A LIBERDADE É AMORAL

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 O PUMA E A MANDIOCA...

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Anarca



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MensagemAssunto: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Dez 01, 2009 12:31 am

Escrevi este conto durante o Serviço Militar...

Apenas há alguns anos encontrei os cadernos rabiscados, e achei que as recordações daquela época deviam ser conservadas.

Assim, limitei-me a transcrever este "romance" para word - apenas corrigindo alguns erros - mantendo o estilo naif que chega a ser piroso...

O título tenta expressar as diferenças entre as partes em conflito:

Se os terroristas tinham no barulho dos helicópteros PUMA um grande aliado, a Mandioca - que era transformada num pó fino para as fubadas - constituía uma grande ajuda para a tropa portuguesa.

A mandioca - um tubérculo - era previamente seca em plataformas de madeira, colocadas na orla da sanzala. O forte odor que se libertava durante a secagem desta planta permitia detectar a grande distância a existência das sanzalas.

Finalmente, é triste que a dedicatória escrita há quase 30 anos continue actual...

“ Para todos os que lutaram pela
liberdade e sonham com o fim da
ditadura da mediocridade.”


Última edição por Anarca em Sab Dez 05, 2009 11:19 pm, editado 1 vez(es)
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Dez 01, 2009 12:32 am

I - Luísa

Os pais da Luísa tinham uma grande fazenda de café na província do Uíge, mesmo junto à fronteira com o Congo.
Partiram da aldeia onde tinham nascido e casado, saturados de beijar a mão ao Padre que governava todas as vidas com o apoio do Chefe do Posto da Guarda Nacional Republicana.
Os primeiros meses naquelas terras desertas foram bem difíceis de passar, debaixo de uns panos de lona e rodeados de bicharada e negros que só entendiam o que lhes convinha.
Rapidamente se habituaram ao cheiro a catinga, mas o pior era quando os pretos falavam entre eles uma linguagem estranha e riam muito.
Só podiam estar a gozar os brancos…
Até os sipaios ao serviço da Administração da Circunscrição pareciam dançar quando marchavam…
No dia em que a casa ficou pronta, o pôr do sol veio dar com eles sentados no alpendre à sombra das acácias.
Muito ao longe, atrás de árvores frondosas, conseguiam ver as pequenas cubatas dos sipaios, com as suas muitas mulheres a tagarelarem todo o dia, e os grandes telheiros onde se abrigavam os negros contratados para os trabalhos públicos.
O destino dos negros tinha mudado. Os brancos eram agora os donos das terras, e os comerciantes já nem sequer pagavam aos sobas para exercer o comércio…
Os sipaios apareciam nas sanzalas, de farda e espingarda, a falar em nome das autoridades.
- É branco do Governo que manda! - diziam eles invadindo as cubatas para levar negros para irem trabalhar para os brancos.
Agora, eram os pais da Luísa que governavam com o apoio do Administrador da Circunscrição…
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Dez 02, 2009 10:19 pm

Luísa nunca mais esqueceria aquele clima húmido, a época das chuvas, os meses secos e o cacimbo a que chamavam o tempo frio.
Com o ínicio das movimentações nacionalistas em Angola, os pais enviaram-na para um colégio de freiras em Luanda para ficarem mais descansados.
Aproximavam-se as férias da Páscoa e aguardava ansiosa que os pais a mandassem buscar.
A 15 de Março começa a loucura.
Os guerrilheiros da UPA aos gritos “UPA, UPA, mata, mata” espalham o terror a uma velocidade vertiginosa. Homens degolados, cabeças espetadas em estacas, mulheres esventradas com paus aguçados cravados no sexo, crianças esquartejadas ainda nos berços, num cenário cruel.
Ao cheiro do sangue acudiam os porcos, que se lambuzavam nas vísceras das vítimas. Num dia, a UPA ocupa mais de cem mil quilómetros quadrados.
Nas vilas, depois das primeiras investidas, a população organiza-se, e usa as armas de caça para se defender. O rasto de sangue estendeu quase até Luanda.
Quando o Exército Português se organiza e começa a reocupar as zona tomadas, não sabe para onde se virar.
As povoações estavam em ruínas, as fazendas queimadas e as colheitas destruídas.
Nesse dia, os pais de Luísa estavam ainda na cama, com as portas encostadas no trinco e as janelas escancaradas para se aliviarem do bafo quente e húmido da noite, quando foram avisados pelos trabalhadores Bailundos - povo do sul que vinha trabalhar por contrato.
Mal tiveram tempo de se vestir e fugir para o mato. Chovia muito, as terras estavam alagadas e os riachos transbordavam. Sobrevivem vários dias alimentando-se de goiabas, bananas e frutos silvestres até serem encontrados pelo Exército.
Os quinhentos anos de civilização, paz e abundância, como dizia Salazar, tinham sido pagos com cerca de oito mil mortos…
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Dez 04, 2009 9:35 pm

