A LIBERDADE É AMORAL

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 LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...

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Anarca



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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Jul 07, 2009 10:02 pm

Chora, Terra Bem-Amada (Alan Paton)

Este romance do escritor Alan Paton, "Chora, Terra Bem-Amada", conta-nos a história duma sociedade que transita dum sistema tribal em que conhecia a harmonia e felicidade, para um mundo de superpovoação, de degredo, em que predomina a violência, os homicídios e os roubos...

Este livro é já de 1948 e, passados mais de cinquenta anos, mostra-nos uma actualidade espantosa...

A descrição que Alan Platon nos transmite da maneira como vivem, e de como viviam antes, é simplesmente brutal.. A necessidade de sobreviverm através de roubos, homicídios suplanta a vergonha de regressarem às suas terras...

A história centa-se na viagem dum padre numa localidade rural que vem à procura do seu filho na imensidão de Joanesburgo, e vai vendo o seu povo a ser destruído...

Mais do que uma crítica ao Apartheid, foi mais uma crítica ao modelo de vida de quem tudo quer, e tudo perde...

"Chora, terra adorada, pelo filho ainda por nascer, que será herdeiro do nosso medo. Não o deixes amar demasiadamente a terra. Não o deixes rir com muita alegria quando a água lhe escorrer por entre os dedos. Não lhe consintas um silêncio completo quando ele contemplar o sol poente a tingir de fogo a campina. Não o deixes agitar-se demasiado quando as aves da sua aldeia se puserem a cantar; não o deixes dedicar-se com todo o seu coração aos montes e aos vales que o verão nascer. Porque o medo o despojará de tudo se tiver dado demasiado."

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Anarca



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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Jul 09, 2009 6:40 pm

Filha de Labão (Tomás da Fonseca)

Filha de Labão foi um dos livros proibidos durante a ditadura...

Tomás da Fonseca (1877-1968), foi uma personalidade de destaque no meio intelectual e político da sua época. Espírito brilhante e tribuno exímio, desde muito cedo se evidenciou na defesa das ideias liberais e depois do regime republicano. Teve um papel preponderante na geração que fez a República, pelo seu feitio combativo. Era firme e intransigente na defesa das suas ideias, sempre orientado na procura da verdade e da justiça e dono de uma coragem moral que desafiou todas as vicissitudes.

Foi um lutador pela integração social do Homem e defensor intransigente dos direitos daqueles que labutam duramente. Foi um homem de acção, organizador e animador de inúmeras associações de carácter cultural, social, económico e político, sendo uma figura de grande relevo na campanha intensa e acidentada que precedeu a proclamação da República Portuguesa em 1910. Foi chefe de gabinete do Presidente Teófilo Braga .Em 1918, por se opor à ditadura de Sidónio Pais, é preso. Volta a ser preso 1928, em Coimbra, por ter participado no movimento revolucionário de 20 de Julho. Pertenceu ao Movimento da Unidade Democrática. Feroz opositor do regime ditatorial, foi perseguido pelas suas ideias políticas e os seus livros alvo de censura e proibição. Por várias ocasiões a PIDE deslocou-se à sua residência e às gráficas onde os livros eram impressos para os confiscar. Os seus movimentos eram constantemente vigiados, incluindo os das pessoas que com ele mais privavam.

Denunciou as condições prisionais do regime, o que lhe valeu a prisão em 1947, por ter protestado contra a existência do Campo de Concentração do Tarrafal, nas ilhas de Cabo Verde. Tal era a sua fama de opositor ao regime que até no dia do seu funeral, realizado para o cemitério de Mortágua, a PIDE enviou agentes com a missão de anotar as pessoas e discursos de homenagem dos que ali compareceram.

FILHA DE LABÃO, segundo a minha humilde opinião, é detentor de uma incomparável sublimidade...aqui fica a referência "...traz a marca inconfundível da terra, dessa terra da Beira camponesa..." a protagonista era uma figura querida de todos, pela suas grandes qualidades humanas, o que a tornava o centro das atenções.

"...Poisou as mãos sobre o regaço e, olhando o horizonte sem fim:
- São como nós, as flores.
- Talvez, mas nós não damos mel.
- Julgo que sim, por causa da cantiga:
Teus lábios sabem a mel.
Lançou mão de outra planta e começou a desmanchar os gomos.
- Repara. Há pouco não havia aqui nada. Vieram os dias quentes, e começou tudo a abrolhar. São como nós. Os nossos seios dão leite, os das plantas dão mel. Nós damos filhos, elas dão flores e frutos.
A companheira ergueu os olhos para ela.
- Já tenho dito, e é verdade: tu és mais inteligente do que nós.
- Porque afirmas isso?
- Porque vês coisas que nem eu nem a outra gente vê. E sabes explicar tudo muito bem.
Ficaram olhando ambas, em silêncio, aquele mistério..."
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Jul 14, 2009 10:51 pm

A Metade do Céu (Claudie Broyelle)

Em novembro de 1971, durante o período da Revolução Cultural, Claudie Broyelle e outras onze mulheres provenientes tanto da província como de Paris partiram para a China. Entre elas estudantes, funcionárias e camponesas. Algumas solteiras, outras, mães de um, dois, três filhos. Todas eram militantes pela libertação das mulheres.

Essa viagem de seis semanas tinha como objectivo o estudo da experiência revolucionária chinesa no que concerne à emancipação feminina. E a partir dessa viagem, das reflexões, dos debates travados, assim como de sua confrontação com o trabalho anterior desse grupo e das experiência individuais, Claudie Broyelle escreveu este livro.

Pela importância que tem o movimento de libertação das mulheres na China, o Cebraspo traduz e divulga, neste primeiro momento, a terceira parte deste valioso livro, ou seja, a parte sobre a "Socialização da função maternal". No livro, a autora aborda não só esta relação social da mulher com os filhos, mas também o trabalho social; o trabalho doméstico; a família e a sexualidade - a serem divulgados posteriormente.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Jul 23, 2009 11:24 pm

Minha Senhora de Mim (Maria Teresa Horta)

Maria Teresa Horta nasceu em Lisboa e fez a sua estreia no campo da poe­sia em 1960, com um livro de poemas cujo título é premonitório: Espelho Inicial. Jornalista de profis­são, o seu nome começa por ser associado ao grupo da «Poesia 61». Mas, a partir de 1971, devido ao escândalo que envolveu a publicação das Novas Cartas Portuguesas, de que foi co-autora, e ao processo judicial que se lhe seguiu, passa a ser vista como um expoente do feminismo em Portugal.

A sua luta pelos direitos das mulheres é inseparável de uma carreira literária muitas vezes afectada, positiva ou negativamente, pelo seu posicionamento ético. No entanto, e apesar da intransigên­cia das suas convicções, a escritora não se reconhece na imagem estereotipada da «feminista militante»:

«Eu sou precisamente o contrário do que as pessoas imaginam das mulheres feministas» (Pública, 208, 21.5.00).

