A LIBERDADE É AMORAL

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 JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO

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MensagemAssunto: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Qui Ago 20, 2009 1:46 pm

Escritor português, natural de Lisboa e naturalizado brasileiro, em 1963. Estudou em Lisboa, no colégio Vasco da Gama e no liceu Luís de Camões, onde, segundo o próprio, «andava já fazendo versos». Em 1937, entrou para a Escola Naval. A 1 de Outubro do mesmo ano, partiu no navio-escola Sagres, em viagem de instrução, que decorreu até Fevereiro do ano seguinte, após o que foi demitido da Armada. Entrou então para a Faculdade de Ciências de Lisboa. Num jornal da faculdade, Movimento, publicou o poema Nevoeiro. Estabeleceu contacto com a revista Presença, através de Adolfo Casais Monteiro, a propósito de um poema de Álvaro de Campos. Desse contacto veio a resultar a ligação aos Cadernos de Poesia, onde Sena publicou, em 1940, os sonetos Mastros e Ciclo, e cuja direcção integrou durante algum tempo com Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal e José Augusto França. Formou-se na Faculdade de Engenharia do Porto, trabalhando na Junta Autónoma de Estradas até 1959, data em que se exilou voluntariamente no Brasil.

A partir daí, desenvolveu uma actividade académica intensa nas áreas da literatura e cultura portuguesas. Foi catedrático contratado de Teoria da Literatura na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis (Estado de São Paulo). Em 1961, transitou para a Universidade de Araraquara, igualmente em São Paulo, como catedrático contratado de Literatura Portuguesa. Adoptou a nacionalidade brasileira em 1963. Em 1965 seguiu, também como professor, para a Universidade do Wisconsin (EUA) e, cinco anos mais tarde, para a Universidade da Califórnia, onde veio a chefiar os departamentos de Espanhol e Português e o de Literatura Comparada, cargos que manteve até 1978. Recebeu o Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina pelo conjunto da sua obra poética e foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique por serviços prestados à comunidade portuguesa. Recebeu, postumamente, a Grã-Cruz da Ordem de Sant'iago. Em 1980, foi inaugurado o Jorge de Sena Center for Portuguese Studies, na Universidade de Santa Barbara.

Para além da sua actividade como escritor e professor, Jorge de Sena empenhou-se na divulgação de autores e correntes estrangeiras (sobretudo de origem anglo-saxónica) através de inúmeros estudos, conferências e traduções. Em 1941, fez uma conferência sobre Rimbaud intitulada «O Dogma da Trindade Poética» e, no ano seguinte, iniciou a sua actividade crítica com um artigo sobre o escritor cabo-verdiano Jorge Barbosa. Em 1944, publicou um texto de apresentação do surrealismo, «Poesia Sobrerrealista», primeira divulgação deste movimento em língua portuguesa, traduzindo ainda textos de André Breton, Paul Éluard, Benjamin Péret e Georges Hugnet. Outros autores que ajudou a divulgar foram T.S. Eliot, Cavafy, Auden, Hemingway, Bertold Brecht e William Faulkner. Colaborou regularmente, como crítico, no semanário Mundo-Literário (1946-48) e numa série de outras publicações ligadas à literatura, em Portugal e no estrangeiro.

