A LIBERDADE É AMORAL

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 O PUMA E A MANDIOCA...

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Anarca

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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Dez 27, 2010 9:26 pm

Abandonou as recordações quando avistou os reservatórios da Sacor de Cabo Ruivo. Aproximou-se da porta enquanto o comboio ia diminuindo a marcha, preparando-se para sair rapidamente. Mal desceu, avistou-a logo na saída da gare a acenar-lhe com exuberância. O beijo prolongado e o abraço apertado devem ter comovido o Policia que os observava não tendo reprimido aquelas impróprias manifestações públicas.
- Consegui enganá-los !…
- Eu sabia que conseguias meu maroto…
Nunca lhe tinham parecido tão belas as luzes da cidade e acolhedores os engarrafamentos.
- Nem sabes como sentia saudades desta malta… - e apontava o Rossio à pinha. - Se soubesses o que custou…
- Sei é que mudaste ... - Aproveitou o sinal vermelho para o olhar e afagar-lhe o rosto. - Talvez demasiado…
- Ficas desiludida ?
- Não, meu tonto. Talvez assustada…
- Olha, quero viver durante estas férias, compreendes? Quero saborear a liberdade durante estes dias.
O sinal passara a verde, o engarrafamento terminara…
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Dez 28, 2010 10:06 pm

As férias iam a meio e já estavam assombradas pela próxima partida. Sabia que a Especialidade de Amanuense seria uma brincadeira, mas mesmo assim implicava voltar a ficar semanas longe de casa.
Ia partir um dia antes para visitar os avós que não via desde as últimas férias grandes.
- No Fim de Semana já cá estou … - disse para a confortar - Vais comigo até à Estação ?…
- Sabes bem que sim…
Ficou feliz quando ela voltou a sorrir.
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Jan 05, 2011 8:41 pm

- Então menino Pedro, por cá?
O velho pescador remendava as redes que se amontoavam por todo o areal.
- Que faz o Mestre António fora da sua traineira ? - interrogou, estranhando vê-lo ali.
Desde sempre o barco tinha sido a sua casa. Era como se estivesse noutro mundo, ali, sem balançar na companhia do bater das ondas no casco.
- Já não tenho traineira… - e sorria comprometido. - Vendi-a, por minha vontade. - acrescentou para afastar a sombra de alguma desgraça.
- …
- O Mar não respeita a velhice de ninguém… No fim da viagem sabe bem descansar em terra firme.
- Não é velho …
- Para lá caminho. Agora dou uma mãozinha ao meu genro para me entreter… O Mar é para os mais novos…
Enquanto observava a rapidez com que as mãos trabalhavam as redes, pensava como tinha mudado aquele homem que tanta admiração lhe despertara durante tantos anos.
Recordava umas férias em que estava no molhe quando os barcos preparavam a saída para a faina e passou junto da traineira que balançava suavemente.
- Mestre António, não me deixa ir consigo ?… - perguntou quase por brincadeira.
- Hoje não, que o Mar está picado !…
A suave recusa deu-lhe ânimo.
- O quê?! Isto mau?… - com um gesto largo abrangia todo o horizonte. - Deixe lá ir…
- Rapaz, vai lá à tua vida …
- Deixe lá… - teimava.
A insistência começou por o aborrecer, mas finalmente aflorou-lhe ao rosto um sorriso matreiro e, piscando o olho ao maquinista, mudou de opinião.
- Os teus avós sabem ?…
- Eu avisei … - mentiu.
- Vem então, mas depois não te queixes…
- Nem tempestades, quanto mais isso do Mar picado. - atirou para provocar.
Só respirou de alívio quando a traineira apontou à saída do porto de abrigo. Ia mostrar que nem só os pescadores sabem andar de barco.
- Então Mestre António, onde está esse papão ?… - começou a brincar ainda as luzes do porto não tinham desaparecido.
- Espera pela pancada ! - respondeu sem afinar, repetindo : - Espera pela pancada meu menino…
Dentro em pouco o barco balançava com uma amplitude que Pedro nunca sentira. As risotas dos pescadores eram promessas do desastre em que não tinha acreditado.
- Quando as lançam ? - perguntou, esperando ver as redes serem lançadas borda fora o mais breve possível.
Mas para grande desespero, lá continuavam inertes, junto às bóias…
O balançar do barco era agora acompanhado pelo corpo, porque a cabeça não sabia por onde andava. Daria tudo por um instante sem balanços, mas até o mastro vinha de encontro a ele. Não ligava às gargalhadas dos pescadores, o pior eram as redes que dançavam à sua volta, em breve acompanhadas pelas cordas e pelo próprio barco que parecia troçar dele.
- Então rapaz ?… - ouvia ao longe, muito longe.
Deu por si debruçado sobre o mar que lhe salpicava o rosto. Sentiu um gosto amargo na boca, e muito alívio…
- Estás melhor rapaz?…
- Sei lá… - disse, meio tonto.
O porto já estava à vista, o porão vinha cheio de peixe ainda a saltar.
Quando a traineira encostou, tentou disfarçar o embaraço e assumiu a postura de vencedor de tempestades, que salvando navio e passageiros, era aguardado em terra como um herói.
Saltou para o cais antes de atirarem as amarras, e de peito cheio ainda fanfarronou:
- Quando precisarem de ajuda, já sabem ... - e de pernas trôpegas, reunindo todas as forças, lá se afastou assobiando.
Acenou um último adeus no fim do cais, e logo na sombra da primeira árvore, longe das vistas, se deitou tonto de cansaço. Antes de adormecer tentou lembrar o que se tinha passado, mas tudo se esfumou quando adormeceu.
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Jan 12, 2011 8:36 pm