Se a imagem da escritora é naturalmente associada à coerência e firmeza das suas posições em prol dos direitos da mulher, é tempo de (re)lermos os seus livros um a um, e seguirmos o trajecto lumi­noso de uma escrita poética nascida de uma exigência radical de liberdade. O erotismo que a percorre começa por ser a denúncia da repressão sexual que pesa violentamente sobre a mulher nos anos ses­senta, num momento em que é posta a nu (Reich, Marcuse) a articulação entre esta e o poder político. Mas, logo se torna perceptível que esse erotismo extremado é muito mais do que a expressão de um inconformismo lúcido ou de um exercício subversivo da liberdade. A escrita erótica de Maria Teresa Horta é sentida como uma forma intolerãvelde apropriação de um discurso do prazer, ou da fruição, que era pertença exclusiva do território masculino, não só dentro de uma ordem social e política dis­criminatória, mas também, e sobretudo, no interior de uma ordem simbólica, onde a própria lingua­gem é um instrumento de opressão. Como foi insistentemente sublinhado por Roland Barthes, a lín­gua encarrega-se de marcar a diferença sexual e social, mantendo, por um lado, separados os géneros feminino e masculino, e confundindo, pelo outro, «a servidão e o poder» (Lição, 1979). A subordinação da mulher ao homem é função de um discurso que intenta salvaguardar os princípios da hegemonia cultural masculina, sendo o corpo feminino uma construção que se vai adaptando aos imperativos de uma ordem falocêntrica dominante.

Neste sentido, Minha Senhora de Mim (1971) é, sem dúvida, um dos livros que assinala um impor­tante momento de viragem na escrita feminina contemporânea e, mais subtilmente, na obra da própria autora.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Dom Ago 23, 2009 8:35 pm

Mar Morto (Jorge Amado)

Escrito em 1936, quando Jorge Amado tinha apenas 24 anos, Mar morto conta as histórias da beira do cais da Bahia, como diz o escritor, na frase que abre o livro. E a frase é uma verdadeira carta de intenções. Nenhuma outra obra sintetizou tão bem o mundo pulsante do cais de Salvador, com a rica mitologia em torno de Iemanjá.

Personagens como o jovem mestre de saveiro Guma parecem prisioneiros de um destino traçado há muitas gerações: o dos homens que saem para o mar e que um dia serão levados por Iemanjá, deixando mulher e filhos a esperar, resignados. Mas nesse mundo aparentemente parado no tempo há forças transformadoras em gestação. O médico Rodrigo e a professora Dulce, não por acaso dois forasteiros, procuram despertar a consciência da gente do cais contra o marasmo e a opressão.

É esse contraste entre o tempo do mito e o da história que move Mar morto, envolvendo-nos desde a primeira página na prosa calorosa de Jorge Amado.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Ago 25, 2009 12:04 pm

Os livros que nunca vão ler:

- Guia das Democracias Árabes

- Contracepção, pelo Papa João Paulo II

- Controlo de Centrais Nucleares com Windows 95

- Perspectiva Somali sobre o Domínio Mundial

- Elogios Femininos sobre o Sexo Masculino

- Hospitalidade Francesa

- Guia Gastronómico da Grã-Bretanha

- Grandes Beldades Britânicas

- Amor ao Próximo, Jean Marie Le Pen (prefácio de Mobutu Seseseko)

- Direitos dos Trabalhadores, por Jardim Gonçalves e Belmiro de Azevedo

- Madrilenos Simpáticos

- Gramática da Língua Francesa, por Mário Soares

- Castidade e Bom Gosto, por Teresa Guilherme

- A Honra acima de Tudo, por Mário Conde

- Normas de Etiqueta, de Mike Tyson

- Guia de Pinto da Costa para Comportamento com a Comunicação Social (introdução de Alberto João Jardim)

- Manifesto Anti-Alcoólico, de Boris Yeltsin

- Como Melhorar as Pescas em Portugal, por Emma Bonino

- Os Melhores Árbitros de Futebol, de Vitor Calheiros

- Ética e Deontologia para Jornalistas, de Francisco Balsemão (com anotações de Emídio Rangel)

- Políticos Honestos, de Duarte Lima.

- Guia Prático da Mastigação e Deglutição, por Sua Exª de Boliqueime.

- Guia prático da bricolage para mulheres, por Black & Decker.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Dom Set 20, 2009 5:11 pm

A Ave Sobre a Cidade (Carlos Papiano)

Carlos Papiano nasceu em Moçambique e veio, com 10 anos, para Portugal, para o Porto.
Frequentou o Liceu Alexandre Herculano, entrando depois para Engenharia, cursando ainda Matemáticas na Faculdade de Ciências do Porto e em Coimbra - onde conheceu a sua companheira Olívia Vasconcelos.
Não ingressou no ensino oficial - tendo que passar a dar explicações particulares - por se ter recusado a assinar a declaração anti-comunista então exigida pelo regime fascista aos funcionários públicos.

Em 1942, já integrando o movimento neo-realista, publicou o seu primeiro livros de poemas: Esboço.

Publicou depois, entre outros: O Lutador (1944); O Poema da Fraternidade (1945); Estrada Nova (1946); Terra com Sede (contos/1946); Mãe Terra (1948); As Florestas e os Ventos (1952); Caminhemos Serenos (1958); A Ave sobre a Cidade (1973 - selecção de poemas dos livros anteriores, mais Os Ciclistas).

Publicou, ainda, livros para crianças, designadamente: A Menina Gotinha de Água; O Grande Lagarto da Pedra Azul; O Cavalo das Sete Cores e o Navio.

Papiniano Carlos aderiu ao PCP em 1949. Fez parte do Sector Intelectual do Porto, desenvolvendo tarefas de apoio aos funcionários clandestinos do Partido.

«Com episódios rocambolescos de disfarce e fuga por perseguição policial, foi várias vezes detido pela PIDE por pequenos períodos, nunca tendo sido levado a tribunal».
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Dom Out 18, 2009 1:16 pm

Ensaio Sobre a Liberdade (Stuart Mill)

Publicado em 1859, o Ensaio Sobre a Liberdade de John Stuart Mill (1806-1873) representou, para a época que foi lançado, uma novidade no contexto histórico-social em que se inseria mais que nos princípios filosóficos nele expressos. De qualquer modo, o autor influenciou a sociedade do século XIX, ao ressaltar que a liberdade do cidadão é de capital importância para a construção, não só de uma sociedade justa, mas sobretudo de um Estado justo, próspero e benéfico para o bem comum de todos os cidadãos em seu conjunto.