Como ensaísta, são fulcrais os seus estudos da vida e obra de Camões e de Fernando Pessoa. Em 1948, proferiu a conferência «A Poesia de Camões, Ensaio da Revelação da Dialéctica Camoniana», no Clube Fenianos Portuenses, com que inaugurou a série de trabalhos que viria a realizar sobre o autor, procurando linhas de análise inovadoras em relação ao academismo dos estudos camonianos portugueses. Em Agosto de 1959, participou no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros na Universidade da Baía, com o estudo «O Poeta é um Fingidor»>. Defendeu, como tese de doutoramento em Letras e de livre-docência em Literatura Portuguesa, «Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular», em 1964. Em 1970 publicou A Estrutura de Os Lusíadas e Outros Estudos Camonianos e de Poesia Peninsular do Século XVI. Efectuou uma série de viagens pela Europa, América e África, relacionadas com as comemorações do 4º centenário de publicação de Os Lusíadas, e organizou as edições camonianas, promovidas pela Imprensa Nacional, das Rimas e de Os Lusíadas, comentados por Manuel de Faria e Sousa. Em 1973, publicou o poema «Camões dirige-se aos seus contemporâneos»>. A literatura portuguesa da época clássica, aliás, mereceu-lhe particular atenção, o que se reflecte na sua própria obra poética, nas suas múltiplas intertextualidades.

Jorge de Sena foi poeta, dramaturgo, ficcionista e historiador da cultura. Não se filiando em nenhuma escola literária, foi influenciado por várias correntes (nomeadamente pelo surrealismo, sobretudo em aspectos técnicos), numa tentativa de superar as tendências da época que passou por várias formas de experimentalismo. No entanto, a estes aspectos modernos da sua poesia aliou recursos da tradição medieval e renascentista, tornando a sua obra, simultaneamente, clássica e revolucionária. Disso é exemplo a utilização que, por vezes, fez do soneto: a par da forma clássica deste tipo de poema, surge um experimentalismo sintáctico e morfológico que subverte as fronteiras entre classicismo e modernidade, superando-as. Toda a sua obra, aliás, se orienta por esta tentativa de superação: superação dos antagonismos entre escolas literárias (realismo social, surrealismo, experimentalismo), de certas oposições humanas com raízes na cultura ocidental, como as de corpo/alma, ciência/poesia, bem/mal, Deus/homem. Esta superação tem raízes filosóficas na dialéctica hegeliana e no marxismo, reconhecidas pelo próprio escritor. Para Jorge de Sena, a poesia era, ela mesma, uma forma de testemunhar e transformar o mundo; da relação estabelecida entre o sujeito poético e o objecto que ele tomava como matéria da sua poesia resultava uma outra entidade - o próprio poema, objecto estético constituído por meio da linguagem. A poesia era, assim, uma forma de intervenção, embora entendida de forma diversa do neo-realismo. Mesmo em Coroa da Terra, que tem afinidades temáticas com este movimento, encontram-se técnicas surrealistas que dele se afastam.
Num lirismo depurado, Jorge de Sena levou muitas vezes a cabo uma crítica mordaz e irónica da realidade, aqui e ali de forma provocadora ou dolorosa. É de destacar a sua visão irónica de certos mitos da tradição cultural portuguesa, satirizando frequentemente aspectos provincianos ou saudosistas do entendimento do país e do seu povo no mundo (veja-se, por exemplo, a peça O Indesejado, sobre D. António, prior do Crato, na sua ligação com o sebastianismo nacional). O autor continua uma linha de lucidez satírica que se encontra já em escritores portugueses de épocas anteriores.

Na poesia, Jorge de Sena estreou-se com Perseguição (1941). Publicou ainda Coroa da Terra (1947), Pedra Filosofal (1950), As Evidências (1955), Fidelidade (1958), Metamorfoses (1963), Arte de Música (1968), Peregrinatio ad Loca Infecta (1969), Exorcismos (1972), Conheço o Sal e Outros Poemas (1974), Poesia I (1977), Poesia II (1978) e Poesia III (1978).

Como dramaturgo, publicou, em 1951, O Indesejado, e a peça em um acto Amparo de Mãe. Em 1952 saiu Ulisseia Adúltera, em 1969, O Banquete de Dionísos, e, em 1971, Epimeteu ou o Homem Que Pensava Depois.