Depois da recruta, a Especialidade era uma simples pasmaceira. As horas de instrução eram em grande parte passadas a dormir, e as restantes em amena cavaqueira. Às sextas feiras o Fim de Semana era praticamente automático.
Era dos poucos que parecia preocupar-se com a nota final do Curso, e que se esforçava por aprender a escrever à máquina ou a fazer o mínimo tempo possível na pista de obstáculos.
Quando percebeu que grande parte dos camaradas não deviam estar ali pelos Testes Psicotécnicos, entendeu o tratamento previlegiado que lhes era consentido.
Grande parte eram meninos maus de famílias boas, outros tinham conhecimentos importantes, e só alguns estavam ali por serem as pessoas certas no lugar certo...
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Jan 16, 2011 4:26 pm

As provas finais correram-lhe de tal maneira que obteve a terceira melhor nota do Curso, o que lhe garantia uma colocação em Lisboa, e, muito provavelmente, evitaria a sua mobilização para o Ultramar.
A alegria resultante da classificação só ficara assombrada pelo último lugar obtido pelo Zé Mao - o contestatário de serviço durante o Curso.
As suas dúvidas sobre o sentido da presença Portuguesa em África e as reservas relativas ao esforço da guerra, despertaram em Pedro muitas interrogações.
Pelo Zé Mao teve conhecimento dos jornais clandestinos que faziam eco das violências praticadas nas colónias, das contestações de muitas Associações de Estudantes, dos jovens que desapareciam de repente e saíam do país a salto.
Do Zé Mao recebeu uma fita gravada com canções apelidadas de revolucionárias. Le Désérteur, cantada por Moloudji, que fora uma das canções mais tocadas nas Universidades, a Ronda dos Paisanos de Zeca Afonso, e muitas outras que guardava cuidadosamente.
Tinha também um folheto contra a guerra que o Zé Mão distribuira, e que dizia:
“JOVEM !... Se queres bronzear-te, aprender um bom ofício, conhecer a aventura, levar um tiro nos cornos, ser herói e arrecadar um capote de Madeira, ALISTA-TE para a Guiné, Angola ou Moçambique”
Com a classificação obtida, o Zé Mao ia de certeza pelo menos ficar bronzeado muito em breve...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qui Jan 20, 2011 1:15 pm

Quando se falava na Santa Igreja Católica, o Zé Mao ficava doido. Começava logo a falar mal do Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa.
- Vocês já viram que esse gajo andou a mamar desde 1929, e foi preciso o Vaticano dizer para ele deixar a teta?…
Depois parecia nunca mais parar…
- É pior que o Salazar, o fascista que esteve mais tempo no poder em Portugal. O Cerejeira foi o sacrista com o pontificado mais longo da diocese de Lisboa, e só resignou por imposição do Vaticano!
- Tem calma… - pedia-lhe o Pedro.
- Qual calma, qual quê! Então o gajo ainda por cima não diz que vai embora apenas por obediência ao Papa, uma vez que para ele o episcopado era uma espécie de núpcias com a Igreja, e só a morte devia interromper a mama!
Era um problema para o Zé Mao mudar de tema. Falava da Inquisição, da riqueza do Vaticano, das tramóias do Papa com Hitler, do apoio da Igreja à Guerra Colonial…
- Reparem que a Igreja esteve e está sempre contra o progresso. Ainda não conseguiram aceitar que o Sol não gira à roda da Terra.
O toque para a formatura acabou finalmente com a conversa.
O ódio do Zé Mao à Igreja Católica tinha começado no Liceu.
O Chico Moralista - professor de Religião e Moral - queria ser respeitado, mas apenas conseguia ser temido. Andava sempre muito bem vestido, de fato escuro e lençinho ao peito. Falava muito alto e passava as aulas a criticar toda a turma. Todos eram uns malandros devassos e impuros. Por vezes acrescentava outras acusações mais esquisitas que lhe vinham à cabeça atormentada.
Se alguém não respondia correctamente a uma citação da Bíblia, vinha logo o sermão.
- Vocês são muito burros! Estudem mais em vez de pensarem tanto no futebol. Juventude perdida… Se fossem meus filhos podem ter a certeza que andavam bem afinadinhos…
Quando a encarregada do refeitório lhe veio dizer que o Zé Mao andava a falar muito com uma empregada da cozinha, foi do bom e do melhor.
- Este desgraçado não merece estar na nossa companhia. - e apontava o dedo no direcção do Zé Mao. - É um fornicador sem vergonha, um perigo para todos os lares com jovens puras e ingénuas que podem cair na lábia deste Don Juan do bairro da lata. Não podemos estar misturados com este violador de cozinheiras.
Felizmente tocou para a saída e as coisas ficaram por ali. A partir dessa aula, o Zé Mao viveu aterrorizado sempre à espera de um novo sermão sobre aquele tema.
Um dia que tinham ido jantar fora para comemorar os anos do Arrebenta - o colega mais velho da turma - combinaram acabar a noite com uma ida ao Intendente, às casas das putas.
Era uma novidade para todos com excepção do Arrebenta, que dizia já ser um frequentador regular e que se prontificou para ser o guia.
Quando entraram num bar, sentado numa mesa logo à entrada, o Chico Moralista, desgrenhado e embriagado, estava agarrado a uma das prostitutas mais ordinárias e feias. Beijava-a na boca que estava suja do baton esborratado.
O ódio do Zé Mao à Igreja Católica começou nessa altura.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Jan 21, 2011 3:42 pm