John Stuart Mill nasceu na casa de seu pai em Pentonville, Londres, sendo o primeiro filho do filósofo escocês radicado na Inglaterra James Mill. Mill foi educado pelo pai, com a assistência de Jeremy Bentham e Francis Place. Foi-lhe dada uma educação muito rigorosa e ele foi deliberadamente escudado de rapazes da mesma idade. O seu pai, um seguidor de Bentham e um aderente ao associativismo, tinha como objetivo explícito criar um gênio intelectual que iria assegurar a causa do utilitarismo e a sua implementação após a morte dele e de Bentham. James Mill concordava com a visão de John Locke a respeito da mente humana como uma folha em branco para o registro das experiências e por isso prometeu estabelecer quais experiências preencheriam a mente de seu filho empreendendo um rigoroso programa de aulas particulares.

Seus feitos em criança eram excepcionais; com a idade de três anos foi-lhe ensinado o alfabeto grego e longas listas de palavras gregas com os seus equivalentes em inglês. Com a idade de oito anos tinha lido as fábulas de Esopo, a Anabasis de Xenofonte, toda a obra de Heródoto, e tinha conhecimento de Lúcio, Diógenes Laërtius, Isócrates e seis diálogos de Platão (ver a sua autobiografia). Também tinha lido muito sobre a história de Inglaterra.

Um registro contemporâneo dos estudos de Mill desde os oito aos treze anos foi publicado por Bain, que sugere que a autobiografia está longe de exagerar o volume de trabalhos! Com a idade de oito começou com o latim, Euclides e álgebra e foi nomeado tutor dos membros mais jovens da família. As suas principais leituras eram ainda em história, mas ele leu também os autores em Latim e Grego lidos normalmente nas escolas e universidades do seu tempo. Com dezoito anos, descreveu a si mesmo como uma "máquina lógica" e, aos 21, sofreu uma depressão profunda. Ele levou muitos anos para recuperar a auto-estima.

A obra de seu pai "História da Índia" foi publicada em 1818, após o qual, com a idade de doze, John iniciou um estudo intenso de lógica, lendo os tratados de lógica de Aristóteles no original. Nos anos seguintes foi introduzido na economia política e estudou Adam Smith e David Ricardo com seu pai - tendo acabado por completar a teoria econômica dos fatores de produção destes.

Mill trabalhou na Companhia Inglesa das Índias Orientais, lidando com a correspondência rotineira referente à atuação do governo inglês na Índia. Aos 25 anos, apaixonou-se por Harriet Tylor, uma mulher linda e inteligente, porém casada, que veio exercer grande influência no trabalho de Mill. Cerca de vinte anos depois, quando seu marido faleceu, Harriet Tylor se casou com John Stuart Mill. Ele se referia a ela como "dádiva-mor da minha existência" e ficou inconsolável quando ela morreu sete anos depois.

Mill ficou horrorizado com o fato de as mulheres serem privadas dos direitos financeiros ou das propriedades e comparou a saga feminina à de outros grupos de desprovidos. Condenava a idéia da submissão sexual da esposa ao desejo do marido, contra a própria vontade, e a proibição do divórcio com base na incompatibilidade de gênios. Sua concepção de casamento era baseada na parceria entre pessoas com os mesmos direitos, e não na relação mestre-escravo.

Devido aos seus trabalhos abordando diversos tópicos, John Stuart Mill tornou-se contribuinte influente no que logo se transformou formalmente na nova ciência da psicologia. Ele combatia a visão mecanicista de seu pai, James Mill, ou seja, a visão da mente passiva que reage mediante o estímulo externo. Para John Stuart Mill, a mente exercia um papel ativo na associação de idéias.

John Stuart Mill morre em Avignon de erisipela infecciosa a 8 de Maio de 1873; repousa no mesmo túmulo da sua esposa, Harriet Taylor.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sab Out 24, 2009 9:11 pm

O Atalho dos Ninhos de Aranha (Italo Calvino)

Italo Calvino nasceu em Santiago de Las Vegas (Cuba), a 15 de Outubro de 1923, filho de pais italianos, que regressaram à Itália após o seu nascimento.
Durante a juventude foi forçado a integrar uma organização fascista chamada "Avanguardisti", participando na ocupação da Riviera Francesa.

Mudou-se para Turim, em 1941, e formou-se em Letras pela Universidade dessa cidade. Em 1943, participou no movimento anti-fascismo, alistando-se na Resistência Italiana, na Brigada Garibaldi. Foi um dos criadores do MUL (Movimento Universitário Liberal). Mais tarde, tornou-se membro do Partido Comunista Italiano, o qual abandonou em 1957, aquando da insurreição húngara. A sua carta de renúncia ficou famosa, bem como os relatos que escreveu aquando da sua visita à União Soviética.

Escreveu para diversos jornais e revistas entre os quais L'Unità, Il Politecnico, Rinascita (revista comunista), Il Contemporaneo (um jornal semanal marxista) e Italia Domani. Trabalhou na editora Einaudi como responsável por volumes literários.

Teve um contacto frequente com o mundo académico, nomeadamente na Universidade de Sorbonne (na qual conheceu Roland Barthes) e na Universidade de Urbino. Deslocou-se a várias cidades do mundo para dar palestras e recebeu inúmeros prémios, como a "Légion d'Honneur", em França, e o "Austrian State Prize for European Literature". Foi ainda feito membro honorário da Academia Americana.

Em 1985, Calvino faleceu em Sienna, no hospital de Santa Maria della Scala, vítima de acidente vascular cerebral.

Italo Calvino é considerado um dos escritores mais notáveis do século , contando-se entre as suas obras O Atalho dos Ninhos de Aranha (1947), Fábulas Italianas (1956), uma trilogia denominada Os Nossos Antepassados, constituída por O Visconde Cortado ao Meio (1952), O Barão Trepador (1957) e O Cavaleiro Inexistente (1959). É ainda de ressalvar as obras Amores Difíceis (1970) e As Cidades Invisíveis (1972). Este livro explora os limites da imaginação, através da descrição de cidades que é feita pelo narrador, o viajante italiano Marco Polo, nas suas conversas com Kublai Khan, Imperador da Mongólia. Discutem-se nesta obra uma grande variedade de tópicos, como a linguística e a condição humana.


Sinopse:

O primeiro romance de Calvino é exuberante, e traz uma história contada de modo franco e directo. Calvino narra a história de Pin, menino que vive no litoral da Ligúria, perto de San Remo (embora tenha crescido em San Remo, Calvino nasceu em Cuba)

Pin mora com a irmã, que é prostituta. Passa os dias numa taberna de má-fama, onde diverte com canções, insulta e provoca os adultos, raça de monstros no que lhe diz respeito e até onde ele saiba, mas é que não tem outra companhia, pois “é um menino que não sabe brincar, e que não consegue tomar parte das brincadeiras nem dos garotos nem dos adultos”. Pin sonha, contudo, em encontrar “um amigo, um verdadeiro amigo, que o compreenda e que ele posso compreender, e então, só para ele, Pin mostrará o lugar das tocas das aranhas”:

É um atalho pedregoso que desce para a torrente entre duas paredes de terra e grama. Ali, em meio à grama, as aranhas fazem suas tocas, uns túneis forrados de cimento de grama seca; mas o mais maravilhoso é que as tocas têm uma portinha, também feita daquela massa seca de grama, uma portinha redonda que pode ser aberta e fechada.

