Assunto: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Ter maio 11, 2010 5:15 pm
Luís Vaz de Camões é considerado o maior poeta português; nunca existiu, nem em Portugal nem em qualquer outra parte do mundo, poeta algum que igualasse nem muito menos superasse a dedicação que Camões deu à sua pátria por meio de uma tão próspera obra épica como são “Os Lusíadas”.
“Os Lusíadas” são a culminação de toda uma cultura e de uma civilização. Camões é considerado um poeta fora do seu tempo, pois a sua modernidade e a sua portuguesidade são visíveis no modo como esta obra, tanto no estilo épico como no estilo lírico, se estrutura.
É através de indícios textuais que se encontram na sua poesia e a que podemos chamar a modernidade de Camões ou estilo Camoniano, que se verificam transgressões, tanto em relação aos modelos clássicos greco-latinos da época como em relação à ordem religiosa e política do poder no tempo de Camões e como também em relação à imagem posteriormente construída do poema como símbolo épico da raça lusíada e dos seus feitos materiais.
Mas são estas transgressões que caracterizam Camões como sendo um novo homem da Renascença.
Nasceu a 1524 ou 1525, segundo documentos publicados por Faria e Sousa, em Lisboa ou em Coimbra (a data e o local do seu nascimento não são certos). Segundo registo da lista de embarque para o Oriente do ano de 1550, declara-se que Luís de Camões se inscrevera e, nesse registo, é-lhe atribuída a idade de 25 anos.
O Padre Manuel Correia que o conheceu pessoalmente, dá-o nascido em 1517. Filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá Macedo, família nobre estabelecida em Portugal na época de D. Fernando, foi educado sob o império do Humanismo, estudou em Coimbra de 1531 a 1541, onde D. Bento de Camões seu tio, era chanceler.
Era esse mesmo seu tio sacerdote e sábio que o auxiliava nos estudos, mas ainda antes de Luís de Camões acabar o seu curso, partiu para Lisboa, talvez para conhecer melhor a principal cidade do seu país visto gostar imenso da História de Portugal.
Reinava D. João II e, como Camões era fidalgo, podia frequentar as festas e saraus da corte no palácio real; e foi lá que conheceu aquela que ele queria que viesse a ser a sua esposa, D. Catarina de Ataíde.
Devido à rigorosa tradição da corte, Camões teve que se afastar desta linda menina a quem ele tratava por um nome inventado de Natércia nos seus muitos poemas consagrados, e foi exilado por ordem do rei para o Ribatejo (Constância), onde permaneceu durante dois anos até que se alistou como soldado e partiu para Ceuta.
Foi nesta viagem que Camões primeiro avaliou o esforço formidável de um povo audacioso e persistente, que foi capaz de vencer os difíceis obstáculos desta travessia, de forma pioneira.
Apesar de ter sido um grande poeta, foi também um grande patriota e um grande soldado. Defendeu Portugal tanto nas guerras em África como na Ásia. Em 1547, partiu para Ceuta depois de ter estado na corte de 1542 a 1545. Em Ceuta perdeu um olho quando lutava a favor de D. João III.
Três anos mais tarde voltou a Portugal e teve vários duelos, num dos quais feriu Gonçalo Borges, moço de arreios de D. João III, o que lhe custou um ano de prisão no Tronco. Diz-se que foi nesse ano de prisão que Camões compôs o primeiro canto da sua obra “Os Lusíadas”.
Obteve a liberdade como promessa de embarcar para a Índia como simples homem de guerra e embarcou para Goa em 1553, onde conviveu com o vice-rei D. Francisco de Sousa Coutinho e com o Dr. Garcia de Orta e manteve também relações amistosas com Diogo do Couto, o continuador das Décadas.
Foi aí que escreveu o “Auto de Filodeno”, o qual representou para o governador Francisco Barreto. Ainda na Índia compôs uma ode a D. Constantino de Bragança, em que o defendia de acusações supostamente falsas que lhe eram feitas. Da Índia passou a Macau, onde os portugueses tinham fundado uma colónia mesmo em frente ao mar. Aqui conheceu Jau António, companheiro que esteve sempre com ele até à morte e lhe fez companhia enquanto cantava em seis cantos os feitos dos portugueses numa gruta em frente ao mar.