O Zé Mao tinha sido expulso da Escola por não querer aturar o Chico Moralista.
Na ficha escolar constava que tinha sido expulso por não querer frequentar a aula de Religião e Moral.
O director acrescentara uma nota a dizer que se podia estar na presença de um perigoso comunista.
O Chico Moralista - professor de Religião e Moral - gostava de o provocar, e enrolava o cabelo do Zé Mao nos dedos, puxando-o pela sala enquanto lhe perguntava se ele era dos porcalhões que liam as novelas de amor aos quadradinhos.
- Gostas de ver aquelas porcarias dos beijos na boca?… - perguntava-lhe o Chico Moralista, enquanto lhe puxava a cabeça para baixo.
Parecia que o destino não queria nada com o Zé Mao…
O pai do Zé Mao tinha sido despedido por ter sido detectado numa manifestação contra o Governo. Alegou que só ia a passar por ali, mas o porteiro que já lhe tinha retirado da parede o cartão de ponto, não quis saber e disse-lhe para passar pela secção do pessoal, para se fazerem as contas.
Era um quadro médio honesto e cumpridor de seus deveres.
Quando tentou recorrer da decisão da Empresa ia ficando preso.
Depois de meses perdidos, a Empresa apresentou queixa na policia com vários relatórios apontando fraudes diversas, desvios de dinheiro, tráfico de drogas e de influências, falsificação de documentos, favorecimento de informações privilegiadas, quebra de sigilo, etc…
Vários colegas eram testemunhas da acusação.
Num acto magnânimo, e atendendo a que Deus também tinha perdoado aos seus algozes, o Patrão acedeu a retirar a queixa da policia se ele assinasse uma confissão e mostrasse arrependimento…
Assinou tudo, mas a revolta levou-o a ingressar no movimento Sindical e a incentivar as massas trabalhadoras. Participou em movimentos grevistas, distribuiu propaganda contra o governo e apelou ao fim da Guerra Colonial.
Ao abrigo da Lei de Segurança Nacional foi rotulado como Anarquista e depois Comunista.
Conseguiu fugir para o Brasil mas a família nunca mais soube dele.
O Zé Mao tinha tentado recorrer da expulsão, mas a empregada da Secretaria não podia fazer nada.
- Tenho ordens do Senhor Director, o menino foi expulso !… - repetia a pobre mulher.
Revoltado, atravessou o corredor que exibia nas paredes as fotografias dos notáveis.
O presidente Américo Tomás estava ladeado por Oliveira Salazar e Marcelo Caetano.
Em destaque um auto-retrato do Director...
O Zé Mao trazia sempre com ele uma colectânea das melhores frases do Tomás.
Quando ouvia algum disparate digno de constar na lista, o Zé Mao tomava nota. Queria fazer um folheto clandestino com as idéias do presidente e distribui-lo pelo meio estudantil.
O Zé Mao acreditava que o ridículo podia doer.
Tirou da mala uma caneta de feltro e escreveu na parede mesmo por baixo do retrato do Tomás: “O caminho certo é o que Portugal está seguindo; e mesmo que assim não fosse não há motivo para nos arrependermos ou para arrepiar caminho. (1964)”
Gostou tanto da idéia que passou logo para o quadro do Salazar.
“A Madeira é uma ilha, e como tal as suas fronteiras defrontam sempre a água. (1962)”
O Marcelo Caetano foi a seguir...
“Turismo sem cais acostável é hoje quase impossível. (1962)”
Quando chegou ao quadro do Director, parou para pensar. Aquele merecia um tratamento especial.
Nesse momento, um empregado que saía da Secretaria desatou a gritar.
Os contínuos não sabiam o que fazer e entreolhavam-se assustados. O porteiro - que tinha sido comando durante o serviço militar e que constava ser da Pide - agarrou o Zé Mao pelo cós das calças.
Daí a instantes, o corredor estava cheio de gente. O Director e os professores não sabiam se deviam apagar as inscrições, ou chamar a Policia.
- O Senhor Director está muito bonito no retrato! - dizia o Zé Mao, que fazia o último discurso enquanto era arrastado pela Policia para fora da Escola.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Jan 28, 2011 11:01 pm

O Director era um verdadeiro ditador. Gostava de repetir vezes sem conta que era um homem com pleno domínio das faculdades mentais, com opiniões bem fundamentadas, conservador e com os impostos em dia.
No entanto, só tinha problemas e contrariedades. Aparecia sempre alguém a desobedecer ou a pensar de maneira diferente dele, o que o fazia ficar azedo e aborrecido.
As carteiras da aula desalinhadas, os livros fora do sítio, as portas a ranger, a melga a zumbir, os saltos das empregadas a bater no chão, tudo parecia de propósito para o contrariar…
Queria que as pessoas acreditassem sempre naquilo que dizia, mesmo quando nem ele acreditava.
Estudava metodicamente todos os acontecimentos diários, os quais relacionava entre si, tendo em vista estabelecer um padrão conhecido.
Uma chamada telefónica com ruido, um olhar de lado de algum professor, uma cagadela de pássaro no carro, a sopa pouco quente ou uma nódoa na gravata, eram parâmetros importantes.
Assistia ao programa ZipZip da RTP e antecipava as respostas dos entrevistados ou imaginava como reagiria ele se estivesse no local da cena.
Criava inimigos imaginários e odiava-os com todas as forças.
Tinha uma grande necessidade de afeição e reconhecimento, mas as responsabilidades que lhe estavam cometidas eram motivo de inveja, pelo que desconfiava sempre das intenções de quem o rodeava.
Gostava de criar situações constrangedoras para os subordinados e observar os respectivos comportamentos, memorizando as fraquezas para as utilizar no futuro.
Quando queria convencer uma plateia, atacava primeiro os tímidos e os ignorantes, e só depois os restantes. Ficava deliciado por ter sempre razão e esmagar quem não concordava com ele.
Era perito em oprimir as pessoas menos cultas. Jogava com as palavras e ia apontando contradições até o oponente ficar encurralado e vexado, exigindo finalmente um sinal de agradecimento pela atenção concedida a tal ignorante.
Quando desabafava com a mulher e ela concordava, ficava exasperado, acusando-a de não o levar a sério, mas se o contrariava mandava-a fechar a boca e deixar de dizer disparates…
Este homem era o responsável pela educação de milhares de alunos…
O Zé Mao ficou com o destino marcado quando entrou naquela escola.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Fev 07, 2011 10:35 pm