A sua obra de ensaio, fundamental nos estudos literários do século XX português, inclui a recolha Da Poesia Portuguesa (1959), O Poeta é um Fingidor (1961), O Reino da Estupidez (1961), Uma Canção de Camões 81966), Os Sonetos de Camões e o Soneto Quinhentista Peninsular (1969), A Estrutura de Os Lusíadas e Outros Estudos Camonianos e de Poesia Peninsular do Século XVI (1970), Maquiavel e Outros Estudos (1973), Dialécticas Aplicadas da Literatura (1978) e Fernando Pessoa & Cia. Heterónima (1982), entre outros.

A obra ficcional de Jorge de Sena foi produzida sobretudo entre 1959 e 1965, embora a sua edição seja por vezes posterior. Escreveu Andanças do Demónio (1960, contos), Novas Andanças do Demónio (1966), Os Grão-Capitães (1976), Sinais de Fogo (romance publicado postumamente em 1979) e O Físico Prodigioso (1977).

Postumamente, foram publicadas várias antologias e ainda Visão Perpétua (1982, poesias inéditas), Génesis (1983, que inclui dois contos inéditos de 1937-38) e Dedicácias (1999, poemas satíricos e desenhos inéditos).

Embora dividida por diversos géneros, a obra de Jorge de Sena constitui uma teia de relações em que se cruzam, em múltiplas abordagens, temas recorrentes, que definem a sua personalidade literária e crítica. É um dos grandes vultos da poesia e do ensaísmo português da segunda metade do século XX.
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Qui Ago 20, 2009 2:04 pm

Independência

Recuso-me a aceitar o que me derem.
Recuso-me às verdades acabadas;
recuso-me, também, às que tiverem
pousadas no sem-fim as sete espadas.

Recuso-me às espadas que não ferem
e às que ferem por não serem dadas.
Recuso-me aos eus-próprios que vierem
e às almas que já foram conquistadas.

Recuso-me a estar lúcido ou comprado
e a estar sozinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer. Recuso a vida.

Recuso-me à inocência e ao pecado
como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, ó Terra dividida!

Jorge de Sena, in 'Coroa da Terra'
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Qui Ago 20, 2009 2:05 pm

O Sentimento Religioso é o Mais Inconfessável de Todos
Tema: [Religião]
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Sex Ago 21, 2009 12:41 pm

Exactidão

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá:
sentido do não-vivido
a que fica reduzido
o que, escolhido, não há.

Do imo do poder ser,
onde o não-sido se arrasta,
ouvi cadências crescer:
vaga música de ter,
na vida, quanto não basta -

quanto um sentido se entenda,
que nem verdade ou mentira.
(Que o que dele se aprenda
é como cobarde venda
para que a luz nos não fira.

Luz sem luz, brilho da treva
que tudo no fundo é;
e a certeza que se eleva
do fundo da própria treva,
de exacta que seja, é.)

Levam justiça consigo
as palavras que dissermos.
Por quanto sentido antigo,
nelas ficou por castigo
o futuro que tivermos.

Levam as frases sentido
que uma cadência lhes dá.
É justo, injusto - o escolhido?
Como quereis que, vivido,
ele não seja o que será?

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Seg Ago 24, 2009 12:39 pm

Desencontro

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Ter Ago 25, 2009 12:44 pm

Ser

Cansada expectativa tão ansiosa
que ser só eu na minha vida espalha!
Na longa noite em que se tece a malha
do que não serei nunca, fervorosa

minha presença rútila e curiosa
arde sombria como um arder de palha,
curiosa apenas de saber se goza
o voar das cinzas quando o vento calha

lá onde o levantá-las é verdade.
Inutilmente se mistura tudo,
que a mesma ansiedade, já esquecida,

de novo recomeça. Mas quem há-de
contrariá-la? Eu não, que não me iludo:
Viver é isto, quando se é só vida.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Qui Ago 27, 2009 12:28 pm

Lamento do Poeta Objectivo

Anda-me o amor tomando a própria vida,
como se, amando, eu existisse mais.
E leva-me o Destino em voz traída,
como se houvera encontros desiguais.