Quando o Exército consegue controlar a situação, regressam à fazenda com novas idéias.
A miúda ia para a Metrópole, e eles quando reunissem um pé de meia suficiente iam também de vez.
Mas em Angola circulavam os Escudos Angolanos - Angolares - e todas as exportações, incluindo o café eram pagos em Angolares.
Os colonos fugiam dos Angolares e queriam Escudos Metropolitanos cuja procura se acentuou com a insegurança causada pela guerra. O mercado negro do Escudo florescia em Angola.
Mas afinal a guerra nem era tão má como parecia...
Usando o mercado negro do Escudo e as vendas directas de café a importadores estrangeiros, os pais de Luísa foram comprando prédios na Metrópole.
Luísa podia ir para o melhor e, em Lisboa, o melhor era o Colégio de Freiras que a esposa do Governador tinha frequentado.
Muito pediu Luísa para ficar antes com a tia Maria do Amparo de que tanto gostava...
- Pede tudo menos isso... Pelo amor de Deus !... - respondiam sempre os pais, com medo que o tio Alfredo entrasse de repente.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Dez 05, 2009 11:18 pm

Alfredo - tio da Luísa - saíra do Alentejo sem um centavo quando decidiu tentar a sorte em Angola.
Trabalhou como um louco até ter avioneta, casas em Luanda, vivenda no Mussulo, e uma fortuna tal que lhe permitiu oferecer ao irmão a maior fazenda de café do Uíje.
Quando tem tudo, casa por procuração com Maria do Amparo, que embarca no Niassa e se junta a ele passado um mês. Vinha curiosa por novos mundos, mas o ar quente e húmido, e o cheiro adocicado de manga foram a sua perdição…
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Dez 06, 2009 4:58 pm

O Martinho tinha chegado ao Uíje, terra de montanhas onde na sombra das grandes árvores crescia o arbusto do café, riqueza para os colonos e escravidão para muitos.
Começou como capataz da roça, mas em breve se tornou o homem de confiança de Alfredo, chegando a administrar a justiça às centenas de Bailundos que por ali andavam a contrato.
Martinho vinha habituado de em Portugal só ter gente acima dele e ainda não conseguira aceitar ter ali tanta gente abaixo dele…
Talvez por isso, tratava os trabalhadores da roça como seres humanos, mas Maria do Amparo ficou deslumbrada com tanta bondade.
O mato do Uíje era o refúgio de todas as cobras, desde a terrível Surucucu à pequena mas fulminante Buta, cuja picada matava num minuto.
Uma tarde, um trabalhador apareceu com um braço decepado, a sangrar.
Estava na colheita do café, quando a Buta, escondida entre as folhas e parecendo um raminho seco, mordera a mão que procurava os bagos.
O negro só teve tempo de cortar o braço com a catana, antes que o veneno começasse a circular no sangue.
A violência do acontecimento deixou Maria do Amparo tão transtornada, que só os carinhos de Martinho a conseguiram acalmar…
A partir dessa altura, quando o marido saía por uns dias, Maria do Amparo partilhava a cama com Martinho, sem disfarces nem cuidados.
Os meses foram passando até que um dia Martinho desapareceu e Maria do Amparo foi mandada para Lisboa com marcas de chicote nos braços e nas mãos.
Luísa tinha oito anos de idade, mas gostava tanto da tia que chorou durante muitos dias depois da sua partida...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Dez 08, 2009 3:36 pm

O Colégio funcionava em regime de internato feminino e externato misto.
Os pais tinham vindo com Luísa a Lisboa, para conhecer o Colégio e tratar do futuro...
A abertura de uma conta colectiva tinha sido um acontecimento excitante, mesmo sabendo que só a poderia movimentar após os 18 anos.
Esperavam já havia dez minutos, quando uma irmã anunciou que seriam atendidos imediatamente.
Luísa sentia cada vez mais a tristeza que parecia transbordar daquelas paredes taciturnas e escuras.
A espera já tinha consumido toda a alegria que os pais lhe tentavam incutir desde a entrada naquele edifício que se assemelhava a uma prisão.
Finalmente, um homem alto e magro, de saias compridas - o Padre Director - entrou na sala, com uma mansidão displicente.
Sem grandes rodeios, quis saber dos costumes da família, da educação da menina e principalmente da instrução religiosa.
- Sr. Padre, estamos longe de tudo... - justificava o pai.
- Deus está em todo o lado... - corrigia o Director. - Bem, mas ainda está em idade de encontrar o bom caminho. . .
Algo transpareceu no semblante do pai de Luísa que fez o Padre Director temer pela mensalidade que se adivinhava generosa...
- Mas está muito educadinha, nem parece que viveu na selva...
O Director não estava mesmo nos seus melhores dias...
A partida dos pais pareceu-lhe um sonho mau que passou a pesadelo ao conhecer o interior do colégio.
Da capela vinha uma música monótona e nostálgica que aumentava a tranquilidade dos pátios desertos.
- Luísa, sabe rezar ?...
Não sabia o que dizer.
- A mãe não lhe ensinou?...
- Não... - balbuciou.
- Jesus gosta de ti na mesma...
Chegaram à sala de estudo onde a deixou com a freira. As paredes nuas censuravam todos os sonhos proibidos.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Dez 09, 2009 9:58 pm

