A LIBERDADE É AMORAL

Local de discussão livre sobre todos os temas sociais.
 
InícioInício  CalendárioCalendário  FAQFAQ  Registrar-seRegistrar-se  LoginLogin  

Compartilhe | 
 

 LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo 
Ir à página : Anterior  1, 2, 3, 4  Seguinte
AutorMensagem
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Seg Jul 26, 2010 5:55 pm

Anti-Düring (Friedrich Engels)

Estudo crítico da doutrina socialista de Eugen Düring, que era professor na Universidade de Berlim e possuía, sob alguns aspectos, afinidades com Marx e Engels.

Entretanto, no que se refere à "filosofia da realidade" de Düring, Marx e Engels representavam o pólo oposto, e opunham ao socialismo autocrático de Düring o materialismo dialético.

Este livro foi o primeiro a revelar o conteúdo da teoria marxista aos líderes da social-democracia alemã, segundo a qual divulgou-se a interpretação materialista da História e as conseqüências políticas advindas dessa interpretação.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Jul 28, 2010 6:50 pm

Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (Natália Correia)

A Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, publicada pela editora Afrodite, de Fernando Ribeiro de Mello, que foi de imediato apreendida pela PIDE, tendo a sua organizadora, o editor, e muitos dos poetas vivos antologiados ido a julgamento e sido condenados, está finalmente disponível ao público.

A Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, é uma edição conjunta das editoras Antígona e Frenesí, que comemoraram 20 anos de edição em 1999.

Sem teias nem peias, desde os poetas medievais, ao Abade de Jazente, Filinto Elísio, Tolentino, Camões, Antero, Gomes Leal, Cesário, Nobre, Pessoa, Sá-Carneiro, Sena, Eugénio de Andrade, Cesariny, Herberto Helder.

Como escrevia David Mourão Ferreira: "Não ter medo das palavras e não recear as realidades que elas exprimem, é, sobretudo, evitar o trânsito pelo consultório do psiquiatra. Os maiores dos nossos poetas conheceram, desde sempre, essa forma terapêutica." A partir de agora, os leitores portugueses também podem aceder-lhe.

A edição da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, (Ed. Afrodite, Lisboa, Dez. de 1966), foi apreendia e julgada em Tribunal Plenário como «ofensiva do pudor geral, da decência e da moralidade pública e dos bons costumes». Foi «reconhecido o mérito literário da obra», com excepção dos textos de Mário Cesariny de Vasconcelos, cujo mérito literário foi considerado nulo.

No plenário criminal da Boa-Hora, em audiência colectiva, sob a presidência do desembargador Fernando António Morgado Florindo e com a presença de Costa Saraiva, adjunto do procurador da República, terminou no dia 21 de Março de 1970 o julgamento por abuso de liberdade de imprensa dos responsáveis pela publicação da Antologia.

Foram condenados:

Fernando Ribeiro de Mello, editor, e Natália Correia, escritora e organizadora da Antologia, a 90 dias de prisão correccional, substituíveis por igual tempo de multa a 50$00 por dia e mais 15 dias de multa à mesma taxa. A cada um foram aplicados os impostos de justiça de 1500$00 e 500$00 de procuradoria.

Luiz Pacheco, escritor, foi condenado a 45 dias de prisão, substituídos por multa, a 25$00 diários e 7 dias de multa à mesma taxa (no entanto devido à sua situação económica, o Tribunal dispensou-o do pagamento da multa diária). Foi ainda condenado a 880$00 de imposto de justiça.

Mário Cesariny de Vasconcelos, escritor, foi condenado a 45 dias de prisão substituídos por multa a 30$00 diários e 7 dias de multa à mesma taxa. Condenado em 1 000$00 de imposto de justiça e 500$00 de procuradoria.

José Carlos Ary dos Santos, escritor, foi condenado a 45 dias de prisão substituída por igual tempo de multa a 40$00 diários e 7 dias de multa à mesma taxa. Foi condenado em 1 000$00 de imposto de justiça e 500$00 de procuradoria.

Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro, escritor, foi condenado a 45 dias de prisão, substituída por igual tempo de multa, a 50$00 por dia e mais 7 dias de multa àquela taxa. Foi aplicado o imposto de justiça de 1500$00 e 500$00 de procuradoria.

A Natália Correia, Mário Cesariny, José Carlos Ary dos Santos e Melo e Castro foram suspensas as penas, pelo espaço de três anos.

Os livros apreendidos foram declarados perdidos a favor do Estado para serem destruídos. O acusado Francisco Marques Esteves foi absolvido.


Última edição por Anarca em Sex Ago 20, 2010 12:54 pm, editado 1 vez(es)
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sex Jul 30, 2010 4:36 pm

Escritor, Quarenta e Cinco Anos de Idade (Bernardo Santareno)

Escritor português, nasceu a 19 de Novembro de 1920, em Santarém. Formado em Medicina, com especialização na área de psiquiatria, Bernardo Santareno, pseudónimo de António Martinho do Rosário, foi um dos maiores dramaturgos portugueses.

Tem sido corrente dividir a dramaturgia de Bernardo Santareno em dois grandes momentos: um que corresponderia às peças escritas entre 1957 e 1962 (A Promessa, O Bailarino, A Excomungada, O Lugre, O Crime de Aldeia Velha, António Marinheiro, Os Anjos e o Sangue, O Duelo, O Pecado de João Agonia e Anunciação), enquanto momento de "reflexão e busca de novas formas de expressão" (cf. REBELLO, Luiz Francisco - Posfácio a Obras Completas, vol. IV, Lisboa, Caminho, 1987, p. 388); nitidamente distinto de um segundo momento, inaugurado com O Judeu, marcado pela passagem de um esquema tradicional naturalista a um teatro brechtiano, amadurecido também na influência de Peter Weiss.

A possibilidade de encadear, de forma não linear, no discurso de um narrador, o tratamento do tempo, conjugado com o recurso a modernas técnicas teatrais, como a utilização de vários espaços cénicos ou o uso dramático da luminotecnia, de efeitos visuais e sonoros, permite, então, subvertendo o modelo aristotélico, conseguir um acréscimo de sugestividade na transmissão da mensagem teatral. Entre estas duas fases, o traço de união parece ser a atenção prestada a um protagonista comum, "o povo português" (cf. id. ibi., p. 291), para o que concorre uma permanente articulação entre uma dimensão individual e histórico-colectiva na sua dramaturgia, ao mesmo tempo que, segundo Luiz Francisco Rebello, "Religiosidade e superstição, misticismo e erotismo, são os pólos entrecruzados de um excruciante jogo dialéctico entre o bem e o mal, que se relativiza e torna cada vez mais concreto à medida que a obra progride e evolui no sentido de uma crescente consciencialização social." (id. ibi., p. 392), como se, ainda de acordo com o mesmo crítico, a incidência sobre a problemática da transgressão social, que seria objecto privilegiado a partir de O Judeu, não deixasse de conter em si a transgressão moral e frustração carnal abordadas em peças como A Promessa, O Crime da Aldeia Velha, João Agonia ou António Marinheiro.

É certo, no entanto, que a eleição, desde 1962, de temáticas históricas com um alcance implicitamente didáctico permitirá uma utilização da "história como "máscara", à transparência da qual o passado devia ler-se como presente." (cf. id. ibi.), estratégia que, não passando despercebida pela censura, tornou-o um alvo da perseguição do regime salazarista, impondo sucessivas interdições de representação das suas peças.

O profundo envolvimento na denúncia contra os atentados à integridade, dignidade e liberdade humanas atingirá um momento máximo de frustração e desilusão na peça de inspiração autobiográfica Português, Escritor, Quarenta e Cinco Anos de Idade, texto que, concebido como despedida do teatro e da vida, assume a forma de relato (individual, mas sem dúvida com um eco geracional) da forma como perdera todos os ideais, o entusiasmo e a esperança, entre a juventude e a vida adulta, atravessando as vias de martírio individual e colectivo do século XX português e europeu, chamadas Guerra Civil espanhola, Segunda Guerra Mundial, regime salazarista ou guerra colonial portuguesa. Depois da revolução de Abril, desenvolveu uma intensa actividade na tentativa de reestruturação do teatro nacional, para a qual concorre com textos originais, coligidos em Os Marginais e a Revolução.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Ago 05, 2010 5:53 pm

Apresentação do Rosto (Herberto Hélder)

Apreendido pela censura e nunca reeditado, 'Apresentação do Rosto' a obra de Herberto Helder apresenta-se como uma das mais corajosas e terríveis confissões autobiográficas da Literatura portuguesa, uma vez que representa uma confissão a si próprio, mas para consumo alheio, sem a imediatez grosseira da sinceridade literária, o que afinal se prova que não existe depois de se ter lido este maravilhoso livro.

Nasceu no Funchal em 1930. Aos 16 anos vem estudar para Lisboa e mais tarde para Coimbra, passando pelas Faculdades de Direito e de Letras. Entre idas e vindas entre a Madeira e o Continente, fixa-se em Lisboa em1955, frequentando o grupo do Café Gelo, juntamente com Mário Cesariny e Luiz Pacheco, tendo publicado 'O Amor em Visita', o seu primeiro livro, em 1958.

Viaja pela Europa onde trabalha em actividades várias, regressando a Portugal em 1960. Foi encarregado das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, publicando então alguns dos seus mais importantes livros: 'A Colher na Boca', 'Poemacto', 'Lugar', 'Os Passos em Volta' e mais tarde 'Apresentação do Rosto'

Personalidade enigmática, poeta mítico, é avesso a todo o tipo de manifestações públicas, mantendo um anonimato quase monástico.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Seg Ago 09, 2010 7:31 pm

A Atenção (Alberto Moravia)

Sinopse

O romance e a vida. A verdade da vida e a verdade da arte. Como se tocam e como se separam estas duas realidades?

O herói de Alberto Morávia – um dos maiores escritores italianos da actualidade – é o jornalista Francesco Merighi, homem que já passou os quarenta anos e que decide registar num diário tudo quanto lhe acontece.

As máscaras do quotidiano devem cair diante da verdade nua e crua. Merighi é um jornalista falhado, que tenta, assim, realizar o que nunca conseguiu: prender, naquilo mesmo que escreve, os múltiplos caminhos da vida e o seu sentido. O sangue e o sal da vida. Sem pudor e sem escrúpulos.

E muito mais fabuloso e inquietante do que imaginara se revela o dia-a-dia que analisa: Cora, a mulher, por detrás das aparências, cultiva uma perigosa ambiguidade; Baba, a jovem enteada, desenvolve, com estranha candura, um trabalho de sedução – a que os sentidos não são alheios -, que o visa a ele, Merighi.

«A Atenção» transforma-se, de página para página, num interrogatório alucinante, em que se envolvem sensualidade e inesperada beleza, elementos do universo interior, que só o extraordinário talento de Morávia, mestre de romancistas, consegue comunicar-nos.

Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Ago 12, 2010 8:10 pm

Os Aventureiros (Harold Robbins)

Nascido em Nova Iorque, Harold Robbins é um dos autores de maior renome a nível mundial, com romances que muitas vezes espelham as suas próprias experiências de vida e são povoados por personagens inspiradas em pessoas que terá conhecido.

Uma característica comum a todos os romances de Harold Robbins é estarem recheados de acção movimentada, assente num estilo narrativo intenso e pletórico de vitalidade. Tal como acontece também claro, com "Os Aventureiros".

A história gira em torno de Dax, um indíviduo rico e amoral, que percorre incansavelmente o globo em busca dos prazeres exóticos; os seus encantos selváticos proporcionam-lhe um cortejo de mulheres deslumbrantes e a sua ambição violenta condu-o ao apogeu do poder internacional.

Penetrar no mundo assim descrito por Harold Robbins é conhecer também um mundo de paixão e tensões, de pobreza e de poderio. É conhecer também o mundo que abarca os seis continentes, e os segredos e desejos e fantasias intímas do coração e do espírito; um mundo que ricos e pobres partilham entre si. É, afinal, conhecer em profundidade o nosso mundo de todos os dias.

O romance monumental que é "Os Aventureiros" conduz os seus leitores da América do Sul para Paris, Nova Iorque, Londres e a Riviera.. Hollywood, e os ricos campos petrolíferos do Texas, revelando como vivem e gozam os raros privilegiados e o único homem que alcança riqueza e poder através dos amores de muitas mulheres.

A famosa revista americana "Playboy" chamou a Harold Robbins "o mestre da sexploração", trazendo à supoerfície outro dos muitos atributos que fizeram deste romancista o mais imitado em todo o mundo.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Ago 18, 2010 6:13 pm

Bancarrota (Tomás da Fonseca)

Tomás da Fonseca é conhecido, pelos Mortaguenses, como "O Santo que não acreditava emDeus. O Livro Bancarrota relata um exame à escrita das agências divinas.

Tomás da Fonseca foi um grande escritor, político, mestre e pensador da 1ª República Portuguesa. (1877 - 1968)

Natural de Laceiras, freguesia de Pala, concelho de Mortágua, nasceu a 10/03/1877 e faleceu a 12/02/1968. Era filho de Adelino José Tomás e de Rosa Maria da Conceição e pai de Dr. António José Branquinho da Fonseca e Eng.º Tomás Branquinho da Fonseca.

Tomás da Fonseca foi uma personalidade de destaque no meio intelectual e político da sua época. Espírito brilhante e tribuno exímio, desde muito cedo se evidenciou na defesa das ideias liberais e depois do regime republicano. Teve um papel preponderante na geração que fez a República, pelo seu feitio combativo. Era firme e intransigente na defesa das suas ideias, sempre orientado na procura da verdade e da justiça e dono de uma coragem moral que desafiou todas as vicissitudes.

Foi um lutador pela integração social do Homem e defensor intransigente dos direitos daqueles que labutam duramente.

Tomás da Fonseca foi um homem de acção, organizador e animador de inúmeras associações de carácter cultural, social, económico e político, sendo uma figura de grande relevo na campanha intensa e acidentada que precedeu a proclamação da República Portuguesa em 1910. Como deputado marcou sempre presença nos grandes actos dos primeiros tempos do novo regime.

Em 1910 foi chefe de gabinete do primeiro Presidente do Ministério Republicano, Dr. Teófilo Braga e em 1916 eleito senador pelo distrito de Viseu.

Em 1918, por se opor à ditadura de Sidónio Pais, é preso durante dois meses. Volta a ser preso em 30 de Novembro de 1928, em Coimbra, por ter participado no movimento revolucionário de 20 de Julho. Pertenceu ao Movimento da Unidade Democrática e à Maçonaria. Feroz opositor do regime ditatorial, foi perseguido pelas suas ideias políticas e os seus livros alvo de censura e proibição. Por várias ocasiões a PIDE deslocou-se à sua residência e às gráficas onde os livros eram impressos para os confiscar. Os seus movimentos eram constantemente vigiados, incluindo das pessoas e amigos, mortaguenses e não só, que com ele mais privavam.

Denunciou as condições prisionais do regime, o que lhe valeu a prisão em 8 de Maio de 1947, por ter protestado contra a existência do Campo de Concentração do Tarrafal, nas ilhas de Cabo Verde. Uma semana antes, no dia 2 de Maio, tinham sido já presos outros dois mortaguenses, acusados também de serem opositores ao regime: Dr. Victor Hugo Marques Miragaia, advogado e Deodato Medeiros Ramos, empregado comercial.

A título de curiosidade, tal era a sua fama de opositor ao regime que até no dia do seu funeral, realizado para o cemitério de Mortágua, a Policia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) enviou agentes com a missão de anotar (discretamente) as pessoas e discursos de homenagem dos que ali compareceram ao último adeus.

Era um anti-clerical convicto e assumido, tendo publicado vários livros críticos sobre a Igreja e a Religião. Ficou famosa a sua polémica com João de Deus Ramos sobre o ensino religioso nas escolas.

Como escritor literário, Tomás da Fonseca escreveu dezenas de volumes onde se contam livros de versos, arqueologia e belas artes, a doutrina democrática e a polémica religiosa.

Tomás da Fonseca não só marcou uma posição firme de grande escritor de ideias, como foi também um professor de raros recursos pedagógicos. A sua ligação ao ensino foi um acto contínuo, sendo vogal do Conselho Superior de Instrução Pública, director das Escolas Normais de Lisboa, da Universidade Livre de Coimbra, presidente do Conselho de Arte e Arqueologia da mesma cidade.

Como deputado do Parlamento até 1917, colaborou na reforma do Ensino Primário e Normal. Em 1922 publicou o livro “História da Civilização”, que foi adoptado como livro escolar, a pedido do Ministro da Instrução Pública”. Professor sempre atento e preocupado na formação, realizou inúmeras visitas de estudo a escolas, museus e bibliotecas em países como França, Bélgica e Inglaterra. Foi ainda um dos impulsionadores da construção do Jardim-Escola João de Deus, de Mortágua.

Em 1941, participou em Mortágua na fundação do Círculo de Leitura.

