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 LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...

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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Nov 02, 2010 3:57 pm

Dinossauro Excelentíssimo (José Cardoso Pires)

Dinossauro Excelentíssimo, é uma fábula satírica de José Cardoso Pires que retrata a vida de Salazar, a sua ditadura e o Portugal do Estado Novo num tom bastante irónico e amargurado. Carlos Reis designa a fábula de "relato violentamente satírico sobre a figura de Salazar" (verbete José Cardoso Pires, in Biblos, vol. 2, 213).

O livro é a história "de certo Reino onde nos velhos outrora vivia um imperador astuto, diabo e ladrão" de quem "não se sabe se afinal ele era homem, se era estátua ou apenas descrição". O percurso deste imperador (origens, formação na "cidade dos Doutores" reproduz a biografia de Salazar - origem modesta, formação em Coimbra).

O reino do Dinossauro é o Reino do Mexilhão, onde vivem os mexilhões, que tudo aguentam, governados pelos Dê-Erres, cujo domínio da palavra lhes deu o poder. Segue-se a descrição do governo do Dinossauro, da mentira como forma de governar e finalmente do seu acidente até a morte, retrato irónico dos últimos anos de Salazar quando, após sofrer a queda que o afastaria das suas funções políticas, julgava ainda governar em sessões ficcionadas do conselho de ministros.

O livro foi editado pela primeira vez em 1972 pela Editora Arcádia, com ilustrações e capa de João Abel Manta. Embora datado de "Natal de 69 e Março de 71", o autor afirmou (na entrevista a Artur Portela Filho) tê-la escrito em 1970. Nesta época José Cardoso Pires encontrava-se em Londres no King's College de Londres a leccionar Literatura Portuguesa e Brasileira. Mais tarde passou a estar incluído nas colectâneas de contos O Burro-em-Pé (1979) e A República dos Corvos (1988).

Na referida entrevista, José Cardoso Pires descreve as circunstâncias que permitiram a publicação do livro e lhe deram notoriedade: numa discussão na Assembleia Nacional sobre a liberdade de imprensa, um deputado ultrafascista, Casal Ribeiro, em discussão com Miller Guerra, quis demonstrar a existência de liberdade dando como exemplo a publicação de Dinossauro Excelentíssimo. Claro que a partir daqui já não seria possível à censura retirar o livro das livrarias nem a PIDE poderia perseguir o seu autor.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Nov 11, 2010 10:05 pm

Domingo à Tarde (Fernando Namora)

Fernando Namora nasceu em 15 de abril de 1919, em Condeixa, Portugal, tendo-se formado em Medicina na Universidade de Coimbra. Em 1937 fez sua estréia nas letras com o livro de poemas Relevos e o romance Sete partidas do mundo.

Em Domingo à tarde, Fernando Namora conta em uma história densa; o tratamento que dá às personagens deixa transparecer uma sensibilidade incomum; as abordagens que faz sobre a miséria humana, miséria essa que o cerca no seu dia-a-dia no hospital, no qual exerce sua profissão de médico.

O escritor sabe lidar com os sentimentos mais íntimos das personagens que povoam esse ambiente, impregnado de dor, de angústia, de esperança e de desesperança.

Demonstra ter um profundo conhecimento da alma humana, e faz com que o leitor se torne cúmplice das suas personagens; desperta no leitor um forte sentimento de compaixão e solidariedade pelos seus infortúnios, sentimentos esses que se mesclam com um traço de culpa, como se quem o lê também seja responsável por todo o caos social que passa a permear a sua narrativa.

Domingo à Tarde foi adaptado ao cinema em 1966 por António de Macedo.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Seg Nov 15, 2010 3:42 pm

O Don tranquilo (Mikhail Sholokov)

Nascido em 1905 e falecido em 1984, Sholokov começou a publicar aos 23 anos "O Don tranquilo", obra que o converteu num dos escritores soviéticos mais influentes, mas que, décadas mais tarde, deu origem a conjecturas e acusações de plágio.