Quando Luísa voltou a ver o Padre director do Colégio, já sabia que ele era conhecido por Pirata - tinha um olho de vidro sobre o qual nada se sabia.
Era um professor que na sala de aula gostava de se ouvir. Tinha tanta coisa importante para dizer que falava, falava, falava...
Misturava a filosofia com histórias de santos e experiências pessoais. Luísa após a primeira aula deixou de dar atenção ao homem.
Um dia o Colégio recebeu a visita de um Bispo, uma Excelência Reverendíssima.
O Auditório estava repleto de alunos, professores, pais, autoridades locais e convidados. O ambiente era de gala e de grande solenidade de acordo com aquela grande cerimónia.
Para preparar a audiência, falaram vários oradores menores, até que chegou a vez do Pirata.
No meio dum silêncio sepulcral, lá começou a debitar o seu arrazoado desajeitado. As frases saíam a saca-rolhas, numa sequência penosa, até que embatucou de todo.
Naqueles momentos de agonia, Sua Excelência Reverendíssima ia afagando carinhosamente uma criança que tinha no colo.
O Pirata sofria e, ao fim de alguns segundos que pareceram séculos, lá conseguiu voltar a falar.
- É ... é ... tenho dito. - e abandonou o palco às arrecuas.
A partir daquele dia, as redacções acabavam quase sempre com “tenho dito...”
O Pirata nunca mais foi a mesma pessoa...


Última edição por Anarca em Ter Dez 15, 2009 10:32 pm, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Dez 12, 2009 11:38 pm

Os castigos mais leves consistiam em limpar todo o pátio, assistir à Missa Matinal, ou ficar a estudar durante o recreio.
Luísa já constatara que a limpeza do pátio era um castigo certo todos os dias...
O perdão era com Deus... Não competia aos Padres nem às Freiras ultrapassar as suas competências, pelo que ninguém era perdoado.
Quando os pais de alguma interna se atrasavam na mensalidade, a irmã fazia uma visita à sala de aulas.
- Menina Mariana, o colégio ainda não foi pago, é favor avisar seus pais, imediatamente !...
Entregava um papel à visada e saía calmamente.
Luísa vivia aterrorizada, receando ouvir um dia o seu nome.
Continuaria durante muitos anos a recordar aquela brutalidade...

O Padre Ferrão aplicara-lhe como castigo, elaborar uma composição sobre os Pecados Capitais.
Depois de consultar o tema na biblioteca dormiu mal durante duas noites por ter ficado muito impressionada com o Inferno.
Nunca tinha pensado que existissem tantos pecados diferentes.
Todos os terrores dos primeiros dias de interna no Colégio regressavam agora reforçados pela idéia do Inferno.
Já tinha desconfiado que tudo que sabia bem, ou era pecado ou fazia mal à saúde...
Os pecados podiam ser Veniais ou Mortais...
Até deitar a língua de fora quando a professora estava de costas era pecado...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Seg Dez 14, 2009 12:25 am

Conforme crescia, o calvário ia sendo atenuado pelas visitas a Angola. A situação de desafogo económico dos pais permitia viagens cada vez mais freqüentes.
Mas o regime de internato no Colégio era rígido e a formação religiosa predominava sobre qualquer outro aspecto.
Para as freiras a salvação só se obtinha no claustro, na capela, na oração... O mundo lá fora, estava cheio de tentações e perigos...
Já com 15 anos, Luísa detectava desconfiança nas freiras quando demonstrava afinidades com alguma colega e passavam a estar muito tempo juntas.
Na confissão, o Padre Ferrão - guia espiritual das alunas internas - perguntava-lhe se tinha amizades particulares ou pensamentos impróprios de uma menina...
Os assuntos referentes a sexo eram tabus e aproveitavam todas as ocasiões para lembrar que os pecados podiam ser cometidos por pensamentos, palavras e omissões.
As leituras na biblioteca estavam fiscalizadas e os romances eram mal vistos.
A correspondência era controlada. As Cartas dos namorados só eram permitidas com a autorização expressa dos pais, e nunca escapavam à leitura das freiras.
A dura disciplina e uma vigilância permanente desenvolviam em Luísa uma revolta interior que disfarçava com um fingimento cada vez mais refinado.
O autoritarismo exagerado, a mediocridade pedagógica dos Padres e a orientação religiosa fanática eram muito fáceis de manipular...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Dez 15, 2009 10:31 pm

Acordara com os soluços de Marisa. Era uma das três colegas com quem dividia o quarto e que tinha chegado ao Colégio no dia anterior.
- Deus é o culpado... - murmurava.
- Marisa... - chamava Luísa. - Estás bem ?...
- Deus é o culpado... e o meu pai também... - repetia.
Luísa, contrariando todas as regras, foi sentar-se na cama dela tentando confortá-la para que deixasse de chorar.
Os soluços não diminuíram enquanto não a abraçou, solidária com tanta dor.
Adormeceu de exaustão e Luísa, com medo de a acordar, continuou ali, a perguntar porque não actuava Deus.
Para Luísa a culpa tinha sido do Dr. Silveira.
A mãe da Marisa e o Dr. Silveira eram esquisitos...
Sorriam muito e abraçavam toda a gente, mas não gostavam de ninguém.
Deus e a mãe de Marisa tinham sempre castigos apropriados para todas as falhas. Mas o pai não. Seria o melhor pai do mundo sem aquele cheiro a álcool que emanava sempre dele.
Um dia encontrara-o no café da rua, sentando a um canto, parado de olhar caído. Riu quando lhe beijou o seu rosto suado com aquele cheiro de álcool cada vez mais forte.
Deus era culpado...
A mãe trabalhava de noite e chegava sempre muito tarde, cansada. Vestia roupas muito curtas e abusava da pintura.
A mãe de Marisa era cruel quando discutia, e o pai chorava.
Foi o Dr. Silveira que lhe tinha arranjado lugar no Colégio.
Deus via tudo e não fazia nada...
Agora Marisa só queria encontrar-se com Deus e com o Dr. Silveira, para ver se eles tinham coragem de a olhar nos olhos.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Dez 18, 2009 12:38 am