Um grupo de habitantes do concelho ligados aos meios democráticos e republicanos decidem fundar o Círculo de Leitura, uma espécie de biblioteca pública que se estabeleceu na Casa Lobo. O Círculo de Leitura foi criado com o objectivo de manter viva a chama da leitura após o desaparecimento das bibliotecas das Escolas Livres da Irmânia e de Mortágua, com a instalação da ditadura e a consolidação do Estado Novo. Promovia o culto do livro e o gosto da leitura, manifestando preocupação pela elevação do nível cultural dos seus associados, perto de 200.

Os livros eram comprados com o dinheiro resultante do pagamento das quotas e ofertas. O Círculo de Leitura também patrocinava palestras, que se realizavam no Teatro Club. Tomás da Fonseca proferiu ali várias conferências, uma delas em homenagem a Antero de Quental. O Círculo de Leitura manteve-se até 1945.

No Jornalismo destacou-se com artigos ou opiniões publicadas em jornais como: “Mundo”, “Pátria”, “Vanguarda”, “Voz Pública”, “Norte”, “República”, “Povo”, “Batalha”, “Lanterna (Brasil)”, “Espanha Nova”, “Alma Nacional”, “Diabo”, “Prometeu”, “Arquivo Democrático”, de que foi director, “Defesa da Beira” e na revista “Livre Pensamento”.

O seu nome está perpetuado na toponímia de Mortágua (Rua Tomás da Fonseca), onde está instalada a Biblioteca Municipal. O Centro de Formação de Professores de Mortágua tem também o seu nome. Possui junto à Câmara Municipal um busto escultórico em sua memória.

A título póstumo foi-lhe concedida a Ordem da Liberdade (Diário da República, 2ª Série, 12 de Dezembro de 1984).
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Ago 19, 2010 6:36 pm

Bel-Ami (Guy de Maupassant)

Guy de Maupassant é considerado um dos mais influentes contistas e romancistas franceses da segunda metade do século XIX, apesar de uma actividade literária que durou apenas dez anos, durante os quais escreveu cerca de trezentos contos e seis romances.

Entre estes últimos, salienta-se Bel-Ami, no qual o autor oferece o retrato do seu tempo e da sua classe social, narrando as peripécias de George Duroy, que deambula pelas ruas de Paris em busca de dinheiro e êxito.

Uma obra em que se patenteiam os princípios literários de Guy de Maupassant, nomeadamente o estilo objetivo, a linguagem rigorosa e o realismo psicológico.

Georges Duroy, conhecido como Bel-Ami, é rapaz pobre, de origem camponesa, que procura fortuna e a afirmação social em Paris. Ele sempre consegue das mulheres o que ele deseja: de algumas, o prazer efêmero; de outras, pelo casamento, a projeção financeira e profissional.

No retrato de Georges Duroy, Guy de Maupassant traça um perfil sutil e mordaz da sociedade parisiense no final do século XIX.

Personagens:

Georges Duroy (Du Roy) – um ex-soldado,jornalista e alpinista social;

Charles Forestier – antigo amigo de Georges Duroy no exército, jornalista;

Madeleine Forestier (Du Roy) – esposa de Charles e depois de Georges, que ajuda seus maridos a escreverseus artigos e tem muitas conexões com o poder;

Monsieur Laroche-Mathieu – um amigo de Madeleine Forestier (Du Roy), um político e depois ministro, amante de Madeleine Forestier.

Conde de Vaudrec – um velho amigo de longa data, protetor e provavelmente também amante de Madeleine Forestier (Du Roy)

Clotilde de Marelle – amiga dos Forestiers, cujo marido, um inspetor escolar, fica freqüentemente ausente por longos períodos;

Laurine de Marelle – a jovem filha de Clotilde, que cria o apelido Bel Ami;
Jacques Rival – um jornalista;

Norbert de Varenne – um velho e amargo poeta, da equipe do Vie Francaise;

Monsieur Walter – o proprietário e editor chefe do Vie Francaise

Virginie Walter – esposa de M. Walter e, mais tarde, amante de Georges Duroy

Susanne Walter – a filha casadoura dos Walter, depois Madame Du Roy

Rachel – uma prostituta a quem George Duroy procura em momentos de crise financeira.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Ago 24, 2010 6:08 pm

Caminhemos Serenos (Carlos Papiniano)

Escritor português, Papiniano Manuel Carlos de Vasconcelos Rodrigues nasceu em Lourenço Marques (actualmente Maputo), capital de Moçambique, no ano de 1918.

Cedo se fixou no Porto, onde concluiu os seus estudos secundários. Matriculou-se depois na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, onde conheceu Jorge de Sena. Contrariamente a este, Papiniano Carlos não chegou a concluir o curso, largamente preterido pelas suas aspirações literárias.

Divulgador incansável da poesia africana de expressão portuguesa, foi colaborando em publicações literárias que vieram a assumir um carácter de importância, como sendo a Seara Nova , a Vértice , a Bandarra e as Notícias do Bloqueio , que eventualmente dirigiu.

Em 1942 publicou o seu primeiro livro, uma colectânea de poemas intitulada Esboço que, com os volumes que seguiram, como Ó Lutador (1944), Poema da Fraternidade (1945), Estrada Nova (1946), o tornaram num nome de destaque de entre os poetas neo-realistas portuenses. Poetas que, pela sua combatividade, ficaram conhecidos como a "Geração de 50".

Esteve portanto associado a nomes como Egito Gonçalves, António Rebordão Navarro, Daniel Filipe e Luís Veiga Leitão.
Estreou-se como contista em 1946, ao publicar Terra com Sede , prosseguindo as suas contribuições para o género com o híbrido As Florestas e os Ventos (1952). Com uma obra poética bastante dispersa, caracterizada pela riqueza anafórica e pela redundância simbólica, compilou ainda alguns volumes de sucesso, como Caminhemos Serenos (1957), Uma Estrela Viaja na Cidade (1958) e o célebre A Menina Gotinha de Água (1962), vocacionado para o público infantil, pelo qual Papiniano Carlos nutria grande estima. Também para crianças compôs Luisinho e as Andorinhas (1977), O Cavalo das Sete Cores e o Navio (1980), O Grande Lagarto da Pedra Azul (1986) e A Viagem de Alexandra (1989). De referir também o seu único romance, O Rio na Treva (1975), e uma crónica, A Rosa Nocturna (1961).

No que diz respeito à sua actividade política, salienta-se sobretudo a apresentação pública de uma tese, "Europa Nova: Portugal Novo", no âmbito do 3.º Congresso da Oposição Democrática, ocorrido em Aveiro na primeira semana de Abril de 1973.


Caminhemos serenos!

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas,
caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade,
caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões do fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos,
caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia connosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável, que temer, ó minha querida?
Caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas,
caminhemos serenos!

(Carlos Papiniano)
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sex Ago 27, 2010 5:57 pm

O Caminho Fica Longe (Vergílio Ferreira)

Vergílio Ferreira nasceu em Melo, Gouveia, em 1916. Quando tinha quatro anos os seus pais emigraram para o Brasil, deixando-o com as suas tias, com quem se cria na Serra da Estrela. A ausência dos progenitores e a sua infância serrã terão uma grande influência na sua obra, como no romance Nítido Nulo. Depois de uma peregrinação a Lurdes entra no seminário, onde estuda durante seis anos, após os quais entra no Curso Liceal da Guarda. As suas vivências no seminário inspirarão Manhã Submersa, uma das suas obras melhor sucedidas. Em 1935 ingressa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se formará em Filologia Clássica, terminando o curso em 1940. Durante este tempo escreveu poesia, que nunca foi publicada, para além do seu primeiro romance, O Caminho Fica Longe, em 1939. Depois disto, iniciará a sua vida como professor de liceu, que o levará a estabelecer-se em diversas cidades portuguesas.

Virgílio Ferreira falece em Lisboa em 1996.

As duas fases.

A crítica vergiliana costuma dividir a sua obra em duas fases bem definidas, a do neorrealismo inicial e a do existencialismo. Contudo, nem todos os críticos colocam o início duma fase e o fim da outra no mesmo ponto. Devemos entender, não obstante, que há uma transição gradual, embora rápida, duma fase para a outra, que começaria com Mudança (1949). Será com Manhã Submersa e com Aparição que o existencialismo chegue ao seu pleno desenvolvimento.

Obra inicial

A primeira obra de Vergílio Ferreira, O Caminho Fica Longe, é pouco conhecido por causa da sua proibição pela censura, que apreendeu a maioria dos exemplares do livro antes de serem vendidos nas livrarias. Segundo declara o próprio autor, não é um romance representativo na sua obra nem poderia ser publicado hoje sem grandes modificações. Apesar de que esta obra é geralmente classificada como uma obra da primeira fase neorrealista, Aniceta de Mendonça aponta que esta obra deveria ser classificada mais como presencista do que neorrealista. Isto dever-se-ia a que, pela sua juventude (23 anos), não existiria ainda no autor (aliás, como ele mesmo reconhece) a intencionalidade de inscrever-se numa ou noutra escola, senão que imitaria por inércia a prosa anterior já mais consagrada, a da Geração da Presença.


Última edição por Anarca em Ter Ago 31, 2010 6:50 pm, editado 2 vez(es)
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Ago 31, 2010 6:48 pm

A Carne (Júlio Ribeiro)

A obra "A carne" de Júlio Ribeiro é um romance naturalista publicado em 1888 que aborda temas até então ignorados pela literatura da época, como divórcio, amor livre e um novo papel para a mulher na sociedade. O livro conta a história da garota Lenita, cuja mãe morrera em seu nascimento e o pai educara-a ministrando-lhe instrução acima do comum. Lenita era uma garota especial, inteligente e cheia de vida. no entanto, aos 22 anos, após a morte de seu pai, tornou-se uma jovem extremamente sensível e teve sua saúde abalada.

Com o intuito de sentir-se melhor, Lenita decide ir viver no interior de São Paulo, na fazenda do coronel Barbosa, velho que havia criado seu pai. Lá, conhece Manuel Barbosa, o filho do coronel. Manuel era um homem já maduro e exímio conhecedor das coisas da vida, vivia trancado no quarto com seus livros e periodicamente partia para longas caçadas; vivera por dez anos na Europa, onde se casara com uma francesa de quem separara-se há muito tempo. Lenita firmara uma sólida amizade com Manuel, que, aos poucos, vai se revelando uma tórrida paixão, no início, repelida por ambos, mas depois consolidada com fervor em nome do forte desejo da "carne".

O livro narra a ardente trajetória desse romance singular, marcado por encontros e desencontros, prazer e violência, desejo e sadismo, batalha entre mente e carne. A história caminha para um trágico desfecho a partir do momento em que Lenita, encontrando cartas de outras mulheres guardadas por Manuel, sente-se traída e resolve abandoná-lo; estando grávida de três meses, casa-se com outro homem. Manuel, não suportando tamanha traição, suicida-se, o que comprova o resultado final da batalha "mente versus carne". No início, triunfam os prazeres da carne, no trágico final, os desenganos da mente.

O lançamento de A Carne, de Júlio Ribeiro, em 1888, fez grande sucesso e causou escândalo entre as famílias paulistanas tradicionais. As jovens eram proibidas de ler a obra e muitos pediam segredo ao comprar.


Última edição por Anarca em Seg Out 18, 2010 6:04 pm, editado 1 vez(es)
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Set 02, 2010 5:58 pm

Chéri (Collete)

Romancista francesa, Sidonie-Gabrielle Colette nasceu a 28 de Janeiro de 1873, numa pequena aldeia da Borgonha, de nome Saveur-en-Puisaye.

O pai era um antigo combatente das campanhas italianas, o infortúnio de perder uma perna fez com que passasse de capitão do exército a cobrador de impostos, mantendo ambições na política regional. A mãe, por seu lado, vivia num mundo muito próprio, composto essencialmente pelo seu jardim bem cuidado, por animais de estimação e pelos livros. Colette cresceu portanto num idílio rural e despreocupado.

Em 1893 casou com Henri Gauthier-Villars, escritor e crítico teatral, conhecido no meio por 'Monsieur Willy', e cuja reputação foi posta em dúvida pela posteridade, acusado de charlatanismo e degeneração de costumes. Encorajou a jovem esposa a escrever e, segundo reza a lenda, encerrou-a no quarto até que ela compusesse um número de páginas suficientes ao seu agrado.

Consequentemente, Colette publicou o seu primeiro romance em 1900. Claudine à l'École constitui o início da série 'Claudine', da qual a autora completou quatro volumes em apenas três anos, assinando-os com o nome do marido.

Descrevendo as aventuras e desventuras de uma adolescente, Claudine desafiava os conceitos de decência da época, o que em muito contribuiu para o seu sucesso imediato. A série logo se tornou num fenómeno comercial, dando origem ao aparecimento de uma linha de produtos alusivos à personagem, como um uniforme, charutos, sabonetes, perfumes, e mesmo um espectáculo musical.

Em 1905 Colette pediu o divórcio com base legal nas infidelidades do marido e, no ano seguinte, deu início a uma carreira como actriz no teatro de revista, marcada pelos escândalos e atentados à moral pública. Numa ocasião terá desnudado um seio em palco e, noutra, causado uma rixa no famoso Moulin Rouge, ao simular o acto sexual. Apesar das suas actuações pouco ortodoxas e comportamentos homossexuais, Colette pôde prosseguir a sua carreira como actriz e escritora, sobretudo graças à protecção da Marquesa de Belboeuf.

Tornou a casar em 1912, desta feita com o editor de um conceituado jornal francês, e autor de contos e crónicas teatrais. O seu envolvimento com o filho do marido despoletou um novo escândalo. O matrimónio durou apenas até 1925.

Entretanto, em 1920, publicou Chéri , romance narrado por um adolescente que recebe a sua iniciação sexual de uma mulher mais madura.

Com a deflagração da Primeira Grande Guerra em 1914, Colette converteu a propriedade do marido, situada na Normandia, num hospital militar. Este esforço de guerra não só lhe valeu a investidura como Cavaleiro da Legião de Honra em 1920, como lhe garantiu grande popularidade por toda essa década, chegando a ser aclamada como a maior escritora francesa de todos os tempos.

Guardou da sua terra natal, a Borgonha, um amor pela liberdade e pela natureza que viria a inspirar muitos dos seus melhores escritos. Procurando a sua identidade transmutada a partir da ruralidade contemplativa, Colette descreve em muitas das suas obras a marginalidade urbana em que a sua vida desaguou, ao escolher como personagens prostitutas e proxenetas, bissexuais e travestis. Trabalhos como La Naissance du Jour (1928), Sido (1929) e L'Étoile Vesper (1947) concentram-se no ambiente campestre da sua infância, enquanto que outras, como La Vagabonde (1911) e La Chatte (1933), abordam a estranha cidadania dos meandros de Paris.

Galardoada com inúmeros prémios, a obra de Colette valeu-lhe a admissão na Real Academia Belga e na Academia Goncourt, bem como uma promoção a Oficial da Legião de Honra em 1953.

Sofrendo de artrite degenerativa, Colette faleceu em Paris a 3 de Agosto de 1954. Apesar da recusa terminante por parte da Igreja Católica, que excluía dos seus ritos pessoas divorciadas, foram concedidos aos restos mortais da escritora honras fúnebres nacionais.

Sinopse do romance Chéri

Filho de uma cortesã, o belo e mimado Chéri é educado na arte do amor por sua rival, Léa. No entanto, quando ele consente em um casamento arranjado com uma mulher rica, Chéri e Léa se separam. Mas ele não a esquece, e mesmo casado mergulha em um isolado mundo de sonhos e lembranças.

Chéri deu origem ao filme estrelado por Michelle Pfeiffer e Kathy Bates, e dirigido pelo premiado Stephen Frears (Ligações perigosas, A rainha e Alta fidelidade).

Obra controversa na época de seu lançamento, é um importante retrato da Paris de 1920. Chèri é considerado seu melhor romance, um clássico francês do século XX.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Seg Set 20, 2010 1:57 pm

O Livro Vermelho (Mao Tsé Tung)

Citações do Presidente Mao Tsé-Tung (O Pequeno Livro Vermelho ou ainda O Livro Vermelho) como é mais conhecido no Ocidente, conforme sugere o próprio nome é uma coletânea de citações do presidente da República Popular da China Mao Tsé-Tung e uma forma de culto à sua personalidade.

Foi organizado por Lin Piao, Ministro da Defesa de Mao. O livro possuí 33 capítulos. Seus tópicos abordam a ideologia de Mao, conhecido no Ocidente como Maoísmo ou oficialmente como "Pensamento de Mao Tsé-Tung". Inicialmente publicado na China, teve distribuição internacional após abril de 1964.

O Livro Vermelho é o segundo livro mais vendido na história, atrás apenas da Bíblia Sagrada, teve aproximadamente 900 milhões de cópias imprimidas. A popularidade fenomenal do livro pode estar ligado ao fato que era essencialmente uma exigência não oficial para todo cidadão chinês possuir o livro, especialmente durante a Revolução Cultural.

