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 JÚLIO DANTAS - O POETA RETRÓGRADO

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Anarca

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MensagemAssunto: JÚLIO DANTAS - O POETA RETRÓGRADO   Ter Jul 13, 2010 8:01 pm

Júlio Dantas (Lagos, 19 de Maio de 1876 - Lisboa, 25 de Maio de 1962) foi um médico, político e diplomata, que se distinguiu como um dos mais conhecidos intelectuais portugueses das primeiras décadas do século XX. Na sua actividade intelectual foi um polígrafo, cultivando os mais variados géneros literários, da poesia ao romance e ao jornalismo, mas foi como dramaturgo que ficou mais conhecido, em particular pela sua peça A Ceia dos Cardeais (1902), uma das mais populares produções teatrais portuguesas de sempre. Na política foi deputado, Ministro da Instrução Pública e Ministro dos Negócios Estrangeiros (1921-1922 e 1923), terminando a sua carreira pública como embaixador de Portugal no Brasil (1941-1949). Considerado retrógrado por alguns intelectuais coevos, como foi o caso de Almada Negreiros, que foi ao ponto de escrever o Manifesto Anti-Dantas e de publicamente o desconsiderar, conseguiu granjear durante a vida grande prestígio social e literário, prestígio que decaiu após a sua morte. Foi eleito sócio da Academia de Ciências de Lisboa (1908), instituição a que presidiu a partir de 1922.

Biografia

Filho de Casimiro Augusto Vanez Dantas, militar, escritor e jornalista, e de Maria Augusta Pereira d'Eça, estudou no Colégio Militar, em Lisboa, inscrevendo-se seguidamente no curso de Medicina da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, que concluiu em 1900 com uma tese intitulada Poetas e pintores de Rilhafoles. Pouco depois ingressou no Exército Português, sendo oficial médico a partir de 1902.

A carreira de medicina militar, onde optou por uma prática no campo de psiquiatria, não o absorveu: dedicou-se simultaneamente à literatura e a uma intensa actividade intelectual e social, que o tornou conhecido nos meios políticos e nos círculos cultos de Lisboa. Em 1905 foi eleito deputado às Cortes.

Na literatura revelou-se um verdadeiro polígrafo, dedicando-se aos mais variados géneros literários, desde a poesia, o teatro, o conto, o romance e a crónica até ao ensaio. Alcançou grandes êxitos com as suas peças teatrais, com obras como A Severa, A Ceia dos Cardeais (obra que foi traduzida para mais de 20 línguas), Rosas de Todo o Ano e O Reposteiro Verde.

Publicou o seu primeiro artigo em 1893 no jornal Novidades, e o seu primeiro livro de versos em 1897. A maior parte das suas obras de teatro e novelas são sobre o passado histórico, mas as suas melhores obras, Paço de Vieiros (1903) ou O Reposteiro Verde (1921 estão escritas num estilo naturalista.

Nas suas obras defende o culto do heroísmo, da elegância e do amor, situando a trama das suas obras quase invariavelmente no século XVIII, época que escolhia quase sempre como cenário das suas produções, salientando a decadência da vida aristocrática da época. Nas suas obras é também comum encontrar a exaltação do efémero, da morte e do sentimentalismo mais pungente. A sua obra poética é claramente inspirada na lírica palaciana do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.

Do ponto de vista estilístico, a sua obra situa-se entre o romantismo e o parnasianismo, predominando nas obras de teatro e nas novelas os temas históricos. Contudo, as melhores obras de Júlio Dantes, nomeadamente Paço de Vieiros (1903) e o O Reposteiro Verde (1921) têm um claro pendor para o naturalismo. Foi durante décadas um dos autores portugueses mais apreciados no estrangeiro.

A primeira produção de uma das suas peças ocorreu em 1899, no Teatro Dona Amélia (actual Teatro São Luiz) de Lisboa, com a apresentação da peça em quatro actos O que morreu de amor, pela Companhia Rosas & Brasão. Ainda no campo teatral dedicou-se à tradução, tendo publicado versões em língua portuguesa de Cyrano de Bregerac, de Edmond Rostand, e do Rei Lear, de William Shakespeare. Exímio tradutor, as suas traduções contam-se entre as melhores feitas para a língua portuguesa.

A Ceia dos Cardeais (1902) foi enormemente popular no seu tempo. Com base na sua obra teatral A Severa, José Leitão de Barros realizou o primeiro filme sonoro português em 1931. A sua peça Os Crucificados aborda, pela primeira vez no teatro português, a temática da homossexualidade.

