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 ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE

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Anarca

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MensagemAssunto: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Qua Jul 28, 2010 6:58 pm

Paulino António Cabral, escritor português, nasceu em Amarante, em 1719, tornando-se pároco de Jazente a partir de 1753, cargo ao qual resignou, por doença, em 1783. Estudou em Coimbra e foi uma das presenças da Arcádia Portuense que reuniria por finais de 1760. A sua vida repartiu-se entre esta, as festas conventuais e a solidão rústica.

Como poeta, sobretudo sonetista, cantou os temas horacianos do amor epicurista e da dourada mediania rural. A obra legada fornece-nos preciosos depoimentos históricos e também por ela sabemos dos seus prazeres (a caça, a pesca, o jogo, a boa mesa); das suas fraquezas, do seu triste envelhecer, dos seus amores, pois revela-nos episódios concretos de um relacionamento com Nise (anagrama de Inês da Cunha).

Os sonetos respeitantes a Nise constituem o mais pungente drama de amor do século XVIII português. Além de poesia de circunstância, deixou textos de conteúdo moral e poesia de matiz romântica.
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Qua Jul 28, 2010 7:02 pm

Imitando Camões

Amor é um arder que se não sente;
É ferida que dói, e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.

É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia, a mais cruel e a mais impura;
É frágoa, que devora o fogo ardente.

É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.

É suspiros lançar de quando em quando;
É quem me causa eternos sentimentos.
É quem me mata e vida me está dando

(Abade de Jazente)
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Qui Jul 29, 2010 5:15 pm

Amores - I

Olha Nize, vem cá; falemos claro
Já agora a tua história está sabida
E loucura será mudar de vida
Se nunca há-de calar-se o mundo avaro:

Inda que, de virtude exemplo raro,
Te mostres do passado arrependida,
Nada com isso alcanças; que perdida
A honra uma só vez, não tem reparo.

Se faltaste ao dever, e a sorte escura
Eterna nódoa sobre ti derrama,
O afecto ao menos conservar procura.

Torna outra vez de amor á doce chama;
Que será duplicar a desventura,
Perder o Amante, e não cobrar a fama.

(Abade de Jazente)


Última edição por Anarca em Sex Jul 30, 2010 12:51 pm, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Sex Jul 30, 2010 12:50 pm

Amores - II

Enquanto to permite a mocidade,
Teu Pai disfarça, tua Mãe consente,
E enquanto, Nize, a moda o não desmente
Nos brincos gasta a flor da tua idade.

Joga, dança, conversa, e a variedade,
Que causa tanta prenda, assombre a gente;
Deixa-te ver, que o Século presente
Hoje chama ao pudor rusticidade.

Os corações de quem te aplaude enlaça:
desfruta o tempo: e tem por aforismo
Que o gosto é fugitivo, a sorte escassa

Engolfa-te de amor no doce abismo;
Busca o prazer; a vida alegre passa;
Logra-te enfim; que o mais é fanatismo.

(Abade de Jazente)
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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Seg Ago 02, 2010 5:46 pm

Amores - III

Ou fosse, Nize, em nós pouca cautela,
Ou que alguém pressentisse o nosso enleio,
Tudo se sabe já; tudo é já cheio,
Qu’algum cuidado há muito nos disvela.

Dizem, qu’eu sou feliz, que tu és bela;
E às vezes com satírico rodeio,
Um murmura, outro zomba, e sem receio
A fama cada qual nos atropela.

Mas se nunca se tapa a boca à gente,
E se amor sempre activo nos devora,
Porque aquela é mordaz, porque este ardente;

Adoremo-nos pois como até agora:
Siga-se amor; arraste-se a corrente;
E se o mundo falar, que fale embora.

(Abade de Jazente)
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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Ter Ago 03, 2010 1:36 pm

Amores - IV

Ora Nize se ri, ora lamenta,
Ora se of’rece, ora se dificulta
Ora em nada me aceita, ora me multa
Ora me anima, ora me desalenta:

Ora gostos me dá, ora atormenta;
Ora se deixa ver, ora se oculta;
Ora mimos me faz, ora me insulta;
Ora toda é bonança, ora tormenta:

Ora me faz gelar, ora me acende;
Ora aleito me dá, ora me espanta,
Ora solto me traz, ora me prende:

Ora triste me tem, ora me encanta;
Ora sim, ora não; ninguém a entende,
Ora é um Diabo, ora é uma Santa.

(Abade de Jazente)
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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Qua Ago 04, 2010 4:50 pm

Amores - V

Se tanto gosto a tua tirania
Recebe, ó Fera, em ver um desgraçado,
Põe os olhos em mim; vê se te agrado,
Que eu te farei constante companhia.