Como previa, Pedro foi colocado numa Unidade em Lisboa, na qual se limitava a permanecer durante a semana das nove às cinco.
Tinham decidido viver juntos para aproveitar todo o tempo perdido...
Gostava da tia Maria do Amparo, que se esforçava para não lhes invadir a privacidade, sem reparar que devido ao tamanho da casa, isso seria uma missão quase impossível.
A felicidade seria total, se o Matacão não fosse vizinho...
Tudo corria sobre rodas, bastando aplicar o princípio do boné de pala que consistia em nunca olhar para o que faziam os superiores. A grande maioria dos militares de carreira não sabiam fazer mais nada. Na vida civil nunca teriam a importância que exigiam, nem teriam subalternos mais capazes do que eles.
A directiva mais importante consistia seguramente na dispensa de usar boina dentro da Unidade, o que automaticamente evitava dezenas de continências...
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Fev 15, 2011 2:40 pm

Maria do Amparo vivia a felicidade da sobrinha com muita alegria e ansiedade. Queria que a Luísa conservasse o que ela tinha perdido de forma tão leviana.
Tinha casado por procuração com Alfredo - tio da Luísa - que tinha conseguido enriquecer em Angola.
Inicialmente pensara que a culpa tinha sido de Martinho, mas os anos deram-lhe tempo suficiente para compreender.
Tudo começara com um pequeno desentendimento que pouco a pouco se transformou num tormento.
O orgulho tinha destruído a confiança, e um rancor alimentado pelo silêncio passou a governar.
Daí à infidelidade foi uma questão de oportunidade.
Tinham passado muitos anos, mas continuava a querer regressar e recordar os pássaros a cantar no silêncio da mata.
Estava cansada de tantos anos de lágrimas, sem poder escoar a raiva que a invadia em vez de continuar a chorar pelos cantos da casa, em silêncio...
Não encontrava mais forças para racionalizar ou rebater o passado.
Sentia-se sozinha num lugar a que nunca iria pertencer.
Talvez um dia conseguisse regressar, nem que fosse com asas, depois de subir aos céus...
Gostaria de voltar para Alfredo, mas tinha poucas esperanças que tal acontecesse algum dia. Era o único sonho que carregava.
Assistia à felicidade de Luísa e ficava tentada a escrever-lhe, nem que fosse apenas para lhe dizer adeus...
Maria do Amparo gostava de pouquíssimas pessoas o que aumentava a qualidade do amor que tinha para dar.
Os anos tinham-lhe dado força para encarar os erros passados, e fazia questão de assumir que, se pudesse voltar atrás, faria muitas coisas de maneira diferente.
Tinha muitas saudades de Alfredo, mas também daquela terra vermelha e dos pássaros a cantar no silêncio da mata...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Mar 26, 2011 1:54 pm

Enquanto registava o correio para despacho ia ouvindo a conversa habitual dos Escriturários. Pensara por várias vezes proibir aquela verborreia, mas como o Capitão mesmo ao lado parecia não ligar, não queria ser ele a assumir o confronto.
- Quer dizer que o cabrão do teu pai ontem não apanhou nenhuma bebedeira ?...
Foi o inicio da discussão dessa tarde. Era difícil algum deles se ofender, o que lhes dava abertura para um variado leque de palavrões, invenções e falsos testemunhos.
Faziam destas batalhas verbais uma luta contra o tédio.
Aproveitou a confusão gerada por uma disputa mais acesa para atirar disfarçadamente para o caixote do lixo algumas cartas sem interesse que não valiam a pena dar entrada.
- Com que então andas a meter a tua mulher a atacar, não é verdade?...
- Pois é... - fingia concordar.
- Fazes senhas verdes não é ?... - continuava.
- Não sou é chulo ! - atacava agora o Cabo Lopes, virando a frente de ataque.
- E eu sou ?... - respondeu pouco à vontade o Cabo Dias.
- Pois és... A viver com uma velhinha que queres que eu te chame?... É amor, não ?...
- Não sejas porcalhão... - notava-se não estar a gostar do tema.
Toda a secção de dactilografia aproveitou logo para atacar nesse ponto fraco.
- Diz lá à rapaziada como é que consegues comer aquilo, tudo cheio de rugas... - com gestos tentava representar a repugnância que o invadia.
- Vai meter a tua mulher a atacar !... - voltava ao primeiro argumento, já um pouco zangado.
- Mete mas é a velha... - respondia o outro.
A brincadeira prometia ir mesmo aquecer, quando o Capitão, que permanecera sentado silenciosamente à secretária, interrompeu.
- Não consigo compreender... - olhava para eles - Chamam nomes às mães, às mulheres, mas daí a pouco já estão bem e começam outra vez. São uns homenzinhos... Não posso compreender...
Mantiveram-se em silêncio até o Capitão sair com a pasta para ir a despacho, mas mal a porta se fechou...
- Olha lá, tu não és filho do Anão do Poço do Bispo ?...
- Ah, pois sou...
Como viu que por ali não levava nada, voltou-se para o do lado.
- Sabes uma ?... Fui ontem a casa deste gajo. Palavra... - assegurou quando o outro começou a rir. - O pai chega a casa com uma grande bebedeira, senta-se à mesa, mete as botas todas cagadas em cima e grita para a mulher : “Maria, venha a merda do comer que estou cheio de fome”
- Tomarás tu meu porco... - defendeu-se o visado. - És um teso de merda, ou pensas que por teres um BMW a cair aos bocados, interessas a alguém ?... E nem é teu, é da velhota, meu chulo...
- Ao menos ando de BMW, mas tu andas com uma merda que nem tem radiador... – e fazia gestos de desprezo. - Um Wolkwagen... isso nem é carro. Sem radiador...
E foram continuando sem se zangarem, acabando por se calar...
Ao fundo da sala, o Cabo Chicão meteu os pés em cima da máquina de escrever começando aos pezões no teclado, até grande parte das teclas ficarem presas. Como não se soltavam, levantou-se e atirou com a máquina, uma Messa, para cima da mesa ao lado, provocando a saída do carro que caiu no chão.
- Estou farto desta merda, meu Furriel... - disse com ar culpado.
Atirou mais uns pontapés, arrumou a máquina e saiu para ir até ao bar.
Faltavam-lhe 18 dias para passar à disponibilidade, mas aquela postura era muito perigosa...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Jun 21, 2011 9:13 pm