Durante a Revolução Cultural, o livro passou a ser estudado não só nas escolas mas também sua leitura era exigida no mercado de trabalho. Todas os setores da sociedade, industria, comércio, agrícola, administração civil, e nos setores militares, era organizado sessões de leitura do livro durante várias horas por dia no trabalho.

Durante os anos 60, o livro era um ícone importante na cultura da China, tão visto quanto a imagem de Mao. Em cartazes e quadros criados pelos artistas de propaganda do PCC, Mao era muitas vezes visto com uma cópia do livro na mão dele. Depois do fim da Revolução Cultural em 1976 e a subida ao poder de Deng Xiaoping em 1978, a importância do livro diminuiu consideravelmente.

Conteúdo e formato

O Livro Vermelho compreende 427 citações de Mao, divididas em 33 capítulos. As citações de Mao eram em negrito ou em vermelho para serem bem destacadas. É também chamado de "Reflexões do presidente Mao" por muitos chineses. As citações compreendem poucos parágrafos. Na segunda metade do livro, uma forte tendência empirista evidencia-se no pensamento de Mao.

Resumo:

O Partido Comunista - O Partido Comunista chinês é o núcleo da revolução chinesa, e os seus princípios são baseados no marxismo-leninismo. Críticas devem ser realizadas dentro do Partido.

Classes e luta de classe - A revolução, e o reconhecimento das classes e da luta de classes, são necessárias para o povo e camponeses chineses para superar tanto inimigo e elementos nacionais como estrangeiros. Este não é um caminho simples, limpo, rápido ou sem luta.

O Socialismo e o comunismo - O Socialismo deve ser desenvolvido na China, e a rota para tal fim é uma revolução democrática, o que permitirá a consolidação socialista e comunista, ao longo de um período de tempo. Também é importante para unir os meios camponeses, e educá-los sobre as falhas do capitalismo...

O tratamento correto das contradições entre o Povo - Existem pelo menos dois tipos básicos de contradição: contradições antagônicas que existem entre países comunistas e capitalistas e seus vizinhos e entre os povos e os inimigos do povo, e as contradições entre as próprias pessoas, as pessoas não estão convencidos do novo caminho da China, que deve ser tratado de forma democrática e não antagônicas.

Guerra e Paz - A guerra é uma continuação da política, e há pelo menos dois tipos: apenas (progressiva) e guerras injustas, que apenas servem aos interesses burgueses. Embora guerras não sejam boas, temos de permanecer prontos lutar em guerras contra as potências imperialistas.

Imperialismo e reacionários, todos Tigres de Papel - O imperialismo dos Estados Unidos, e da Europa e as forças reacionárias nacionais, representam perigos reais e, a este respeito são como verdadeiros tigres. No entanto, porque o objetivo do comunismo chinês é justo, e interesses reacionários são egocêntricos e injustos, depois da luta, que será revelada a ser muito menos perigosa do que eram antes disso.

Ouse Lutar e Ousar Ganhar - Lutar é desagradável, e as pessoas da China preferem não fazê-lo em tudo. Ao mesmo tempo, estão dispostos a travar uma luta apenas de auto-preservação contra elementos reacionários, tanto estrangeiros como nacionais.

A Guerra de pessoas - As massas de China são a maior arma concebível por lutar contra imperialismo japonês e reacionários internos. Pontos estratégicos básico para a guerra contra o Kuomintang também são enumerados.

O Exército das Pessoas - O exército do povo não é apenas um órgão para combater, é também um órgão para o avanço político do Partido, bem como da produção.

Liderança e Comitês do Partido - A vida interna do Partido é discutida. Comitês são úteis para evitar a monopolização por outros, e os membros do Partido devem demonstrar honestidade, serem abertos à discussões de problemas e da capacidade de aprender.

A Linha de Massa - As massas representam à linha criativa e produtiva da população chinesa, que são potencialmente inesgotáveis. Membros do Partido devem assumir a liderança das massas, e reinterpretarem a política no que diz respeito ao benefício das massas.

Trabalho Político - É necessário que os intelectuais, estudantes, soldados e camponeses prestem atenção e envolvam-se com o trabalho político. Isto é particularmente necessário em tempos de guerra.

Relações entre Oficiais e Homens - As relações democráticas não-antagônicas entre os oficiais e os homens é necessário para um forte exército.

Relações entre o exército e a República Popular - Um exército que é valorizado e respeitado pelo povo, e vice-versa, é uma força quase invencível. O exército e o povo tem de se unir com o fundamento básico do respeito.

Democracia nos três principais domínios - Democracia e honestidade desempenham funções no âmbito da reforma do exército, assim como na vida do Partido, e de outros quadros. A "Ultra-democracia" é a definição dos individualista burgueses que tem aversão à disciplina, e deve ser evitada.

Educação e a Formação de Tropas - A educação deve ter uma base prática e política para o exército. Juntamente as linhas democráticas, também é possível para os agentes ensinar os soldados, para os soldados para ensinar os funcionários, e para os soldados ensinarem uns aos outros.

Servir o Povo - É o dever dos dirigentes do Partido servir o povo. Sem os interesses do povo constantemente no coração, seu trabalho é inútil.

Patriotismo e internacionalismo - Um patriota e um comunista internacionalista que possuí simpatia por lutas em outros países, não são princípios antagônicos, pelo contrário, estão profundamente ligados, como comunismo se espalha por todo o mundo. Ao mesmo tempo, é importante para um país manter a modéstia, e evitar arrogância.

Heroísmo Revolucionário - A mesma energia e criatividade ilimitada das massas é também visível no exército, na sua luta com o estilo e a vontade indomável.

Construir o nosso país, através de diligência e frugalidade - O caminho para a modernização da China será construído sobre os princípios da celeridade e simplicidade. Também não é legítimo relaxar e 50 anos depois, a modernização será realizada em uma escala maciça.

Auto-suficiência e luta árdua - É necessário que a China se tornar auto-suficiente no decurso da revolução, ao longo das linhas usuais da luta de classes.

Formas de Pensar e Métodos de Trabalho - O materialismo dialético marxista, que conota a luta constante entre opostos em uma definição empírica, é o melhor método para uma melhoria constante. Análise objetiva dos problemas com base em resultados empíricos é, a um prêmio.

Investigação e Estudos - É necessário investigar tanto os fatos e a história de um problema, a fim de estudar e compreender este problema.

Corrigir Idéias erradas - Arrogância, a falta de sucesso após um período próspero, egoísmo, fugir do trabalho, e liberalismo, são todos os males a serem evitados no desenvolvimento da China. Liberalismo é colocado no sentido de problemas envolvendo trabalho.

Unidade - A Unidade de massas, do Partido e de todo o país é essencial. Ao mesmo tempo, a crítica e a camaradagem são linhas possíveis, ao mesmo tempo uma unidade básica é sentida e preservado. Este é o método dialético.

Disciplina - Disciplina não é a exclusão de métodos democráticos. Pontos básicos de conduta militar também são enumeradas.

Crítica e autocrítica - A crítica é uma parte do método dialético marxista, que é parte fundamental para a melhoria; como tal, comunistas não devem temê-la, mas exercê-la abertamente.

Comunistas - Um comunista deve ser altruísta, com os interesses das massas no coração. Ele também deve possuir uma generosidade de espírito.

Estruturas - As estruturas para unir e trabalhar para o povo, devem ser líderes versados no marxismo-leninismo. Eles devem ter tanto a liberdade de orientação e de usar a sua criatividade na resolução de problemas. Os dirigentes mais velhos devem trabalhar em conjunto com camaradagem e aprender uns com os outros.

Juventude - A Juventude chinesa é a força vital da China. Ao mesmo tempo, é necessário educá-los, e a Liga da Juventude devem dar especial atenção aos seus problemas e interesses.

Mulher - As mulheres representam uma grande força produtiva na China, e igualdade entre os sexos é uma das metas do comunismo.

Cultura e Arte - Literatura e arte são discutidas com relação ao comunismo, de uma forma ortodoxa.

Estudo - É da responsabilidade de todos cultivar a si, e estudar profundamente o marxismo-leninismo. É também necessário para que as pessoas voltem sua atenção para problemas contemporâneos.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Set 22, 2010 5:39 pm

Colar de Afrodite (Pitigrilli)

Dino Segre, também conhecido pelo pseudônimo Pitigrilli (Turim, 9 de maio de 1893 - Turim, 8 de maio de 1975) foi um escritor italiano.

Jornalista, trabalhou nos principais jornais de sua época, tecendo comentários ácidos e humorísticos sobre a sociedade e os costumes.

Muito influenciado pelo existencialismo do fim da Segunda Guerra Mundial, seus personagens são homens e mulheres de ciência, lutando para se libertar em seus universos vazios de moral.

Afirmava que adotou esse pseudônimo porque gostava de "colocar os pontos nos ii".

Algumas de suas obras são: O Colar de Afrodite (aforismos), Loira Dolicocéfala, Moisés e o Calaveiro Levi, Os Vegetarianos do Amor, O Deslize do Moralista (contos) onde satirizou a moral da época em relação ao aborto, A Maravilhosa Aventura, A Virgem de 18 Quilates, Cocaína, Manual de Boas Maneiras (ou não se come frango com as mãos), O Experimento de Pott e O Farmacêutico a Cavalo.

Em Pitigrilli - uma das últimas obras - fala de Pitigrilli, mostra sua opção pelo espiritismo, ou, pelo menos, sua enorme curiosidade pelo lado oculto das religiões. Já estava em idade avançada e morava em Buenos Aires, Argentina, onde se refugiou. Influenciou alguns autores e pensadores italianos, argentinos e brasileiros, como Guido Gozzano, Flavio Bonfá e Julio Cortázar.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Seg Set 27, 2010 4:34 pm

Conceitos de Moral (Leon Trotsky)

Lev Davidovich Bronstein, conhecido como Leon Trotsky (1879 - 1940) foi um revolucionário Judeu russo.

Citações do livro “Conceitos de Moral”, edição portuguesa não datada de “Leur Morale et la Nôtre”, de 1938:

“O homem que não queira voltar a Moisés, a Cristo, ou Maomet, e que não se contenta com um arlequim ecléctico, tem de reconhecer que a moral é um produto da evolução social; que nada tem de invariável; que serve os interesses da sociedade; que estes interesses são contraditórios; que a moral tem, mais do que qualquer outra forma de ideologia, um carácter de classe.” (p.39)

“A burguesia, cuja consciência de classe é muito superior à do proletariado, pela sua plenitude e pela sua intransigência, tem um interesse vital em impor ‘a sua’ moral às classes exploradas. As normas concretas do catecismo burguês servem-se de abstracções morais colocadas sob a égide da religião, da filosofia, ou dessa coisa híbrida que se chama o ‘bom senso’.” (p. 42 e 43)

“Mas não sobrestimemos o grau de consciência dos moralistas. As suas intenções não são assim tão más. Elas vão servindo de alavanca na engrenagem do provir.” (p. 87)
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Set 30, 2010 4:38 pm

Os Condenados da Terra (Frantz Fanon)

Frantz Fanon (1925-1961) nasceu na ilha de Martinica, território francês situado na América Central. Ainda jovem, durante a Segunda Guerra, percorreu a África do Norte como soldado. Em 1946, inscreve-se na Faculdade de Medicina de Lyon na França e aproveita sua estadia também para adquirir uma formação sólida em filosofia e literatura, seguindo cursos de Jean Lacroix e de Merlau-Ponty, bem como, lendo obras de Sartre, Kierkegaard, Hegel, Marx, Lenin, Husserl e Heidegger, entre outras. Após terminar o curso de medicina em 1951, retorna a Martinica e mais tarde volta para a África, tornando-se médico-chefe na clínica psiquiátrica de Blida-Joinville. Torna-se argelino engajando-se com os argelinos na luta pela libertação do país que sofria o jugo colonial francês desde 1830. Por várias vezes participou de congressos pan-africanos como membro da delegação da Argélia, tornando-se um importante porta-voz do país. Contraindo leucemia em 1960, continua suas atividades intelectuais vindo a morrer em dezembro de 1961. A independência da Argélia ocorrerá no ano seguinte, em 1962.

Utilizando o conceito de alienação desenvolvido por Hegel e Marx, Fanon analisa os mecanismos de dominação na formação da consciência do povo colonizado, destacando os dois pólos antagônicos na situação colonial: o colonizador e o colonizado.

Em “Os Condenados da Terra” escreve:

"É o colonizador quem tem feito e continua a fazer o colonizado. O colonizador tira sua verdade, isto é, seus bens, do sistema colonial.”

Este antagonismo é acentuado pelo racismo contra o colonizado, tido como preguiçoso, impulsivo e selvagem. O colonizado introjecta a dominação vivendo um complexo em que passa a negar-se como negro a fim de se pretender um "negro-branco". Escreve Fanon:

"Todo povo colonizado, isto é, todo povo no seio do qual nasce um complexo de inferioridade, de colocar no túmulo a originalidade cultural local - se situa frente-a-frente à linguagem da nação civilizadora, isto é, da cultura metropolitana. O colonizado se fará tanto mais evadido de sua terra quanto mais ele terá feito seus os valores culturais da metrópole. Ele será tanto mais branco quanto mais tiver rejeitado sua negrura...”

Em “Os condenados da Terra” encontramos um livro de impacto considerável para geração dos anos 60. Alimentou os ideais de transformação e construção de uma sociedade melhor na Argélia e por toda a África. Um livro revelador para a massa colonizada, pois mostrava quem lhes feria a pele e a alma e lhes negava o ser. Uma das pedras angulares na luta anticolonial, sobretudo porque apontava para a descolonização e a inevitabilidade da revolução na África, na Ásia e na América.

Segundo Fanon, o colonizado à medida que compreendia a força que lhes negava o ser explodia em fúria. Entendia que o trabalho do colono é tornar impossível até seus sonhos de liberdade. Ele descobre o real, que dá movimento a sua praxis, no seu projeto de libertação.

Para Sartre, Fanon mostrou o caminho, foi porta-voz dos combatentes, reclamou união, a unidade do continente africano contra todas as discórdias e todos os particularismos.

Fanon conduz a população colonizada na compreensão das artimanhas da colonização. Explica que entre os métodos empreendidos pelo colono é a alienação colonial que tinha o objetivo de convencer os indígenas de que o colonialismo devia arrancá-los das trevas. Para o colonizado o papel do colono era mantê-lo longe da barbárie e da animalização.

Dizia:

“No plano do inconsciente, o colonialismo não pretendia ser visto pelo indígena como uma mãe doce e bondosa que protege o filho contra um ambiente hostil, mas sob a forma de uma mãe que a todo momento impede um filho fundamentalmente perverso de se suicidar, de dar livre curso a seus instintos maléficos. A mãe colonial defende o filho contra ele mesmo, contra seu ego, contra sua fisiologia, sua biologia, sua infelicidade ontológica”.

Alguns meses antes de morrer Fanon escreve uma carta a Roger Tayeb, seu amigo, em que trata da questão da morte e o sentido da vida. Ele diz que a morte sempre nos acompanha e que "nós não somos nada sobre a terra, se não somos, desde logo, cativos de uma causa, a dos povos, da justiça e da liberdade."
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Seg Out 04, 2010 4:52 pm

A Condição Humana (André Malraux)

Nascido em Paris em 1901, André Malraux participou ativamente das maiores batalhas ideológicas deste século, desde o nacionalismo chinês até a Guerra Civil espanhola e luta de vida ou morte contra o nazismo. Militante de esquerda, ligado ao Partido Comunista Francês, permaneceu livre, porém, para se opor ao banimento de Trotsky e se rebelar contra o regime ditatorial de Stalin na União Soviética. Entre 1958 e 1969, Malraux participou do governo do general Charles de Gaulle como ministro da Cultura. Morto em 1976, André Malraux é autor de numerosos romances e ensaios, entre eles La Voie royale, Voix du silence, L’Espoir e Conquérants, entre outros.

"Malraux cria as personalidades de seus personagens de um modo orgânico e as explora inteiramente. Não só testemunhamos seus atos como vemos como reagem em relação às forças da cena sociopolítica; eles dividem conosco suas mais íntimas sensações." - Edmund Wilson

"Mais do que Chateaubriand, Malraux fez de sua vida uma obra-prima." - André Maurois

Sinopse

China, março de 1927. Um homem corroído pela amargura. Um país sacudido por uma insurreição. Atrás de fachadas insuspeitas de cidades sufocadas por riquixás, automóveis e bondes, fumaça de carvão, excrementos e suores de brancos e amarelos, homens planejam uma revolução. Tchen é um destes homens, divididos entre a culpa e a ideologia. Ação violenta e reflexões sobre o sentido da vida. Um testemunho da condição humana.

Publicado em 1933, ganhador do Prêmio Goncourt, A Condição Humana é o relato ficcionalizado dos acontecimentos que deram início à revolução chinesa. Estruturado como romance, mas escrito em tom de reportagem, o livro é um depoimento pessoal de André Malraux sobre um dos momentos históricos mais dramáticos deste século. Mas não restrito a ele, pois neste romance as questões morais, intelectuais e políticas estão em primeiro plano, e os personagens, mais do que meros tipos, representam valores e formas de ação.



Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Out 07, 2010 4:32 pm

Contos do Don (Mikhail Sholokhov)

Escritor soviético, Mikhail Aleksandrovich Sholokhov nasceu a 24 de Maio de 1905 na pequena localidade de Kruzhlinin, no território cossaco de Kamenskaya, e faleceu a 21 de Janeiro de 1984 em Veshenskaya.
Filho de camponeses - o pai era russo e a mãe ucraniana - pôde no entanto receber alguns estudos, frequentando escolas em Kargin, Moscovo, Boguchar e Veshenskaya.
A chegada da Revolução Russa incendiou os ânimos do país a partir de 1917 e, no ano seguinte, a Guerra Civil alastrou até aos territórios do Rio Don. Sholokhov viu-se então forçado a abandonar os seus estudos secundários, e prontamente se enfileirou no contingente bolchevique.
Em 1922 mudou-se para Moscovo, onde passou a trabalhar em ofícios tão variados como o de pedreiro e o de guarda-livros. Não obstante, ocupava os seus tempos livres frequentando seminários para escritores e publicando artigos e contos na imprensa.
O seu primeiro conto, Yunosheskaya Pravda, apareceu em 1924, ano em que regressou a Veshenskaya com o firme intuito de se tornar escritor a tempo inteiro.
Em 1925 publicou o seu primeiro livro, Donskie Rasskazy, uma colectânea de contos que se concentravam sobretudo na vida dos cossacos e na sua dimensão humana face às realidades da política e da guerra.
Aderiu ao Partido Comunista em 1932 e, embora discordando da política de Estaline, sobretudo acerca dos abusos cometidos contra os agricultores em 1933, foi eleito membro do Parlamento Soviético em 1937.
Em 1941 recebeu o Prémio Estaline em reconhecimento pela sua obra Tichii Don (O Dom Tranquilo), publicada em quatro volumes entre 1928 e 1940. O romance conta a história, em tons de tragédia e predestinação, de Gregório Melekhov, um cossaco que, durante a Guerra Civil, alinha ora nas fileiras do exército czarista, ora junto das forças revolucionárias.
O seu segundo romance, Podnyataya Tselina (Campos Lavrados), apareceu originalmente em duas partes, uma publicada em 1932, a outra em 1960. A obra descreve os acontecimentos dramáticos que sucedem numa exploração agrícola colectivizada.
Em 1959, Mikhail Sholokhov fez parte da comitiva do dirigente Nikita Kruchev em visita aos Estados Unidos da América e à Europa e, dois anos depois, tornou-se membro do Comité Central.
Foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura no ano de 1965.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Out 14, 2010 5:42 pm

Contra os Tecnocratas (Lefebvre, Henri)

A obra "Contra os Tecnocratas" - Moraes Editores - é uma crítica fantástica e demolidora do estruturalismo.

«O pensamento filosófico e a acção, que não se contentam com uma posição puramente formal e com uma consciência absolutamente teórica, podem procurar evitar a cisão entre a forma e o conteúdo, apoderando-se imediatamente de um certo conteúdo concreto. Mas se a operação que toma um conteúdo parcial, se limita a este elemento do real, exige-o necessariamente num absoluto. Faz dele uma forma fetichizada.

Podemos tomar, por exemplo, como conteúdo: a realidade psicológica individual, a comunidade nacional, a realidade espiritual do homem, a exigência humana de unidade e realidade. Cada um destes "momentos" do real, isolado e hipostasiado, torna-se o negador dos outros momentos, e, em seguida, negador de si mesmo. O conteúdo limitado e transposto na forma torna-se opressivo e destruidor da sua própria realidade. Assim o nacionalismo transforma-se no inimigo das realidades nacionais; o liberalismo deixa estiolar a liberdade; o espiritualismo torna-se o adversário do espírito vivo e o individualismo torna-se o adversário do indivíduo concreto; o "totalitarismo" opõe-se à realização total do homem...

Filosoficamente, este processo transforma em erro uma verdade parcial precisamente ao pô-la no absoluto. Cria uma meta-qualquer coisa. O racismo é uma meta-biologia; a teoria nacionalista é uma meta-história ou uma meta-sociologia. Esta operação comporta todos os riscos da meta-física. Recusando uma parte do conteúdo, sanciona e agrava a dispersão dos elementos do real. Negligencia as conquistas dos outros domínios e surge assim como um procedimento de especialista ou de partidário. Exprime uma reacção de defesa do indivíduo, ou do seu grupo, mais que uma consciência voltada para a solução. Uma única via continua aberta ao espírito para resolver os verdadeiros problemas: o esforço para a tomada de posse do conteúdo total. Este esforço definirá a vida filosófica». (Henri Lefebvre)

Henri Lefebvre (1901-1991) exerceu a dialéctica como um esforço de apreensão do movimento do conteúdo total, que evita a cisão entre a forma e o conteúdo: «A dialéctica, longe de ser um movimento interior do espírito, é real antes do espírito - no ser. Impõe-se ao espírito. Analisamos primeiramente o movimento mais simples e abstracto, o do pensamento mais despojado; descobrimos assim as categorias mais gerais e o seu encadeamento. É-nos necessário em seguida fazer a ligação desse movimento ao movimento concreto, ao conteúdo dado; tomamos então consciência do facto que o movimento do conteúdo e do ser se elucida para nós nas leis da dialéctica.

As contradições do pensamento não provêm apenas do pensamento e da sua impotência: vêm também do conteúdo. O seu encadeamento tende para a expressão do movimento total do conteúdo e eleva-se ao nível da consciência e da reflexão. O saber não pode ser considerado como encerrado pela lógica dialéctica. Pelo contrário: a investigação deve receber aí um novo élan. A dialéctica, movimento do pensamento, apenas é verdadeira num pensamento em movimento.

Sob a forma de teoria do devir e das suas leis - ou de teoria do conhecimento - ou de lógica concreta, o materialismo dialéctico não pode ser mais que um instrumento de investigação e acção, jamais um dogma. Ele não define; situa os dois elementos da existência humana: o ser e a consciência. Hierarquiza-os: o ser (a natureza) tem a prioridade, mas a consciência tem para o homem a primazia; aquilo que apareceu no tempo pode ser erigido pelo homem e para o homem, em valor superior. Enquanto doutrina, o materialismo dialéctico não pode continuar a ser encerrado numa definição exaustiva. Define-se negativamente, opondo-se às doutrinas que limitam, de fora ou de dentro, a existência humana, seja subordinando-a a uma existência externa, seja reconduzindo-a a um elemento unilateral ou a uma experiência concebida como privilégio e definitiva. O materialismo dialéctico afirma que a adequação do pensamento e do ser não se pode reduzir a um pensamento mas deve ser alcançado concretamente, isto é, na vida e como força concreta do pensamento sobre o ser».

A originalidade do marxismo de Lefebvre reside na articulação complexa que opera entre a dialéctica e a teoria da alienação e do fetichismo da mercadoria, da qual surge a figura derradeira da dialéctica como objectivo da humanidade desalienada: «O homem total é o homem "desalienado". O fim da alienação humana será "o regresso do homem a si mesmo", ou seja, a unidade de todos os elementos do humano. Este "naturalismo acabado" coincide com o humanismo».

A dialéctica de Lefebvre opõe-se ao marxismo oficial ou institucional que, no seu tempo, procurou vedar o acesso às obras do jovem Marx que convidavam à redescoberta de Hegel. Eduard Bernstein e Lucio Colletti defendiam que a dialéctica era inseparável do idealismo, preconizando o seu abandono em nome de um materialismo positivista, enquanto Della Volpe, Châtelet e Althusser aconselhavam a abandono da noção de alienação. Althusser defende que há no pensamento de Marx uma ruptura epistemológica que se situa em 1845: Marx opera n'A Ideologia Alemã um ajuste de contas com a sua anterior consciência filosófica, abandonando o conceito de alienação e substituindo o humanismo filosófico dos Manuscritos de 1844 por uma teoria científica da sociedade e da história. Lefebvre detesta o estruturalismo tecnocrático de Althusser e dos seus seguidores, cujas descontinuidades estabelecidas - em nome da cientificidade - no seio do próprio pensamento de Marx e nas suas relações com Hegel imobilizam a própria dialéctica. Para Lefebvre, não há nenhuma ruptura entre uma obra de Marx e as obras precedentes, nem absoluta descontinuidade: o pensamento de Marx desenvolve-se energeticamente, crescendo e transformando-se. Entre a teoria revolucionária de Marx e a filosofia de Hegel há uma conexão interna fundamental: a Fenomenologia do Espírito de Hegel é uma crítica oculta, isto é, mistificada, no sentido em que, ao apreender a alienação do homem, explicita de forma antecipada os elementos críticos que permitem a Marx elaborar a crítica e a fundamentação da Economia Política. O acerto de Marx com Hegel reside precisamente nesta crítica e nesta fundamentação da Economia Política: a teoria da alienação que Marx retoma de Hegel, para fundamentar o seu humanismo, é uma teoria concretamente dialéctica, uma teoria da negatividade, viva e histórica no seio humano.

Ora, o marxismo de Lefebvre é profundamente humanista, e, tal como o de Marx, o seu pensamento está em constante transformação energética: a teoria da alienação que se aprofunda na crítica do fetichismo da modernidade garante-lhe uma unidade tensa, dinâmica e aberta, que não permite encará-lo como uma sequência descontínua de quadros. O proletariado foi, para o marxismo, uma terrível decepção: a filosofia não se realizou e a unidade entre teoria e praxis quebrou-se. A Filosofia que tinha sido dada como superada continua viva: o momento de transformação do mundo fracassou. O pensamento de Lefebvre pretende ser um pensamento meta-filosófico, situado para além da Filosofia, mas descobrimos facilmente, no seu seio, a movimentação total de uma filosofia que reinterpreta novamente o mundo, para dinamizar uma nova praxis: «A filosofia nova depende de um acto real e de uma exigência, não de um postulado, de uma alternativa abstracta, de um valor arbitrariamente escolhido ou de uma ficção. A sua tarefa é a de "efectuar" as ligações implícitas - mediações - entre todos os elementos e aspectos do conteúdo da consciência e do ser humano. Nesta procura, o único critério possível é prático: eliminar o que detém o movimento, o que separa e dissocia, o que impede a ultrapassagem».

O marxismo enquanto teoria aberta não pode desistir da Filosofia, e, hoje em dia, ele é, mais do que nunca, uma Filosofia que denuncia o que há de falso na identidade, na adequação do concebido com o conceito. Num mundo absolutamente alienado, a sua tarefa é romper imanentemente a aparência da identidade total: «A contradição é o não-idêntico sob o aspecto da identidade; a primazia do princípio de contradição dentro da dialéctica mede o heterogéneo pela ideia de identidade. Quando o distinto choca contra o seu limite, supera-se. A dialéctica é a consciência consequente da diferença» (Theodor W. Adorno). Lefebvre enquanto filósofo da diferença deu contributos fundamentais para a construção deste novo marxismo, contributos esses que deverão ser redescobertos, retomados e aprofundados.

Para a compreensão da dialéctica de Lefebvre, recomendo a resdescoberta e a releitura de onze das suas inúmeras obras, todas elas traduzidas em língua portuguesa.

Convém observar que as traduções portuguesas foram realizadas durante o período revolucionário, sofrendo reedições até à década cavaquista que mergulhou Portugal na penúria cultural.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Seg Out 18, 2010 6:02 pm

Contribuição Para a História do Cristianismo Primitivo (Friederich Engels)


I

A história do cristianismo primitivo oferece curiosos pontos de contato com o movimento operário moderno. Como este, o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos: apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma. Os dois, o cristianismo como o socialismo operário, pregam uma libertação próxima da servidão e da miséria; o cristianismo transpõe essa libertação para o Além, numa vida depois da morte, no céu; o socialismo coloca-a no mundo, numa transformação da sociedade. Os dois são perseguidos e encurralados, os seus aderentes são proscritos e submetidos a leis de exceção, uns como inimigos do gênero humano, os outros como inimigos do governo, da religião, da família, da ordem social. E, apesar de todas as perseguições, e mesmo diretamente servidos por elas, um e outro abrem caminho vitoriosamente. Três séculos depois do seu nascimento, o cristianismo é reconhecido como a religião do Estado e do Império romano: em menos de sessenta anos, o socialismo conquistou uma posição tal que o seu triunfo definitivo está absolutamente assegurado.

Conseqüentemente, se o Sr. Professor A. Menger, no seu “Direito ao Produto Integral do Trabalho”, se espanta de que, sob os imperadores romanos, tendo em vista a colossal centralização das riquezas e os sofrimentos infinitos da classe trabalhadora, composta essencialmente de escravos, “o socialismo não tenha sido implantado depois da queda do Império romano ocidental”, é porque precisamente não vê que esse “socialismo”, na medida em que era possível na época, existia efetivamente e chegava ao poder. . . com o cristianismo. Só que o cristianismo, como tinha fatalmente de ser, considerando as condições históricas, não queria a transformação social neste mundo, mas no Além, no céu, na vida eterna depois da morte, no millenium eminente.

Já na Idade Média o paralelismo dos dois fenômenos se impõe, quando dos primeiros levantamentos dos camponeses oprimidos e, sobretudo, dos plebeus das cidades. Esses levantamentos, tal como todos os movimentos de massas na Idade Média, tiveram necessariamente uma máscara religiosa; aparecem como restaurações do cristianismo primitivo em conseqüência de uma degenerescência crescente, mas atrás da exaltação religiosa escondem-se, regularmente, interesses muito positivos deste mundo.

Isso transparecia de uma maneira grandiosa na organização dos taboritas da Boêmia sob João Zizka, de gloriosa memória. Mas este traço presiste através de toda a Idade Média, até que desaparece pouco a pouco, depois da guerra dos camponeses na Alemanha, para reaparecer entre os operários comunistas depois de 1830. Os comunistas revolucionários franceses, tal como Weitling e os seus aderentes, afirmavam-se ligados ao cristianismo primitivo muito antes de Renan ter dito:

Se quiserem fazer uma idéia das primeiras comunidades cristãs, observem uma seção local da Associação Internacional de Trabalhadores.

O homem de letras francês que, graças a uma exploração da crítica bíblica alemã, sem exemplo mesmo no jornalismo moderno, confeccionou o seu romance sobre a história da Igreja, “As Origens do Cristianismo”, não sabia tudo o que havia de verdade na sua frase. Eu queria ver o antigo internacionalista capaz de ler, por exemplo, a segunda “Epístola aos Coríntios”, atribuída a Paulo, sem que, pelo menos num ponto, antigas feridas não reabrissem nele.

A “Epístola” inteira, a partir do VIII capítulo, ecoa da eterna queixa demasiado bem conhecida: “As cotizações não entram.” Por volta de 1865, quantos, entre os mais zelosos propagandistas, não teriam apertado a mão do autor desta carta, quem quer que ele fosse, com uma simpática inteligência, murmurando-lhe ao ouvido: “Então, irmão, também isso te aconteceu a ti!” Também nós teríamos muito a dizer acerca disso — também na nossa associação pululam os coríntios —, essas cotizações que não apareciam, que, inalcançáveis, giravam diante dos nossos olhos de Tântalo, eis o que constituía os famosos milhões da Internacional.

Uma das nossas melhores fontes sobre os primeiros cristãos é Luciano de Samosata, o Voltaire da antigüidade clássica, que mantinha a mesma atitude cética em relação a todas as espécies de superstições religiosas e que, portanto, não tinha motivos — nem por crença pagã nem por política — para tratar os cristãos diferentemente de qualquer outra associação religiosa. Pelo contrário, acusa a todos da sua superstição, tanto aos adoradores de Júpiter como aos adoradores de Cristo: do seu ponto de vista rasamente racionalista, um gênero de superstição é tão inepto como o outro. Esta testemunha, de qualquer maneira imparcial, conta, entre outras coisas, a biografia de um aventureiro, Peregrinus, que se chamava na realidade Proteu de Parium sobre o Helesponto. O dito Peregrinus começou na sua juventude, na Armênia, por um adultério. Foi apanhado em flagrante delito e linchado segundo o costume do país. Felizmente conseguiu escapar, estrangulou Parium, o seu velho pai, e teve de fugir.

