício feito por cada um daqueles homens. Os mais velhos ainda admitia que já se tivessem esquecido, mas os Aspirantes tinham com certeza passado pelo mesmo havia pouco tempo...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Dez 14, 2010 12:16 am

O ambiente estava ao rubro. Constava que o CEP tinha enviado a listagem com a atribuição das Especialidades.
A formatura marcada para as quatro horas da tarde veio contribuir para reforçar os boatos.
Alguns que se diziam mais bem informados, espalhavam a confusão ao garantir como certas as mais variadas especialidades, para amigos e para inimigos.
Finalmente chegou a hora da formatura, que, ao contrário do usual, foi disposta em quadrado.
No meio, um Tenente branco que parecia mulato, segurava folhas às riscas brancas e verdes, que logo foram assumidas como as listagens informáticas com as tão desejadas Especialidades.
- Peço que não exteriorizem demasiado ! - pediu o Tenente. - Caso contrário acabarei imediatamente de anunciar as Especialidades.
Não havia dúvidas que o momento tinha chegado...
E lá foi anunciando o número mecanográfico, o nome e a respectiva Especialidade.
Quando algum era contemplado com uma Especialidade considerada melhor, soava no ar uma exclamação surda, logo abafada por aqueles que ainda esperavam pelo seu destino.
A grande maioria era despachada para Atirador - carne para canhão - e Pedro ainda não sabia o que iria fazer nessa hipótese que considerava mais que certa.
Quando ouviu Amanuense ficou estático sem querer acreditar.
- Este cabrão já sabia... - dizia o Bigodes revoltado. - Tens uma grande cunha, hem ?...
Tudo deixou de existir naquela Parada, com excepção do céu que lhe parecia mais azul que nunca. Agradeceu a Deus, a Alá e a Buda, enquanto continuava a olhar o céu sem querer saber de mais nada.
Despertou com uma exclamação enorme provocada pela saída da Especialidade de Vagomestre para o Petas. Todos sabiam que um Vagomestre espertalhão se podia encher de dinheiro. Contavam-se histórias dos métodos utilizados, sendo a mais conhecida o corte no rancho.
O Tenente teve mesmo de intervir...
- Se isto continua assim não posso continuar... Atenção, que não há nem boas nem más Especialidades. É tudo uma questão de sorte. Sabem... Na minha Companhia, o Vagomestre que regressava da Vila com mantimentos, passou por uma mina, e lá ficou...
Se aquela conversa confortava alguém, para Pedro não passava de conversa fiada. Apesar da importância da sorte ou do azar, era preferível fazer a guerra com a máquina de escrever do que com a G-3.
Quando mandaram destroçar parecia que ia explodir de alegria. A Caserna estava um pandemónio. Atravessou a parada para as latrinas, e aí, sentado na sanita com o pé a travar a porta, chorou até ficar aliviado.
Só no regresso se lembrou do Manuel, que como se esperava tinha ido para Atirador. Ainda pensou dizer-lhe que era melhor que ir para Sapador, mas não teve coragem de o encarar, e ficou a passear na Parada até à formatura do jantar.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Dez 22, 2010 8:38 pm

A recruta terminou poucos dias depois. Cada um recebeu uma Guia de Marcha para as Unidades onde iriam tirar a Especialidade, após o gozo de uns dias de férias.
Tinham entrado e saído juntos do Quartel, mas os caminhos pareciam seguir rumos diferentes a partir dali.
- Pedro, desejo-te felicidades !... - estendia-lhe a mão.
- Não queres boleia até à Estação ?...
- Hoje não...
Pedro sentia um aperto na garganta, sem saber o que dizer...
- Olha, não sei quando nos vamos voltar a ver... Quando acabar a Especialidade devo embarcar logo...
- Acaba por ser melhor do que embarcar com vários meses de serviço e depois ainda ter de ir cumprir os dois anos...
A mobilização dos Amanuenses para o Ultramar era feita de acordo com as necessidades e por ordem inversa da classificação obtida na Especialidade, o que originava que os mais bem classificados podiam escapar, se tivessem a sorte do curso seguinte estar pronto antes de chegar à sua vez. O problema era quando os cursos a seguir eram todos mobilizados e era necessário regressar aos anteriores, que já tinham vários meses de serviço militar.
- Tens a minha morada, não tens?...
- Sim, eu escrevo... Felicidades ! - e estendia a mão tentando apressar a despedida.
Acabaram num sentido abraço de despedida.
Enquanto deixava o Quartel para trás, Pedro jurava a si mesmo que nunca mais passaria por aquele local, e evitaria mesmo passar por aquela cidade o resto da vida. A mala estava leve como uma pena. Não tinha telefonado à Luísa para o vir buscar, apesar da promessa de que o faria. Queria fazer pela última vez a caminhada até à Estação, e recordar a madrugada em que fizera aquele percurso no caminho inverso. Tinham passado apenas dez semanas, mas parecia que tinha cumprido uma longa pena de prisão...
Comprou bilhete de 1ª Classe, mudou de roupa na casa de banho, e vestido à civil sentiu-se renascer.
Só pensava que Luísa esperava por ele...
Quem poderia prever aquela ligação, quando se conheceram ?...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qui Dez 23, 2010 5:52 pm

V - A Espera

A festa de anos da Lina estava animada. A casa ficava mesmo junto à praia e como estava indisposto saiu para apanhar ar fresco.
O Sol já apenas se adivinhava para lá do Mar.
- Só faltava mais esta…
Do fundo da praia avançava um vulto que reconhece pertencer à festa mas com quem não chegara a falar. Vem arrastando os pés marcando a areia molhada, com os sapatos na mão.
- Para que é aquilo ?…
Uma onda mais forte veio morrer longe obrigando-a a correr para a areia seca.
- Se tens medo da água vai para o deserto !… - gritou-lhe.
Não conseguiu evitar a provocação…
Olhou-o indiferente sem um aceno sequer. O silêncio dela aumentou-lhe a irritação. A presença dela era agora assumida como uma violação da sua intimidade. No rosto dela vislumbrava troça…
- És parva ou quê ?… - atirou-lhe como pedras.
- Como te chamas ?… - perguntou com um sorriso rasgado.
- Hem ?… - não esperava aquela reacção e ficou meio apalermado.
- Como ?…
- Pedro ! - conseguiu por fim responder. - E tu ?
- Que nome gostavas ?…
- …
- Diz lá um nome para ver se adivinhas…
- Madre Teresa de Calcutá ?…
- Quase acertavas… - Virou-lhe as costas e afastou-se após uma pequena hesitação.
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