Mikhail Sholokhov, prémio Nobel de 1965, escreveu esta obra-prima, que se pode considerar uma réplica de "Guerra e Paz", sobre uma pequena aldeia, situada nas margens do rio Don. Compõe-se de 4 volumes.

O romance, que relata a epopeia dos cossacos do Don desde o início da guerra civil russa até ao triunfo bolchevique, vista através da história individual do protagonista, Grigori Melekjov, valeu ao escritor o prémio Estaline em 1941.

Pelo facto de não se encontrarem manuscritos de "O Don tranquilo", alguns críticos passaram a atribuir a autoria da obra a um desconhecido oficial da Guarda Branca czarista, ao escritor do Don Fiodor Kriukov e ao também cossaco Alexandr Serafimovich.

Em 1984, um jornalista descobriu o original, escrito à mão,dos primeiros dois tomos da obra em casa de Vasili Kudashov, um amigo de Sholokov cuja viúva se recusou terminantemente a ceder ou a entregar o "tesouro" a quem quer que fosse.

Em segredo, o jornalista, Lev Kolodny, tirou fotocópias de 125 páginas do manuscrito e estas serviram para o primeiro estudo oficial grafológico, que confirmou a autoria de Sholokov.

Muitos anos passaram antes de o Estado ter conseguido, em 1999, resgatar o valioso original por 50.000 dólares, e mais alguns para que a edição fac-símile ficasse à guarda da principal biblioteca do país.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Nov 17, 2010 10:47 pm

O Encoberto (Natália Correia)

Natália de Oliveira Correia (Fajã de Baixo, São Miguel, 13 de Setembro de 1923 - Lisboa, 16 de Março de 1993) foi uma intelectual, poetisa e activista social açoriana, autora de extensa e variada obra publicada, com predominância para a poesia. Deputada à Assembleia da República (1980-1991), interveio politicamente ao nível da cultura e do património, na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres. Autora da letra do Hino dos Açores. Juntamente com José Saramago (Prémio Nobel de Literatura, 1998), Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues foi, em 1992, um dos fundadores da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC).

Natália Correia foi impedida de publicar algumas das suas obras durante o regime salazarista, como é o caso da peça O Encoberto, violenta desmistificação de alguns dos mitos nacionais, onde o lirismo e a sátira se fundem no poder exorcizante da palavra.

Toda a história do livro que gira à volta da personagem Bonami-rei que se faz passar pelo rei D.Sebastião, que tem o cognome de "O Encoberto" ou "O Desejado", daí o título do livro. Contudo, penso que toda esta histórica dramática tem uma mensagem que se depreende das várias críticas com que nos deparamos ao longo do livro. Uma crítica a um povo crente, inocente, iludido e burro que não quer ver a realidade, e, ao mesmo tempo, uma crítica a uma nobreza falsa, interesseira, que só pensa em dinheiro. Esta crítica é feita, no caso do povo, pelo licenciado, uma personagem que é morta precisamente por fazer esta crítica. No caso da nobreza, esta crítica é feita por Cristóvão de Moura, vice-rei de Portugal. A crítica ao povo está presente no acto I, quando é visível que o povo acredita verdadeiramente que Bonami é D.Sebastião; e a crítica à nobreza está presente no acto II, quando esta classe social muda de ideias em relação ao destino do rei, consoante as ideias dos banqueiros. Isto porque os banqueiros adiantavam o dinheiro e, caso não libertassem Bonami, não financiariam.

Ao longo desta obra existe um paralelismo, uma comparação entre Bonami-rei e Jesus Cristo. Esta comparação - intertextualidade - é marcada por vários episódios da obra, bem como por frases semelhantes às da Bíblia. Ju-Ju, personagem que aparece no acto II, pode ser também comparada a Maria Madalena. Esta comparação é visível quando Ju-Ju lava com lágrimas os pés de Bonami, tal como Maria Madalena fez a Jesus Cristo. É também visível quando Bonami diz "Bebei do meu sangue", tal como Jesus Cristo disse aos apóstolos na última ceia. É também Ju-Ju que defende Bonami perante o povo, tal como fez Maria Madalena com Jesus Cristo.