Foi por essa época que se fez instruir na admirável religião dos cristãos, contactando na Palestina com alguns dos seus padres e escribas. Que vos hei-de dizer acerca disso? Esse homem depressa lhes fez ver que eles não passavam de crianças; profeta, tiasarco, chefe de assembléia, tudo ele foi sozinho, interpretando os seus livros, explicando-os, compondo-os por iniciativa própria. Por isso muita gente o olhava como a um deus, um legislador, um pontífice, igual a esse que é honrado na Palestina, onde foi posto numa cruz por ter introduzido esse novo culto entre os homens. Proteu, tendo por este motivo sido detido, foi posto na prisão. Desde o momento que foi posto a ferros, os cristãos, considerando-se como presos nele, tudo fizeram para o libertar; mas, não o conseguindo, renderam-lhe pelo menos toda a espécie de honras com um zelo e uma dedicação infatigáveis. Desde a manhã, viam-se à volta da prisão uma multidão de mulheres velhas, de viúvas, de órfãos. Os principais chefes da seita passavam a noite junto dele, depois de terem corrompido os carcereiros: para lá levavam as suas refeições e liam os seus livros santos; e o virtuoso Peregrinus, ele ainda se chamava assim, era por eles tratado de novo Sócrates. Não é tudo; várias cidades da Ásia lhe enviaram deputados em nome de cristãos, para lhe prestar assistência, lhe servirem de apoio, de advogados e de consoladores. Era inacreditável a dedicação em tais ocorrências; para tudo dizer, nada lhes custava. Desse modo Peregrinus, sob o pretexto da sua prisão, viu chegarem grandes quantidades de dinheiro e acumulou muito. Esses infelizes acreditam que são imortais e que viverão eternamente; em conseqüência, desprezam os suplícios e entregam-se voluntariamente à morte. O seu primeiro legislador ainda os convenceu de que eles são todos irmãos. Desde que mudaram de culto, renunciaram aos deuses gregos e adoram o sofista crucificado de quem seguem as leis. Desprezam igualmente todos os bens e põem-nos em comum, pela fé completa que têm nas suas palavras. De forma que, se aparece entre eles um impostor, um patife decidido, ele não terá dificuldade em enriquecer rapidamente, rindo-se por trás da sua simplicidade. Contudo, Peregrinus depressa foi libertado pelo governador da Síria.

Depois de outras aventuras, diz-se:

Peregrinus retomou, pois, a sua vida errante, acompanhado nas suas vagabundagens por um grupo de cristãos que lhe servem de satélites e lhe subvencionam abundantemente as suas necessidades. Ele fez-se assim alimentar durante algum tempo. Mas depois, tendo violado alguns dos seus preceitos (tinham-no visto comer carne proibida), foi abandonado pelo seu cortejo e reduzido à pobreza.

Quantas recordações de juventude acordam em mim ao ler esta passagem de Luciano. Eis primeiro o “profeta Albrecht”, que por volta de 1840 e durante alguns anos tornava pouco seguras — à letra — as comunidades comunistas de Weittling na Suíça. Era um homem grande e forte, que percorria a Suíça a pé, à procura de um auditório para o seu novo evangelho da libertação do mundo. No fim de contas, parece ter sido um trapalhão bastante inofensivo e morreu cedo. Eis o seu sucessor, menos inofensivo, o “Dr.” Jorge Kuhlmann de Holstein, que aproveitou o tempo em que Weittling esteve na prisão para converter os comunistas da Suíça francesa ao seu próprio evangelho e que, por um tempo, o conseguiu tão bem que conquistou até o mais espiritual e ao mesmo tempo o mais boêmio de todos eles, August Becker. Depressa Kuhlmann dava conferências que foram publicadas em Gênova em 1845 sob o título: “O Novo Mundo ou o Reino do Espírito Sobre a Terra. Anunciação”. E na introdução, redigida, segundo toda a probabilidade, por Becker, lê-se.

Faltava um homem na boca de quem todos os nossos sofrimentos, todas as nossas esperanças e todas as nossas aspirações, numa palavra, tudo o que agita mais profundamente o nosso tempo, encontrasse uma voz... Esse homem que a nossa época esperava, apareceu. É o Dr. Jorge Kuhlmann de Holstein. Ele surgiu com a doutrina do novo mundo ou do reino do espírito na realidade.

Será necessário dizer que essa doutrina do novo mundo não passava do mais banal sentimentalismo, traduzido em fraseologia semibíblica à Lamennais e debitada com arrogância de profeta? O que não impedia os bons discípulos de Weittling de andarem com atenções para com esse charlatão, tal como os cristãos da Ásia tinham feito em relação a Peregrinus. Eles, que, de ordinário, eram arquidemocratas e igualitários, a ponto de alimentarem desconfianças inextinguíveis para com todo o mestre-escola, todo o jornalista, todos aqueles que não eram operários manuais, como se eles fossem outros tantos “sábios” procurando explorá-los, eles deixaram-se persuadir por esse Kuhlmann, com os seus atavios de melodrama, de que, no “novo mundo”, o mais sábio, id est Kuhlmann, regulamentaria a repartição dos prazeres e que, portanto, já no velho mundo, os discípulos deviam fornecer alqueires de prazeres ao mais sábio e contentarem-se com migalhas. E Peregrinus-Kuhlmann viveu na alegria e na abundância... enquanto isso durou. Na verdade tal não durou muito; o descontentamento crescente dos céticos e dos incrédulos, as ameaças de perseguição do governo, puseram fim ao reino do espírito em Lausanne; Kuhlmann desapareceu.

Exemplos análogos virão às dezenas à memória daqueles que conheceram por experiência o começo do movimento operário na Europa. Na hora atual, casos tão extremos tornaram-se impossíveis, pelo menos nos grandes centros; mas em localidades perdidas, em que o movimento conquista um terreno virgem, um qualquer Peregrinus deste tipo poderia ainda conseguir um sucesso momentâneo e relativo. E, tal como em todos os países aflui para o partido operário toda a gente que já nada tem a esperar do mundo oficial, ou que nele se queimou — tal como os adversários da vacinação, os vegetarianos, os antivivecionistas, os partidários da medicina dos simples, os pregadores das congregações dissidentes a quem as ovelhas fugiram, os autores de novas teorias acerca da origem do mundo, os inventores falhados ou infelizes, as vítimas de reais ou imaginárias irregularidades a quem a burocracia chama “refilões inúteis”, os honestos imbecis e os desonestos impostores —, o mesmo acontecia com o cristianismo. Todos os elementos que o processo de dissolução do antigo mundo tinha atirado, sucessivamente, para o círculo de atração do cristianismo, o único elemento que resistia a essa dissolução — precisamente porque se tratava de um produto especial — e que, portanto, subsistia e crescia, enquanto que os outros elementos não passavam de moscas efêmeras. Todas as exaltações, extravagâncias, loucuras ou golpes sujos que foram tentados em relação às jovens comunidades cristãs, todas, temporariamente e em certas localidades, encontraram ouvidos atentos e crentes dóceis. E, tal como os comunistas das nossas primeiras comunidades, os primeiros cristãos eram de uma credulidade espantosa em relação a tudo que parecia convir à sua doutrina, de modo que não podemos saber realmente se, dos numerosos escritos que Peregrinus compôs para a cristandade, não haverá, aqui e ali, qualquer fragmento que tenha escapado para o nosso novo Testamento.


II

A crítica bíblica alemã, até agora a única base científica do nosso conhecimento da história do cristianismo primitivo, seguiu uma dupla tendência.

Uma dessas tendências é representada pela escola de Tubingue, à qual, em sentido lato, pertence também D. F. Strauss. Ela vai tão longe no exame crítico quanto uma escola teológica poderia ir. Admite que os quatro Evangelhos não são comunicações de testemunhas oculares, mas arranjos ulteriores de escritos perdidos, e que, no máximo, quatro das Epístolas atribuídas a S. Paulo são autênticas etc. Ela afasta da narração histórica, como inadmissíveis, todos os milagres e todas as contradições; do que resta, ela “procura salvar tudo o que pode ser salvo” e, por aí, transparece claramente o seu caráter de escola teológica. E é graças a essa escola que Renan, o qual, em grande parte, se apóia nela, pôde, aplicando o mesmo método, operar ainda muitos outros “salvamentos”. Além de numerosas exposições mais que duvidosas do Novo Testamento, ele quer ainda impor-nos uma quantidade de lendas de mártires como historicamente autenticadas. Em todo o caso, tudo o que a escola de Tubingue rejeita do Novo Testamento como apócrifo, ou como não sendo histórico, pode ser considerado como definitivamente afastado pela ciência.

A outra tendência é representada por um único homem: Bruno Bauer. O seu grande mérito é ter, impiedosamente, criticado os Evangelhos e as Epístolas apostólicas, ter sido o primeiro a encarar seriamente o exame dos elementos não só judaicos e greco-alexandrinos, mas também gregos e greco-romanos que permitiram ao cristianismo tornar-se uma religião universal. A lenda do cristianismo nascido integralmente do judaísmo, partindo da Palestina para conquistar o mundo com uma dogmática e uma ética traçadas nas suas grandes linhas, tornou-se impossível depois de Bruno Bauer; a partir de então ela pode, no máximo, continuar a vegetar nas faculdades teológicas e no espírito de quem quer “conservar a religião para o povo”, mesmo à custa da ciência. Na formação do cristianismo, tal como foi elevado à categoria de religião de Estado por Constantino, a Escola de Philon de Alexandria e a filosofia vulgar greco-romana — platônica e sobretudo estóica — desempenharam importante papel. Essa contribuição está longe de ter sido estabelecida nos detalhes, mas o fato está demonstrado, e tal deve-se, sobretudo, a Bruno Bauer; ele lançou as bases da prova de que o cristianismo não foi importado de fora, da Judéia, e imposto ao mundo greco-romano, mas que é, pelo menos na forma que adquiriu como religião universal, o mais autêntico produto desse mundo. Naturalmente que, nesse trabalho, Bauer exagerou bastante, como acontece a todos que combatem preconceitos inveterados. Na intenção de determinar, mesmo do ponto de vista literário, a influência de Philon, e sobretudo de Sêneca, sobre o cristianismo nascente, e de representar formalmente os autores do Novo Testamento como plagiários desses filósofos, é obrigado a retardar o aparecimento da nova religião em meio século, a rejeitar as narrativas de historiadores romanos que a isso se opõem e, em geral, a tomar graves liberdades com a história conhecida. Segundo ele, o cristianismo como tal só aparece sob os imperadores Flavianos, a literatura do Novo Testamento só sob Adriano, Antonino e Marco Aurélio. Portanto, Bauer faz desaparecer todo o fundo histórico para as narrativas do Novo Testamento relativas a Jesus e aos seus discípulos; resolvem-se em lendas em que as fases de desenvolvimento interno e os conflitos morais das primeiras comunidades são transpostos e atribuídos a personagens mais ou menos fictícias. Não são a Galiléia nem Jerusalém, segundo Bauer, os lugares de nascimento da nova religião, mas sim Alexandria e Roma.

Assim, se no resíduo, que não contesta, da história e da literatura do Novo Testamento, a escola de Tubingue nos oferece o extremo máximo do que a ciência pode, ainda nos nossos dias, aceitar como estando sujeito a controvérsia, Bruno Bauer representa o máximo de contestação que ela se pode permitir. A verdade situa-se entre estes extremos. Que esta, com os nossos meios atuais, seja suscetível de ser determinada, eis o que parece bem problemático. Novas descobertas, como em Roma, no Oriente e sobretudo no Egito, darão um contributo muito mais decisivo do que toda a crítica.

Ora, existe no Novo Testamento um único livro de que é possível, com margem de alguns meses, fixar a data da redação; ele deve ter sido escrito entre junho de 67 e janeiro ou abril de 68; é um livro que, por conseqüência, pertence aos mais longínquos tempos cristãos, que reflete as idéias dessa época com a mais ingênua sinceridade e na língua idiomática que lhe corresponde; que, de início, é, na minha opinião, muito mais importante para determinar o que foi realmente o cristianismo primitivo que todo o resto do Novo Testamento, muito posterior em data na sua redação atual. Esse livro é o que se chama o apocalipse de João; e como, ainda por cima, esse livro, em aparência o mais obscuro de toda a Bíblia, se tornou hoje, graças à crítica alemã, o mais compreensível e o mais transparente de todos, proponho-me falar dele aos nossos leitores.

Basta uma olhadela sobre esse livro para nos apercebermos do estado de exaltação não só do autor mas também do “meio” em que vivia. O nosso “Apocalipse” não é o único da sua espécie e do seu tempo. Do ano 164 antes da nossa era, data do primeiro que chegou até nós — o livro de Daniel —, até cerca de 250 da nossa era, data aproximativa do “Carmen” de “Comodiano, Renan não conta menos de 15 “Apocalipses” clássicos chegados até nós, sem falar das imitações ulteriores. (Cito Renan porque o seu livro é o mais acessível e o mais conhecido fora dos círculos dos especialistas.) Foi uma época em que, em Roma e na Grécia, e muito mais ainda na Ásia Menor, na Síria e no Egito, uma mistura absolutamente casual das mais crassas superstições dos mais diversos povos era aceita sem exame e completada por piedosas fraudes e por um charlatanismo direto, em que os milagres, os êxtases, as visões, a adivinhação, a alquimia, a cabala e outras bruxarias ocultas ocupavam o primeiro lugar. Foi nessa atmosfera que o cristianismo primitivo nasceu, e ainda numa classe mais do que qualquer outra acessível a essas quimeras. Assim, os gnósticos cristãos do Egito, como o provam, entre outras coisas, o papiro de Leyde, dedicaram-se, no século II da época cristã, fortemente à alquimia, e incorporaram noções de alquimia nas suas doutrinas. E os “mathe matici” caldeus e judeus que, segundo Tácito, foram por duas vezes, sob Cláudio e ainda sob Vittelius, expulsos de Roma por magia, as únicas “astúcias” de geometria a que se dedicavam eram aquelas que encontraremos em pleno no “Apocalipse” de João.

A isto acrescenta-se que todos os apocalipses se julgam no direito de enganar os seus leitores. Não só são, geralmente, escritos por outras pessoas — na maioria mais recentes — diferentes dos pretensos autores, por exemplo o livro de Daniel, o livro de Enoch, os “Apocalipses” de Esdras, de Baruch, de Juda etc., os livros sibilinos, como no fundo não profetizam senão coisas conhecidas há muito tempo e perfeitamente conhecidas do verdadeiro autor. Foi assim que no ano de 164, pouco tempo antes da morte de Antiochus Epifano, o autor do livro de Daniel, que era suposto viver na época de Nabucodonosor, fez predizer a Daniel a subida e o declínio da hegemonia da Pérsia e da Macedônia, e o começo do Império mundial de Roma, para preparar os seus leitores, por essa prova dos seus dons proféticos, a aceitar a sua profecia final: que o povo de Israel ultrapassará todos os seus sofrimentos e será, enfim, vitorioso. Assim, se o “Apocalipse” de João fosse realmente obra do autor pretendido, constituiria a única exceção na literatura apocalíptica.

O João que se propõe para autor era em todo o caso um homem muito considerado entre os cristãos da Ásia Menor. O tom das cartas às sete Igrejas é disso garantia. Poderia pois admitir-se que fosse o apóstolo João cuja existência histórica, se não é absolutamente atestada, é pelo menos muito possível. E se esse apóstolo fosse efetivamente o autor, não se poderia pretender melhor para a nossa tese. Seria a melhor prova de que o cristianismo desse livro é o verdadeiro cristianismo primitivo. Está provado, diga-se de passagem, que o “Apocalipse” não é do mesmo autor do Evangelho ou das três “Epístolas” atribuídas a João.

O “Apocalipse” compõe-se de uma série de visões. Na primeira, o Cristo aparece, vestido de padre, caminhando entre sete castiçais de ouro, que representam as sete Igrejas da Ásia e dita a “João” cartas aos sete “anjos” dessas Igrejas da Ásia. Desde o início, a diferença manifesta-se gritante entre este cristianismo e a religião universal de Constantino formulada pelo concílio de Nicéia. A Trindade não só é desconhecida como constitui uma impossibilidade. No lugar do Espírito Santo, único ulterior, encontramos os “sete espíritos de Deus” extraídos pelos rabinos de Isaías, XI, dois; Jesus Cristo é o filho de Deus, o primeiro e o último, o alfa e o ômega, mas de modo nenhum Deus ou igual a Deus: pelo contrário, ele é “o começo da criação de Deus”, portanto uma emanação de Deus existente de toda a eternidade, mas subordinada, análoga aos sete espíritos acima mencionados. No capítulo XV, 3, os mártires, no céu, “cantam o cântico de Moisés, o servidor de Deus, e o cântico do cordeiro” para a glorificação de Deus. Jesus Cristo aparece, pois, aqui, não somente como subordinado a Deus, mas, de certa maneira, colocado no mesmo plano que Moisés. Jesus Cristo foi crucificado em Jerusalém (XI, 8), mas ressuscitou (1, 5, 18); é o “cordeiro” que foi sacrificado pelos pecados do mundo e com o sangue do qual os fiéis de todos os povos e de todas as línguas são perdoados por Deus. Encontramos aqui a concepção fundamental que permitiu ao cristianismo realizar-se como religião universal. A noção de que os deuses, ofendidos pelas ações dos homens, podiam ser acalmados por sacrifícios, era uma idéia comum a todas as religiões dos Semitas e dos Europeus; a primeira idéia revolucionária fundamental do cristianismo (extraída da escola de Philon) era que, pelo único grande sacrifício voluntário de um mediador, os pecados de todos os tempos de todos os homens eram expiados de uma vez para sempre. . . para os fiéis. De tal modo que desaparecia a necessidade de qualquer sacrifício ulterior e, portanto, a base de numerosas cerimônias religiosas. Ora, a libertação de cerimônias que entravavam ou proibiam o comércio com homens de crenças diferentes era a condição primeira de uma religião universal. E, contudo, o hábito dos sacrifícios estava tão enraizado nos hábitos populares que o catolicismo — que retomou tantos costumes pagãos — julgou útil considerá-lo, introduzindo pelo menos o simbólico sacrifício da missa. Por outro lado, nenhum vestígio, no nosso livro, do dogma do pecado original.