Pedro também conhecia um anão, mas não era o do Poço do Bispo, que, por sinal, até morava no Bairro Chinês.
Na aldeia dos avós vivia um anão muito feio a quem chamavam Trambolho. Nem todos os anões são feios, mas este tinha uma cara de mau que o tornava mesmo feio.
A cara estava de acordo com o homem. Era mau como as cobras…
As pessoas nem gostavam de olhar para ele receando receber algum mau olhado.
A avó dizia que quando alguém acordava com um treçolho - inflamação que aparece nas bordas das pálpebra - nunca utilizava a crença popular para a cura, com medo do anão…
A última pessoa que tentara passar o treçolho para o anão utilizando as rezas apropriadas, tivera de ser operada.
O Trambolho era muito vaidoso e fazia questão que o tratassem por senhor, mas com o cão que ele tinha sempre junto dele, muito preto e feio como o dono, qualquer pedido era uma ordem…
Trazia sempre na mão o cabo de uma enchada que tinha fama nas redondezas.
As crianças e os animais nunca estavam seguros. Os cães quando lhe sentiam o cheiro ao longe fugiam dele como do diabo.
O Trambolho fazia o que queria não só por ser o único filho da viúva mais rica daquelas bandas, mas por ter a protecção incondicional do Padre, que diziam ser o pai…
Com o tempo, o cão parecia querer ficar pior que o dono. Ladrava com ódio, esgravatava onde queria e saltava as cercas das casas para destruir as flores dos canteiros. As pessoas atrás das portas e janelas assistiam a tudo cheias de medo do bicho, que espumava pela boca.
Uma dia entrou pela igreja e quase destruíu o altar, deixando a imagem da Nossa Senhora de Fátima sem um braço.
O sacristão apareceu com a caçadeira, mas o Trambolho saiu em defesa do animal, e deu-lhe cá uma paulada na cabeça que por pouco não o matou. O sacristão não morreu, mas nunca mais ficou bom da cabeça…
Quando toda a gente andava desesperada sem saber o que fazer, chegou um circo à aldeia.
Uma das grandes atrações do circo era uma anãzinha engraçada que logo chamou a atenção do Trambolho.
A partir dessa altura, passava os dias a rondar o circo…
A sua paixão era tal, que, a conselho da mãe, acedeu a abandonar o pau que sempre o acompanhava para assumir uma postura mais cativante.
O cão passou a olhá-lo de um modo diferente…
Um dia quando ia levar um ramo de flores à sua amada, o cão ficou como louco…
O Trambolho ficou tão maltratado que toda a aldeia ficou triste com tamanha infelicidade…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Jun 27, 2011 12:33 am

A oposição à Guerra Colonial ia ganhando cada vez mais adeptos na sociedade Portuguesa. Os Partidos Marxistas radicais lideravam a contestação nas Universidades, e influenciavam os intelectuais e os movimentos de juventude.
Quando soube que a Luísa era militante do MDP/CDE - uma das mais importantes organizações políticas da Oposição Democrática - ficou com medo por ela.
- Não me peças que fique sem fazer nada...
- Por favor... Queres ser La Passionara da linha ?...
- Não digas disparates...
Era a primeira discussão que tinham, mas ele não queria discutir...
- Mas porquê, Luísa ?...
- Quem sabe se a minha ajuda vai contribuir para tu não ires para a maldita guerra...
Ficou sem saber o que dizer...
Gostava tanto de dizer-lhe que pensava que o mundo ficaria muito melhor quando o último político fosse enforcado com as tripas do último advogado, mas não lhe parecia que a ocasião fosse a mais indicada.
- Amor, sabes bem o que penso dos políticos...
- Eu não faço política. Só não quero que partas para longe de mim...
Ficaram abraçados até Luísa adormecer cansada de chorar...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Fev 01, 2012 12:52 pm

A fama de que o pai do Matacão era da Pide já vinha dos tempos do liceu, mas quando conseguiu livrar o filho da tropa sem se saber porquê, as dúvidas aumentaram.
A certeza veio quando a Luísa acabou por contar que o Sr. Morais - o pai do Matacão - era sócio dos pais em alguns negócios.
E sabia mesmo toda a história…
O Morais era um desgraçado que depois da quarta classe passou a guardar ovelhas e a trabalhar no campo.
Aos doze anos já estava farto e foi para Lisboa trabalhar como marçano até aos vinte anos quando foi para a tropa.
Foi durante a prestação do serviço Militar no Norte de Angola que conheceu os pais de Luísa e iniciaram uma frutuosa amizade.
Mal regressou meteu os papéis para ingressar na PIDE.
Até realizou provas físicas, e testes psicotécnicos...
Passou em tudo isso...
O que deu mais trabalho aos pais da Luísa foi conseguirem colocá-lo nos serviços administrativos da Alfândega na Rocha de Conde de Óbidos, que era simultâneamente uma Fronteira Marítima.
Só nesse instante é que Pedro compreendeu porque é que o Matacão tinha uma bicicleta toda de alumínio que pesava menos do que a do Joaquim Agostinho, enquanto os colegas só tinham pasteleiras, com travões de alavanca.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qui Fev 02, 2012 10:08 pm