Foi sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa a partir de 1908 e sócio efectivo desde 1913. Por várias vezes foi escolhido para presidente da instituição. Em 1949 recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Brasil, título que em 1954 também lhe foi atribuído pela Universidade de Coimbra.

Aceitou também uma carreira no ensino artístico e foi director do Conservatório Nacional de Lisboa, sendo ali professor de História da Literatura e director da Secção de Arte Dramática.

Foi Ministro da Instrução Pública no Outono de 1920, no governo presidido por António Granjo, e Ministro dos Negócios Estrangeiros no governo de Cunha Leal, no Inverno de 1921-1922, e novamente em 1923 no governo de Ginestal Machado.

Em 1941 foi um dos Embaixadores Especiais enviados ao Brasil para dignificar a cultura de Portugal e em 1949 foi nomeado embaixador de Portugal no Rio de Janeiro. Nessas funções teve papel destacada na elaboração de um acordo ortográfico com o Brasil.

Foi considerado retrógrado por alguns, como foi o caso de Almada Negreiros, que lhe dedicou o Manifesto Anti-Dantas. O facto de ter sido invectivado por aquele manifesto e se ter transformado num dos alvos dos jovens aderentes do modernismo comprova a sua notoriedade de homem público. Apesar disso, passado o teste do tempo e amainadas as paixões, Vitorino Nemésio e David Mourão Ferreira defenderam a sua qualidade literária e a sua invulgar mestria dramatúrgica, considerando-o merecedor de destaque nas letras portuguesas.

No jornalismo e na crítica literária, foi colaborador dos jornais mais importantes de Portugal, nomeadamente do Diário Ilustrado, Novidades, Correio da Manhã e Renascença e escreveu no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, e no La Nación, de Buenos Aires.

Na política foi considerado oportunista, mostrando realmente uma grande versatilidade, servido como deputado na Monarquia, como ministro na Primeira República e finalmente como deputado, presidente da Comissão dos Centenários e embaixador em pleno Estado Novo. Sob a sua plasticidade política, Fernando Dacosta afirmou: "para se aproximar do Paço e da Rainha escreve a "Ceia dos Cardeais". Não recebendo os cargos e as honrarias a que julgava ter direito, aproveita-se da crise do regime monárquico e faz "Um Serão nas Laranjeiras", denúncia da decomposição da corte. Mas não se afasta dela." Quando foi proclamada a República, Júlio Dantas aderiu ao regime e publicou, no diário A Capital, o folhetim "Cruz de Sangue", depois em livro com o título Pátria Portuguesa (1914), fazendo a exaltação do povo e a condenação da nobreza. Em 1911, desencadeado o conflito entre a Igreja Católica e o Estado Português por causa da Lei da Separação de Afonso Costa, publica a peça A Santa Inquisição (1910), um libelo contra a Inquisição. Com o advento do salazarismo, publicou Frei António das Chagas, um "elogio de quem se sacrifica, se imola pela Pátria". Terminada a Segunda Guerra Mundial, prevendo a queda do Estado Novo, reformulou introduziu, em 1946, na Antígona, peça de estreia de Mariana Rey Monteiro, uma crítica velada ao velho ditador por meio da personagem de Creonte.

Foi um dos fundadores da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, a SECTP, de que foi o primeiro presidente. Aquela sociedade deu origem à Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).

Contrariando o estereótipo de conservadorismo ligado à sua imagem pública, quebrou com a tradição e resistiu à pressão social da época: casou civilmente e recusou um funeral católico, mantendo-se fiel às suas convicções anti-clericais dos inícios do século XX.

Júlio Dantas é lembrado na sua cidade natal, Lagos, por um busto, localizado em Santo Amaro, na área envolvente ao Mercado Novo, dando também o nome à biblioteca pública da cidade. É também patrono da Escola Secundária Júlio Dantas, a principal escola pública de ensino secundário daquela cidade.
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: JÚLIO DANTAS - O POETA RETRÓGRADO   Qua Jul 14, 2010 12:50 pm

Duas Almas

Duas almas que tarde se encontraram,
Como as nossas, meu bem, e tantas mais,
Porque modo se tornaram tão iguais
Se em tão diversos meios se criaram?

Umas em berço de outro as embalaram,
Às outras a erva fez berços rurais:
E seneo de princípio desiguais,
Depois tão semelhantes se tornaram.

Há bem pouco prendemos nossas vidas,
Já cuidas de meu bem como teu bem,
Já meu mal de agora vais sofrendo:

E as nossas almas tão parecidas,
Como essas duas lágrimas que vêm
Por tuas faces de âmbar escorrendo.