Também Bonami se deixou morrer pelo povo, como o filho de Deus. E, já no fim da obra, também Bonami desapareceu do túmulo ao terceiro dia, tal como o Messias. Este desaparecimento é conhecido por Ju-Ju, mais uma vez, no papel de Maria Madalena. O povo continua assim a acreditar no regresso do rei, tal como também um povo, há 2009 anos atrás, acreditava no regresso de um Salvador.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Nov 30, 2010 3:54 pm

História do Olho (Georges Bataille)

Georges Bataille foi um escritor e homem de letras francês nascido a 10 de Setembro de 1897, em Billon, no centro do País.

O pai havia contraído sífilis, doença sexualmente transmissível que o levou a uma dolorosa agonia, à cegueira e, em 1915, à morte. Desesperada pela invalidez do marido, e pela prova irrefutável da sua infidelidade, a mãe tentou pôr fim à sua própria vida por diversas vezes, embora sem resultado.

Como havia deflagrado a Primeira Grande Guerra, Georges Bataille foi mobilizado para o serviço militar pouco tempo depois de ter atingido os dezoito anos de idade, em 1916. Contraiu o bacilo da tuberculose, facto que, embora o tivesse livrado da mortandade da frente de combate, onde experimentara um forte sentimento religioso, o deixou enfermiço e depressivo para o resto da vida.

Procurou então seguir o chamamento religioso e, alimentando o intuito de vir a tornar-se sacerdote, deu entrada no Seminário de Saint-Fleur. Chegando a partir em retiro espiritual para uma congregação beneditina na Ilha de Wright, acabou por desistir e regressar à mundaneidade de Paris.

Matriculou-se na Escola de Chartres em 1919 e aí obteve o seu diploma três anos depois, graças sobretudo a uma tese dedicada à poesia medieval. Durante esta época tomou contacto com o movimento surrealista, em particular com o seu mentor André Breton.

Em 1922 foi convidado para leccionar numa universidade espanhola, onde permaneceu durante um breve período de tempo. Em Paris submeteu-se a uma série de sessões de psicanálise, que tiveram o mérito de lhe fazer descobrir a escrita como um excelente meio de catarse para as suas obsessões.

Foi também nesse ano nomeado bibliotecário da prestigiada Biliothèque Nationale. Não obstante a sua aparente idoneidade, Georges Bataille viveu uma vida secreta, impregnada de deboche e dissolução. Frequentador assíduo dos bordéis da cidade de Paris, acabou por não conseguiur dissimular os seus maus hábitos, o que lhe veio mais tarde a causar problemas.

Decidiu pois empreender um esforço literário, não só procurando colaborar activamente com um grande número de publicações periódicas, como dando ao prelo o seu primeiro livro, Histoire de l'œil (1928, História do Olho). Publicado com o pseudónimo de 'Lord Auch', o romance contava a história de um jovem casal que, em busca do êxtase absoluto, se isola do mundo e permanece impassível nas suas relações com o mundo exterior.

A obra foi mais tarde considerada como um clássico da literatura erótica, e influenciou muitos outros artistas, nomeadamente o realizador japonês Nagisa Oshima e cantora islandesa Björk.

Em 1944 foi forçado a demitir-se do seu cargo como bibliotecário, já que as suas saídas nocturnas lhe reavivaram a tuberculose e, depois de ter publicado Le Bleu du Ciel (1945, O azul do Céu), passou a desempenhar funções homólogas, primeiro em Carpentras, entre 1949 e 1951, e logo a seguir em Orléans.

No ano de 1961 pôde alegrar-se com a generosidade de amigos como Pablo Picasso, Juan Miró e Max Ernst que, presenciando as dificuldades financeiras do escritor, decidiram ajudá-lo, procedendo ao leilão de algumas da suas próprias obras.

Recompensou-os ao publicar nesse mesmo ano, um dos seus melhores trabalhos, Les Larmes d'Éros (1961, As lágrimas de Eros).