Pin junta-se aos guerrilheiros nas colinas acima da costa da Ligúria.

Embora Calvino consiga fazer-se evidente na pele da criança ultrajada e ultrajante, insultada e insultuosa, ofendida e ofensiva, provocada e provocadora, os homens e mulheres que cria são quase sempre sombrios. Mais tarde, ao longo da carreira Calvino acabará eliminando tanto homens quanto mulheres, à medida que vai recriando o cosmos. Enquanto isso, de início é um escritor ardente, intenso, expressivo, se não é aqui e ali algo canhestro. Ao longo de dois terços da narrativa ele desloca o ponto de vista de Pin para um par de comissários, personagens que teriam sido mais eficazes tivesse o autor observado ambos pelo lado de fora.

Depois, confusamente, mais uma breve mudança de foco narrativo, agora para a mente de um traidor prestes a ser fuzilado. Por fim, a voz narrativa retoma o ponto de vista de Pin, bem na hora em que o garoto encontra o tão aguardado amigo, um jovem guerrilheiro chamado Primo, que o leva pela mão não apenas literalmente, mas, ao que se presume, pelo resto do tempo de que Pin ainda precisa para virar adulto.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Nov 19, 2009 5:51 pm

A História me Absolverá (Fidel Castro)

O livro "A História me Absolverá" é considerado um valioso documento histórico e um dos textos mais importantes para compreensão da conjuntura histórica que antecedeu a Revolução Cubana. Trata-se da íntegra do discurso de defesa de Fidel Castro frente ao Tribunal de Excepção do governo de Fulgêncio Batista, por ocasião do julgamento que Fidel foi submetido pela ditadura cubana, após ter liderado o levante ao quartel e Moncada (tentativa de derrubar Fulgêncio Batista), em 26 de julho de 1953.

Segundo o próprio Fidel, não se trata de um texto de literatura revolucionária marxista, e sim um discurso em defesa da democracia, contra a injustiça social, a corrupção e violência policial que marcaram a vida de Cuba anos antes da revolução.

Nesse sentido, o livro resgata de forma detalhada a história de Cuba pré-revolucionária, não só no período da ditadura de Batista como das épocas que o antecederam, fornecendo assim, dados necessários para o enriquecimento das discussões sobre o fenômeno político cubano hoje, cujo interesse cresce dia a dia em nosso país e no resto do mundo.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Seg Nov 23, 2009 7:49 pm

História Universal da Pulhice Humana (José Vilhena)

A sua “História Universal da Pulhice Humana” é das abordagens mais sérias sobre a sociabilização do Homem, a maneira como a política e a religião se têm unido aos ricos e aos poderosos para tramarem a restante humanidade.

Vilhena iniciou a sua actividade como publicista em 1956 com três colectâneas de cartoons de sua autoria. Seguiu-se o memorável "Manual de Etiqueta" (1959), seu primeiro livro de textos humorísticos e, logo após, os primeiros de uma longa sucessão de colectâneas de cartoons ou de textos alheios com capas suas e, por vezes, também ilustrações interiores. Em 1960 publicou "Pré-História", primeiro volume da sua História Universal da Pulhice Humana, com o qual iniciou uma série de sucessos editoriais comprovados pela abundância de cópias hoje disponíveis nos alfarrabistas.

Com uma rara visão global do conjunto da sua obra (e do espírito de coleccionismo dos seus leitores) Vilhena introduziu, em meados dos anos 60, um sistema de numeração incluindo todas as edições já passadas.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Jan 13, 2010 2:49 pm

Sábado sem Sol (Romeu Correia)

Romeu Correia (17 de novembro de 1917- 12 de junho de 1996) nasceu e faleceu em Almada.

Foi escritor e dramaturgo autodidacta, colaborou em várias publicações, de que se destacam o Suplemento Cultural de O Comércio do Porto, Vértice e Sílex. Recebeu, entre outros, o Prémio 25 de Abril atribuído pela Associação de Críticos Teatrais em 1984.

Destacou-se como ficcionista e dramaturgo, inserindo-se inicialmente na corrente Neo-realista. As suas obras, marcadas por uma forte ligação às fontes da literatura oral popular, decorrem frequentemente em ambientes como os do circo, das feiras, do teatro de fantoches ou outros grupos marginais à sociedade. A estas características aliam-se, porém, técnicas dramáticas do teatro de vanguarda. Foi, nos últimos anos da sua vida, o dramaturgo mais representado por grupos amadores de teatro em Portugal.

Paralelamente à carreira de escritor, Romeu Correia foi Atleta de alta competição em Atletismo e Campeão Nacional de Boxe amador. Casou em Outubro de 1942 com Almerinda Correia, uma futura campeã nacional de Atletismo.

Recebeu, em 1962 e 1975, o prémio Casa da Imprensa (na altura conhecido como o prémio Óscar da Imprensa); em 1984, o Prémio de Teatro 25 de Abril, da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro; e, pela peça O Vagabundo das Mãos de Oiro (1962), o Prémio da Crítica. Escreveu ainda, entre outras peças, Casaco de Fogo (1953), Bocage (1965), Grito no Outono (1980), Tempos Difíceis (1982), O Andarilho das Sete Partidas (1983) e A Palmatória (1995). No dia 4 de Novembro de 1958 a sua peça Céu da Minha Rua foi transmitida em directo pela RTP com Amália Rodrigues a estrear pela primeira vez como actriz.

Muitas das suas obras foram traduzidas em Chinês, Húngaro, Checo, Alemão, Russo e Braille. A sua obra foi algumas vezes alvo de estudos catedráticos, tendo sido distinguido por algumas Universidades em todo o mundo (Universidade de Viena de Áustria por exemplo). Em 1996, na Universidade de Grenoble (França) foi concluída uma tese de Doutoramento sobre toda a sua obra.

A sua biografia pode ser encontrada nos mais completos e importantes dicionários de autores do Mundo como The International Authors and Writers Who's Who (Cambridge-Inglaterra); Who's who in the World (Chicago- Estados Unidos da América); Who's Who in Europe (Amesterdão - Holanda); ou Dictionary of International Biography (Cambridge - Inglaterra).
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sex Mar 05, 2010 7:30 pm

Regresso a Peyton Place (Grace Metalious)

Sinopse:

No verão de 1939, chega à pequena comunidade de Peyton Place, na Nova Inglaterra, Michael Rossi, um professor Ph.D, com idéias educacionais avançadas, para assumir o cargo de diretor do Colégio local.