(Júlio Dantas)


Última edição por Anarca em Sex Jul 16, 2010 12:45 pm, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: JÚLIO DANTAS - O POETA RETRÓGRADO   Qua Jul 14, 2010 12:51 pm

A Liga da Duquesa

A senhora duquesa, uma beleza antiga,
de bastão de faiança, de cabelo empoado,
certo dia, ao descer do seu estufim dourado
sentiu desapertar-se o fecho de uma liga.
Corou. Quis apertá-lo (ao que o pudor obriga).
mas, voltou-se, olhou... Tinha o capelão ao lado.
Mais um passo e perdeu-se o laço desatado,
e rebentou na corte uma tremenda intriga.
Fizeram-se pregões. Marqueses, condes, tudo
procurava, roçando os calções de veludo
por baixo dos sofás, de joelhos pelo chão...
E quando já ninguém mais esperava - que surpresa! -
foi-se encontrar por fim a liga da duquesa
no livro de orações do padre capelão.

(Júlio Dantas)
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MensagemAssunto: Re: JÚLIO DANTAS - O POETA RETRÓGRADO   Qui Jul 15, 2010 12:26 pm

Luz dos meus olhos

Luz dos meus olhos! Já mal posso crer
porque esta vida triste não consente,
que possa vir um dia ser contente
quem anda tão cansado de sofrer.

Se o ser feliz está no bem-querer,
devia ser feliz inteiramente
quem tanto bem te quer e tanto sente,
a certeza de não te merecer.

Mas se pode guardar leda esperança
desgraçado que sempre a viu perdida,
ainda um bem espero por mudança:

depois de tanta agrura padecida,
há de cansar a dor, que tanto cansa...
- Se acaso não cansar primeiro a vida.

(Júlio Dantas)
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MensagemAssunto: Re: JÚLIO DANTAS - O POETA RETRÓGRADO   Sex Jul 16, 2010 12:43 pm

Os Desconhecidos

Dois cadáveres - vêde - aguardam o meu córte:
Um homem gigantesco e uma mulher perdida.
Dormem nús, sôbre a pedra, unidos pela morte,
E talvez, sem se vêr, passaram pela vida.

Êle, o morto, na sêca e descarnada espalda
Tem nomes de mulher e várias tatuagens;
Treme de nojo o sol na sua pele jalda
E abrem-lhe a bôca verde uns esgares selvagens.

De torax d’esmeralda, asa tecida d’ouro,
Uma nervosa môsca, em passos indolentes,
Para entrar-lhe na bôca aflora o buço louro
E começa a descer pela escada dos dentes.

Morto há dias, olhai que a rigidez se perde
E que o seu corpo está gelatinoso e elástico:
Suas costelas são como um tèclado verde,
Digno das longas mãos dum pianista fantástico!

Ela morreu de parto: entre as airosas côxas
Que doira como um fruto uma lanugem pouca,
Um féto mostra ao sol as suas carnes rôxas,
Ajoelhado, a rir, sem olhos e sem bôca.

Tem rugas sôbre o ventre, e lembra, cada ruga,
As que a pedra ao cair traça nos verdes pântanos:
Os seus cabelos são dum ruivo tartaruga,
O seu rictus pertuba e o seu olhar espanta-nos.

Bate-lhe em cheio o sol, como losango d’ouro;
Tem no seio listrões de sangue que secou:
E pelo flanco enorme, e pelo púbis louro,
Lembra os ventres brutais que Van Miéris pintou.

Dir-se-ia que o morto a olha, - reparai,
E lhe espreita e deseja as carnes violadas;
D’aí, quem sabe lá se êle seria o pai
Daquele féto rôxo a rir às gargalhadas!

(Júlio Dantas)
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MensagemAssunto: Re: JÚLIO DANTAS - O POETA RETRÓGRADO   Seg Jul 19, 2010 7:14 pm

Virgindade

Ó gótica beleza iluminada e viva!
Sê esquiva para mim; quero-te sempre esquiva!
No amor, a dôr é tanta e a volúpia tão pouca!
Foge das minhas mãos, foge da minha bôca!
Ser honesta é vestir uma roupa de estrelas:
Há flôres no teu peito; hás de ter conta nelas.
Nunca me ouças de perto as âncias e os segredos:
Quebram flôres de vidro os meus impuros dedos,
Rasga sêdas, no escuro, o meu brutal namôro…
É tão fácil quebrar uma citura d’ouro!
Magoando-te a carne, em âncias de mordê-la,
Serei sempre um leproso a babar uma estrela,
Um sapo que polue, arrebentando em pragas,
A santa que o buscou para sarar-lhe as chagas.

(Júlio Dantas)
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