Georges Bataille faleceu em Paris a 8 de Julho de 1962.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Dez 02, 2010 10:15 pm

Os Exércitos da Noite (Norman Mailer)

Os Exércitos da Noite é uma obra de Norman Mailer ou seria Norman Mailer a própria obra dele mesmo?

Devido à minha miopia avançada e ao pouco espaçamento entrelinhas e ao tamanho da fonte do texto, tive sérias dificuldades em ler o meu exemplar.

Superadas as dificuldades fisiológicas, eis que surge outro entrave: Norman Mailer cita a si mesmo como Norman Mailer. Não sei se estava cansada quando li a explicação do posicionamento dele e não prestei atenção ou se alguém me falou que assim era e também não prestei atenção, mas só lá pela página 30 do livro fui entender a lógica daquilo que a mim se apresentava.

Loucura? Loucura e meia. Cheguei a rir quando percebi a minha tolice. Superado essa dificuldade, veio mais uma: eu não possuía em meu repertório cultural as referências que ele jogava. Sim, as referências eram jogadas como um fluxo de consciência alucinante, no qual não havia tempo para explicar quem era Hubert Humphrey e outras figuras que, apesar de secundárias, influenciavam no meu entendimento acerca do livro. Aí tive de me render a um bloquinho de anotações e a posterior consulta no amigo Google de todas as horas. Então, finalmente, pude começar a ler o livro de verdade. Nisso, eu já estava pela página 50.

Da vida ao autor ao meu entendimento da obra

No livro Os Exércitos da Noite, Norman Mailer conta a grande marcha pacifista contra a Guerra do Vietnã, ocorrida em 1967, em Washington. O escritor – que ironicamente não tinha formação relacionada à literatura, mas sim em engenharia aeronáutica pela Universidade de Harvard – participou da marcha junto com outros intelectuais da época e, anos depois, reuniu as histórias que dariam origem ao livro.

Ainda que Os Exércitos da Noite conte a história da grande marcha com riqueza de detalhes e profundas descrições acerca do ambiente e das pessoas envolvidas na marcha, há outro ponto que mais chama atenção aos que conhecem a história de Norman Mailer: as passagens que evidenciam um Mailer desacreditado por si próprio e pelos outros que estavam à volta dele.

Apesar de ser engenheiro aeronáutico diplomado, Norman Mailer não gostava da profissão. Sua paixão era outra: a literatura. Assim, após ter lutado pelo exército americano nos anos finais da Segunda Guerra Mundial, Mailer retornou aos Estados Unidos e escreveu o livro Os Nus e os Mortos, baseado nas experiências que vivera na guerra. Pouco tempo após a publicação, o livro já era aclamado como um dos principais romances da literatura norte-americana e, nisso, Mailer só tinha 25 anos.

Algum tempo depois da publicação do livro, os anos deixaram de ser dourados para Norman Mailer. Suas obras posteriores eram recusadas pelas editoras e, as poucas que conseguia publicar, consistiam em um fracasso total de venda. Foi a partir daí Mailer se tornou um escritor polemista e agressivo, que atacava a tudo e a todos. E é nesse ponto que eu gostaria de chegar.

Os traços de agressividade e as dificuldades de relacionamento de Mailer em relação a outros intelectuais da época ficam evidentes no livro. O autor traz retratos de sua personalidade e de seus pensamentos e também retratos da personalidade das pessoas igualmente envolvidas na tentativa de deter a Guerra no Vietnã. Em nenhum momento, porém, Mailer esconde que os outros intelectuais não gostavam dele nem que sentia raiva e se sentia diminuído ao perceber que não tinha o mesmo poder de seduzir e persuadir a platéia enquanto discursava como os seus outros colegas.

Arrisco a dizer que Os Exércitos da Noite é, acima da temática da Guerra no Vietnã, uma autobiografia de visão crítica e realista da vida de Mailer, pois a certa altura, se analisado com rigor, Mailer desvia o foco da reportagem do acontecimento em si e foca nas suas sensações diante da Marcha e das pessoas que o cercavam.