O que sobretudo caracteriza estas cartas, bem como o livro inteiro, é que nunca, nem em parte alguma, vem à idéia do autor designar-se, a ele e aos seus correligionários, de outra maneira senão como. . . Judeus. Aos sectários de Esmirna e de Filadélfia, contra os quais se ergue, ele acusa: “Eles dizem-se Judeus, mas não o são, pertencem sim a uma sinagoga de Satã”; e, dos de Pérgamo, diz:

Estão ligados a Balaam, que ensinava a Balak a criar toda a espécie de dificuldades aos filhos de Israel, para que eles comessem carnes sacrificadas aos ídolos e para que se dedicassem à impudícia.

Não encontramos, pois, aqui, cristãos conscientes, mas pessoas que se consideram Judeus: o seu judaísmo, sem dúvida, é uma nova fase do desenvolvimento do antigo: é precisamente por isso que é o único verdadeiro. É por isso que, quando da aparição dos santos diante do trono de Deus, vêm em primeiro lugar 144.000 Judeus, 12.000 de cada tribo, é só depois a inumerável multidão de pagãos convertidos a esse judaísmo renovado. O nosso autor, no ano 69 da nossa era, estava bem longe de pensar que representava uma fase completamente nova da evolução religiosa, destinada a tornar-se um dos elementos mais revolucionários na história do espírito humano.

Vemos, pois, que o cristianismo de então, que não tinha ainda consciência de si, estava a mil léguas da religião universal, dogmaticamente desenhada pelo concílio de Nicéia; impossível reconhecer esse nesta. Nem a dogmática, nem a ética do cristianismo ulterior, se encontram; em compensação, há o sentimento de que se está em luta com toda a gente e se sairá vencedor dessa luta; um ardor belicoso e uma certeza de vencer que desapareceram completamente nos cristãos dos nossos dias e não se reencontra senão no outro pólo da sociedade, entre os socialistas.

De fato, a luta contra um mundo que inicialmente levou a melhor e a luta simultânea dos inovadores entre si são comuns aos dois; aos cristãos primitivos e aos socialistas. Os dois grandes movimentos não são feitos por chefes e profetas — ainda que os profetas não faltem, quer num, quer no outro —, são movimentos de massas. E todo o movimento de massas é no começo necessariamente confuso; confuso porque todo o pensamento de massas se move, primeiro, em contradições, porque lhe falta clareza e coerência; confuso ainda precisamente por causa do papel que, nos começos, nele desempenham os profetas. Esta confusão manifesta-se na formação de numerosas seitas que se combatem entre si pelo menos com tanto empenho como o que dedicam ao comum inimigo exterior. Isto passava-se assim no cristianismo primitivo; passa-se da mesma maneira nos começos do movimento socialista, por mais aflitivo que isso seja para as honestas pessoas bem intencionadas que pregavam a união, quando a união não era possível.

Será que, por exemplo, a coesão da Internacional era devida a um dogma unitário? De forma nenhuma. Encontravam-se lá comunistas segundo a tradição francesa anterior a 1848, que, por sua vez, representavam cambiantes diferentes; comunistas da escola de Weittling; outros ainda pertencendo à liga regenerada dos comunistas; proudhonianos, que eram o elemento preponderante na França e na Bélgica; blanquistas; o Partido Operário Alemão; enfim, anarquistas bakouninistas, que, por momentos, dominaram na Espanha e na Itália; e estes eram só os grupos principais. A partir da fundação da Internacional, foi preciso um bom quarto de século para que se efetuasse definitivamente e por todo o lado a separação com os anarquistas, e se estabelecesse um acordo pelo menos acerca dos pontos de vista econômicos mais genéricos. E isso com os nossos meios de comunicação, os caminhos de ferro, os telégrafos, as monstruosas cidades industriais, a imprensa e as reuniões populares organizadas.

A mesma divisão em inumeráveis seitas entre os primeiros cristãos, divisão que era justamente o meio de organizar a discussão e de obter a unidade ulterior. Constatamo-la já nesse livro, indubitavelmente o mais antigo documento cristão, e o nosso autor condena-a com a mesma atitude implacável que emprega em relação ao mundo dos pecadores não cristãos. Eis primeiro os Nicolaites, em Éfeso, em Pérgamo; aqueles que se dizem Judeus mas que são a sinagoga de Satã, em Esmirna e Filadélfia; os aderentes da doutrina do falso profeta, chamado Balaam em Pérgamo; aqueles que dizem ser profetas mas que não o são, em Éfeso; enfim os partidários da falsa profetisa, chamada Jezabel, em Tiátira. Nada de mais preciso nos é dito acerca destas seitas; só dos sucessores de Balaam e de Jezabel se diz que comem carne sacrificada aos ídolos e que se entregam à impudícia.

Tentou-se imaginar que essas cinco seitas eram de cristãos paulinianos e todas essas cartas como sendo dirigidas contra Paulo, o falso apóstolo, o pretenso Balaam e “Nicolas”. Os argumentos, aliás dificilmente sustentáveis, encontram-se reunidos em Renan. “São Paulo” (Paris, 1869, páginas 303-305-367-370). Todos acabam por explicar as nossas cartas pelos “Atos dos Apóstolos” e pelas “Epístolas” ditas de Paulo, escritos que, pelo menos na sua redação atual, são sessenta anos posteriores ao “Apocalipse” e cujos dados a elas relativos são, pois, mais que duvidosos e que, além disso, se contradizem absolutamente entre si. Mas o que resolve a questão é que de modo algum o nosso autor se lembraria de dar a uma única e mesma seita cinco designações diferentes: duas só para a de Éfeso (falsos apóstolos e nicolaites), duas igualmente para Pérgamo (os balaamitas e os nicolaites), e ainda designando-as expressamente em cada caso como duas seitas diferentes. Contudo, nós não pensamos negar que entre essas seitas se pudessem encontrar elementos que hoje se considerariam como seitas paulinianas.

Nos dois passos em que se entra em pormenores, a acusação limita-se ao consumo de carnes sacrificadas aos ídolos e à impudícia, os dois pontos sobre os quais os Judeus — tanto os antigos como os Judeus cristãos — estavam em perpétua disputa com os pagãos convertidos. Carne oriunda dos sacrifícios pagãos era não só servida nos festins, em que recusar os pratos apresentados poderia parecer incoveniente e até perigoso, mas era também vendida nos mercados públicos, em que não era praticamente possível distinguir se era Koscher ou não. Por impudícia, os mesmos Judeus não entendiam apenas o comércio sexual fora do casamento, mas também o casamento entre parentes de graus proibidos pela lei judaica, ou ainda entre Judeus e pagãos, e é este o significado que geralmente é dado à palavra nos “Atos dos Apóstolos” (XV, 20 e 29). Mas o nosso João tem uma opinião própria mesmo no que dizia respeito ao comércio sexual entre os Judeus ortodoxos. Ele diz (XIC, 4) dos 144.000 Judeus celestes: “São aqueles que não se mancharam com mulheres, porque são virgens.” E, de fato, no céu do nosso João não existe uma única mulher. Ele pertencia, pois, a essa tendência que se manifesta igualmente noutros escritos do cristianismo primitivo e considera pecado o comércio sexual em geral. Se, além disso, considerarmos o fato de ele chamar a Roma a grande prostituída, com a qual os reis da Terra se entregaram à impudícia e foram embriagados pelo vinho da sua impudícia — e os seus mercadores enriqueceram pelo poder do seu luxo —, é-nos impossível considerar a palavra, nas cartas, no sentido estrito que a apologética teológica lhe queria atribuir, com o único fito de extrair uma confirmação para outras passagens do Novo Testamento. Muito pelo contrário. Essas passagens das cartas indicam claramente um fenômeno comum a todas as épocas profundamente perturbadas, isto é, que, ao mesmo tempo que se abalam todas as barreiras, procura-se relaxar os limites tradicionais do comércio sexual. Nos primeiros séculos cristãos, igualmente, ao lado do ascetismo que mortifica a carne, manifesta-se muitas vezes a tendência para estender a liberdade cristã às relações, mais ou menos livres, entre homens e mulheres. A mesma coisa aconteceu no movimento socialista moderno.

Que santa indignação não provocou, depois de 1830, na Alemanha de então — essa “piedosa nursery”, como lhe chama Heine — a reabilitação da carne são-simoniana! As mais intensamente indignadas foram as ordens aristocráticas que dominavam na época (nessa época não havia ainda classes entre nós) e que, tanto em Berlim como nas suas propriedades de campo, não sabiam viver sem uma reabilitação sempre reiterada da sua carne. Que diriam essas boas pessoas se tivessem conhecido Fourier, que oferece para a carne a perspectiva de muito mais alegrias!

Uma vez ultrapassado o utopismo, essas extravagâncias cederam lugar a noções mais racionais e, na realidade, bem mais radicais, e, desde que a Alemanha, da “piedosa nursery” de Heine que era, se tornou o centro do movimento socialista, toda a gente se ri da indignação hipócrita do piedoso mundo aristocrático.

É tudo, quanto ao conteúdo dogmático das cartas. Quanto ao resto, elas excitam os camaradas à propaganda enérgica, à orgulhosa e corajosa confissão da sua fé face aos adversários, à luta sem tréguas contra o inimigo de fora e de dentro; e, sob esse aspecto, elas poderiam também ter sido escritas por um entusiasta da Internacional, por menos profeta que ele fosse.


III

As cartas são apenas a introdução ao verdadeiro tema da comunicação do nosso João às sete Igrejas da Ásia Menor e, através delas, a toda a comunidade judaica reformada do ano 69, donde, mais tarde, saiu a cristandade. E então entramos no santuário mais íntimo do cristianismo primitivo.

Entre que tipo de gente se recrutavam os primeiros cristãos? Principalmente entre os “laboriosos e os fatigados”, pertencendo às mais baixas camadas do povo; tal como convém a um elemento revolucionário. E de quem se compunham essas camadas? Nas cidades, de homens livres decadentes — gente de toda a espécie, semelhantes aos “mean whites” dos Estados esclavagistas do Sul, aos aventureiros e aos vagabundos europeus das cidades marítimas coloniais e chinesas, depois de libertos — e sobretudo de escravos; nos latifundia da Itália, da Sicília e da África, de escravos; nos distritos rurais das províncias, de pequenos camponeses cada vez mais dependentes pelas suas dívidas. Não existia de modo algum uma via de emancipação comum para tantos elementos diversos. Para todos, o paraíso perdido situava-se no passado; para o homem livre desiludido, era a “polis”, cidade e Estado ao mesmo tempo, de quem os seus antepassados haviam sido outrora cidadãos livres; para os escravos prisioneiros de guerra, a era da liberdade antes da sujeição e do cativeiro; para o pequeno camponês, a sociedade gentílica e a comunidade do solo destruídas. Tudo isso, a mão de ferro niveladora do Romano conquistador havia deitado abaixo. O agrupamento social mais consistente que a Antigüidade tinha sabido criar era a tribo e a confederação de tribos aparentadas, agrupamento baseado, entre os Bárbaros, nas linhas de consagüinidade, entre os Gregos e os Italiotas, fundadores de cidades, sobre a “polis”, que compreendia uma ou várias tribos aparentadas. Filipe e Alexandre deram à península helênica a unidade política, mas dela não resultou a formação de uma nação grega. As nações só se tornaram possíveis depois da queda do Império Romano. Este pôs termo, de uma vez para sempre, aos pequenos agrupamentos; a força militar, a jurisdição romana, o aparelho de percepção de impostos, deslocaram completamente a organização interior tradicional. À perda da independência e da organização original acrescentou-se a pilhagem pelas autoridades civis e militares, que começavam por despojar os vencidos dos seus tesouros para depois lhes emprestarem de novo com taxas de usura, para que eles pudessem pagar novas exações. O peso dos impostos e a necessidade de dinheiro que daí resultava, em regiões em que a economia natural reinava exclusivamente ou de maneira preponderante, colocava cada vez mais os camponeses na dependência dos usurários, introduzindo uma grande desproporção de fortuna. Enriquecia os ricos e empobrecia completamente os pobres. E toda a resistência das pequenas tribos isoladas ou das cidades ao gigantesco poder de Roma era sem esperança. Que remédio para isso, que refúgio para os vencidos, os oprimidos, os empobrecidos, que saída comum para esses grupos humanos diversos, de interesses divergentes ou mesmo opostos? Era contudo preciso encontrar uma, era preciso que um único grande movimento revolucionário os envolvesse a todos.

Essa saída encontrou-se; mas não neste mundo. E, no estado de coisas de então, só a religião podia proporcioná-la. Descobriu-se um novo mundo. A existência da alma depois da morte do corpo tinha-se tornado, pouco a pouco, um artigo de fé reconhecido em todo o mundo romano. Além disso, um modo de sofrimento e de recompensa para a alma do morto, segundo as ações cometidas em vida, era por toda a parte progressivamente admitido. Quando às recompensas, na verdade, isso soava um pouco falso; a Antigüidade era demasiado espontaneamente materialista para não considerar infinitamente mais preciosa a vida real do que a vida no reino das sombras; para os Gregos, a imortalidade era mesmo considerada uma infelicidade. Apareceu o cristianismo, que levou a sério os sofrimentos e as recompensas no outro mundo e criou o céu e o inferno; assim estava encontrada a via por onde conduzir os laboriosos e os desiludidos deste vale de lágrimas para o paraíso eterno. De fato, era preciso a esperança de uma recompensa no Além para conseguir elevar a renúncia ao mundo e o ascetismo da escola estóica de Philon à categoria de princípio ético fundamental de uma nova religião universal, capaz de arrastar as massas oprimidas.

Contudo, a morte não abre de imediato esse paraíso celeste aos fiéis. Veremos que o reino de Deus, de que a nova Jerusalém é a capital, não se conquista nem se abre senão depois de ardentes lutas contra as potências infernais. Ora, os primeiros cristãos consideravam essas lutas como iminentes. Desde o começo, o nosso João designa o seu livro como a revelação “de coisas que devem acontecer em breve”; pouco depois, no versículo três, ele diz: “Feliz aquele que lê e aqueles que escutam as palavras da profecia, porque o tempo está próximo”; à comunidade de Filadélfia, Jesus Cristo faz escrever: “Virei em breve”, e, no último capítulo, o anjo diz que revelou a João “as coisas que devem acontecer em breve” e ordena-lhe: “Não seles as palavras da profecia deste livro, porque o tempo está próximo”, e Jesus Cristo diz por duas vezes, versículos 12 e 30: “Virei em breve”. Veremos em seguida quanto essa vinda era esperada para breve.

As visões apocalípticas que o autor faz passar sob os nossos olhos são todas, e quase sempre palavra por palavra, extraídas de modelos anteriores. Em parte dos profetas clássicos do Antigo Testamento, sobretudo de Ezequiel, em parte dos apocalipses judaicos posteriores, compostos segundo o protótipo do livro de Daniel, e sobretudo do livro de Enoch, já redigido, pelo menos em parte, nessa época. Os críticos já demonstraram, até os mínimos detalhes, de onde o nosso João tirou cada imagem, cada prognóstico sinistro, cada chaga inflligida à humanidade incrédula, em suma, o conjunto de materiais do seu livro; de forma que ele manifesta uma pobreza de espírito pouco comum, mas ainda é o próprio a proporcionar-nos a prova de que, as suas pretensas visões e êxtases, ele não as viveu, nem mesmo em imaginação, tal como as descreve.

Eis, em algumas palavras, a marcha das aparições. Primeiro, João vê Deus sentado sobre o seu trono, um livro selado com sete selos na mão; diante dele está o cordeiro (Jesus) degolado, mas de novo vivo, que é considerado digno de abrir os selos. A abertura dos selos é acompanhada de toda a espécie de sinais e de prodígios ameaçadores. Ao quinto selo João apercebe, sob o altar de Deus, as almas dos mártires de Cristo que foram mortos por causa da palavra de Deus:

Eles gritaram com voz forte: Até quando, mestre santo e venerável, continuarás a adiar o julgamento e a vingança do nosso sangue sobre os habitantes da terra?