Foi chamado a Goa mas, no caminho para a Índia o barco onde navegava naufragou junto à foz do rio Mekong, e diz-se que ele tenha ido até à costa a nado só com um dos braços, visto no outro levar consigo a sua tão próspera obra.
Foi a descida do Oceano Atlântico, a passagem do Cabo da Boa Esperança e todas aquelas paragens que levaram Camões a glorificar na sua obra os lugares por onde a armada de Vasco da Gama tinha já passado, lugares esses que muito custaram a "descobrir", razão ainda para dignificar o povo lusitano.
Regressou a Lisboa em 1569 e, em 1572, publicou “Os Lusíadas”. Foi-lhe concedida por D. Sebastião uma tença anual de 15 mil reis que só recebeu durante três anos, pois faleceu no dia 10 de Junho de 1580 em Lisboa, na miséria, vivendo de esmolas que se dizia terem sido angariadas pelo seu fiel criado Jau. O seu enterro teve de ser feito a expensas de uma instituição de beneficência, a Companhia dos Cortesãos.
Após a sua morte, foi D. Gonçalo Coutinho que mandou esculpir na sua pedra o seguinte letreiro: “Aqui Jaz Luís de Camões Príncipe dos Poetas de seu Tempo. Viveu Pobre e Miseravelmente e Assim Morreu. - Esta campa lhe mandou pôr D. Gonçalo Coutinho, na qual se não enterrará pessoa alguma.”
A comemoração do dia da sua morte, é actualmente relembrado como o “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, sendo feriado nacional.
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Ter maio 11, 2010 5:17 pm
Cá nesta Babilónia
Cá nesta Babilónia, donde mana Matéria a quanto mal o mundo cria; Cá, onde o puro Amor não tem valia, Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
Cá, onde o mal se afina, o bem se dana, E pode mais que a honra a tirania; Cá, onde a errada e cega Monarquia Cuida que um nome vão a Deus engana;
Cá, neste labirinto, onde a Nobreza, O Valor e o Saber pedindo vão Às portas da Cobiça e da Vileza;
Cá, neste escuro caos de confusão, Cumprindo o curso estou da natureza. Vê se me esquecerei de ti, Sião!
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
BuFFis
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Ter maio 11, 2010 10:53 pm
esta história de uma pessoa não poder abrir um tópico a não ser em diversos ... tem que acabar ....
Ou há liberdade ... ou não há ....
Cecília Meireles : A Arte de Ser Feliz
Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crinças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refelectidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes um galo canta. Às vezes um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Ter maio 11, 2010 11:09 pm
Liberdade há, mas neste caso tem que ser como a história do crocodilo: Voa, mas muito baixinho...
Agora a sério:
Na área Diversos qualquer um pode abrir Tópicos pessoais, por exemplo: POESIA - Buffa's prós... "Amigos", NOTÍCIAS - Buffa's prós... "Amigos", etc...
Penso que por agora é o que me parece mais adequado...
No entanto, o amanhã a Deus pertence...
BuFFis
Mensagens : 587 Data de inscrição : 02/06/2009 Idade : 114 Localização : Aqui
Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Ter maio 11, 2010 11:25 pm
Anarca escreveu:
Liberdade há, mas neste caso tem que ser como a história do crocodilo: Voa, mas muito baixinho...
Agora a sério:
Na área Diversos qualquer um pode abrir Tópicos pessoais, por exemplo: POESIA - Buffa's prós... "Amigos", NOTÍCIAS - Buffa's prós... "Amigos", etc...
Penso que por agora é o que me parece mais adequado...
No entanto, o amanhã a Deus pertence...
pois ... mas pensas mal....
e não fales em Deus ... porque vais arder nas profundezas do Inferno, com tanto pecado
ainda por cima me gozas .. pah anarca
não há direito de uma coisa destas ...
tu axas bem que a cecília esteja no tópico do luís ... axas kisto tem jeito ?
diz.me ... vá....
