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 CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO

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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Dom Nov 15, 2009 2:40 pm

Poema da Necessidade

É preciso casar João,
é preciso suportar António,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Sentimento do Mundo'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Ter Nov 17, 2009 12:11 am

Necrológio dos Desiludidos do Amor

Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.

Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.

Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.

Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia...

Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).

Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Brejo das Almas'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qua Nov 18, 2009 12:09 am

O Amor Bate na Porta

Cantiga do amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito!

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...

Carlos Drummond de Andrade, in 'Brejo das Almas'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Sex Nov 20, 2009 12:37 am

Balada do Amor através das Idades

Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigámos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Alguma Poesia'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Sab Nov 21, 2009 1:47 pm

Família

Três meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.

A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda a noite
e a mulher que trata de tudo.

O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Alguma Poesia'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Dom Nov 22, 2009 9:56 pm

Toada do Amor

E o amor sempre nessa toada:
briga perdoa perdoa briga.

Não se deve xingar a vida,
a gente vive, depois esquece.
Só o amor volta para brigar,
para perdoar,
amor cachorro bandido trem.

Mas, se não fosse ele, também
que graça que a vida tinha?

Mariquita, dá cá o pito,
no teu pito está o infinito.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Alguma Poesia'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Seg Nov 23, 2009 11:34 pm

Igual-Desigual

Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são
iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as acções, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.

Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho
ímpar.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Paixão Medida'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qui Nov 26, 2009 11:17 pm

Citações de Carlos Drummond de Andrade:

Os homens são como as moedas; devemos tomá-los pelo seu valor, seja qual for o seu cunho
Tema: Homem

Necessitamos sempre de ambicionar alguma coisa que, alcançada, não nos torna sem ambição
Tema: Ambição

O cofre do banco contém apenas dinheiro. Frustar-se-á quem pensar que nele encontrará riqueza
Tema: Dinheiro

A educação visa melhorar a natureza do homem o que nem sempre é aceite pelo interessado
Tema: Educação

As obras-primas devem ter sido geradas por acaso; a produção voluntária não vai além da mediocridade
Tema: Acaso

Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante
Tema: Literatura

Como as plantas a amizade não deve ser muito nem pouco regada
Tema: Amizade

Há vários motivos para não amar uma pessoa, e um só para amá-la; este prevalece
Tema: Amor

Perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes
Tema: Tempo

A educação para o sofrimento, evitaria senti-lo, em relação a casos que não o merecem
Tema: Sofrimento
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Dom Nov 29, 2009 3:47 pm

A Palavra

Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Paixão Medida'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Ter Dez 01, 2009 11:26 pm

Citações de Carlos Drummond de Andrade:

A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas
Tema: Amizade

A confiança é um acto de fé, e esta dispensa raciocínio
Tema: Confiança

A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede
Tema: Literatura

As dificuldades são o aço estrutural que entra na construção do carácter
Tema: Carácter

Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons
Tema: Felicidade

Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade
Tema: Felicidade

Só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo
Tema: Homem

Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar
Tema: Igualdade

Há muitas razões para duvidar e uma só para crer
Fonte: "O Avesso das Coisas"
Tema: Crença

Para a virtude da discrição, ou de modo geral qualquer virtude, aparecer em seu fulgor, é necessário que faltemos à sua prática
Fonte: "Fala, Amendoeira"
Tema: Discrição
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qui Dez 03, 2009 12:16 am

Igual-Desigual

Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais.
Todos os partidos políticos são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as acções, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.

Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho ímpar.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Paixão Medida'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qui Dez 03, 2009 10:39 pm

Deus Triste

Deus é triste.

Domingo descobri que Deus é triste
pela semana afora e além do tempo.

A solidão de Deus é incomparável.
Deus não está diante de Deus.
Está sempre em si mesmo e cobre tudo
tristinfinitamente.

A tristeza de Deus é como Deus: eterna.

Deus criou triste.
Outra fonte não tem a tristeza do homem.

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Sab Dez 05, 2009 2:34 pm

Ainda que Mal

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Dom Dez 06, 2009 9:55 pm

Citações de Carlos Drummond de Andrade:

É menor pecado elogiar um mau livro sem o ler, do que depois de o ter lido. Por isso, agradeço imediatamente depois de receber o volume. Não há vida literária plenamente virtuosa
Fonte: "Passeios na Ilha"
Tema: Elogio

Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira
Fonte: "Passeios na Ilha"
Tema: Escrita

Cem máximas que resumissem a sabedoria universal tornariam dispensáveis os livros
Fonte: "O Avesso das Coisas"
Tema: Máximas

Não é fácil ter paciência diante dos que têm excesso de paciência
Fonte: "O Avesso das Coisas"
Tema: Paciência

Partido político é um agrupamento de cidadãos para defesa abstracta de princípios e elevação concreta de alguns cidadãos
Fonte: "O Avesso das Coisas"
Tema: Partido (político)

Há certo gosto em pensar sozinho. É acto individual, como nascer e morrer
Fonte: "Passeios na Ilha"
Tema: Pensar

O progresso dá-nos tanta coisa que não nos sobra nada nem para pedir, nem para desejar, nem para jogar fora
Fonte: "Passeios na Ilha"
Tema: Progresso

A minha vontade é forte, mas a minha disposição em lhe obedecer é fraca
Tema: Vontade

Não há como os bons sentimentos para estragarem um cidadão
Fonte: "Passeios na Ilha"
Tema: Sentimento
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Seg Dez 07, 2009 9:17 pm

Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado,
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até à exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso.