Nesta altura, é dada a cada um uma veste branca e dizem-lhes que esperem ainda um pouco até que esteja completo o número de mártires que devem morrer. Ainda então não se fala da “religião do amor”, do “amai aqueles que vos odeiam, abençoai os que vos maldizem” etc. . . . Aqui prega-se abertamente a vingança, a sã, a honesta vingança a exercer sobre os perseguidores dos cristãos. Isso prolonga-se ao longo de todo o livro. Quanto mais se aproxima a crise, mais as chagas e os julgamentos chovem densamente do céu, e mais o nosso João sente alegria ao anunciar que a maioria dos homens continua a não se arrepender e a recusar fazer penitência pelos seus pecados; que novos flagelos de Deus devem cair sobre eles; que Cristo deve governá-los com uma vara de ferro e pisar o vinho no lagar da cólera de Deus todo poderoso; mas que, apesar de tudo, os maus continuam a ter o coração endurecido. É o sentimento natural, afastado de toda a hipocrisia, de que se está em luta, e que “na guerra como na guerra”. Na abertura do sétimo selo, aparecem sete anjos com trombetas: sempre que um anjo toca a trombeta, produzem-se novos sinais de terror. Depois do sétimo toque de trombeta, sete novos anjos surgem em cena trazendo as sete cóleras de Deus, que são lançadas sobre a terra, e de novo chovem flagelos e julgamentos, no essencial uma fatigante repetição do que já acontecera inúmeras vezes. Depois, surge a mulher, Babilônia, a grande prostituída, vestida de púrpura e de escarlate, sentada sobre as águas, bêbada do sangue dos santos e do sangue dos mártires de Jesus; é a grande cidade sobre as sete colinas que tem a realeza sobre os reis da terra. Está sentada sobre um animal que tem sete cabeças e dez cornos. As sete cabeças são sete montanhas, são também sete “reis”. Desses reis, cinco passaram; um existe, o sétimo virá, e, depois dele, um dos cinco primeiros voltará, o qual estava ferido de morte mas curou-se. Este reinará sobre a terra quarenta e dois meses ou três anos e meio (a metade de uma semana de anos de sete anos), perseguirá os fiéis até a morte e fará triunfar a impiedade. Em seguida, trava-se uma grande batalha decisiva, os santos e os mártires são vingados pela destruição da grande prostituta Babilônia e todos os seus partidários, quer dizer, a grande maioria dos homens; o diabo é precipitado no abismo e aí é agrilhoado durante mil anos, durante os quais reina Cristo com os mártires ressuscitados. Quando os mil anos tiverem sido cumpridos, o diabo é libertado: segue-se uma última batalha dos espíritos na qual ele é definitivamente vencido. Há uma segunda ressurreição, os restantes mortos ressuscitam e comparecem diante do trono de Deus (não do de Cristo, reparem bem) e os fiéis entram num novo céu, numa nova Terra e numa nova Jerusalém para a vida eterna. Tal como toda esta construção é erguida com materiais quase exclusivamente judeus e pré-cristãos, também inclui quase exclusivamente concepções puramente judaicas. Desde que as coisas começaram a correr mal para o povo de Israel, a partir do momento em que ficou tributário da Assíria e da Babilônia, desde a destruição dos dois reinos de Israel e de Judá, até à sua submissão pelos Seleucidas, isto é, de Isaías até Daniel, sempre existiu, nas horas da adversidade, a profecia de um salvador providencial. No capítulo XII, I, de Daniel encontra-se a profecia da descida de Miguel, o anjo-da-guarda dos Judeus, que os libertará da sua grande angústia: “Muitos mortos ressuscitarão; haverá uma espécie de julgamento final e aqueles que ensinaram a justiça à multidão brilharão como estrelas, para sempre e perpetuamente”. De cristão, apenas a forma como se insiste na iminência do reino de Jesus Cristo e na felicidade dos fiéis ressuscitados, particularmente dos mártires.

É à crítica alemã, e sobretudo a Ewald, Lucke e Ferdinand Benary que devemos a interpretação desta profecia, no que respeita aos acontecimentos da época. Graças a Renan, ela penetrou noutros meios para lá dos círculos teológicos. A grande prostituída, Babilônia, significa, como vimos, a cidade das sete colinas, Roma. Do animal sobre o qual ela está sentada, diz-se, XVII, nove, 11:

As sete cabeças são sete montanhas sobre as quais a mulher está sentada. São também sete reis: cinco caíram, um existe, o outro ainda não veio, e, quando vier, ficará pouco tempo. E o animal que estava, e que já não está, é um oitavo rei, e pertence ao número dos sete, e caminha para a perdição.

O animal é, pois, a dominação mundial de Roma, representada sucessivamente por sete imperadores, um dos quais foi ferido de morte e deixou de reinar, mas que se curou, e voltará, para cumprir, como oitavo rei, o reino da blasfêmia e da rebelião contra Deus.

E foi-lhe ordenado que fizesse a guerra aos santos e os vencesse. E foi-lhe dada autoridade sobre todas as tribos, todos os povos, todas as línguas e todas as nações, e todos os habitantes da Terra o adorarão, aqueles cujo nome não foi escrito desde a fundação do mundo no livro da vida do cordeiro que foi imolado. E ela fez com que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, recebessem uma marca sobre a mão direita ou sobre a fronte e com que ninguém pudesse comprar ou vender sem ter a marca, o nome do animal ou o número do seu nome. É esta a sabedoria. Que quem tem inteligência calcule o número do animal. Porque é um número de homem e o seu número é 666 (XIII, sete-18).

Constatemos apenas que o boicote é mencionado aqui como uma medida a empregar pelo poderio romano contra os cristãos — que ele é, pois, manifestamente uma invenção do diabo — e passemos à questão de sabermos quem é esse imperador romano que já reinou, que foi ferido de morte e que volta como o oitavo da série para ser o Anticristo.

Depois de Augusto, o primeiro, temos: dois, Tibério; três, Calígula; quatro, Cláudio; cinco, Nero; seis, Galba. “Cinco caíram, um existe”. Portanto Nero já caiu. Galba existe. Galba reinou de 9 de junho de 68 até 15 de janeiro de 69. Mas, assim que ele subiu ao trono, as legiões do Reno sublevaram-se sob Vitellius, enquanto, noutras províncias, outros generais preparavam levantamentos militares. Mesmo em Roma, os pretorianos sublevaram-se, mataram Galba e proclamaram Otão imperador.

Daqui resulta que o nosso “Apocalipse” foi escrito sob Galba, naturalmente para o fim do seu reinado, ou mais tarde, durante os três meses (até 15 de abril de 69) do reinado de Otão, o sétimo. Mas quem é o oitavo, que foi e não é? O número 666 é a chave.

Entre os Semitas — os Caldeus e os Judeus — desta época, uma arte mágica estava em voga, baseada num duplo significado das letras. Desde cerca de trezentos anos antes da nossa era, as letras hebraicas eram também empregues como números: a=1, b=2, c=3, d=4, e assim sucessivamente. Ora, os adivinhos cabalistas adicionavam os valores numéricos das letras de um nome, e com a ajuda da soma dos algarismos obtida, por exemplo formando palavras ou combinações de palavras de um igual valor numérico que permitiam extrair conclusões sobre o futuro de quem tinha o nome, procuravam fazer profecias. De forma idêntica exprimiam-se palavras secretas nessa língua numérica. Dava-se a esta arte um nome grego, “ghematriah”, geometria; os Caldeus, que a exerciam como profissão, e a quem Tácito chamava “mathemaci”, foram expulsos de Roma sob Cláudio, e de novo sob Vitellius, provavelmente por “delito grave”.

Foi precisamente por meio desta matemática que foi produzido o número 666. Por detrás dele, esconde-se o nome de um dos primeiros cinco imperadores romanos. Ora, Ireneu, no fim do século II, além do número 666, conhecia a variante 616, que datava também de uma época em que o enigma dos algarismos era ainda conhecido. Se a solução responder igualmente aos dois números, a prova está feita.

Ferdinand Bernary, em Berlim, encontrou essa solução. O nome é Nero. O número fundamenta-se em Neron Kesar, a transcrição hebraica — como o atestam o Talmude e as inscrições palmirianas — do grego “Nérôn Kaisar”, Nero imperador, que tinha, como legenda, a moeda de Nero, cunhada nas províncias do Leste do Império. Assim: n (nun)=50; r(resch)=200; v(vau) por 0=6; n(nun)=50; k(koph)=100; s(samech)=60; e r(resch)=200; total=666. Ora, tomando como base a forma latina, “Nero Caesar” o segundo n(nun)=50 suprime-se, e obtemos 666-50=616, a variante de Ireneu.

Efetivamente, todo o Império Romano, no tempo de Galba, vivia em plena confusão. O próprio Galba, chefiando as legiões de Espanha e da Gália, marchara sobre Roma para expulsar Nero; este fugiu e fez-se matar por um liberto. Mas, contra Galba, não só os pretorianos em Roma mas também os comandantes das províncias conspiravam; por todo o lado surgiram pretendentes ao trono, preparando-se para avançar sobre a capital com as suas legiões. O Império parecia ter caído numa guerra intestina; a sua queda parecia iminente. Para cúmulo, espalhou-se o boato, sobretudo no Oriente, de que Nero não estava morto, mas apenas ferido, que estava refugiado entre os Partas, que atravessaria o Eufrates e surgiria com uma força armada para inaugurar um novo reino de terror ainda mais sangrento. Sobretudo a Acaia e a Ásia foram alarmadas com essas notícias. E, precisamente no momento em que o “Apocalipse” deve ter sido composto, apareceu um falso Nero que se estabeleceu com um partido bastante numeroso na ilha de Citnos (a Térmia moderna), no mar Egeu, perto de Patmos e da Ásia Menor, até que foi morto sob Otão. Nada de espantoso que entre os cristãos, contra quem Nero lançara as primeiras grandes perseguições, se tenha propagado o boato de que ele havia de voltar como Anticristo, que o seu regresso bem como uma nova e mais séria tentativa de exterminação sangrenta da jovem seita seriam o presságio e o prelúdio de Cristo, da grande batalha vitoriosa contra as potências do inferno, do reino dos mil anos a estabelecer “em breve” e cuja chegada certa permitia aos mártires irem alegremente para a morte.

A literatura cristã e de inspiração cristã dos dois primeiros séculos garante, com índices suficientes, que o segredo do número 666 é então conhecido de muitos. Ireneu de certeza que já o não conhecia, mas, por outro lado, sabia, como muitos outros até fins do século II, que o animal do “Apocalipse” era Nero voltando. Depois, este último traço perdeu-se e o nosso “Apocalipse” caiu em poder da interpretação fantástica dos adivinhos ortodoxos; eu próprio ainda conheci pessoas idosas que, segundo os cálculos do velho Johnn Albrecht Bengel, esperavam o fim do mundo e o último julgamento para o ano de 1836; a profecia realizou-se na data anunciada. Só que o julgamento não atingiu o mundo dos pecadores, mas antes os piedosos intérpretes do “Apocalipse”. Porque, nesse ano de 1836, F. Bernary forneceu a chave do número 666 e pôs assim termo a todo esse cálculo divinatório, a essa nova “ghemetriah”.

Do reino celeste reservado aos fiéis, o nosso João apenas nos fornece uma descrição muito superficial. Para a época, a nova Jerusalém é construída segundo um plano bastante grandioso: um quadrado de 12.000 estádios de lado=2227 quilômetros, portanto uma superfície de cerca de 5 milhões de quilômetros quadrados, mais do que metade dos Estados Unidos da América, construída unicamente em ouro e pedras preciosas. Aí, Deus habita no meio dos seus e ilumina-os, substituindo o Sol; não há já nem morte, nem lamentos, nem sofrimentos; um rio de água viva corre através da cidade, nas suas margens cresce a árvore da vida produzindo doze vezes os seus frutos, dando fruto todos os meses, e as folhas das árvores servem “para a cura dos gentis” (à maneira de um chá medicinal, segundo Renan: “O Anticristo”, p. 542). Aí vivem os santos nos séculos dos séculos.

Era assim que se construía o cristianismo na Ásia Menor, o seu primeiro centro, por volta do ano de 68, segundo o que conhecemos. Nenhum indício de uma Trindade; em seu lugar, o velho Jeová, uno e indivisível, do judaísmo decadente, que, de Deus nacional judeu, se elevou à categoria de Deus único; Deus supremo do céu e da terra onde pretende reinar sobre todos os povos, prometendo a graça aos convertidos e exterminando os rebeldes sem misericórdia, nisso fiel ao antigo “parcere subjectis ac debellare superbos”. Também é esse Deus que preside o último julgamento, e não Jesus Cristo, como nas narrativas ulteriores dos Evangelhos e das Epístolas. Conforme à doutrina persa da emanação, familiar ao judaísmo decadente, o Cristo é o cordeiro, emanado de Deus de toda a eternidade; tal como, embora ocupando um lugar muito inferior, os “sete espíritos de Deus” que devem a sua existência a uma passagem poética mal compreendida (Isaías, XI, dois). Nenhum deles é Deus ou igual a Deus, mas submetido a ele. O cordeiro oferece-se de sua plena vontade como sacrifício expiatório pelos pecados do mundo, e por esse alto feito vê-se expressamente promovido em grau no céu; em todo o livro esse sacrifício voluntário é contado como um ato extraordinário e não como uma ação oriunda necessariamente do mais profundo do seu ser.

É evidente que toda a corte celeste dos antigos, dos querubins, dos anjos e dos santos não falta. Para se constituir em religião, o monoteísmo sempre teve de fazer concessões ao politeísmo, datando do “Zendavesta”. Entre os Judeus, a recaída para os deuses pagãos e sensuais persiste em estado crônico até que, depois do exílio, a corte celeste, à maneira persa, acomoda um pouco melhor a religião à imaginação popular. O próprio cristianismo, mesmo depois de ter substituído o Deus dos Judeus eternamente imutável pelo misterioso Deus trinitário, diferenciado em si mesmo, não conseguiu suplantar o culto dos antigos deuses entre as massas senão pelo culto dos santos. Assim, segundo Fallmerayer, o culto de Júpiter persistiu no Peloponeso, na Maina, na Arcádia, até cerca do século IX. E só a época moderna e o seu protestantismo afastam os santos e encaram, enfim, seriamente, o monoteísmo diferenciado.

O nosso “Apocalipse” também não conhece o dogma do pecado original nem a justificação pela fé. A fé dessas primeiras comunidades belicosas difere completamente da Igreja triunfante posterior; ao lado do sacrifício expiatório do cordeiro, a próxima vinda de Cristo e a iminência do reino milenar constituem o seu conteúdo essencial e ela manifesta-se pela ativa propaganda, pela luta sem tréguas contra o inimigo de fora e de dentro, pela orgulhosa confissão das suas convicções revolucionárias diante dos juízes pagãos, pelo martírio corajosamente suportado na certeza da vitória.

Como vimos, o autor não suspeita ainda que é algo mais que Judeu. Conseqüentemente, nenhuma alusão, em todo o livro, ao batismo; existem também numerosos indícios de que o batismo é uma instituição do segundo período cristão. Os 144.000 Judeus crentes são “selados”, não batizados. Dos santos no céu é dito: “São aqueles que lavaram e embranqueceram as longas vestes no sangue do cordeiro”; nada acerca da água do batismo. Os dois profetas que precedem a aparição do Anticristo (cap. XI) também não batizam e, no capítulo XIX, 10, o testemunho de Jesus não é o batismo mas o espírito de profecia. Teria sido natural em todas estas ocasiões falar do batismo, por pouco que estivesse já instituído. Estamos pois autorizados a concluir com uma quase certeza que o nosso autor não o conhecia e que ele só foi introduzido quando os cristãos se separaram completamente dos Judeus.

O nosso autor é também ignorante acerca do segundo sacramento ulterior — a eucaristia. Se no texto de Lutero o Cristo promete a todos os Tiasirianos que perseveraram na fé a entrada na sua casa e a comunhão com ele, isso constitui uma falsa abordagem do texto. Em grego lê-se “deipneso”, eu cearei (com ele), e a palavra está corretamente traduzida na bíblia inglesa: “I shall sup with him”. A ceia como festim comemorativo não é aqui referida.

O nosso livro, com a data (68 ou 69) atestada de maneira tão particular, é indubitavelmente o mais antigo da literatura cristã no seu conjunto. Nenhum outro é escrito numa língua tão bárbara, em que formigam os hebraísmos, as construções impossíveis, os erros gramaticais. Só os teólogos de profissão, ou outros historiógrafos interessados, continuam a negar que os Evangelhos e os “Atos dos Apóstolos” são arranjos tardios de escritos hoje perdidos e cujo tênue núcleo histórico já não pode ser descoberto sob a luxuriante lenda; mesmo as três ou quatro “Epístolas” apostólicas pretensamente autênticas de Bruno Bauer não representam mais do que escritos de uma época posterior, ou, na melhor das hipóteses, composições mais antigas de autores desconhecidos, retocadas e embelezadas por numerosas adições e interpolações. É muito mais importante para nós possuir com a nossa obra, cujo período de redação se estabelece com a margem de erro de um mês, um livro que nos apresenta o cristianismo sob a sua forma mais rudimentar, sob a forma em que está para a religião de Estado do século IV, constituída na sua dogmática e na sua mitologia pouco mais ou menos como a mitologia ainda vacilante dos Germanos de Tácito está para a mitologia do Edda, plenamente elaborada sob a influência de elementos cristãos e antigos.