A multidão me cerca, e, renascida,
já dela terei fome de sinais.
E, mal a noite se demora ardida,
o medo e a solidão me esfriam tais

as cinzas desse amor que sacrifico.
Não é futura a só miséria. A queixa
também não é: e apenas acontece

no vácuo imenso que este amor me deixa,
quando maior, quando de si mais rico,
se dá de mundo em mundo, e lá me esquece.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Seg Set 14, 2009 1:08 pm

Deixai que a Vida sobre Vós Repouse

Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse

erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.

Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.

Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,

a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.

Jorge de Sena, in 'As Evidências'
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Ter Set 15, 2009 12:37 pm

Que Encanto é o Teu?

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

Jorge de Sena, in 'As Evidências'
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Qua Set 16, 2009 12:06 pm

Ode ao Destino

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
- ah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em vão tentei não conhecer-te, não notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam em bandos,
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava
para conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magnânimo,
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida,
existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.

A humilhação de confessar-te em público,
nesta época de numerosos sábios e filósofos,
não é maior que a de viver sem ti.
A decadência, a desgraça, a abdicação,
os risos de ironia dos vizinhos
nesta rua de má-nota em que todos moramos,
não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti.
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim,
é nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros,
é nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros,
nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos,
dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são as vítimas.
É nesta mesma rua que eu
ouço todos os sonhos passar desfeitos.

Desisti, regresso, aqui me tens,
coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.

Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Qui Set 17, 2009 1:39 pm

Ode ao Amor

Tão lentamente, como alheio, o excesso de desejo,
atento o olhar a outros movimentos,
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque,
obscuro sexo á flor da pele sob o entreaberto
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro
e vago ainda, e súbito contrai-se,
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes
no interior da carne, as pernas se distendem,
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as mãos,
dedos esguios escorrendo trémulos
e um sorriso irónico, violentos gestos,
amor...
ah tu, senhor da sombra e da ilusão sombria,
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto,
imagem sempre morta ao dealbar da aurora
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida,
fuga perpétua, demorado espasmo, distração no auge,
cansaço e caridade pelo desejo alheio,
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes,
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota,
hesitação, vertigem, pressa arrependida,
insuportável triturar, deslize amargo,
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda.

Distantemente uma alegria foi,
imensa, já tranquila, apascentando orvalhos,
de contacto a contacto, ansiosamente serenando,
obscuro sexo à flor da pele... amor... amor...
ah tu senhor da sombra e da ilusão sombria...
rei destronado, deus lembrado, homem cumprido.

Distantemente, irónico, esquecido.

Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Sex Set 18, 2009 12:33 pm

Da Vida... não Fales Nela

Da vida... não fales nela,
quando o ritmo pressentes.
Não fales nela que a mentes.

Se os teus olhos se demoram
em coisas que nada são,
se os pensamentos se enfloram
em torno delas e não
em torno de não saber
da vida... Não fales nela.

Quanto saibas de viver
nesse olhar se te congela.
E só a dança é que dança,
quando o ritmo pressentes.

Se, firme, o ritmo avança,
é dócil a vida, e mansa...
Não fales nela, que a mentes.

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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Seg Set 21, 2009 12:53 pm

Ode para o Futuro

Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.

Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Qui Set 24, 2009 3:51 pm

Ode à Mentira

Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
como sereis cruéis, como sereis injustas?
Quem torturais, quem perseguis,
quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
apenas sendo vosso gemeria as dores
que ansiosamente ao vosso medo lembram
e ao vosso coração cardíaco constrangem.
Quem de vós morre, quem de por vós a vida
lhe vai sendo sugada a cada canto
dos gestos e palavras, nas esquinas
das ruas e dos montes e dos mares
da terra que marcais, matriculais, comprais,
vendeis, hipotecais, regais a sangue,
esses e os outros, que, de olhar à escuta
e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
vos contemplam como coisas óbvias,
fatais a vós que não a quem matais,
esses e os outros todos... - como sereis cruéis,
como sereis injustas, como sereis tão falsas?
Ferocidade, falsidade, injúria
são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
o coração que apavorado em vós soluça
a raiva ansiosa de esmagar as pedras
dessa encosta abrupta que desceis.
Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo.
Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
Descereis, descereis sempre, descereis.

Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Sex Set 25, 2009 1:25 pm

Ascensão

Nunca estive tão perto da verdade.
Sinto-a contra mim,
Sei que vou com ela.

Tantas vezes falei negando sempre,
esgotando todas as negações possíveis,
conduzindo-as ao cerco da verdade,
que hoje, côncavo tão côncavo,

sou inteiramente liso interiormente,
sou um aquário dos mares,
sou apenas um balão cheio dessa verdade do mundo.

Sei que vou com ela,
sinto-a contra mim, -
nunca estive tão perto da verdade.

Jorge de Sena, in 'Perseguição'
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Qua Set 30, 2009 4:14 pm

Génesis

De mim não falo mais :não quero nada.
De Deus não falo:não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir,que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver,que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ...-Ai quantos que eram novos
em vâo a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusâo dos povos!

Não há verdade:O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram.

(Jorge de Sena)
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Ter Out 06, 2009 4:40 pm

Conheço o Sal

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

(Jorge de Sena)


Última edição por Anarca em Seg Nov 09, 2009 1:57 pm, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Qua Out 07, 2009 4:26 pm

Beijo

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

(Jorge de Sena)
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Seg Out 12, 2009 8:28 pm

O corpo não espera

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

(Jorge de Sena)
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Qua Out 14, 2009 4:38 pm

A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço.
És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não

(Jorge de Sena)
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Qui Out 15, 2009 4:26 pm

Tentações do Apocalipse

Não é de poesia que precisa o mundo.
Aliás, nunca precisou. Foi sempre
uma excrescência escandalosa que
se lhe dissesse como é infame a vida
que não vivamos para outrem nele.
E nunca, só de ser, disse a poesia
uma outra coisa, ainda quando finge
que de sobreviver se faz a vida.
O mundo precisa de morte. Não da morte
com que assassina diariamente quantos teimam
em dizer-lhe da grandeza de estar vivo.
Nem da morte que o mata pouco a pouco,
e de que todos se livram no enterro dos outros.
Mas sim da morte que o mate como um percevejo,
uma pulga, um piolho, uma barata, um rato.
Ou que a bomba venha para estas culpas,
se foi para isso que fizemos filhos.
Há que fazer voltar à massa primitiva
esta imundície. E que, na torpitude
de existir-se, ao menos possa haver
as alegrias ingénuas de todo o recomeço.
Que os sóis desabem. Que as estrelas morram.
Que tudo recomece desde quando a luz
não fora ainda separada às trevas
do espaço sem matéria. Nem havia um espírito
flanando ocioso sobre as águas quietas,
que pudesse mentir-se olhando a criação.
(O mais seguro, porém, é não recomeçar.)

(Jorge de Sena)
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Sex Out 16, 2009 4:53 pm

Os paraísos artificiais

Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

(Jorge de Sena)
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Seg Out 19, 2009 1:53 pm

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

(Jorge de Sena)
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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Ter Out 20, 2009 4:35 pm

Os Paraísos Artificiais

Na minha terra,não há terra,há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.
Na minha terra,não há árvores nem flores.
As flores,tão escassas,dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.
Os cânticos das aves-não há cânticos,
mas só canários de 3.ºandar e papagaios de 5.º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.
Na minha terra,porém,não há perdieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.
A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

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MensagemAssunto: Re: JORGE DE SENA - O PORTUGUÊS BRASILEIRO   Sex Out 23, 2009 5:39 pm

Conheço o sal...

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca,o sal
o sal da tua língua,o sal dos teus mamilos,
e o da cintura se encurvando das ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti,ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

(Jorge de Sena)
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