Mas o Sr. Morais era um trabalhador dedicado.
Não fazia descriminações entre contrabandistas, cumunistas ou simples agitadores, torturando todos com igual competência.
Decorridos apenas alguns anos, deixou de carimbar passaportes e passou a Chefe de alfândega.
As comissões que os pais de Luísa pagavam foram de imediato aumentadas, mas os negócios continuaram a caminhar sobre rodas…
Os caminhos da repressão iam dar à Rua António Maria Cardoso, um lugar de sofrimento e de violência.
Circulavam relatos de pessoas torturadas e maltratadas…
A Pide não era apenas uma polícia para salvaguarda da ordem. Podia fazer o que quisesse não precisando de ordens para torturar.
A tortura era exercida como método para arrancar confissões já previamente definidas, não interessando o que o interrogado tinha ou não feito, mas o que pensava…
Castigavam os corpos para arrancar pensamentos…
O Matacão era um perigo, mesmo ali à porta…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Fev 03, 2012 1:22 pm

Nunca soube porque tinha o Matacão ajudado o pai do Testas...
O Sr. Correia estava à secretária já a madrugada ia avançada. Preparava uns textos para um jornal clandestino, quando bateram à porta.
O Testas acordou estremunhado e foi ver quem era...
Eram eles outra vez....
O Sr. Correia já abria a porta quando se lembrou que não tinha escondido o que estava a escrever.
- Faça o favor de nos acompanhar! - dois dos homens vestidos de negro, com chapéus e óculos escuros entraram para revistar a casa, enquanto os outros o levavam.
Durante dias não soube nada do pai, que sofria horas de socos e pontapés intervaladas com queimaduras de cigarro.
O Testas não sabia se ele estava em Caxias ou sequer se ainda era vivo.
O pouco que sabia era pelos outros que já tinham também conhecido as celas do Aljube, de Caxias ou até de Peniche.
Quando voltou para casa, o Sr. Correia nada contou.
Tinha sido despedido e era difícil voltar a conseguir emprego, porque mesmo os melhores amigos tinham medo de ser acusados de dar trabalho a um comunista.
Todas as noites teimava em escrever textos contestatários e sintonizava na telefonia a Rádio Portugal Livre, que portugueses fugidos ao Regime e à Guerra Colonial transmitiam da Argélia.
O Testas pedia-lhe para pôr o volume mais baixo, mas quando soava a Internacional ou o Hino da Batalha, o entusiasmo fazia-o esquecer todos os pedidos do filho.
As visitas à António Maria Cardoso repetiam-se e as pernas sujeitas às repetidas torturas da Estátua que o obrigavam a ficar de pé durante dias, começavam a dar de si.
As varizes rebentavam devido à pressão, deixando feridas nas pernas que eram cada vez mais difíceis de cicatrizar.
Mas, para desespero do Testas, não parava de distribuir jornais e panfletos clandestinos, nem faltava às reuniões com os camaradas.
Um dia a Pide levou-o e nunca mais voltou...
Uma tarde no café, o Matacão deu ao Testas a notícia por que ele tanto esperara...
O pai estava finalmente em paz...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Fev 04, 2012 9:19 pm

Com o Sr. Morais na casa em frente, era conveniente manter uma boa vizinhança...
Pedro tinha a certeza de que a Pide já tinha conhecimento de que a Luísa era militante do MDP/CDE.
Todas as conversas do Sr. Morais pareciam ter o objectivo de levar a Luísa ao bom caminho...
O Matacão bem tentava puxar pelo Pedro...
- Marcelo Caetano orienta-se por uma política de verdade... - dizia o Matacão.
E o Sr. Morais ajudava.
- É verdade. Conduz-se pelo espírito de servir, onde o bem comum é o seu objectivo cimeiro. É bom notar que a política de verdade está no cerne da governação, permitido o clima de respeito e o ambiente de tranquilidade, ordem, paz e confiança no presente e no futuro.
Pedro não conseguia deixar de admirar aquelas tiradas. O Sr. Morais era um desgraçado que depois da quarta classe passou a guardar ovelhas e a trabalhar no campo.
Como lhe devia custar decorar aquelas frases...
- Não achas Pedro ?... - concluía o Matacão.
- Sabes bem que não percebo nada de política...
- Claro que existem alguns espíritos transviados com ideais e interesses contrários à Nação... - o Sr. Morais olhava para Luísa.
E o serão continuava com os chavões habituais.
A política de verdade justificava a censura, que acabava por exercer uma função pedagógica na opinião pública...
O Estado Novo era o responsável pelo ressurgimento nacional e a colonização portuguesa era orientada para o desenvolvimento dos territórios e promoção de todas as raças.
Pedro reparava que cada afirmação parecia esperar uma reacção de Luísa, que ia folheando uma revista com aparente pouco interesse pela conversa.
- Pois é Pedro... Deus queira que não... Mas se fores para o Ultramar, vais ver que são as missões protestantes, os americanos e os grupos políticos ligados à URSS, que alimentam o terrorismo. - continuava o Sr. Morais.
Nessas noites Luísa tinha sempre pesadelos terríveis...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Fev 05, 2012 9:35 pm