O germe da religião universal encontra-se lá, mas contém ainda em estado indiferenciado as mil possibilidades de desenvolvimento que se realizaram nas inumeráveis seitas ulteriores. Se o fragmento mais antigo do processo de elaboração do cristianismo tem para nós um valor muito particular, é porque nos proporciona, na sua integridade, o que o judaísmo — fortemente influenciado por Alexandria — forneceu ao cristianismo. Tudo o que é posterior é acrescento ocidental, greco-romano. Foi necessária a mediação da religião judaica monoteísta para fazer revestir ao monoteísmo erudito da filosofia grega vulgar a forma religiosa sob a qual ele podia chegar às massas. Uma vez essa mediação encontrada, ele só podia tornar-se uma religião universal no mundo greco-romano, continuando a desenvolver-se para finalmente se fundir no fundo de idéias que esse mundo tinha conquistado.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Out 19, 2010 5:43 pm

O Coração é um Caçador Solitário (Carson Mccullers)

O Coração é um Caçador Solitário foi publicado em 1940, quando a autora tinha apenas 23 anos, e obteve reconhecimento
imediato. O romance foi adaptado para o cinema em 1968 pelo diretor Robert Ellis Miller.

Sinopse

Numa cidadezinha do sul dos Estados Unidos, no final dos anos 1930, os efeitos da Grande Depressão ainda se fazem sentir. Personagens como Biff Brannon, dono do restaurante que nunca fecha na cidade; a garota Mick, forçada a passar abruptamente da infância à idade adulta; o agitador marxista Jake Blount; o médico negro Benedict Copeland, que atende de graça os pacientes pobres e luta pela emancipação racial, enfrentam, além da carência material, o flagelo da solidão e da incomunicabilidade.

O centro desta narrativa, em que cada capítulo assume o ponto de vista de um personagem, é o mudo John Singer, um homem triste e solitário, que por sua serenidade enigmática é visto como um santo pela comunidade.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Out 21, 2010 9:30 pm

Corre, Coelho (Updike, John)

O trabalho mais conhecido de John Updike é a série Rabbit: Rabbit Run (Corre, Coelho), Rabbit Redux, Rabbit is Rich (Prémio Pulitzer), Rabbit at Rest (Prémio Pulitzer) e Rabbit Remebered.

Corre, Coelho foi escrito em 1960 e é até hoje um dos livros mais emblemáticos e lidos de John Updike.

Sinopse:

Harry “Coelho” Angstrom tem 26 anos e é uma antiga estrela do basquetebol. Casado com a sua namorada do liceu (alcoólica e grávida do segundo filho), vive nos subúrbios da Pennsylvania e é vendedor de acessórios de cozinha. “Coelho” começa a sentir que a sua vida não faz sentido e que só tem duas hipóteses: tentar fazer com que a sua vida seja melhor ou fugir. Decide fugir e abandona a família. Quando parte em direcção a Virgínia encontra o seu antigo treinador que o apresenta a Ruth, uma prostituta em part-time, e nessa mesma noite começam a viver juntos. “Coelho” só não sabe o que o futuro lhe reserva…

Festejado pela crítica devido a uma narrativa realista e satírica, John Updike ganhou o Pulitzer duas vezes, e ainda o American Book Awards e o Scott Fitzgerald, os prêmios mais importantes de literatura nos Estados Unidos.

Filho de um professor de matemática e neto de um pastor presbiteriano, ainda criança desenvolveu a psoríase, uma doença que provoca a descamação da pele. Em seu livro de memórias "Consciência à flor da pele", o autor justificou a escolha de sua profissão devido à doença. Updike estudou em Oxford, na Inglaterra, antes de se formar em Harward. Seus trabalhos começaram a ser publicados em 1954 na revista "The New Yorker".

Updike procurou refletir em suas obras os pontos obscuros do comportamento humano e da sociedade moderna. Em 1984 escreveu "As Bruxas de Eastwick", que fez um grande sucesso no cinema três anos depois.

No romance "Brazil", lançado em 1994, o autor recriou o clássico "Tristão e Isolda", adaptando-o ao cenário brasileiro; e em "Gertrudes e Cláudio"(2000), baseou-se na tragédia "Hamlet".

Outras obras de Updike que merecem ser citadas são: "Pai-nosso computador"; "Sobre a fazenda"; "Bech no beco: quase um romance"; "O coelho se cala e outras histórias"; "Casais trocados" e "O golpe".

Morreu aos 76 anos, vítima de um câncer de pulmão.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sex Out 22, 2010 9:08 pm

Animal Farm (George Orwell)

O Triunfo dos Porcos - no original Animal Farm - é um romance alegórico da autoria de George Orwell.

É, acima de tudo, uma sátira ferozmente crítica, da Rússia Soviética, mas é também uma alegoria sobre todas as revoluções. Foi publicado pela pimeira vez em 1945.

Tudo começa quando um velho porco, o Velho Major, convoca os animais de Manor Farm para uma reunião na qual expõe o sonho que teve: os animais sempre viveram subjugados pelo homem, embora este tenha capacidades inferiores às de qualquer deles.
O homem é a única criatura que consome sem produzir - diz ele...
O Velho Major sonha com a revolução que libertará os animais deste jugo e comunica aos outros o seu sonho, numa canção chamada Animais de Inglaterra, que expõe a sua filosofia, o Animalismo.
Três dias depois, o Velho Major morre...
Mas os animais começaram a pensar nas suas vidas de outra forma, e organizam-se para preparar a revolução.
Nesta altura começam a distinguir-se dois porcos - Napoleão e Bola de Neve. Eles começam a dar forma ao Animalismo e quando, alguns meses depois, o Sr Jones, o dono da quinta, que em tempos fora um bom agricultor e tratava bem os seus animais mas começou a beber e a maltratá-los, regressa a casa embriagado e se esquece de alimentar os animais, a rebelião estala.
O Sr Jones ainda tenta reagir, mas é expulso pelos animais, que destroem os chicotes e outros símbolos das sua servidão e festejam a sua vitória comendo uma ração extra.
A quinta é rebaptizada com o nome de Animal Farm - A Quinta dos Animais - e os porcos, considerados os mais inteligentes entre os animais, redigem sete mandamentos que são escritos na porta do celeiro e que passarão a reger a vida da nova quinta. São eles os seguintes:

1º - Tudo o que tem duas pernas é inimigo.
2º - Tudo o que tem quatro pernas ou asas é amigo.
3º - Nenhum animal usará roupas.
4º - Nenhum animal dormirá numa cama.
5º - Nenhum animal beberá alcoól.
6º - Nenhum animal matará outro animal.
7º - Todos os animais são iguais.

Também fica acordado que nenhum animal entrará na casa - transformada em museu - e que nenhum animal contactará com os humanos.
Como os animais menos inteligentes têm alguma dificuldade em apreender os sete mandamentos, os porcos resumem-nos num slogan muito simples: Quatro pernas bom, duas pernas mau!, que é repetido incessantemente pelas ovelhas...
Algum tempo depois, o Sr Jones tenta recuperar a quinta mas é vencido...
Bola de Neve tinha estudado as tácticas de guerra de César e organiza os animais que, sob a sua direcção, lutam corajosamente pela sua liberdade...
Bola de Neve e o cavalo Boxer recebem medalhas pela sua bravura em combate e Napoleão também é condecorado, apesar de não ter lutado...
Este será um motivo de frequentes divergências entre os dois porcos.
Bola de Neve concebe então os planos para a construção de um moinho de vento que produzirá energia para a quinta...
Mas Napoleão não concorda com ele e, com a ajuda de seis cães que roubou à mãe em cachorros e criou secretamente, expulsa Bola de Neve da quinta e convence os animais de que este é um traidor, que esteve sempre do lado do Sr Jones e que nunca recebeu uma medalha...
Empreende-se, apesar de tudo, a construção do moinho de vento.
As horas de trabalho são sucessivamente alargadas e as rações de comida cada vez mais curtas, embora os porcos continuem a engordar e a prosperar...
Eles comem, por exemplo, todas as maçãs e todo o leite, com o argumento de que são alimentos necessários à saúde dos porcos e estes são indispensáveis ao bom andamento da revolução...
À medida que o tempo passa, os porcos empreendem negociações com agricultores da região - e garantem aos outros animais que nunca se tomou a resolução de não contactar os humanos, isso foi apenas uma invenção de [Bola de Neve], transformado no arqui-inimigo da revolução...
Decidem depois passar a viver na casa e quando os animais vão reler os mandamentos na porta do celeiro, eles vão sendo modificados:

4º - Nenhum animal dormirá numa cama com lençóis.
5º - Nenhum animal beberá alcoól em excesso.
6º - Nenhum animal matará outro animal sem motivo.

Ao fim de um ano de trabalho, quando o moinho está quase pronto, é destruído por uma tempestade. Napoleão acusa Bola de Neve da destruição do moinho e empreende-se imediatamente a sua reconstrução...
O hino Animais de Inglaterra é banido uma vez que a sociedade ideal que ele descreve, diz Napoleão, já foi atingida sob o seu comando...
Mais horas de trabalho, menos comida e, ao fim de mais dois anos, o moinho está de novo em vias de conclusão...
É então que o Sr Jones ataca a quinta...
Os animais vencem, mas o moinho é de novo destruído...
A reconstrução leva três anos. A comida é reduzida ao mínimo e, um dia o cavalo Boxer adoece...
É levado por uma carroça e, embora Napoleão diga ao animais que ele foi para o hospital, o burro Benjamim lê a inscrição na carroça e vê que ele foi vendido a um fabricante de cola.
Napoleão e os outros porcos celebram, em conjunto com os agricultores da vizinhança, a eficiência da sua quinta, enquanto os animais trabalham duramente com parcas rações de comida...
Ao olhar pela janela para dentro de casa, os animais apercebem-se de que não conseguem já distinguir os porcos dos homens...
O slogan que as ovelhas repetem mudou ligeiramente: Quatro pernas bom, duas pernas melhor!...
O último mandamento, que era o mais importante, foi também alterado e feito único.

Diz agora:

Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Seg Out 25, 2010 8:06 pm

Dez Dias que Abalaram o Mundo (John Reed)

Dez Dias que Abalaram o Mundo, é o título que John Reed deu à sua obra admirável. É um livro que recorda, com uma intensidade e um vigor extraordinários, os primeiros dias da Revolução de Outubro.

John Reed era jornalista e estava na Europa cobrindo a Primeira Guerra Mundial, quando iniciou-se a Revolução Russa, deslocando-se então para registrar as mudanças radicais pelas quais a Rússia começava a passar. O seu contato com o movimento acabou por extrapolar o campo das informações jornalísticas, Reed tornou-se um ardoroso defensor do novo governo e procurou difundir as idéias comunistas nos EUA.

Quanto ao livro, não se trata de uma simples enumeração de fatos, de uma coleção de documentos, mas de cenas vivas, tão típicas que não podem deixar de evocar, no espírito de todas as testemunhas da revolução, aquelas cenas idênticas, a que todos assistiram. Todos esses quadros tomados ao vivo traduzem, da melhor forma possível, o modo de sentir das massas, e permitem apanhar o verdadeiro sentido dos dïferentes atos da grande revolução.

Parece estranho, à primeira vista, que esse livro tenba sido escrito por um estrangeiro, um americano que não conhece a língua nem os costumes do país. Ele deveria - é o que se admite - cometer erros a cada passo, omitir fatores essenciais. É verdade que bem poucos foram testemunhas pessoais da revolução.

O livro de Reed oferece um quadro autêntico da revolta, e é por isso que terá uma importância toda especial para a juventude, para várias gerações futuras, para quem a Revolução de Outubro será parte da história. No seu gênero, o livro de Reed é uma epopéia.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Anarca



Mensagens : 13405
Data de inscrição : 02/06/2009

MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Out 28, 2010 9:19 pm

Diário de um ladrão (Jean Genet)

Jean Genet foi um proeminente e controverso escritor, poeta e dramaturgo francês.

Filho de uma prostituta, de pai desconhecido, foi adoptado por um casal de Morvan, na Borgonha. Naquele tempo era comum enviar às regiões rurais as crianças abandonadas da capital.

Após abandonar a família adotiva, Genet passou a juventude em reformatórios e prisões onde afirmou sua homossexualidade. Enquanto compunha romances ou peças consagradas como O Balcão, Os Negros e Os Biombos, criou uma mitologia pessoal marcada por escândalos, roubos e rixas. Colecionou uma sucessão de amantes, que o acompanharam pelo baixo mundo parisiense e conquistou a nata da intelectualidade européia. Seus primeiros trabalhos, Nossa Senhora das Flores e O Milagre da Rosa, chamaram a atenção de Jean Cocteau, mas foi através da influência de Jean Paul Sartre que ficou famoso.

Foi também amigo de outras importantes personalidades de seu tempo: o filósofos Jacques Derrida e Michel Foucault, os escritores Juan Goytisolo e Alberto Moravia, os compositores Igor Stravinski e Pierre Boulez, o diretor de teatro Roger Blin, os pintores Leonor Fini e Christian Bérad, os líderes políticos Georges Pompidou e François Mitterrand.

Depois do suicídio de um de seus amantes e do amigo e tradutor Bernard Frechtman, ele próprio tentou matar-se. Genet atravessou a década de 1960 colhendo frutos de sucesso de seus romances, peças e roteiros. Mas, a partir dos anos 1970 até a sua morte, em 1986, engajou-se na defesa de trabalhadores imigrantes na França, assumiu a causa dos palestinos e envolveu-se com líderes de movimentos norte-americanos como Panteras Negras e Beatniks.

Publicou suas memórias no livro "Diário de um Ladrão", onde narra suas aventuras e andanças pela Europa, suas paixões e seus sentimentos.

"Diário de um Ladrão" é uma autobiografia, lançada em 1949, pelo parisiense Jean Genet (1910-1986). Ele é criado por pais adotivos em uma fazenda, mas um roubo o leva à casa de detenção para menores de Mettray, da qual foge aos vinte e um anos de idade. A partir daí seu legado está definido, pois, um ano depois, passa a adotar o crime.
O ladrão começa a prostituir-se e, prostituindo-se, transcende o erotismo e a transgressão, passando a integrar o submundo da marginalidade.
A masturbação é uma constante, tanto nas celas – sozinho ou quando se relaciona com os policiais – quanto fora delas. Poeta, ladrão e pederasta, Jean, com uma linguagem poética e crua – no sentido da apresentação dos eventos – revela e mergulha no mundo do sexo, da pederastia, dos cafetões, das prostitutas, dos homossexuais e dos travestis imbuindo-lhes o espírito de heróis.
Sua prostituição não é apenas um ato de vender o corpo para obter dinheiro ou para roubar seus fregueses – alguns destes, marujos ingleses ou holandeses –, pois muitas destas vezes Genet apaixona-se e mantém casos amorosos. Às vezes com os cafetões, outras com os clientes, porém, os laços são evidentes: Jean ama.
A maior parte de suas observações giram em torno de quatro homens: Salvador, que é mendigo com ele, em uma relação amorosa que dura seis meses, mas pelo qual Jean tem apenas um forte amor fraternal; Stilitano, homem forte, alto, maneta e com um escarro branco viscoso inigualável; Armand, um homem rude, mas que sexualmente o realiza – isto, antes de o abandonar e ficar com Robert; e Lucien, um rapaz que entrega-se totalmente à adoração de Genet e que, diferentemente de seus outros amantes – que ele chama de amigos – necessita de seus beijos, chora por seu amor, acaricia-lhe ao extremo: precisa dele para viver.
Muitos outros são os homens que cruzam o seu caminho e com os quais ele copula. São julgados tão importantes que Genet chega a ponto de registrá-los em sua autobiografia. Entre eles estão pelo menos: Bob, Java, Guy, Michaelis Andritch, René, Maurice Pilorge e o inspetor Bernardini.
Os amores são a essência de Jean Genet! Genet ama, trai, rouba, vai e volta para a cadeia, enfim, não sabe viver se não for neste seu próprio mundo. A beleza da pederastia, da traição e do furto o envolve por completo.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Conteúdo patrocinado




MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Hoje à(s) 5:44 pm

Voltar ao Topo Ir em baixo
 
LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...
Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo 
Página 3 de 4Ir à página : Anterior  1, 2, 3, 4  Seguinte
 Tópicos similares
-
» Estudioso da Bíblia afirma que 11 livros do Novo Testamento foram escritos por impostores
» Componentes proibidos para No Poo e Low Poo
» LIVROS - Sugestões, comentários etc.
» A Crise Religiosa: A Reforma Protestante
» Tópico de ensinamento da CCB de 1961.. entra em choque com as escrituras e ao primeiro ponto de doutrina da CCB!!

Permissão deste fórum:Você não pode responder aos tópicos neste fórum
A LIBERDADE É AMORAL :: E O VERBO SE FEZ PALAVRA...-
Ir para: