A LIBERDADE É AMORAL

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 CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO

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Anarca

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MensagemAssunto: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Ter Out 06, 2009 9:12 pm

Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro [Itabira] MG, 1902 - Rio de Janeiro RJ, 1987) formou-se em Farmácia, em 1925; no mesmo ano, fundava, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista A Revista. Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, que ocuparia até 1945.

Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã. Nos anos de 1950, passaria a dedicar-se cada vez mais integralmente à produção literária, publicando poesia, contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Entre suas principais obras poéticas estão os livros Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Poemas (1959), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968), Corpo (1984), além dos póstumos Poesia Errante (1988), Poesia e Prosa (1992) e Farewell (1996).

Drummond produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX. Forte criador de imagens, sua obra tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas pessoais, em versos que ora focalizam o indivíduo, a terra natal, a família e os amigos, ora os embates sociais, o questionamento da existência, e a própria poesia.


Última edição por Anarca em Ter Jan 19, 2010 7:35 pm, editado 1 vez(es)
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Ter Out 06, 2009 9:13 pm

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

(Carlos Drummond de Andrade)
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qui Out 08, 2009 9:45 pm

Citações de Carlos Drummond de Andrade:

Os homens são como as moedas; devemos tomá-los pelo seu valor, seja qual for o seu cunho
Tema: Homem

Necessitamos sempre de ambicionar alguma coisa que, alcançada, não nos torna sem ambição
Tema: Ambição

O cofre do banco contém apenas dinheiro. Frustar-se-á quem pensar que nele encontrará riqueza
Tema: Dinheiro

A educação visa melhorar a natureza do homem o que nem sempre é aceite pelo interessado
Tema: Educação

As obras-primas devem ter sido geradas por acaso; a produção voluntária não vai além da mediocridade
Tema: Acaso

Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante
Tema: Literatura

Como as plantas a amizade não deve ser muito nem pouco regada
Tema: Amizade

Há vários motivos para não amar uma pessoa, e um só para amá-la; este prevalece
Tema: Amor
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qui Out 08, 2009 9:46 pm

O Constante Diálogo

Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado

Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as ideias
o sonho
o passado
o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio.
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Discurso da Primavera'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Sex Out 09, 2009 4:23 pm

Citações de Carlos Drummond de Andrade:

Perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes
Tema: Tempo

A educação para o sofrimento, evitaria senti-lo, em relação a casos que não o merecem
Tema: Sofrimento

A amizade é um meio de nos isolarmos da humanidade cultivando algumas pessoas
Tema: Amizade

A confiança é um acto de fé, e esta dispensa raciocínio
Tema: Confiança

A leitura é uma fonte inesgotável de prazer mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede
Tema: Literatura

As dificuldades são o aço estrutural que entra na construção do carácter
Tema: Carácter

Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons
Tema: Felicidade
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Sab Out 10, 2009 12:05 am

A Palavra Mágica

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Discurso da Primavera'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Sab Out 10, 2009 10:43 pm

O Novo Homem

O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não-objecto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
«Nove meses, eu?
Nem nove minutos.»
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exacto,
medido, bem posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afecto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia secula,
livre, papagaio, sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Versiprosa'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Dom Out 11, 2009 7:13 pm

Os Velhos

Todos nasceram velhos - desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre - sempre
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 - enorm'idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infrigiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me vêem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Dom Out 11, 2009 11:13 pm

Citações de Carlos Drummond de Andrade:

Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade
Tema: Felicidade

Só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo
Tema: Homem

Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar
Tema: Igualdade

Há muitas razões para duvidar e uma só para crer
Fonte: "O Avesso das Coisas" Tema: Crença

Para a virtude da discrição, ou de modo geral qualquer virtude, aparecer em seu fulgor, é necessário que faltemos à sua prática
Fonte: "Fala, Amendoeira" Tema: Discrição

É menor pecado elogiar um mau livro sem o ler, do que depois de o ter lido. Por isso, agradeço imediatamente depois de receber o volume. Não há vida literária plenamente virtuosa
Fonte: "Passeios na Ilha" Tema: Elogio

Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira
Fonte: "Passeios na Ilha" Tema: Escrita
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Ter Out 13, 2009 11:12 pm

Briga

Brigar é simples.
Chame-se covarde ao contendor.
Ele olhe nos olhos e:
- Repete.
Repita-se: - Covarde.
Então ele recite, resoluto:
- Puta que pariu.
- A sua, fio da puta.

Cessem as palavras. Bofetão.
Articulem-se os dois no braço a braço.
Soco de lá soco de cá
pontapé calço rasteira
unha, dente, sérios, aplicados
na honra de lutar:
um corpo só de dois que se embolaram.

Dure o tempo que durar
a resistência de um.
Não desdoura apanhar, mas que se cumpra
a lei da briga, simples.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qua Out 14, 2009 11:42 pm

Dois Rumos

Mentir, eis o problema:
minto de vez em quando
ou sempre, por sistema?

Se mentir todo dia,
erguerei um castelo
em alta serrania

contra toda escalada,
e mais ninguém no mundo
me atira seta ervada?

Livre estarei, e dentro
de mim outra verdade
rebrilhará no centro?