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qua Dez 09, 2009 4:04 pm

Duração

O tempo era bom? Não era
O tempo é, para sempre.
A hera da antiga era
roreja incansavelmente.

Aconteceu há mil anos?
Continua acontecendo.
Nos mais desbotados panos,
estou me lendo e relendo.

Tudo morto, na distância
que vai de alguém a si mesmo?
Vive tudo, mas sem ânsia
de estar amando e estar preso.

Pois tudo enfim se liberta
de ferros forjados no ar.
A alma sorri, já bem perto,
da raiz mesma do ser.

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qui Dez 10, 2009 4:50 pm

Confissão

É certo que me repito,
é certo que me refuto
e que, decidido, hesito
no entra-e-sai de um minuto.

É certo que irresoluto
entre o velho e o novo rito
atiro à cesta o absoluto
como inútil papelito.

É tão certo que me aperto
numa tenaz de mosquito
como é trinta vezes certo
que me oculto no meu grito.

Certo, certo, certo, certo
que mais sinto que reflicto
as fábulas do deserto
do raciocínio infinito.

É tudo certo e prescrito
em nebuloso estatuto.
O homem, chamar-lhe mito
não passa de anacoluto.

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Sab Dez 12, 2009 1:03 am

Tu? Eu?

Não morres satisfeito.
A vida te viveu
sem que vivesses nela.
E não te convenceu
nem deu qualquer motivo
para haver o ser vivo.

A vida te venceu
em luta desigual.
Era todo o passado
presente presidente
na polpa do futuro
acuando-te no beco.
Se morres derrotado,
não morres conformado.

Nem morres informado
dos termos da sentença
de tua morte, lida
antes de redigida.
Deram-te um defensor
cego surdo estrangeiro
que ora metia medo
ora extorquia amor.

Nem sabes se és culpado
de não ter culpa. Sabes
que morres todo o tempo
no ensaiar errado
que vai a cada instante
desensinando a morte
quanto mais a soletras,
sem que, nascido, more
onde, vivendo, morres.

Não morres satisfeito
de trocar tua morte
por outra mais (?) perfeita.
Não aceitas teu
como aceitaste os muitos
fins em volta de ti.

Testemunhaste a morte
no privilégio de ouro
de a sentires em vida
através de um aquário.
Eras tu que morrias
nesse, naquela; e vias
teu ser evaporado
fugir à percepção.
Estranho vivo, ausente
na suposta consciência
de imperador cativo.

Foste morrendo só
como sobremorrente
no lodoso telhado
(era prémio, castigo?)
de onde a vista captava
o que era abraço e não
durava ou se perdia
em guerra de extermínio,
horror de lado a lado.

E tudo foi a caça
veloz fugindo ao tiro
e o tiro se perdendo
em outra caça ou planta
ou barro, arame, gruta.
E a procura do tiro
e do atirador
(nem sequer tinha mãos),
procura, a procura
da razão de procura.

Não morres satisfeito,
morres desinformado.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Falta que Ama'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Dom Dez 13, 2009 3:33 pm

Falta Pouco

Falta pouco para acabar
o uso desta mesa pela manhã
o hábito de chegar à janela da esquerda
aberta sobre enxugadores de roupa.
Falta pouco para acabar
a própria obrigação de roupa
a obrigação de fazer barba
a consulta a dicionários
a conversa com amigos pelo telefone.

Falta pouco
para acabar o recebimento de cartas
as sempre adiadas respostas
o pagamento de impostos ao país, à cidade
as novidades sangrentas do mundo
a música dos intervalos.

Falta pouco para o mundo acabar
sem explosão
sem outro ruído
além do que escapa da garganta com falta de ar.

Agora que ele estava principiando
a confessar
na bruma seu semblante e melodia.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Falta que Ama'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Seg Dez 14, 2009 9:59 pm

O Deus Mal Informado

No caminho onde pisou um deus
há tanto tenpo que o tempo não lembra
resta o sonho dos pés
sem peso
sem desenho.

Quem passe ali, na fracção de segundo,
em deus se erige, insciente, deus faminto,
saudoso de existência.

Vai seguindo em demanda de seu rastro,
é um tremor radioso, uma opulência
de impossíveis, casulos do possível.

Mas a estrada se parte, se milparte,
a seta não aponta
a destino algum, e o traço ausente
ao homem torna homem, novamente.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Falta que Ama'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Dom Fev 28, 2010 7:47 pm

Poema erótico ...

Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejo de apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem.
A noite era quente e calma, e eu estava em minha cama, quando, sorrateiramente, te aproximaste...
Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença, aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos.
Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci.
Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão.
Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite.
Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama, te esperar. Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força. Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do seu corpo.
Só assim, livrar-me-ei de ti, pernilongo Filho da Puta!!!!

Carlos Drummond de Andrade
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qua Ago 04, 2010 7:11 pm

Memória...

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade
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