A população da pequena comunidade parece ser composta de pessoas sem maiores problemas, de pessoas felizes. Todos freqüentam a Igreja, passeiam e fazem compras nas lojas da Praça central. Por trás dessa tranqüila atmosfera, entretanto, muitos segredos se escondem:

Allison é filha bastarda de Constance MacKenzie, fruto de uma relação da mãe com um homem casado. Sua mãe conseguiu ilegalmente mudar sua certidão de nascimento, de modo que, ao chegar à Peyton Place, contou para todos que seu marido havia morrido. Sem conhecer a verdade sobre o pai, Allison beijava seu retrato toda manhã antes de sair para o colégio. Enquanto criança, nunca teve interesse nos garotos, estando sempre às voltas com os livros. Com a adolescência, surgem as emoções de seus primeiros conflitos sexuais. Ela passa a sair com o jovem Norman Page, um adolescente sensível e inseguro, que vive com a mãe, a Sra. Evelyn, uma mulher extremamente dominadora. Quando as fofoqueiras da cidade dizem para sua mãe, Constance, que ela fora vista nadando nua com Norman, as duas se confrontam, ocasião em que Allison termina sabendo toda a verdade sobre seu pai. Após ser graduada no colégio, viaja para Nova York a fim de tentar a carreira de escritora, de onde regressa para ajudar sua melhor amiga, Selena Cross, quando esta é acusada de ter assassinado seu padrasto.

Quanto à Constance, ela é uma mulher bastante atraente, proprietária de uma loja de roupas. Com receio de ficar falada na cidade, sempre manteve em segredo o fato de ter tido um caso com um homem casado, que resultou no nascimento de sua filha, Allison. Quando o novo diretor do colégio, Michael Rossi, tenta uma maior aproximação, ela inicialmente o evita, face ao trauma que carrega do seu primeiro relacionamento amoroso.

Selena Cross é a melhor amiga de Allison. Com a mesma idade dela, é filha de uma empregada de Constance, Nellie Cross. Vive em uma modesta casa em companhia da mãe, de um irmão, Joey, e do padrasto, Lucas Cross, um homem violento e alcoólatra. Uma noite, ao voltar para casa, encontra seu padrasto sozinho e bêbado. Ele a ataca e a estupra, deixando-a grávida. Ao saber do ocorrido, Dr. Matthew Swain, o médico local, obtém uma confissão por escrito de Lucas e o expulsa da cidade. Em seguida, vê-se obrigado a fazer o aborto ilegal em Selena, o qual oficialmente é tido como uma apendicectomia. Selena passa a trabalhar na loja de Constance, onde se torna gerente quando sua mãe, acometida de câncer, se suicida. Em 1944, durante uma tempestade de neve, Lucas Cross, agora servindo na marinha americana, aparece bêbado na casa de Selena e avança contra ela. Ao tentar se defender, ela termina matando o padrasto. Com a ajuda do irmão, Joey, ela enterra o corpo no quintal. Selena é presa e vai a julgamento.

Outros relacionamentos ocorrem na pequena comunidade, como o caso de arrogante Rodney Harrington, que se casa com Betty Anderson, a garota namoradeira do colégio, o que é feito contra a vontade de seu pai, um rico e bem-sucedido homem de negócios.

O julgamento de Selena termina por expor os padrões de moral falidos de Peyton Place.


Última edição por Anarca em Ter Mar 23, 2010 8:34 pm, editado 2 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Mar 23, 2010 8:32 pm

O Atalho dos Ninhos de Aranha (Italo Calvino)

Sinopse:

«O Atalho dos Ninhos de Aranha, o primeiro romance de Italo Calvino, foi originalmente publicado em 1947. Considerado em geral, inclusive pelo autor, como um romance característico do neo-realismo italiano, este é no entanto um livro que reacende as questões ideológicas características desse ambiente, para se revelar como uma obra em que a cada página se evidencia uma capacidade poética que aproxima o romance do universo quase mágico da fábula.»

Italo Calvino nasceu em Santiago de Las Vegas (Cuba), a 15 de Outubro de 1923, filho de pais italianos, que regressaram à Itália após o seu nascimento.

Durante a juventude foi forçado a integrar uma organização fascista chamada "Avanguardisti", participando na ocupação da Riviera Francesa.

Mudou-se para Turim, em 1941, e formou-se em Letras pela Universidade dessa cidade. Em 1943, participou no movimento anti-fascismo, alistando-se na Resistência Italiana, na Brigada Garibaldi. Foi um dos criadores do MUL (Movimento Universitário Liberal). Mais tarde, tornou-se membro do Partido Comunista Italiano, o qual abandonou em 1957, aquando da insurreição húngara. A sua carta de renúncia ficou famosa, bem como os relatos que escreveu aquando da sua visita à União Soviética.

Escreveu para diversos jornais e revistas entre os quais L'Unità, Il Politecnico, Rinascita (revista comunista), Il Contemporaneo (um jornal semanal marxista) e Italia Domani. Trabalhou na editora Einaudi como responsável por volumes literários.

Teve um contacto frequente com o mundo académico, nomeadamente na Universidade de Sorbonne (na qual conheceu Roland Barthes) e na Universidade de Urbino. Deslocou-se a várias cidades do mundo para dar palestras e recebeu inúmeros prémios, como a "Légion d'Honneur", em França, e o "Austrian State Prize for European Literature". Foi ainda feito membro honorário da Academia Americana.

Em 1985, Calvino faleceu em Sienna, no hospital de Santa Maria della Scala, vítima de acidente vascular cerebral.

Italo Calvino é considerado um dos escritores mais notáveis do século XX, contando-se entre as suas obras O Atalho dos Ninhos de Aranha (1947), Fábulas Italianas (1956), uma trilogia denominada Os Nossos Antepassados, constituída por O Visconde Cortado ao Meio (1952), O Barão Trepador (1957) e O Cavaleiro Inexistente (1959). É ainda de ressalvar as obras Amores Difíceis (1970) e As Cidades Invisíveis (1972). Este livro explora os limites da imaginação, através da descrição de cidades que é feita pelo narrador, o viajante italiano Marco Polo, nas suas conversas com Kublai Khan, Imperador da Mongólia. Discutem-se nesta obra uma grande variedade de tópicos, como a linguística e a condição humana.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Dom Abr 11, 2010 12:28 am

Dez livros que mudaram o mundo

Stephen Hawking - Breve História do Tempo
Sigmund Freud - A Interpretação dos Sonhos
Karl Marx e Friedrich Engels - Manifesto do Partido Comunista
Homero - Odisseia
Bíblia
Alcorão
Platão - A República
Adam Smith - A Riqueza das Nações
Charles Darwin - A Origem das Espécies
António Damásio - O Erro de Descartes
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Seg Maio 10, 2010 12:46 pm

Principezinho - O livro francês mais traduzido de sempre atravessa gerações.

... E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, obtêm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me! ...