PS - Pensa bem antes de escreveres, para depois não te arrependeres, não te esqueças kisto vai tudo para os arquivos da P.I.D.E., do Mister Yonk, para ser recordado daqui a 3000 anos...
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Ter maio 11, 2010 11:33 pm
Felizmente o inferno é uma invenção do Santo Agostinho, pelo que não me preocupa muito...
No entanto há outros aspectos que é preciso acautelar...
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Qui maio 13, 2010 12:07 pm
Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente
Erros meus, má Fortuna, Amor ardente Em minha perdição se conjuraram; Os erros e a Fortuna sobejaram, Que para mim bastava Amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente A grande dor das cousas que passaram, Que já as frequências suas me ensinaram A desejos deixar de ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos; Dei causa a que a Fortuna castigasse As minhas mal fundadas esperanças.
De Amor não vi senão breves enganos. Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse Este meu duro Génio de vinganças!
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Sex maio 14, 2010 7:03 pm
Amor é um Fogo que Arde sem se Ver
Amor é um fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente; É nunca contentar-se e contente; É um cuidar que ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Ter maio 18, 2010 12:36 pm
Bem Sei, Amor, que é Certo o que Receio
Bem sei, Amor, que é certo o que receio; Mas tu, porque com isso mais te apuras, De manhoso, mo negas, e mo juras Nesse teu arco de ouro; e eu te creio.
A mão tenho metida no meu seio, E não vejo os meus danos às escuras; Porém porfias tanto e me asseguras, Que me digo que minto, e que me enleio.
Nem somente consinto neste engano, Mas inda to agradeço, e a mim me nego Tudo o que vejo e sinto de meu dano.
Oh poderoso mal a que me entrego! Que no meio do justo desengano Me possa inda cegar um moço cego?
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Sex maio 21, 2010 6:39 pm
Repouso na Alegria Comedido
Leda serenidade deleitosa, Que representa em terra um paraíso; Entre rubis e perlas, doce riso, Debaixo de ouro e neve, cor-de-rosa;
Presença moderada e graciosa, Onde ensinando estão despejo e siso Que se pode por arte e por aviso, Como por natureza, ser formosa;
Fala de que ou já vida, ou morte pende, Rara e suave, enfim, Senhora, vossa, Repouso na alegria comedido:
Estas as armas são com que me rende E me cativa Amor; mas não que possa Despojar-me da glória de rendido.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Seg maio 24, 2010 7:05 pm
Do Tempo que Fui Livre me Arrependo
O culto divinal se celebrava No templo donde toda criatura Louva o Feitor divino, que a feitura Com seu sagrado sangue restaurava.
Amor ali, que o tempo me aguardava Onde a vontade tinha mais segura, Com uma rara e angélica figura A vista da razão me salteava.
Eu crendo que o lugar me defendia De seu livre costume, não sabendo Que nenhum confiado lhe fugia,
Deixei-me cativar; mas hoje vendo, Senhora, que por vosso me queria, Do tempo que fui livre me arrependo.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Qua maio 26, 2010 12:22 pm
Ditosa Ave
Quem fosse acompanhando juntamente Por esses verdes campos a avezinha, Que despois de perder um bem que tinha, Não sabe mais que cousa é ser contente!
E quem fosse apartando-se da gente, Ela por companheira e por vizinha, Me ajudasse a chorar a pena minha, E eu a ela também a que ela sente!
Ditosa ave! que ao menos, se a natura A seu primeiro bem não dá segundo, Dá-lhe o ser triste a seu contentamento.
Mas triste quem de longe quis ventura Que para respirar lhe falte o vento, E para tudo, enfim, lhe falte o mundo!
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Seg Jun 28, 2010 6:34 pm
Em Amor não há Senão Enganos
Suspiros inflamados que cantais A tristeza com que eu vivi tão cedo; Eu morro e não vos levo, porque hei medo Que ao passar do Leteo vos percais.
Escritos para sempre já ficais Onde vos mostrarão todos co'o dedo, Como exemplo de males; e eu concedo Que para aviso de outros estejais.