Das alucinações e pormenores finais

O livro Os Exércitos da Noite foi, dos até aqui lidos, o mais difícil de compreender devido aos já citados motivos. Apesar disso tudo, gostei muito da obra. E gostei, mais ainda, depois que conheci parte da história de Norman Mailer e consegui identificá-la ao longo do texto.

Percebi que Os Exércitos da Noite não só é uma obra para se ler, mas uma obra para analisar. É a prova impressa de que não há texto em que o autor não deixe evidente seu posicionamento, que não deixe sua marca. Talvez nesse livro essas marcas sejam mais evidentes, devido ao tom autobiográfico do texto, apesar de escrito em 3ª pessoa.

Autobiográfico em 3ª pessoa? Vocês devem pensar que enlouqueci. Não, não enlouqueci. Apesar de Norman Mailer ser Norman Mailer no texto e não simplesmente um “eu” como é de praxe nas autobiografias, o personagem é o autor e é pelo viés e pelo olhar dele que a história é, sentido e contado.

Antes que entre num fluxo infinito de ideias, estimuladas pelo livro, deixo uma questão que me veio à cabeça: até onde os dados, as descrições e os diálogos mostrados no livro são verossímeis, se são baseados apenas na memória do autor, que como parte integrante da ação está suscetível aos enganos da memória e às armadilhas das emoções? E se as informações não forem de fato verídicas, estamos diante de uma obra de jornalismo literário?

Deixo a questão a todos que lerem esse resumo-impressão. Aos que ainda não acabaram de ler o livro, boa leitura.

PS: Tanta vontade de paz, amor e liberdade hippie me deixaram meio alucinada. Ou foram as pequenas doses de LSD espalhadas pelo livro. Ainda não descobri.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Dez 07, 2010 8:43 pm

O Filho Nativo (Richard Wright)

Wright foi um dos maiores escritores negros da história dos Estados Unidos, ao lado de nomes como Langston Hughes, Ralph Ellison ou James Baldwin. Seu romance O Filho Nativo, seria uma das mais representativas e influentes obras da literatura moderna norte-americana

Nascido em 1908, Richard Wright era neto de escravos africanos libertos após a Guerra de Secessão. Muito cedo, sua família mudou-se para Memphis no Tennessee. O pai abandonou a família, ainda com os filhos pequenos, de modo de Wright e seus dois irmãos foram criados por sua mãe, uma professora. Após diversas viagens, a família estabeleceu-se em Jackson, no Mississipi. Eles passaram por uma série de dificuldades em meio à miséria geral em que viviam nos negros da comunidade.

Em 1919, por fim, a família desintegrou-se quando a mãe dos garotos sofreu um derrame. A partir daí, cada um dos irmãos seria mandado para cidades diferentes, para serem criados por outros familiares. A infância de Richard Wright desde então transcorreu em meio a uma série de conflitos.

Inicialmente morou com um tio, mas os permanentes conflitos deixaram o garoto em tal estado de colapso emocional que foi enviado a morar com sua avó. Nesta casa por sua vez, seria obrigado a se submeter às normas morais ditadas pela religião batista de sua avó. Estes conflitos permanentes deixariam uma marca permanente na psicologia de Wright. Ainda aos 15 anos Wright escreveu seu primeiro conto, que seria publicado no Southern Register, um jornal negro em 1923.

Neste ano ele ingressaria na Lanier High School, em Jackson. Nunca chegaria a concluir os cursos, obrigado a trabalhar para se sustentar. Em busca de melhores perspectivas, em 1927 ele se muda para Chicago, em um período de enorme fermentação do jazz na cidade, em bares que se tornariam os principais pontos de encontro da população negra da cidade. Lá ele se empregaria nos Correios, e passaria a freqüentar, após a Grande Depressão de 1929, as reuniões políticas do Clube John Reed, nome dado em homenagem ao grande jornalista que retratara os primeiros dias da Revolução Russa em 1917.