O Dr. Silveira tinha dezassete anos, quando, numa festa de amigos, começou a beber cerveja.
Foi um passo até ficar alcoólico, e o início de uma vida de sofrimento com várias falências, acidentes de carro, prisões, agressões e tentativas de suicídio.
O pai tinha uma empresa de construção civil, que conseguia gerir ao mesmo tempo que o ajudava a tirar um curso superior, o que acabou por acontecer.
Apesar de tudo, aos vinte e seis anos era o Director Financeiro da empresa e tinha um apartamento à beira-mar e um bom carro à porta.
Mas ao álcool seguiu-se a droga..
O apartamento era frequentado pela fina flor dos traficantes, ladrões, prostitutas e homossexuais. O Dr. Silveira e a mulher viviam no fio da navalha e o casamento acabou num lamaçal de adultério e prostituição.
Depois de uma tentativa de suicídio, passou quatro meses na droga, sem se cuidar.
Abandonou a casa dos pais, a família e os poucos amigos. Deambulava pelas ruas, de esquina em esquina, pedindo esmola para comprar droga.
Uma dose adulterada levou-o ao hospital, e uma réstia de lucidez ajudou-o a perceber que precisava de ajuda.
Pediu socorro aos pais e ingressou numa clínica de recuperação disposto a curar-se.
Recuperou tudo na vida e tiveram a Mariana, a primeira filha.
Aos domingos faziam churrascadas na casa da praia com os amigos e tudo estava bem. Tão bem que um dia resolveu tomar uma cerveja.
Seis meses depois tinha perdido tudo de novo e estava atolado nas drogas. Não tinha nem casa, nem mulher, nem filha...
Em casa dos pais, trancou-se no quarto para morrer de uma vez com uma overdose.
Tinha-se transformado num verme que rastejava atrás da droga.
Vinte e seis anos depois da primeira cerveja, era um farrapo humano com vários acidentes de carro, duas tentativas de suicídio, quatro detenções com agressões e humilhações, seis separações da mesma mulher, hospitais, clínicas de recuperação e muita dor e sofrimento.
Mais uma vez os pais o salvaram e o mantiveram dois meses numa clínica onde lhe detectaram uma dependência química que era a causa de toda a sua infelicidade.
Precisava de terapia para conseguir ter uma vida normal.
Não conseguiu recuperar nem a filha nem a mulher, que tinha reorganizado a sua vida.
Conhecia a mãe da pequena Marisa, que se prostituía para manter a casa e o marido alcoólico.
Sentiu a necessidade de ajudar e começou por chamar a si os encargos com o Colégio para a pequena Marisa...


Última edição por Anarca em Sex Dez 18, 2009 10:02 pm, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Dez 18, 2009 10:02 pm

Luisa conseguira encontrar a tia Maria do Amparo e mantinham estreito contacto através de uma aluna externa de confiança, que era generosamente recompensada para assegurar a lealdade.
Não sabia explicar aquele carinho pela tia, talvez mesmo superior ao que sentia pelos pais.
Os momentos passados no Aeroporto de Lisboa antes e depois das viagens eram encontros que viviam com grande alegria.
- Quando fizer dezoito anos, passo a externa e vou viver com a tia !... - todas as despedidas acabavam com aquela promessa.
- O teu pai não vai deixar...
- Ninguém vai mandar na minha vida...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Dez 19, 2009 5:21 pm

Natacha - nome artístico - sabia que aquele dia de frio e chuva era mau para o negócio. Vestiu uma mini saia preta, botas de cano alto, top dourado, e meias com cinto de ligas.
Guardou o porta chaves de prata que João Fintas lhe deixara na hora da despedida.
Tantos meses passados e ainda sofria quando recordava o dia em que o seu homem, simplesmente se levantou da cama e saiu para nunca mais voltar.
Como podia um homem tão sensível e carinhoso partir assim?...
Parou à porta do Bar e olhou para o movimento da rua, avaliando a concorrência.
Um Mercedes azul escuro com vidros fumados aproxima-se. Quando o vidro baixa, ela reconhece o Padre Ferrão...
As voltas que a vida dá...
Recordava o Padre Ferrão no Colégio de Freiras a ensinar que o castigo para os pecadores era ficarem para sempre no inferno com fogo por todo o corpo.
Entrou no carro - depois do convite que parecia uma ordem - ainda surpreendida por aquela coincidência.
O Padre não desviava os olhos da estrada, em silêncio...
Natacha conhecia histórias cheias de vida e de todas sabia guardar os segredos.
Os seus homens queriam apenas carinho e ser ouvidos...
O João Fintas tinha sido um deles...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Dez 20, 2009 7:13 pm