Luísa sonhava que estava no cais com todas as mulheres dos homens que tinham ido para a guerra.
Do barco vinham descendo numa fila interminável, soldados com os camuflados sujos e rasgados. Muitos vinham feridos com as ligaduras manchadas de vermelho.
O barco parecia um imenso formigueiro que se escoava pela escada de portaló e inundava o cais.
Não havia maneira de Pedro sair…
Nos varandins da gare, mulheres vestidas de negro esperavam pelos maridos que regressavam em caixões.
Algumas aguardavam apenas por notícias que nunca eram suficientes.
Sentia-se um cheiro de sangue no ar.
Filhos pequenos agarravam as saias das mães, confusos, sem entender o que se passava.
Ninguém sabia como aquilo tinha começado. Quando deram por isso já todo o país estava envolvido.
As esposas e as mães tanto pediam a protecção de Deus, como duvidavam da existência divina.
E o Pedro continuava sem sair…
Os agentes funerários, vestidos de preto, faziam grupos no cais. Quando um caixão saía do porão, corriam para os parentes a oferecer os serviços.
Um rabo peludo e negro saía-lhes debaixo dos casacos compridos.
De repente, um com chifres e de olhos vermelhos avançou para Luísa…
Felizmente Pedro conseguira acordá-la antes que as garras a atingissem.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Fev 06, 2012 11:09 pm

O Sr. Morais estava casado com uma mulher que não o amava, nem o tinha algum dia amado.
Tinha uma boa situação financeira e comprava-lhe vestidos de luxo e jóias que as amigas invejavam.
O casamento tinha sido arranjado pelos pais da Luísa , que ajudaram a resolver o problema de uma menina má de uma família boa…
O Sr. Morais era dedicado ao governo, e não deixava que a mulher se intrometesse, com pedidos de amigos que não compartilhavam os ideais Nacionais...
Não tinha muitas amizades, sendo a maioria por interesse ou por medo.
Para ele, a mulher havia nascido para servir o homem, e quando acabou por compreender que aquelas ideias não se podiam aplicar a uma mulher que sempre tinha sido mimada por uns pais ricos, e que apenas queria da vida amor, já era tarde demais…
A monotonia a que o Sr. Morais a condenava era um pesadelo. Quando precisava de alguma coisa, os empregados iam à rua comprar…
As compras dos objectos pessoais eram feitas pelo marido, que quando duvidava do seus gostos adquiridos nos montes com o gado, mandava os vendedores a casa para ela escolher.
Os vestidos eram mandados fazer fora, mas a modista vinha a casa tirar as medidas, com as amostras dos tecidos…
A lida da casa era feita pelos empregados.
Conforme o Sr. Morais foi progredindo na carreira, as exigências sociais iam aumentando, e passaram a frequentar teatros e festas com finalidades políticas.
Quando desfilavam, ele exibia a beleza da mulher, provocando a inveja naqueles vaidosos que continuavam a chamar-lhe boçal.
Pisava os salões com um olhar duro, orgulhoso, de cabeça bem erguida que prontamente se inclinava perante um superior…
Sentia-se ainda mais importante quando aparecia em qualquer recorte de jornal ou revista.
A mulher recebia os beijos repugnada, sem poder fugir ou alegar desculpas, porque ele tinha um temperamento terrível.
O Sr. Morais na cama tinha um comportamento muito diferente do dia a dia. Não era aquele homem taciturno e controlado, mas um selvagem sedento de desejos que amava como um louco.
Satisfazia por vezes a mulher, que, carente de amor e carinho, sabia que aqueles momentos não eram de amor nem carinho, mas apenas de desejo.
Ela não se culpava por aqueles momentos com o marido, que a faziam sentir-se uma mulher desejada.
Não compreendia como ele podia ser tão frio no dia a dia e tão apaixonado na cama, quando mergulhava naqueles seios, esfomeado, e a fazia gemer de dor e prazer.
Com o tempo, o desejo na cama esgotou-se também...
Quando o Matacão nasceu, o Sr. Morais acalmou um pouco, dedicando-se com especial cuidado à educação do filho que queria moldar à sua semelhança...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Fev 07, 2012 10:25 pm

VI - A Guerra

Para um Atirador, a Especialidade devia ser de maneira a preparar para o que se ia encontrar no Ultramar, de acordo com o princípio de que um treino difícil resultava numa guerra fácil.
Durante a recruta aprendera a nomenclatura e o funcionamento das armas, a orgânica e a rotina militares, mas agora a incidência dos treinos consistia em aprender a fazer emboscadas, a montar e desmontar minas e armadilhas, e como matar ou pelo menos a não ser morto.
Alguns veteranos não deixavam de avisar que nada, absolutamente nada nem ninguém os podia preparar para uma guerra que, afinal, parecia ser a razão da presença deles ali.
Os que gostavam de dizer que nos podiam vencer o corpo mas nunca o espírito, ainda não tinham caído exaustos na lama, onde se deixa o espírito para continuar em frente.
Manuel não conseguia fugir ao sistema que o estava a transformar num autómato que só acreditava no clarim…
Recordava que Pedro lhe dissera que os queriam encher de ódio para no momento certo, este se virar contra o inimigo, mas já nem sabia onde estava o inimigo.
O dia tinha sido passado a correr de G-3 às costas, com um calor terrível que se transformava num frio de gelar durante a noite. A distância do mar provocava uma grande amplitude de temperatura.
Tinha as mãos gretadas do frio e doridas, mas o pior era a dor de garganta...
Mas que importância tinha isso, comparado com o que acontecera ao 324 do 2º Pelotão. O desgraçado tinha caído por um penhasco abaixo e partido um braço e duas costelas. Perdeu a Especialidade e ficou com um Auto em cima, por ter partido a coronha da espingarda.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Fev 08, 2012 10:33 pm

Quando terminou a Especialidade recebeu a ordem de Mobilização e, logo depois, a Guia de Marcha para a Unidade onde se juntaram os restantes militares, vindos dos diversos Centros de Instrução.
Os acontecimentos sucediam-se a um ritmo alucinante, como se pretendessem que não houvesse tempo para pensar.
Parecia viver um pesadelo. Num ápice a Unidade estava formada e tinha sido realizada a IAO - Instrução de Aperfeiçoamento Operacional - com os conselhos sobre o que fazer em África para sobreviver.