Em quem, pois, virdes largas esperanças De Amor e da Fortuna (cujos danos Alguns terão por bem-aventuranças),
Dizei-lhe que os servistes muitos anos, E que em Fortuna tudo são mudanças, E que em Amor não há senão enganos.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Ter Jul 06, 2010 1:40 pm
Pouco te Ama
Na metade do Céu subido ardia O claro, almo Pastor, quando deixavam O verde pasto as cabras, e buscavam A frescura suave da água fria.
Com a folha das árvores, sombria, Do raio ardente as aves se amparavam; O módulo cantar, de que cessavam, Só nas roucas cigarras se sentia.
Quando Liso Pastor, num campo verde, Natércia, crua Ninfa, só buscava Com mil suspiros tristes que derrama.
Porque te vás de quem por ti se perde, Para quem pouco te ama? (suspirava) E o eco lhe responde: Pouco te ama.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Qua Jul 07, 2010 1:14 pm
Com Tornar-vos a Ver Amor me Cura
Ferido sem ter cura perecia O forte e duro Télefo temido Por aquele que na água foi metido, E a quem ferro nenhum cortar podia.
Quando a apolíneo Oráculo pedia Conselho para ser restituído, Respondeu-lhe, tornasse a ser ferido Por quem o já ferira, e sararia.
Assim, Senhora, quer minha ventura, Que ferido de ver-vos claramente, Com tornar-vos a ver Amor me cura.
Mas é tão doce vossa formosura, Que fico como o hidrópico doente, Que bebendo lhe cresce mor secura.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Qui Jul 08, 2010 4:17 pm
Não Canse o Cego Amor de me Guiar
Pois meus olhos não cansam de chorar Tristezas não cansadas de cansar-me; Pois não se abranda o fogo em que abrasar-me Pôde quem eu jamais pude abrandar;
Não canse o cego Amor de me guiar Donde nunca de lá possa tornar-me; Nem deixe o mundo todo de escutar-me, Enquanto a fraca voz me não deixar.
E se em montes, se em prados, e se em vales Piedade mora alguma, algum amor Em feras, plantas, aves, pedras, águas;
Ouçam a longa história de meus males, E curem sua dor com minha dor; Que grandes mágoas podem curar mágoas.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Sex Jul 09, 2010 5:00 pm
Quando não te Vejo Perco o Siso
Formosura do Céu a nós descida, Que nenhum coração deixas isento, Satisfazendo a todo pensamento, Sem que sejas de algum bem entendida;
Qual língua pode haver tão atrevida, Que tenha de louvar-te atrevimento, Pois a parte melhor do entendimento, No menos que em ti há se vê perdida?
Se em teu valor contemplo a menor parte, Vendo que abre na terra um paraíso, Logo o engenho me falta, o espírito míngua.
Mas o que mais me impede inda louvar-te, É que quando te vejo perco a língua, E quando não te vejo perco o siso.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Seg Jul 12, 2010 12:44 pm
Ordena Amor que Morra, e Pene Juntamente
Como fizeste, ó Porcia, tal ferida? Foi voluntária, ou foi por inocência? É que Amor fazer só quis experiência Se podia eu sofrer, tirar-me a vida?
E com teu próprio sangue te convida A que faças à morte resistência? É que costume faço da paciência, Porque o temor morrer me não impida.
Pois porque estás comendo com fogo ardente, Se a ferro te costumas? É que ordena Amor que morra, e pene juntamente.
E tens a dor do ferro por pequena? Si, que a dor costumada não se sente, E não quero eu a morte sem a pena.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Ter Jul 13, 2010 12:41 pm
Se as Penas com que Amor Tão Mal me Trata
Se as penas com que Amor tão mal me trata Permitirem que eu tanto viva delas, Que veja escuro o lume das estrelas, Em cuja vista o meu se acende e mata;
E se o tempo, que tudo desbarata, Secar as frescas rosas, sem colhê-las, Deixando a linda cor das tranças belas Mudada de ouro fino em fina prata;
Também, Senhora, então vereis mudado O pensamento e a aspereza vossa, Quando não sirva já sua mudança.
Ver-vos-eis suspirar por o passado, Em tempo quando executar-se possa No vosso arrepender minha vingança.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Qua Jul 14, 2010 1:42 pm
Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança: Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança: Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem (se algum houve) as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto, Que já coberto foi de neve fria, E em mim converte em choro o doce canto.
E afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto, Que não se muda já como soía.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Qui Jul 15, 2010 12:29 pm
A Dor da Ausência Fica Mais Pequena
Quando vejo que meu destino ordena Que, por me experimentar, de vós me aparte, Deixando de meu bem tão grande parte, Que a mesma culpa fica grave pena,
O duro desfavor, que me condena, Quando pela memória se reparte, Endurece os sentidos de tal arte Que a dor da ausência fica mais pequena.
Mas como pode ser que na mudança Daquilo que mais quero, este tão fora De me não apartar também da vida?
Eu refrearei tão áspera esquivança, Porque mais sentirei partir, Senhora, Sem sentir muito a pena da partida.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Sex Jul 16, 2010 1:20 pm
Converteu-se-me em Noite o Claro Dia
Apolo e as nove Musas, descantando Com a dourada lira, me influíam Na suave harmonia que faziam, Quando tomei a pena, começando:
Ditoso seja o dia e hora, quando Tão delicados olhos me feriam! Ditosos os sentidos que sentiam Estar-se em seu desejo traspassando!
Assim cantava, quando Amor virou A roda à esperança, que corria Tão ligeira, que quase era invisível.
Converteu-se-me em noite o claro dia; E, se alguma esperança me ficou, Será de maior mal, se for possível.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Sex Jul 16, 2010 1:24 pm
Citações de Luis de Camões:
Coisas impossíveis, é melhor esquecê-las que desejá-las Tema: Sonho
É fraqueza entre ovelhas ser leão Tema: Fraqueza
Quanto mais pode a fé que a força humana Tema: Fé
Um baixo amor os fortes enfraquece Tema: Força
Nos perigos grandes, o temor / É muitas vezes maior que o perigo Tema: Medo
Quem não sabe a arte, não a estima Tema: Habilidade
Quem quis, sempre pôde Tema: Poder
Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Desta vaidade a que chamamos fama! Tema: Fama
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo Tema: Julgamento
Contra o céu não valem mãos Tema: Fatalidade
Sempre por via irá direita / Quem do oportuno tempo se aproveita Tema: Oportunidade
Não há alma sem corpo, que tantos corpos faça sem almas, como este purgatório a que chamais honra: onde muitas vezes os homens cuidam que a ganham, aí a perdem Tema: Honra
Quem siso quer ter não tenha amores Tema: Juízo
Basta um frade ruim para dar que falar a um convento Tema: Maldade
Nunca vi coisa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte: sendo menos aborrecida que a verdade, tem-se em menos conta que a virtude Tema: Morte
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Seg Jul 19, 2010 12:44 pm
Doces Despojos de meu Bem Passado
Amor, co'a esperança já perdida Teu soberano templo visitei; Por sinal do naufrágio que passei, Em lugar dos vestidos, pus a vida.
Que mais queres de mim, pois destruída Me tens a glória toda que alcancei? Não cuides de render-me, que não sei Tornar a entrar onde não há saída.
Vês aqui vida, alma e esperança, Doces despojos de meu bem passado, Enquanto o quis aquela que eu adoro.
Nelas podes tomar de mim vingança; E se te queres ainda mais vingado, Contenta-te co'as lágrimas que choro.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
Anarca
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA Ter Jul 20, 2010 11:53 am
Lágrimas Tristes Tomarão Vingança
Se somente hora alguma em vós piedade De tão longo tormento se sentira, Amor sofrera, mal que eu me partira De vossos olhos, minha saudade.
Apartei-me de vós, mas a vontade, Que por o natural na alma vos tira, Me faz crer que esta ausência é de mentira; Porém venho a provar que é de verdade.
Ir-me-ei, Senhora; e neste apartamento Lágrimas tristes tomarão vingança Nos olhos de quem fostes mantimento.
Desta arte darei vida a meu tormento, Que, enfim, cá me achará minha lembrança Sepultado no vosso esquecimento.
Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"
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Assunto: Re: LUIS DE CAMÕES - O POETA DA RENASCENÇA