O Padre Ferrão em pequeno tinha medo de frequentar as aulas. Ficava assustado de tal maneira que por vezes não conseguia respirar e perdia a visão. O coração ameaçava sair pela boca e as mãos ficavam geladas e molhadas. Os dedos, ao escrever, ficavam com marcas profundas do lápis, de tanta força fazer.
Quando não queria ir às aulas, a mãe achava que aquelas manias tinham de acabar e arrastava-o até à escola, com toda a gente a assistir ao espectáculo de um miúdo a ser arrastado pelas ruas.
Como não conseguia obter resultados, a mãe resolveu interná-lo num Colégio de Padres Jesuítas.
A vida passou a consistir num intenso sofrimento. Era um Colégio que cheirava mal e que, nos dias mais quentes, a urina e as fezes fermentadas, espalhavam o cheiro para as salas de estudo e dormitórios.
O terror às aulas era agora reforçado pela perseguição religiosa. Como ele não era baptizado, apelidaram-no de Satanás.
Todo o colégio o queria converter.
Os padres tentavam, de todas as maneiras, convencê-lo de que nunca tinham existido homens pré-históricos e que a evolução lenta dos primatas era uma heresia. A Terra fora criada em sete dias e Deus tinha feito Adão do pó e Eva de uma costela.
Mas os livros que o Padre Ferrão já tinha devorado não tornava fácil a vida dos Padres.
A pressão dos Jesuítas sobre a mãe para o baptizar não parava, e quando alegaram que o colégio não podia manter alunos sem serem baptizados, conseguiram vencer.
Foi baptizado, mas, por dentro, continuava Satanás e só lhe faltava ser temido e poderoso, para mandar todos que o pertubavam para as profundezas dos infernos.
Mas era preciso disfarçar para vencer todos os Padres prepotentes e inquisidores, e a melhor maneira de o conseguir era transformar-se num deles…
Com o tempo foi esquecendo que queria ser diferente…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Dez 22, 2009 12:06 am

A Natacha tinha fugido de casa com dez anos porque a família não a apoiava nas queixas que fazia sobre os abusos do pai.
A mãe tinha morrido havia pouco tempo e as irmãs não acreditavam nela.
Um miúdo mais velho deu-lhe abrigo e levou-a para um bar de prostituição, onde tomava cerveja com açúcar para aguentar o gosto da bebida e ganhar dinheiro para sobreviver...
O Natal era passado no bar a beber e nunca recebeu um brinquedo.
Uma noite quando regressava a casa foi violentamente agredida e violentada, tendo de passar uns dias no hospital.
A Assistência Social tomou conhecimento daquela vida e acabou por conseguir interná-la num Colégio de freiras.
Foi um bom período da sua vida...
Uma tarde encontrou o agressor que passeava com a mulher e as filhas no parque. Cumprimentou-a quando passou por ela como nada se tivesse passado.
Foi crescendo sem ter ninguém para a amar, ou apenas para a usar...
Quando atingiu a maioridade e saiu do Colégio era já uma bela mulher que fazia os homens virar a cabeça, mesmo quando iam acompanhados.
Viveu sozinha até encontrar o João Fintas.
Ele queria ficar com ela, mas com outra vida...
Tinha medo de não ser capaz e foi adiando a decisão...
Um dia o João Fintas saiu para nunca mais voltar.
O pai estava de cama com um cancro na medula e as irmãs alegavam que tinham mais que fazer.
Durante dois anos tinha sido violada pelo pai, mas passou a cuidar dele...
Perdoava e oferecia o sacrifício a Deus.
Em troca, pedia o regresso do João Fintas...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Dez 22, 2009 11:10 pm

O João Fintas antes de conhecer a Natacha, nunca tinha conhecido na vida um carinho verdadeiro.
Durante a idade escolar nunca conseguira uma atenção especial dos professores, que se aborreciam com aquele garoto chato que queria mimos.
Eles tinham lá tempo para isso!... Os pais que o mimassem que eles não eram pagos para isso! Os professores tinham por obrigação dar instrução, mas a educação e os carinhos eram com os pais.
Infelizmente para o João Fintas, aqueles professores não ligavam mesmo nada às modernices, que diziam que um professor devia ser um orientador…
Ao treze anos, a mãe morreu após uma longa doença, e ele ficou só com o pai, que, devido aos inúmeros negócios, pouco tempo tinha para o filho.
Os anos foram passando, vazios e sem alegrias.
Tornou-se cada vez mais tímido e introvertido, comunicando com as pessoas apenas em casos de necessidade. As dificuldades na escola continuavam, e, já no Liceu, continuava extremamente carente. Só queria ter alguém para ele.
Um dia, numa festa, encontrou a Natacha que lhe deu atenção numa perspectiva de negócio. Conquistado por aquela bela mulher sentiu-se, pela primeira vez, privilegiado e acarinhado.
Natacha pensou que ele podia ser a sua salvação e passaram a viver juntos. O João Fintas submetia-se a tudo. Ela chegava a casa com as roupas desalinhadas e suja de baton, e ele não perguntava nada quando ela se aninhava nos seus braços e o acarinhava. Quando saía à noite e só voltava no dia seguinte, ele esperava por ela sem dormir.
Não lhe conhecia os amigos nem os clientes, mas tinha vergonha de sair à rua. Aguentava tudo, mesmo percebendo que ela não era só dele.
Natacha tinha um sentimento de pena e culpa. Queria acabar com aquela vida, mas tinha medo de não ser capaz e ia adiando a decisão...
O João Fintas começou a revelar problemas emocionais. Não queria que pensassem que era um proxeneta. Ficava longos períodos em silêncio, com o olhar fixo na parede.
Começava a duvidar que aquela relação tivesse futuro.
Um dia falou a Natacha em terem um filho, para ter algo que fosse mesmo dele.
A Natacha ficou tão comovida que chorou, mas, com medo, pediu-lhe uns dias para pensar…
O João Fintas não podia mais viver assim.
- Olha o chulo da Natacha!… - gritavam os miúdos quando ele se atrevia a sair de casa.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Dom Dez 27, 2009 3:25 pm