A habitual licença, antes do embarque, para a ida a casa tinha provocado a falta de uns tantos, que tinham decidido dar o salto para o estrangeiro ou baixado ao hospital, sabe Deus porquê…
Depois de receber as vacinas e o camuflado veio a ordem de embarque.
Toda a companhia formou na parada, em frente às casernas. Foram dadas as últimas recomendações e entregues aos cabos e aspirantes milicianos as divisas correspondentes à subida de posto.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Fev 10, 2012 12:14 am

O cais era pequeno para tanta gente e as famílias apinhavam-se nas varandas da gare marítima com lenços a acenar, cartazes com o nome do ente querido, e lágrimas de despedida…
Acotovelavam-se no desespero de conquistar um espaço mais à frente, que lhes permitisse descortinar o rosto conhecido no meio do verde que enxameava o navio.
O barco estava terrivelmente inclinado para o lado direito, parecendo ir cair a qualquer momento em cima do cais.
Por volta do meio-dia, o Vera Cruz recolhera as escadas e os cabos. Com a sirene a apitar, o navio afastou-se lentamente, com a proa virada para a foz do Tejo, passando por debaixo da Ponte e diante da Torre de Belém.
Ficou na amurada até deixar de descortinar a Serra de Sintra…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Fev 10, 2012 4:57 pm

Quando o mar estava calmo, as refeições no convés quase pareciam um piquenique, mas em dias de tempestade era complicado.
Os respingos do mar salgavam a comida e os faxinas desequilibravam-se com o balanço, entornando a comida para onde calhava.
Os restos no chão provocavam mais escorregadelas e o pandemónio acabava por vencer o apetite dos mais resistentes ao enjoo.
A meio da viagem realizaram-se os exercícios de salvamento a bordo, e todos enfiavam o colete salva-vidas e se dirigiam à baleeira que lhes estava indicada em caso de naufrágio.
Ao passar o Equador, o Alferes prometeu três dias de Licença ao primeiro que visse a linha no Mar...
Não faltaram candidatos ao prémio, os quais acabaram por ser quem mais sofreram na cerimónia da passagem para o hemisfério Sul.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Fev 11, 2012 8:23 pm

Os contornos difusos de Luanda começaram a surgir com a primeira alvorada Angolana. O navio, que ainda de noite lançara âncoras ao largo, estava finalmente quieto, depois de tantos dias de mar alto. Manuel olhava ansioso a cidade, tentando distinguir uma certa África que não conhecia.
O calor tinha vindo a acentuar-se, à medida em que o barco avançava para sul, e era agora muito intenso.
Sentia um aperto na garganta por saber que para lá do horizonte, a guerra era uma realidade que o aguardava.
Quando o Vera Cruz se aproximou do cais, os estivadores negros pararam de trabalhar e prepararam-se para negociar com os recém chegados.
Na amurada, a 1ª Companhia de Caçadores, já estava ao ataque...
- É só barrotes queimados...
- Eh pá !... Hoje vou dormir com a tua mulher. - avisava o Alfama.
- E a tua filha também vai ficar servida ... - ameaçava o Melro.
Os negros olhavam, sorriam e falavam entre eles num dialecto que ninguém entendia.
- Está bem ?... - gritava o Alfama. - Ai de ti que não esteja lavadinha...
- Ou que cheire a catinga... - reforçava o Melro.
- Se não ficar satisfeito alinhas tu também, por isso vê lá se não queres ficar com o cu a arder...
Toda a Companhia ria com gosto, e os negros no cais também...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Fev 13, 2012 2:36 pm

O Melro não tinha ganho a alcunha por ter alguma coisa a ver com o melro-preto, uma das aves mais comuns de Trás-os-Montes. As únicas coincidências eram a cor escura que apresentava quando chegou ao quartel e a sua origem Transmontana...
Tinha passado a vida nos montes com o gado, não sendo atreito a muita higiene.
Em poucos dias a camarata estava em pé de guerra. Não se podia estar ao pé do Melro...
Quando o mandavam tomar banho, fechava a porta do chuveiro e ficava colado à parede a ver a água a correr, enquanto no exterior os camaradas cheios de esperança o iam animando...
- Está boa?... - perguntava o Alfama.
- Está!... - respondia lá de dentro o Melro sem tocar na água.
Os ânimos e o ambiente iam-se degradando dia após dia, ou melhor, noite após noite - quando o cheiro invadia toda a caserna.
As queixas foram subindo pelas patentes acima, até que chegaram ao Comandante de Esquadrão, que deu logo instruções muito precisas aos Prontos, para a resolução do problema.
Uma manhã, logo depois do toque de despertar, quatro Prontos agarraram no Melro e levaram-no para debaixo do chuveiro já aberto no máximo.
O Melro quando percebeu o que o esperava, ficou como louco, a vociferar e a espernear, já que os braços estavam bem agarrados...
Quando compreendeu que não tinha fuga possível, passou a implorar, mas os Prontos nem o queriam ouvir. Ao entrar em contacto com a água, o Melro começou a deitar espuma pela boca, mas os Prontos tinham ordens...
Pelo menos morria lavadinho...
O Melro acabou por desmaiar durante o banho.
Para os Prontos foi um descanso. Mesmo assim, era mais fácil lavar um corpo morto do que um furioso...
Finalmente levaram-no para a enfermaria onde acabou por ser reanimado.
O Melro, mesmo depois de lavado continuava muito escuro...
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