Não precisas, que à bárbara Turquia
Vás ver sobre as galés algum forçado,
Pois eu, mais infeliz, junto ao teu lado
Avivarei a tua rebeldia.

Se o teu prazer enfim, cruel, consiste
Em teres por objecto um descontente,
A quem a desventura sempre assiste;

No vás mais longe, não; porque presente
Tem feito o teu rigor de mim um triste,
O mais triste, que cobre o Sol luzente.

(Abade de Jazente)
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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Qui Ago 05, 2010 1:41 pm

Amores, o Fim – I

Nize, eu não sou de ferro, e atenuado,
Ainda que o fora, o uso me teria;
Porque enfim do trabalho na porfia
Se consome o metal mais obstinado.

Instrumento não há tão reforçado,
Que resista do tempo à bataria:
Gasta o martelo a safra, e a terra fria
Pouco a pouco consome o curvo arado.

Tudo assim é: o amor o mais ardente,
No contínuo incêndio se evapora;
E o mesmo me acontece ultimamente.

Outro procura pois; e te melhora
De amante, ou mais afouto, ou mais valente;
Que eu já não posso mais; fica-te embora.

(Abade de Jazente)
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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Sex Ago 06, 2010 5:09 pm

Amores, o Fim – II

Nize, deixa-me em paz; porque já agora
No mar de Amor, por mais que á vela saia,
Carcaça velha sou, que junto á praia,
Por não poder surgir se desarvora.

Adeus, que quem me vir da barra fora,
É capaz de me dar alguma vaia:
E ao menos quero, antes que ao fundo caia,
Inda salvar-me: adeus; fica-te embora.

Bem sei que pouco é já; mas por vanglória
(Porque às vezes se faz do próprio dano)
A mesma falta hei-de fazer notória.

E no público altar do Desengano,
Deixarei dos estragos por memória
O destroçado leme, e o roto pano.

(Abade de Jazente)
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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Seg Ago 09, 2010 4:48 pm

Amores, o Fim – III

Nize, eu não posso mais, e a minha idade
Já não resiste à tua gentileza,
Porque em mim já desmaia a natureza,
E em ti inda te alenta a mocidade.

Enquanto eu pude, e tive actividade,
Nenhuma exp’rimentou em mim tibieza;
E se queres saber esta certeza,
Tua avó te dirá toda a verdade.

Pergunta-lhe o que fiz, e a valentia
Com que do ardente amor acompanhado
Nas campanhas de Vénus combatia:

Mas já hoje da guerra estropiado,
Só conservo na vaga fantasia
Estas tristes memórias do passado.

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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Ter Ago 10, 2010 12:22 pm

Velhice, Solidão, Morte - I

Eu como, eu bebo, eu durmo e a vida passo
Ora bem, ora mal, como sucede:
Tomo tabaco, e chá; e se mo pede
O génio alguma vez, eu Nize abraço:

As vezes jogo, as vezes versos faço,
Que mais que a arte a natureza mede:
E talvez por saber como procede
Em se mover o Sol círculos traço.

Alguma vez me agrada a soledade,
Outras vezes a nobre companhia;
E desta sorte vou passando a idade:

E espero assim que venha a morte fria
Com o manto da eterna escuridade
Encobrir-me de todo a luz do dia.

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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Qua Ago 11, 2010 11:55 am

Velhice, Solidão, Morte - II

Esta vida infeliz que me não larga,
Só por dar ao meu mal maior aumento,
Parece que igualando o meu tormento,
Quanto mais ele cresce, ela se alarga.

Tenaz não quer deixar-me; e tanto amarga
Me rouba o gosto, e esgota o sofrimento,
Que multas vezes sacudir intento
Dos ombros fracos meus tão longa carta.

A Parca invoco então; e a Parca dura
Os votos me rejeita, as costas vira,
E vai ferir a quem a não procura.

Porque quando a morrer um triste aspira,
Como a morte lhe serve de ventura,
A morte encosta a fouce, e se retira.

(Abade de Jazente)
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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Qui Ago 12, 2010 4:37 pm

Velhice, Solidão, Morte - III

Aqui onde me trouxe o duro fado
A passar o melhor da minha idade,
Não tenho mais que a bruta sociedade
De algum tosco Vilão, que tange o gado.

Tudo o mais é deserto inabitado,
Despenhos, precipícios, soledade,
Que só pode oferecer comodidade
Para algum infeliz desesperado.