O João Fintas não conseguia saber o que se passava na cabeça da Natacha, que lhe parecia um oceano profundo repleto de segredos. Apenas sabia que podia chorar sem que ela o considerasse fraco.
Não precisara de flores ou jóias para a conquistar, mas o carinho parecia agora não bastar. Amava nela o sorriso, triste mas doce…
Ali estava ela, com o olhar perdido e triste olhando através da janela do quarto, inclinada como se carregasse um grande peso sobre os ombros. Como lhe dizer que ele não podia mais viver assim?…
A voz dela revelava sofrimento.
- Dá-me algum tempo, amor…
As palavras pareciam culpar João Fintas, que se sentia confuso.
Natacha sorria com tristeza e pedia-lhe para ele não ficar assim,
enquanto lhe passava suavemente as mãos pelos cabelos.
Como ele amava aquele sorriso…
Quando lhe afagou o rosto, ela fechou os olhos e deixou rolar uma lágrima.
- Dá-me mais um tempo, amor…
Quando ela saiu nessa noite, João Fintas passou horas a olhar para os retratos emoldurados em cima da cómoda.
Alguns eram antigos e um pouco amarelecidos pelo tempo, mas em todos eles, não descortinava o sorriso que ele tanto amava…
As primeiras luzes despontavam.
João Fintas não podia mais viver assim…
Levantou-se da cama, e saiu para nunca mais voltar.
Em cima da mesinha de cabeceira, como recordação, deixou o porta chaves de prata.
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Dez 29, 2009 12:51 am

O dia prometia ser animado. Murmurava-se que o pai da Julinha era Orquicéfalo - indivíduo que faz do sexo a razão de viver.
O nome ia circulando mas como ninguém sabia o que era aquela coisa, a curiosidade ia aumentando.
Das poucas professoras não freiras, a Celeste, uma antiga aluna que mantinha um bom relacionamento com as antigas colegas acabou por satisfazer a curiosidade de algumas alunas mais velhas.
- É uma pessoa doente que vê erotismo em tudo, e os seus pensamentos, os seus hábitos, as suas leituras giram em torno de um único assunto: o sexo. - explicou a professora Celeste durante uns instantes em que a freira assistente estava distraída.
Luísa não ficou satisfeita e esperou por uma ocasião para se aproximar da Julinha que era alvo das brincadeiras das colegas…
- Com um pai assim, já sabes o que vais ser quando fores grande…
- …
- Vais ser ninfomaníaca, minha querida…
Quando a viu só, Luísa aproximou-se de Julinha e afagou-lhe o braço numa carícia de solidariedade.
- Não ligues… - disse-lhe com um sorriso aberto.
- …
- Sabes bem que podes contar comigo …
A Julinha tinha encontrado uma amiga e desabafou tudo.
O pai vivia sempre agitado atormentando a mãe de dia e noite, sem uma pausa.
Tinha várias amantes com as quais gastava todo o dinheiro, sem conseguir acalmar os insistentes apetites sexuais.
A Julinha tinha muito medo porque a mãe lhe dissera que o pai não tinha a culpa de ser assim, pois era vítima de glândulas sexuais muito fecundas, de origem hereditária.
Devido aos maus tratos, a mãe passara a dormir com ela, mas o pai, nas noites em que não conseguia dominar o furor erótico, ia buscá-la de junto da filha, completamente despido, arrastando-a à força pelos cabelos, enquanto Julinha gritava aterrorizada.
A mãe, com a ajuda da família, conseguira internar a Julinha para a proteger.
Mas quem a poderia proteger da hereditariedade ?…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Dez 29, 2009 10:32 pm