O clube era freqüentado por inúmeros bembros do Partido Comunista, com quem o jovem escritor passaria a se relacionar. Em 1933 ele se filiaria formalmente ao partido, passando a publicar através de sua imprensa, inúmeros poemas retratando a vida da classe operária norte-americana, particularmente dos negros.

Participando de inúmeras atividade literárias organizadas pelo Partido Comunista, Wright sempre contribuiria com textos seus em sua revista revolucionária, a Frente de Esquerda. Sua relação com o Partido, dominado pela política sectária do stalinismo, seria sempre tumultuada, até sua ruptura definitiva em 1942.

Após diversos desentendimentos com militantes do partido, Wright muda-se para Nova Iorque em 1938, onde estabelece novas relações com o PC. Lá ele conhece e trava amizade também com o grande escritor negro Ralph Ellison, autor de um dos maiores clássicos literários dos Estados Unidos, O Homem Invisível.

Neste período ele publicaria diversos pequenos livros de contos sobre a difícil situação dos negros em seu país. Em um deles, chamado Crianças do Pai Tomás, ele denunciava as campanhas de linchamento de negros promovidas por grupos racistas no Sul. Ele inicaria ainda neste período, sua obra capital, O Filho Nativo, livro que se revelaria uma das maiores obras primas da literatura norte-americana.

Concluído e publicado em 1940, O Filho Nativo através de um realismo brutal, contava a tragédia do negro Bigger Thomas nascido em uma miséria estrema e marginalizado pela sociedade. Em suas diversas tentativas de se adaptar aos modelos de vida tradicionais, descobriria uma parede intransponível para ele. Consciente que seu “grande crime” era ser negro, ele revolta-se contra esta sociedade racista.

Trabalhando para uma família branca, tomaria plena consciência de que sua condição de vida degradante, era resultado de uma combinação de imposições sociais, em um mundo do qual ele nunca faria parte. Ele mata acidentalmente uma mulher branca e pouco depois, estupra e mata também sua namorada, ao que é preso e encarcerado.

A uma das grandes inovações deste romance era narrar toda a história a partir do ponto de vista de seu protagonista, Bigger Thomas, retratando sua psicologia particular e revelando todos os motivos pelos quais ele é levado a matar. Thomas era um marginal ressentido do racismo, e em sua fúria inconseqüente, torna-se um rebelde inconsciente, até ser de fato banido definitivamente desta sociedade que nunca o acolheu de fato.

O livro em seu conjunto era uma violenta denúncia social da condição desumana com que era tratada a população negra nos Estados Unidos, submetida a uma série de leis segregacionistas e entranhada até o pescoço em um virulento racismo.

O livro, de estrondoso sucesso pela contundência de sua denúncia, se tornaria um dos maiores best sellers de seu tempo. O Filho Nativo ganharia uma montagem cinematográfica e uma adaptação na Broadway dirigida por Orson Welles.
Pouco depois ele publicaria sua autobiografia, Garoto Negro, narrando em detalhes sua tumultuada juventude no Sul. No ano seguinte, Wright, cansado do racismo em seu país, abandonaria os Estados Unidos para toda a vida, estabelecendo-se em Paris, onde permaneceria até o final de sua vida.

Entre os seus diversos livros publicados posteriormente, se destacariam Homem Branco, Ouça!, publicado em 1957; e um texto extraído de um de seus discursos, A Situação do Artista Negro e intelectual nos Estados Unidos, publicado em 1960, onde Wright tecia sua crítica definitiva contra a o tratamento imposto aos negros de seu país, argumentando que lá, mesmo os melhores militantes do movimento negro haviam sido reduzidos pela sociedade branca norte-americana a condição de escravos.

Richard Wright morreria em Novembro de 1960, vítima de uma infecção que havia contraído três anos antes e da qual nunca se recuperou. Mesmo seu corpo nunca retornaria aos Estados Unidos, sendo enterrado no cemitério de Père Lachaise, em Paris.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Dez 15, 2010 7:24 pm

A Filosofia na Alcova (Marquês de Sade)

A Filosofia na Alcova (La philosophie dans le boudoir, no original em francês) é um romance do Marquês de Sade, publicado clandestinamente em 1795.