(Antoine de Saint Exuperry)
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Seg Maio 10, 2010 11:09 pm

Literatura para executivos...

Para quem não tem tempo para ler, e ouve os "pseudo-entendidos" a comentar as grandes obras literárias existentes, aqui vai uma ajuda para que possam calar esse vaidosos.

Leon Tolstoi - "GUERRA E PAZ" (1800 páginas)
Um rapaz não quer ir à guerra e por isso Napoleão invade Moscovo. A rapariga casa-se com outro.

Luís de Camões - "LUSIADAS" (várias edições)
Um poeta com insónias decide chatear o Rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas (logo resolvidos por uma deusa porreiraça), tem o justo prémio numa ilha cheia de gajas boas.

Gustave Flaubert - "MADAME DE BOVARY" (378 páginas)
Uma dona de casa engana o marido com o padeiro, o leiteiro, o carteiro o homem do talho, o merceeiro e um vizinho cheio de massa. Envenena-se e morre.

William Shakespeare - "HAMLET"
Um príncipe com insónias passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que dorme com mãe, cujo homem de confiança é o pai da namorada que entretanto se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio que tinha morto o pai do seu namorado e dormia com a mãe. O príncipe mata o tio que dorme com a mãe, depois de falar com uma caveira e morre, assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que se tinha suicidado.

NOVO TESTAMENTO ( 4 versões )
Uma mulher com insónias dá à luz um filho cujo pai é uma pomba, o filho cresce e abandona a carpintaria para formar uma seita de pescadores. Por causa de um bufo, é preso e morre.

PS - Se leram os livros e não concordam com os resumos, paciência...
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Seg Maio 31, 2010 1:48 pm

A YEAR IN THE MERDE (UM ANO EM FRANÇA)

Temos por hábito comprar sempre um livro para cada um na Feira do Livro da nossa terra.

Este ano, a minha filha escolheu o primeiro volume da colecção das W.I.T.C.H (mais ou menos o equivalente aos Cinco, aos Sete, às Gémeas ou ao Colégio das Quatro Torres da nossa época), o meu cara-metade “O Cavaleiro da Águia”, de um dos seus autores favoritos – Fernando Campos -, e eu escolhi este, não por ter um título em estrangeiro, mas porque se centrava na França, mais precisamente em Paris e nos parisienses.

Não me arrependi!

É um livro bem-humorado, escrito por um inglês residente há uns anos na cidade-luz, que relata a chegada e a socialização de um “bife” a Paris e aos seus peculiares habitantes.

Cheio de situações cómicas, é uma descrição hilariante da vida desta cidade, dos hábitos e das formas de estar dos parisienses.

Apesar da narrativa perder algum gás mais ou menos a meio do livro, recomendo este livro, sobretudo a quem goste ou tenha fascínio por Paris, tal como eu.

Este livro tem também o condão de nos mostrar que eles não são assim tão diferentes de nós, chegando a ser até piores em algumas situações e em formas de trabalhar.

Os emigrantes portugueses têm também direito a algumas linhas de texto, aparecendo a família Da Costa (ela, porteira, ele operário da construção civil, como não podia deixar de ser!).

(Vitor Cardoso)

PS – Não perca, numa livraria perto de si...
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Jul 13, 2010 12:59 pm

Sobre a prática e a contradição (Mao Tsé-Tung)

O Líder máximo da Revolução Chinesa, Mao Tsé-Tung produziu documentos em que esboçava uma teoria revolucionária de análise da realidade. Os escritos passaram a integrar o ideário da esquerda em um momento de grande efervescência social. Esta coletânea reúne textos de um dos maiores líderes políticos do século XX e desvenda alguns dos mistérios que cercam a construção de uma das potências mundiais do nosso tempo.

A série Revoluções apresenta escritos revolucionários clássicos, introduzidos por um escritor radical contemporâneo.

Para este livro o filósofo e sociólogo Slavoj Zizek escreveu uma apresentação surpreendente, que leva o leitor a refletir como este pensador continua a inspirar a produção de novas idéias. Zizek nasceu na capital da Eslovênia. Tornou-se internacionalmente conhecido pela radicalidade de suas análises sobre a cultura e a política no mundo contemporâneo.

SUMÁRIO

1. Uma só centelha pode iniciar um incêndio na pradaria

2. Opor-se à veneração por livros

3. Sobre a prática: sobre a relação entre conhecimento e prática, entre saber e fazer

4. Sobre a contradição

5. Combater o liberalismo

6. O povo chinês não pode ser intimidado pela bomba atômica

7. O imperialismo norte-americano é um tigre de papel

8. A respeito do livro de Stálin Problemas econômicos do socialismo na União Soviética

9. Crítica ao livro de Stálin Problemas econômicos do socialismo na União Soviética

10. Sobre o modo correto de lidar com as contradições em meio ao povo

11. De onde vêm as idéias corretas?

12. Conversa sobre questões de filosofia

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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Jul 14, 2010 7:23 pm

Alentejo Desencantado (Mário Ventura)

Alentejo Desencantado é um livro esquecido sobre o Alentejo, um exemplar livro de viagem ao fim do Alentejo profundo. Escrito ao volante, ou pelo menos condicionado pelas contingências do percurso, pela curva da estrada e pelos imprevistos que fazem de toda a viagem uma aventura para lá do horizonte. Trata-se do singular Alentejo Desencantado, do escritor Mário Ventura. É um relato vivo, descarnado e afectuoso, sobre a realidade do Alentejo, para lá do neo-realismo, mas ainda condicionado pelos axiomas desse movimento literário. Publicado em 1969, traduz no título e na amargura da escrita, uma visão crítica, com marcas naturalmente também políticas, de uma vasto território abandonado e subdesenvolvido: o Alentejo desencantado.

Lembro-me deste livro na modesta biblioteca da casa. Numa edição despojada, com a chancela do Círculo de Leitores, por cortesia da Bertrand e com data de 1974. Não foi a primeira obra de Mário Ventura, mas parece ter marcado bastante a sua imagem de escritor e parte da sua produção.

O livro interessa-me por outro motivo, este estritamente pessoal: foi a primeira vez que li sobre alguma coisa que tinha visto e conhecido, sobre alguém ou alguma coisa de que tinha tido alguma experiência directa. O relato da viagem ao Alentejo transcorre pela ampla geografia, pelas terras e pelas pessoas, recolhendo da tradição oral e da paisagem esmagadora, e a certa altura, numa das curvas do terreno, já ao anoitecer, o escritor viajante chega a uma terriola perdida com um nome pitoresco: Oriola. Um capítulo inteiro é-lhe dedicado - Cantares na Aldeia Ignorada de Oriola. A terra começa por surpreender o escritor. Como me surpreendia a mim, quando lá passava temporadas na infância. É a terra do meu pai, dos meus avós e também a mim me marcava aquela estranha simetria das ruas de pedra polida pela usura, a limpeza de tudo, e uma finura espartana que era então possível detectar nos seus habitantes silenciosos. Sobretudo essa simplicidade. Espartano... é o único adjectivo que serve para designar a memória que ainda conservo daquelas pessoas e daquele lugar.