O pai da Julinha contava que sempre tinha tido sorte com as mulheres. Em pequeno, não gostava de vestir calções porque tinha as pernas muito finas, o que não era problema quando na mercearia arrastava para trás do balcão as miúdas que acompanhavam também as mães às compras.
Aos 12 anos teve a sua iniciação sexual com uma mulher de vinte e poucos anos, a que se seguiram muitas mulheres, paixões e histórias de pouco amor.
As conversas com os amigos eram só sobre mulheres.
Preocupada com a fama do filho, a mãe pedia-lhe para casar e assentar.
Na cerimónia do casamento os amigos apostaram para adivinhar quanto tempo ia durar...
Nenhum dos amigos ganhou a aposta porque ele dizia que só vale a pena o divórcio quando é para casar outra vez, e ele nunca mais voltaria a casar...
As fantasias sexuais não tinham fim. Quando satisfazia uma, apareciam logo muitas mais para não o deixarem sossegar.
Não queria ouvir que era um viciado em sexo, como lhe tinha dito uma namorada, saturada por ele não a deixar sair da cama durante todo o dia. Finalmente, acabou por consultar um psiquiatra, que lhe disse que a média mais vulgar de relações sexuais era de duas por semana, mas quando se consegue manter uma frequência maior sem problemas...
Quando o pai da Julinha lhe contou metade da realidade, o homem lá começou a ver que tinha ali trabalhinho...
- O sexo excessivo, pode ser originado por insatisfação. - lá começou o psiquiatra a explicar.
Isso sabia ele...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Dez 30, 2009 9:53 pm

A professora Celeste, aos dois anos, era uma bonequinha de carne. Roliça, de pernas grossas e bracinhos torneados, parecia uma miniatura de mulher. O cabelo castanho claro cobria-lhe o pescoço, e os olhos da mesma cor, eram grandes, vivos e brilhantes
Todos admiravam a beleza e a vivacidade da criança.
Celeste tinha uma verdadeira paixão pelo pai e era sempre a primeira a abraçá-lo quando chegava do trabalho.
Quando saía com a mãe para passear, fazia questão de ir vestida com um dos vários vestidos de organdi que tinha.
Pelo aniversário, recebeu uma bicicleta muito grande para ela, o que implicou muitos tombos e joelhos esfolados durante semanas.
Passaram a vê-la a pedalar pelas calçadas do bairro, toda feliz e radiante.
Era muito invejada e não tinha amigas, pois a mãe considerava que as crianças da vizinhança não eram boas companhias para brincarem com ela.
Aos seis anos, os pais matricularam-na num conceituado Colégio de freiras, para o que, foi necessário cortar-lhe os belos cabelos louros que nessa altura lhe chegavam aos ombros.
Ficou muito triste porque deixara de ser a boneca do pai, para ficar exatamente igual às outras meninas.
Celeste odiou o colégio e detestou as companheiras e freiras, cujos hábitos negros lhe metiam medo.
Nas aulas de catecismo só se falava do demónio que levava os meninos para o inferno.
Tinha medo do diabo do Colégio, e todos os dias pedia para não ir à escola. O choro era de tal maneira, que os pais não sabiam o que fazer.
Acabou por adoecer e chegou a ficar com um tique nervoso que lhe fazia piscar os olhos sem parar.
O problema atingiu tal ponto, que os pais acabaram por ter que se mudar para um lugar distante para que a Celeste ficasse melhor.
Já adulta e com um curso superior, a Celeste voltou ao Colégio como professora.
Deixara de acreditar no demónio, mas queria proteger as crianças do fanatismo dos adultos...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sab Jan 02, 2010 11:09 pm


A professora Celeste, aos 26 anos já era casada há quatro e tinha duas filhas. Aos 20 anos era virgem, e o marido foi o primeiro namorado. Um dia tinham ficado sozinhos, e dois meses depois estava grávida.
Vivia feliz com o marido que era um empresário de sucesso, muito atencioso e carinhoso, que só pecava pelo desempenho na cama, que era muito pouco frequente e rápido.
Uma tarde, no Centro Comercial, conheceu um homem de verdade e tornou-se numa mulher romântica, carinhosa e sensual.
Após a primeira aventura, a vida modificou-se e passou a viver alegre, a planear as escapadelas.
Nunca se tinha sentido tão linda, feliz e atraente.
As traições eram disfarçadas pela postura muito séria no Colégio e com todos os amigos e familiares.
As aventuras iam variando entre homens velhos, feios, baixinhos e sujos. Geralmente não buscava um homem charmoso ou bonito, pois tinha em casa esse tipo de homem. Dava preferência a homens pobres e humildes, que lhe davam o maior prazer.
Era o tipo de homem com o qual não corria o risco de se cruzar no meio social que frequentava.
Ficava feliz por lhes proporcionar a hipótese de terem uma mulher como ela nos braços.
Com poucos homens foi duas vezes para a cama...
Também tinha muito prazer em se exibir na praia e nas piscinas, ou vestir uma roupa de tecido fino sem roupa interior e deixar alguém encostar-se a ela nos transportes públicos...
Deixara de acreditar no inferno havia muito tempo...
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Ter Jan 05, 2010 12:10 am

“Este é o meu corpo!
Fazei isso em memória de mim.”
Para Luísa, estas palavras ficariam para sempre associadas ao Colégio das freiras, e às mordidelas nas hóstias que não sangravam.
O Tio Alfredo, numa visita a Lisboa acompanhado do filho de 12 anos, acabou por assistir à missa no Colégio.
Ele não era católico, e o miúdo não tinha feito a primeira comunhão.
Tinha ido passar o dia com a prima e estava na missa não sabia bem porquê. Na hora da comunhão, como todos se levantaram, ele resolveu ir também.
Quando as freiras viram o miúdo regressar da comunhão a mastigar ficaram desconfiadas.
- Mal também não lhe vai fazer… - disse o tio Alfredo quando as freiras o interpelaram.
O miúdo lá se desculpava dizendo que não podia ser o Corpo de Cristo, porque mordia a hóstia e não deitava sangue…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Qua Jan 06, 2010 12:59 am