Aqui sobre uma penha esmorecido
Fico um dia talvez, e em tal segredo,
Que até nem de mim mesmo sou sentido.

E, então, estupefactos mudo, e quedo
Assi’estou de males aturdido;
Qual junto de um penedo, outro penedo.

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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Sex Ago 13, 2010 12:30 pm

Velhice, Solidão, Morte - IV

Aqui, onde me trouxe o fado duro
Para passar da vida o triste resto,
É tudo um espectáculo funesto,
Em que a vista apascento, o peito apuro.

Do Marão carregado o forte muro,
E dos penhascos o medonho gesto,
Um me prende, outro faz com que molesto
Seja aos meus passos este albergue escuro.

Aqui só por instinto se governa
A gente bruta: aqui feroz me avisa
Da brenha a fera, a serpe da caverna.

Aqui todo o meu mal me martiriza;
Que até, para fazer-me mágoa eterna,
O aspecto de mim mesmo me horroriza.

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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Seg Ago 16, 2010 5:24 pm

(Ao seu Amigo)

Deixa, Moreira, o mundo; é tempo agora
De ver da praia firme o golfo insano,
As velas colhe, e o tarde desengano
Com levantadas mãos devoto adora.

Repousa pois: o mundo hoje devora
Com enganos cruéis o peito humano;
E rindo-te de ver o antigo engano,
As antigas paixões sábio melhora.

Deixa Amor, deixa as Musas, e somente
Do Ilustre Baco o copo à boca arrima;
Pois alegra a quem vive descontente:

Louva o homem discreto, o Sábio estima;
Ama a virtude; mostra-te prudente;
Toma tabaco, fala à tua Prima.

(Abade de Jazente)
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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Ter Ago 17, 2010 1:39 pm

Bucólico

Aqui sobre esta penha, que defronte
Me fica do Marão, sentar-me intento,
Para lançar ao mundo o pensamento
Antes que o Sol se meta no Horizonte.

Acolá vejo ao pé daquele monte
De uma pobre corrente o nascimento,
Que apenas deve á chuva um breve aumento
Já quer ser rio, e deixa de ser fonte.

á tal estrondo faz, e tal balborda,
Que tudo atroa; e assim que o vale ganha
Logo se espalha, e toda se tresborda.

Enxada, submergir quer a campanha,
Soberba quer ser mar; e não se acorda
Que a mijou ainda há pouco uma montanha.

(Abade de Jazente)
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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Qua Ago 18, 2010 5:21 pm

Filosofia de vida

Não desejo chegar a tal grandeza,
Que aduladores vis cerquem meus lados,
Nem palácios magníficos doirados,
Ricas alfaias, nem polida mesa.

Não me lembram heranças, nem riqueza,
Que me obrigue a pôr nela meus cuidados;
Não ocupar honrosos magistrados,
Nem outras coisas vãs, que o mundo preza.

Quisera só fugir de tanta estima,
Livrar-me deste pélago profundo,
Mudar da natureza que me anima;

Subir da lua ao globo alto e rotundo,
E depois de apanhar-me lá de cima,
Desatar os calções, cagar no mundo

(Abade de Jazente)
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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Qui Ago 19, 2010 1:35 pm

Sátira

Se magro como um cão alguém me visse
Em terra estranha roto, e desprezado,
E do pobre vestido esfrangalhado
Cardumes de piolhos sacudisse:

Se doença maligna perseguisse
Meu corpo de ossos só organizado;
Se em terrível prisão, no chão deitado
De fria cama a terra me servisse:

Se feito objecto ascoso a toda a gente,
Aquele, que me visse a vez primeira,
Ou fugisse, ou pasmasse de repente:

Se meu corpo por fim visse a lazeira
De cego, surdo, e mudo juntamente;
Antes tudo sofrera que ter F...

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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Sex Ago 20, 2010 12:19 pm

Crítica social

A trinta e cinco réis custa a pescada:
O triste bacalhau a quatro e meio:
A dezasseis vinténs corre o centeio:
De verde a trinta réis custa a canada.

A sete, e oito tostões custa a carrada
Da torta lenha, que do monte veio:
Vende as sardinhas o galego feio
Cinco ao vintém; e seis pela calada.

O cujo regatão vai com excesso,
Revendendo as pequenas iguarias,
Que da. pobreza são todo o regresso.

Tudo está caro: só em nossos dias,
Graças ao Céu! Temos em bom preço
Os tremoços, o arroz e as Senhorias.

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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Seg Ago 23, 2010 12:07 pm

Louvando o Marquês de Pombal e desfazendo nos Jesuítas - I

(Ao enterro do Excelentíssimo Marquês de Pombal)

Marcha em paz, ó Marquês, e afronta ousado
Da fria sepultura a escuridade;
Que a ser do Elíseo, o que se diz verdade,
Inda nele o teu Rei te of’rece o lado.

Tu lhe guardaste a vida, o Trono, o Estado;
Tu lhe assististe enfim com tal lealdade,
Que se o Letes não muda de vontade,
Terás inda além dele o Régio agrado.

Marcha, torno a dizer, sem que a vanglória
Deixe as tuas acções em bronze escritas,
Ou forme delas volumosa história:

Pois te basta sem frases esquisitas,
Que mostre o teu sepulcro esta memória:
Aqui jaz quem deu fim aos Jesuítas.

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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Ter Ago 24, 2010 12:17 pm

Louvando o Marquês de Pombal e desfazendo nos Jesuítas - II

É tal, Marquês preclaro, é tal o aumento,
Que às Armas tens, que tens às letras dado,
Que o lustre, que se deve ao teu cuidado,
Te dobra, e não distingue o luzimento.

Da muda habitação do esquecimento
As soubeste extrair, e afortunado
Logra com elas o florente Estado
Numas defesa, e noutras ornamento.

Tu com progresso igual na concorrência
Lhe fizeste recíproca a vitória,
Sem que ceda nenhuma a preferência.

E tanto que inda as Filhas da Memória
Se lembram nesta nobre competência
De dous triunfos teus, uma só glória.

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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Qui Ago 26, 2010 1:44 pm

Louvando o Marquês de Pombal e desfazendo nos Jesuítas - III

(Ao Excelentíssimo Marquês de Pombal)

Marquês tinhas razão; e o Mundo agora
Da tua persistência a valentia
Por prudência feliz tanto avalia,
Que de eterno louvor te condecora.

A mesma Roma em seu triunfo arvora
O Decreto, que extingue a Companhia:
Tarde teu grito ouviu, mas todavia
Te deu maior abono na demora.

Persististe, venceste, e um monumento
A teu nome já célebre prepara,
Capaz de resistir ao esquecimento.

A acção toda foi tua, e tão preclara,
Que a faltar-te das mais o luzimento
A fazer-te imortal esta bastara.

(Abade de Jazente)
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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Sex Ago 27, 2010 4:56 pm

Dedicação do cão Mondego

Tó, Mondego, vem cá; pois tu somente
Alivias um pouco o meu cuidado;
Que em parte se consola um desgraçado,
Quando tem quem lhe escute o mal que sente.

Tu firme; tu leal; tu finalmente
Te tens na minha ausência acompanhado:
Raro impulso de amor! Porque ao seu lado
Ninguém quer suportar um descontente.

Ora deixa, que em prémio da piedade,
Com que o teu zelo ao meu tormento assiste,
Farei teu nome emblema da amizade.

E os versos meus que um tempo alegre ouviste
Cantarão, para exemplo da lealdade,
Um Rafeiro fiel de um Pastor triste.

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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Seg Ago 30, 2010 12:25 pm

Fidelidade do Cão “Diamante”

Se parto, tu, “Diamante” descontente
Ficas guardando o solitário assento;
Mas bem que triste, com robusto alento
Vibras contra o ladrão o agudo dente.

Se volto, tu me esperas diligente,
Mostrando-me um fiel contentamento;
Pois logo com festivo movimento
És em casa o primeiro que me sente.

Se caço, com gentil velocidade
De um salto abocas a ligeira presa,
E a trazes com leal docilidade.

Oh! Como eu fora descansado à mesa!
Se pudesse encontrar tanta lealdade
No António, no José, e na Teresa.

(Abade de Jazente)
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MensagemAssunto: Re: ABADE DE JAZENDE - O POETA PADRE    Ter Ago 31, 2010 11:37 am

Saudades do Cão “Mondego”

Pastor um tempo e agora pegureiro,
Vivo o mais infeliz deste montado,
Sem Pátria, sem cabana, e sem mais gado,
Que as feras que me cercam neste outeiro.

Tudo o mais me roubou o derradeiro
Dia em que fui feliz: que o duro fado
Até por me deixar mais desgraçado,
A vida me arrancou do meu rafeiro.

Ele por toda a parte me assistia,
E com tanta lealdade, que comigo,
Se acaso eu fosse à morte, à morte iria.

A fome, a sede, a calma, o desabrigo,
Só por me não deixar, fiel sofria;
Eu perdi nele o mais leal amigo.

(Abade de Jazente)
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