E o senhor Tomé. O rotundo senhor Tomé, corpulento e incontornável naquela terra perdida. Foi na loja do senhor Tomé, numa plateia improvisada por ele, frente a uma televisão alimentada por um gerador a petróleo [como cheirava bem aquele petróleo de consumo caseiro, de magnífica cor rosada]... que vi o directo da primeira visita do papa Paulo VI a Fátima. O gerador falhava, o tubo por onde corria o combustível entupia regularmente, deixando cair a emissão por instantes, até que o senhor Tomé, com paciência pastoral, lá vinha remediar a situação.

Anos depois "li" o senhor Tomé, com a mesma corpulência que tanto impressionou o escritor viajante, nas páginas do seu Alentejo Desencantado. Voltei frequentemente a estas páginas, para confirmar o espanto de ler sobre o senhor Tomé. Quase um personagem literário, um Falstaff da planície...
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sex Jul 16, 2010 5:03 pm

Alocução aos Socialistas (António Sérgio)

Oficial da marinha até 1910, quando se demite, em protesto contra a implantação da república.

Colabora em A Águia, que logo abandona. Companheiro de Raúl Proença. Polemiza contra o saudosismo. Estuda em Genebra, entre 1914 e 1916, no Instituto Jean-Jacques Rousseau, sendo aí profundamente influenciado pelos modelos pedagógicos de John Dewey.

Funda com Francisco Reis Santos e Pedro José da Cunha a Liga de Acção Nacional durante o sidonismo e edita a revista Pola Grei, onde defende um governo nacional, colaborando com Ezequiel de Campos.

Exila-se no Brasil até 1923. Aí edita o primeiro volume dos Ensaios. Director da Seara Nova. Ministro da Instrução Pública no governo de Álvaro de Castro, de 18 de Dezembro de 1923 a 23 de Fevereiro de 1924. Um dos principais ideólogos da Seara Nova.

Várias vezes exilado depois de 1926, foi um dos principais líderes intelectuais da oposição ao salazarismo. Defensor do racionalismo cartesiano. Em 1926, exilado em França, integra a Liga de Defesa da República. Regressa a Portugal apenas em 1933.

Em Junho de 1934 assume as funções de director-delegado da revista Seara Nova. Faz também parte da direcção da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Em 1939 abandona a Seara Nova, em discordância com Câmara Reis.

Participa activamente no MUNAF em 1943. Em 1946 milita no MUD, tornando-se vice-presidente da respectiva Junta Consultiva. Em 1947 tenta criar um Partido Socialista, autónomo face à SPIO, do velho partido fundado em 1875, escrevendo então Alocução aos Socialistas, data de 1 de Maio do mesmo ano.

Em 1950 funda o Directório Democrato-Social. Inspirador das candidaturas de Quintão Meireles e de Humberto Delgado. Em 1958 é preso juntamente com Mário Azevedo Gomes, Jaime Cortesão e Francisco Vieira de Almeida, por causa do convite dirigido ao deputado trabalhistas Bevan para visitar Portugal.

Fica incapacitado a partir de 1961, em virtude de uma grave doença psiquíca.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Jul 20, 2010 5:59 pm

O Amante de Lady Chatterley (D.H. Lawrence)

I - INTRODUÇÃO

No presente trabalho analisaremos a obra "O Amante de Lady Chatterley" de D.H.Lawrence. Quando foi publicado pela primeira vez na Inglaterra, o livro despertou uma grande polêmica. Acusado de pornográfico, ficou proibido naquele país por três décadas. Apesar disso, foi traduzido e publicado em diversos países. Antes mesmo de ser reabilitado na Inglaterra foi reconhecido como um marco na história da literatura inglesa. Por isso, seu estudo é indispensável.

Ao longo do presente trabalho procuraremos demonstrar que ela não é pornográfica, que a proibição de "O Amante de Lady Chatterley" na Inglaterra deve ter ocorrido em razão de outros motivos (provavelmente políticos). Para tanto faremos uma criteriosa análise da obra a partir de seus elementos constitutivos, especialmente da linguagem empregada.

Feitas estas advertências iniciais, advertimos o leitor que ao adentrar no universo criado por D.H.Lawrece deverá deixar do lado de fora seus preconceitos. Senão, não será capaz de compreender o valor literário da obra.

II - BIOGRAFIA

David Herbert Lawrence nasceu em 1885 em Eastwood, perto de Nottingham. Filho de um homem rude que se entregava a bebedeiras e uma ex-professora muito refinada, Lawrence cresceu num ambiente de conflitos conjugais.

A carreira escolar de David foi exemplar. Na escola secundária de Nottingham foi premiado em matemática, francês e alemão. Logo passou a dominar também o italiano e o espanhol.

Aos dezessete anos pegou uma pneumonia que arruinou sua saúde. Pelo resto da vida Lawrence teria que lutar contra a tuberculose. Foi durante a convalescença que começou a escrever e a aperfeiçoar seus conhecimentos literários. Durante este período manteve uma ligação platônica com Jessie Chambers.

Em 1902 tornou-se mestre-escola. Em 1905 foi admitido na Universidade de Nottingham e começou a escrever seu primeiro romance, O Pavão Branco, sendo obrigado a interromper o trabalho.

Em 1908 Lawrence parte para Croydon, onde assume um posto na escola primária. Lá conquista a confiança dos colegas e retoma o romance inacabado. O Pavão Branco é publicado em 1911 e Lawrence conquista seus primeiros admiradores: George Eliot e Thomas Hardy.

Em 6 abril de 1912 Lawrence conhece Frieda von Richtofen, esposa de Weekey. Em 03 de maio, menos de um mês depois, eles partem juntos para Metz, na Alsácia Lorena. Pouco depois o casal parte para a Itália, onde fixa residência. No dia 08 de junho de 1914, depois de receberem a notícia de que Weekley concedeu o divórcio, Lawrece e Frieda partem para Londes, onde se casam aos 13 de junho daquele mesmo ano.

Com o início da I Guerra as coisas se complicam. Frieda é posta sob vigilância e Lawrence passa a ser humilhado. O casal refugia-se no campo e passa por dificuldades econômicas. Seu novo livro, The Rainbow, é condenado e apreendido alguns meses mais tarde.

Instalados na Cornualha, Lawrece e Frieda são acusados de espionagem e expulsos de lá no fim de 1917. Retornam a Londres. A guerra chegou ao fim mas o casal continua vigiado em virtude das declarações do escritor no sentido de que o conflito foi o suicídio da Europa. Em 1919 viajam para Itália, mas são mal recebidos em Roma. Passam por Capri e Taormina, na Sicilia, onde ficam dois anos intercalados por uma longa viagem para a Alemanha, Áustria e Itália de abril a
setembro de 1921.