Com dezoito anos, Luísa fez o que tinha prometido à tia Maria do Amparo.
Os pais tiveram de aceitar a passagem a aluna externa, e acabaram por ficar mais sossegados quando lhes disse que ia viver com a tia.
A casa era tão grande que lhe permitia total privacidade.
A luminosidade do fim da tarde entrava pela sala que o pai teimara em mandar decorar.
A casa, o mobiliário de estilo e as peças de arte eram um investimento certo, dizia o pai…
No Colégio nunca percebera que a solidão podia ser também um fardo difícil de suportar.
Não lhe faltava nada que se pudesse comprar.
Luísa meteu o livro de lado e os seus olhos fixaram-se no espelho de Murano que reflectia um rosto triste.
Sentia um desconforto que não entendia.
Quando ouviu barulho na casa em frente - onde moravam uns amigos dos pais - foi à janela bisbilhotar.
O filho dos vizinhos apanhara uma boleia de mota de um amigo que se preparava para partir.
Quando ele se virou e reconheceu o miúdo que conhecera na festa de anos da Lina, sentiu qualquer coisa acontecer. Não recordava sequer se era alto ou baixo, magro ou gordo, mas o coração disparou sem controle quando percebeu que ele a tinha visto a espreitar.
Agradeceu a Deus quando ele desligou a mota e entraram juntos para casa.
Com a respiração ofegante correu para o banho.
Conseguiu conciliar a pressa com a ânsia desesperada de ficar o mais bonita possível.
Com grande determinação atravessou a rua e tocou à campainha ensaiando um sorriso natural.
O filho do vizinho já vinha a sair com o amigo quando lhe abriu a porta.
- Até que enfim… - acolhia-a com um sorriso rasgado.
- Tudo bem?… - cumprimentou-o com dois beijinhos e ficou a olhar para o amigo que permanecia estático.
- Olá!… - tomou a iniciativa. - Luísa …
- Pedro…
Não soube como lhe saíram as palavras…
- Dás-me boleia até ao Colégio ?…
O espanto dele quase a fazia corar…
Quando partiram, Pedro teve a certeza que o Matacão não tinha ficado nada contente.
Não sabia é que tinha sido o início de um profundo rancor…
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MensagemAssunto: Re: O PUMA E A MANDIOCA...   Sex Jan 08, 2010 12:25 am

II - Pedro

As noites quentes de verão nivelavam as diferentes classes que viviam no bairro. Todas as famílias, depois do jantar, estendiam as mantas no passeio em frente da porta, para onde fugiam do calor das casas...
A rua ficava animada com as correrias da miudagem que assaltava os quintais para apanhar pirilampos que encarceravam em pequenas caixas de barro, com janelas de cacos de garrafa.
Pendurados nos postes de electricidade, os pirilampos aprisionados pareciam luzes de árvores de Natal...
Pedro gostava especialmente do mês de Junho, que era quando se realizavam as festas dos Santos Populares.
As noites ficavam iluminadas, e para cada Santo havia uma fogueira.
No entanto, aquele ano era mais triste...
A Julinha - amiga que conhecera esse ano na escola primária - que vivia com os avós numa arrecadação por cima da sapataria, não vinha saltar a fogueira. O avô dizia que as festas populares eram para adormecer o povo...
A Julinha achava as festas bonitas, mas não podia desobedecer ao avô.
Do outro lado da rua, em frente da casa do Pedro, pelo contrário, a festa era em grande...
O Sr. Matateu pertencia a uma família extremamente católica, com uma tradição rigorosa nos preceitos religiosos. Todos os Domingos ajudava o padre na missa, e por vezes abria mesmo a Igreja e recebia os fiéis para as rezas.
Devido à sua religiosidade, o Sr. Matateu, tinha feito na juventude a promessa a São João Baptista de praticar durante o mês de Junho todo o bem que pudesse...
Felizmente para os negócios que ficava com onze meses para fazer todas as maldades que um homem empreendedor tem de fazer...
A fogueira estava bem ateada e grande, garantindo uma boa noite de danças e saltos.
O pai contava que no tempo dos avós, era costume pisar as brasas da fogueira com os pés nus. Se as pessoas estivessem isentas de pecados não queimariam os pés. O padre adorava assistir à passagem de alguns que, para não admitirem a dor, pisavam em silêncio...
Pedro também gostava muito da brincadeira do papagaio louro. A mãe dizia mesmo que tinha conhecido o pai assim...
O pai fingia não se lembrar...
As raparigas faziam uma roda, ficando no centro a mais nova, enquanto, ao som das palmas, cantavam o “Papagaio louro do bico dourado, leva esta carta pro meu namorado... ”,
Que pena a Julinha não poder estar ali...
Quando a fogueira se apagava, os vizinhos levavam para casa as cinzas da fogueira que, depois de benzidas, diziam curar vários tipos de dores.
Se, ao menos, a Julinha pudesse assistir à festa pela janela...
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