Este romance é do Marquês de Sade, cujo nome deu origem ao termo “sadismo” - perversão sexual em que a satisfação erótica é proveniente da prática de actos que fazem o parceiro sofrer.

Neste livro, a jovem Eugênie é encaminhada pelo próprio pai a Madame de Saint-Ange para que esta a inicie nos prazeres do sexo. Com a desaprovação da mãe, a moça passa um fim de semana no castelo da conhecida libertina, e ali, sob a orientação de Saint-Ange, um grupo pratica as mais diversas e exóticas formas de relações sexuais com a jovem. Sexo, crueldade e violência permeiam todo o livro, confirmando a fama do autor.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Dez 28, 2010 7:00 pm

Fontamara (Ignazio Silone)

O romance conta a história do pequeno povoado de Fontamara, onde os cafoni a caminho do trabalho descobrem que o pequeno rio que fornece água para suas plantações está sendo desviado para uso do Empresário, um personagem recém chegado à região, que enriqueceu rapidamente e acaba de ser nomeado por Roma o novo dirigente político local.

A partir desse acontecimento, tem início uma série de novas situações que deixam os cafoni, habituados a imutabilidade de suas vidas, completamente desorientados e desamparados pois, mesmo aquelas pessoas a quem muitas vezes recorriam para resolver seus problemas parecem não conseguir entender o que se passa; e nenhuma das estratégias anteriormente utilizadas, mesmo aquelas que apenas reforçavam a exploração dos cafoni, parecem funcionar.

'Fontamara' é composto por um prólogo e dez capítulos, nos quais o autor coloca as questões essenciais de toda a sua obra literária - a miséria da vida campesina; o amor à terra e o orgulho altivo dos que a fazem frutificar, embora não tenham acesso à maior parte desse fruto; a posição social do oprimido e sua visão de mundo; a opção dos intelectuais sensíveis, frutos da mesma terra, que têm, por meio da cultura, os instrumentos necessários para procurar a mudança; e, por fim, a impossibilidade de comunicação entre o universo camponês, fechado no dialeto, nas lendas, nos provérbios, que definem as verdades perpétuas, e os homens da cidade, que representam os tempos modernos, abertos ao novo e afastados do mundo arcaico das províncias agrícolas.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sex Fev 10, 2012 4:32 pm

Gaibéus (Alves Redol)

(dos dicionários: gaibéu, s. m. jornaleiro da província portuguesa do Ribatejo ou da Beira Baixa que vai trabalhar nas lezírias durante as mondas.)

É o primeiro romance de Alves Redol, publicado em 1939. Como viria a confirmar-se em obras posteriores, este primeiro trabalho do autor é uma das suas incursões ao país real, rural, de um povo trabalhador e explorado. Conta a vida desses jornaleiros que trabalhavam na monda do arroz numa das lezírias do Ribatejo. Homens e mulheres que vinham de outras terras, como alugados para um trabalho duro, de sol a sol, e de fraca paga. Alves Redol, com uma escrita nascida na oralidade do povo (e por isso o leitor tem de contar com algumas palavras e expressões menos comuns), retrata com um realismo cruel o modo de vida dos gaibéus, que ganhavam o seu sustento na época das mondas do arroz. Os maus-tratos, as más condições de trabalho, a exploração nua e crua, o abismo social entre o proprietário e o assalariado, a resignação e passividade de uns e a consciência e angústia de outros, são o tema deste grande livro desse grande escritor tão pouco lembrado.