Ou mentirei apenas
no varejo da vida,
sem alívio de penas,

sem suporte e armadura
ante o império dos grandes,
frágil, frágil criatura?

Pensarei ainda nisto.
Por enquanto não sei
se me exponho ou resisto,

se componho um casulo
e nele me agasalho,
tornando o resto nulo,

ou adiro à suposta
verdade contingente
que, de verdade, mente.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qui Out 15, 2009 10:48 pm

Citações de Carlos Drummond de Andrade:

Cem máximas que resumissem a sabedoria universal tornariam dispensáveis os livros
Fonte: "O Avesso das Coisas" Tema: Máximas

Não é fácil ter paciência diante dos que têm excesso de paciência
Fonte: "O Avesso das Coisas" Tema: Paciência

Partido político é um agrupamento de cidadãos para defesa abstracta de princípios e elevação concreta de alguns cidadãos
Fonte: "O Avesso das Coisas" Tema: Partido (político)

Há certo gosto em pensar sozinho. É acto individual, como nascer e morrer
Fonte: "Passeios na Ilha" Tema: Pensar

O progresso dá-nos tanta coisa que não nos sobra nada nem para pedir, nem para desejar, nem para jogar fora
Fonte: "Passeios na Ilha" Tema: Progresso

A minha vontade é forte, mas a minha disposição em lhe obedecer é fraca
Tema: Vontade

Não há como os bons sentimentos para estragarem um cidadão
Fonte: "Passeios na Ilha" Tema: Sentimento
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Sex Out 16, 2009 8:33 pm

Certas Palavras

Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não adivinha nem alcança.

Entretanto são palavras simples:
definem
partes do corpo, movimentos, actos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos.

E tudo é proibido. Então, falamos.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Dom Out 18, 2009 1:02 pm

Irmão, Irmãos

Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros sozinhos.
A linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.

São seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam, se dilatam
no gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,

o mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?

São estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.

Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?

Carlos Drummond de Andrade, in 'Boitempo'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Ter Out 20, 2009 8:49 pm

As Sem Razões do Amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou de mais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qua Out 21, 2009 8:30 pm

Para o Sexo a Expirar

Para o sexo a expirar eu me volto, expirante,
raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor - o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.

Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo quem sabe?
enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.

Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sémen aljofrando o irreparável ermo.

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Amor Natural'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qui Out 22, 2009 10:57 pm

A Castidade com que Abria as Coxas

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estrita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Amor Natural'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Sab Out 24, 2009 8:51 pm

Sob o Chuveiro Amar

Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo - é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Amor Natural'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Dom Out 25, 2009 9:39 pm

O Chão é Cama para o Amor Urgente

O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a húmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Amor Natural'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Ter Out 27, 2009 10:47 pm

O que se Passa na Cama

O que se passa na cama
é segredo de quem ama.

É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono do pénis.

Ai, cama, canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme a onça suçuarana,
dorme a cândida vagina,
dorme a última sirena
ou a penúltima... O pénis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.
E silenciem os que amam,
entre lençol e cortina
ainda húmidos de sémen,
estes segredos de cama.

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Amor Natural'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Sex Out 30, 2009 10:29 pm

O Amor Antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda a parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Amar se Aprende Amando'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Dom Nov 01, 2009 1:36 pm

O Tempo Passa? Não Passa

O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Amar se Aprende Amando'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qua Nov 04, 2009 11:14 pm

Destruição

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem:
Um se beija no outro, reflectido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Ter Nov 10, 2009 11:11 pm

Inquérito

Pergunta às árvores da rua
que notícia têm desse dia
filtrado em betume da noite;
se por acaso pressentiram
nas aragens conversadeiras,
ágil correio do universo,
um calar mais informativo
que toda grave confissão.

Pergunta aos pássaros, cativos
do sol e do espaço, que viram
ou bicaram de mais estranho,
seja na pele das estradas
seja entre volumes suspensos
nas prateleiras do ar, ou mesmo
sobre a palma da mão de velhos
profissionais de solidão.

Pergunta às coisas, impregnadas
de sono que precede a vida
e a consuma, sem que a vigília
intermédia as liberte e faça
conhecedoras de si mesmas,
que prisma, que diamante fluido
concentra mil fogos humanos
onde era ruga e cinza e não.

Pergunta aos hortos que segredo
de clepsidra, areia e carocha
se foi desenrolando, lento,
no calado rumo do infante
a divagar por entre símbolos
de símbolos outros, primeiros,
e tão acessíveis aos pobres
como a breve casca do pão.

Pergunta ao que, não sendo, resta
perfilado à porta do tempo,
aguardando vez de possível;
pergunta ao vago, sem propósito
de captar maiores certezas
além da vaporosa calma
que uma presença imaginária
dá aos quartos do coração.

A ti mesmo, nada perguntes.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Vida Passada a Limpo'
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MensagemAssunto: Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - O POETA FARMACEUTICO   Qui Nov 12, 2009 12:18 am

Véspera

Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.

Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquitecto.

Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?

Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. É fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.

Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!

Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.

E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreos, são mais leves do que brisa.

E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingénuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.

Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem-palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.

Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.

Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.

Serão cegos, autómatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!

Não ensaies de mais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Vida Passada a Limpo'
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