As personagens são uma e todas ao mesmo tempo. Um povo resignado que luta afincadamente durante o tempo quente, antes da chegada do Inverno, em condições extremas para fazer render os poucos cobres que lhes pagam por tamanha dureza. Por um lado o trabalho árduo de sol a sol, as doenças (malária), a fadiga e a teimosia em cada vez se fazer o trabalho mais rápido para mais rendimento obter, a sede, a fome, a pobreza extrema. Por outro lado, o modo como preenchiam as escassas horas de lazer, os sonhos de uma vida melhor, os projectos sem logro, o vinho para alegrar os espíritos. As mulheres ainda sofrem de outro tipo de exploração, sendo sujeitas aos caprichos do senhor das terras que as escolhe para os seus prazeres carnais.

E o futuro espelhado numa velha que acaba por enlouquecer, fraca e doente, mas com o mesmo anseio de pegar na foice para acabar o trabalho, iludindo-se, febrilmente delirante, no gabar-se de ainda ser o exemplo para os outros de como é uma verdadeira mondadeira.

Há também a personagem que remói as palavras duras dos capatazes e cerra de raiva os dentes na presença do patrão. Uma consciência da exploração de que é vítima, mas de que não tem fuga possível, a não ser, talvez, tentar a sorte em terras distantes como Brasil e África de onde alguns retornavam abastados.

E quando enfim o Inverno chega e a monda se acaba, os jornaleiros regressam com esse sabor amargo às suas terras de origem, preparando-se, no ano seguinte, para procurar trabalho no mesmo rancho, em outras lezírias…

Narrativa muito bem construída que, exceptuando algumas palavras e expressões que requerem o uso do dicionário e um pouco de experiência junto das gentes rurais, se lê muito bem e com grande satisfação e curiosidade, uma vez que se trata do retrato fiel do homem português explorado até aos limites na década de trinta; portanto, que faz parte da nossa memória.

Um livro que se recomenda, num alerta a todas as consciências, pois que, ainda que vivamos no século XXI, a exploração do homem pelo homem está longe de acabar, embora as circunstâncias sejam diferentes…
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Fev 16, 2012 10:26 pm

Histórias de Amor (José Cardoso Pires)

O livro que a censura apreendeu em 1952.
A primeira edição deste livro foi publicada em Julho de 1952, pela Editorial Gleba, numa colecção de bolso intitulada "os Livros das Três Abelhas", dirigida por Victor Palla e Aurélio Cruz.
Foi retirado do mercado pela Censura em 26 de Agosto de 1952.
Tendo sido possível utilizar o exemplar onde estão sublinhadas a lápis azul as partes do texto que motivaram a apreensão da edição, indicam-se nesta edição esses sublinhados, mediante a sobreposição de uma rede de cinzento sobre o texto original, mantido sem cortes.
José Cardoso Pires nunca mais publicou este livro na sua versão inicial, embora o tenha mantido sempre na lista da suas obras completas.
Alguns destes textos (excepção feita a Romance com data que permaneceu sempre inédito) foram mais tarde reescritos e incluídos na edição de Jogos de Azar, publicada em 1963, pela Editora Arcádia.
Nesta edição conservam-se todos os contos na sua versão inicial.
José Cardoso Pires, então com 27 anos, decidiu reclamar da apreensão do livro junto dos Serviços de Censura. Primeiro, pessoalmente, tendo conseguido manter em seu poder o exemplar coma indicação dos cortes de censura que serviu de base a esta edição; depois, por escrito, logo em 26 de Outubro de 1952, através da carta que é conservada como anexo no final da edição.

Críticas de imprensa

«Talvez o mais importante nestes contos seja a sua técnica realista, especialmente uma abordagem indirecta e subtil muito bebida nos ficcionistas americanos. [...] Aos 27 anos, o jovem escritor ainda não tem o apuro estilístico que mais tarde adquiriu, mas já há uma vontade (e aqui também uma necessidade) de não ser explicativo que o afasta do realismo português então (e agora) dominante.»
Pedro Mexia, Público

«Histórias de Amor, além de documento de época, vale como documento literário [dá-nos a conhecer (ou recordar) a escrita mais jovem de um dos maiores romancistas portugueses da modernidade]. A ler. Ou a reler.»
Ana Cristina Leonardo, Expresso
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LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...
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