Ainda em 1921, sob encomenda da Oxford University Press, Lawrence escreve Movimentos na História da Europa. O livro é publicado sob o pseudônimo de Lawrence H. Davidson em razão da violenta crítica ao romance Mulheres Apaixonadas também de sua autoria.

Ceilão, Austrália, Novo México, EUA o casal Lawrence e Frieda perambula pelo mundo. Nesse período o escritor estuda Freud e Jung e escreve Psicanálise e Inconsciente, sua visão pessoal e sem rigor científico das teorias de Freud e discípulos .

O Amante de Lady Chatterley foi publicado em 1928. Criticado pela imprensa inglesa, o romance foi proibido na Inglaterra. A proibição duraria 32 anos. Com a saúde abalada, o escritor é levado para a ilha de Port-Gross pelo amigo Richard Aldington. Em março de 1929 viaja para Paris instalando-se na casa do amigo Aldous Huxley e conseguindo
publicar uma versão popular do romance. A saúde de Lawrence piora. Depois de passar alguns dias com Huxley na Ligúria, parte para Florença. Logo depois parte para o sanatório de Vence, onde falece aos 02/03/1930 com apenas 44 anos.

III - RESUMO DA OBRA

Constance, uma mulher educada com liberdade e que teve sua primeira experiência sexual antes do casamento, casa-se com um aristocrata conservador. O relacionamento sexual do casal é insatisfatório e dura pouco tempo. Logo depois do casamento Clifford vai para a guerra e retorna aleijado e impotente.

Após a convalescença do esposo, o casal retorna a Wragby Hall, a mansão do baronete próxima de suas minas de carvão. A atmosfera local, a impotência do marido, oprimem de tal maneira Lady Chatteley que ela acaba envolvendo-se com um escritor que freqüentava os sarais literários patrocinados pelo marido. Todavia, Michaelis sofre de ejaculação precoce, trata-a sem carinho e ela afasta-se dele.

Lady Chatterley adoece, vai tratar-se em Londres e retorna a Wragby Hall. Como Clifford acostumou-se à companhia da enfermeira contratada para cuidar dele na ausência da esposa, Lady Chatterley começa a passear na floresta encontrando Mellors. O guarda caça de Clifford tenta mas não consegue evitar qualquer tipo de intimidade com a patroa. Em pouco tempo a senhora de Wragby e o empregado passam relacionar-se afetiva e sexualmente. O amor entre ambos rapidamente cresce em intensidade. À medida que Constance afasta-se de Clifford ele vai se tornando mais intimo da Sra. Bolton.

Constance engravida de Mellors e a Sra. Bolton insinua na vila que o filho não é do seu esposo. Antes do escândalo tomar corpo, Lady Chatterley viaja com a irmã e o pai para Veneza, onde deveria tomar um amante e engravidar para dar um herdeiro ao baronete. Isto é feito com a expressa autorização de Clifford. Mellors a princípio não concorda com a simulação mas cede aos desejos da amante para manter as aparências, pois tem receio que descubram o relacionamento entre ambos.

Enquanto Constance está fora o circo pega fogo. A esposa de Mellors retorna para cabana disposta a retomar o casamento e é rejeitada. O guarda-caça refugia-se na casa da mãe e Constance é avisada por Clifford e pelo amante. Mellors discute com Clifford sendo despedido. Lady Chatterley retorna a Londres para encontrar o amante e depois dirige-se a Wragby a fim de comunicar ao marido que pretende separar-se dele. Clifford recusa-se a conceder o divórcio à esposa. No final os dois casais tem destinos bem diferentes.

Clifford e a Sra. Bolton dividem o mesmo espaço e mantém um relacionamento afetivo similar ao de mãe e filho.

Constance e Mellors guardam distância para manter as aparências até estarem em condições de assumir definitivamente seu relacionamento.

IV - ESTRUTURA DA OBRA

Para fins didácticos, toda obra literária pode ser dividida. No presente trabalho optamos pela técnica referida por Yves Reuter, Introdução à Análise do Romance, Martins Fontes, 1ª edição, 1996 .

Estado inicial Clifford e Constance levam uma vida sem sobressaltos em Wragby. O baronete, que ficou aleijado em virtude de um ferimento de guerra, dedica-se à literatura e aos saraus literários com escritores que freqüentam sua mansão. Constance, que já tinha experiências sexuais antes do casamento, envolve-se com Michaelis, mas logo abandona o escritor em virtude da frustração. Adoece, viaja para Londres onde submete-se a tratamento, retorna à propriedade do marido e começa a afastar-se dele. (Cap. 1 a 9)

Complicação Em seus passeios pela floresta, Constance reencontra o guarda-caça Mellors, um homem solitário que procura levar uma vida tranquila longe das mulheres. A princípio ele resiste aos encantos de Lady Chatterley, mas como ela insiste em visitar a cabana onde ele cuida dos faisões do marido ocorre o inevitável. Em pouco tempo os dois acabam por se tornar amantes (Cap. 10).

Dinâmica À medida que o amor de Constance e Mellors aumenta, Clifford passa a ter mais intimidade com a enfermeira contratada para cuidar dele. Constance engravida de Mellors e, com a autorização do marido, viaja para Veneza a fim de arrumar um amante para dar um herdeiro ao baronete. Clifford ainda não sabe que seu empregado será o verdadeiro pai da criança. Mellors resiste à idéia da amante de evitar que o esposo saiba que ele é o pai da crianca, mas acaba cedendo. A Sra. Bolton espalha na vila que Lady Chatterley está grávida e tem certeza de que Clifford não será o pai. Enquanto Connie está viajando o escândalo toma corpo e Mellors é despedido (Cap. 10 a 18).

Resolução Constance decide separar-se definitivamente de Clifford, retorna a a Wragby para pedir o divórcio. Todavia o marido recusa-se a concedê-lo ao saber que o amante dela é o guarda-caça (Cap. 19)

Estado final Constance volta para a Escócia na companhia da irmã. Em Londres, Mellors aguarda o divórcio da esposa para poder unir-se definitivamente à amante. (Cap. 19)

V - PERSONAGENS

PROTAGONISTAS

Constance "...era uma jovem com a saúde das camponesas, corpo vigoroso, movimentos lentos, cabelos escuros e caráter bastante enérgico. Olhos grandes e curiosos, voz macia - dava idéia de recem-chegada da aldeia natal." (Cap. 1)

"Seios pequenos, levemente caídos, na forma de pêra, dando ar de imaturos e tristes por falta de significação. Seu ventre perdera o arredondado fresco e brilhante da juventude, do tempo do moço alemão que a havia verdadeiramente amado. Seu corpo era naquele tempo jovem e cheio de promessas de personalidade. Agora afrouxava. As coxas também, outrora tão ágeis e móveis em suas curvas femininas, perdiam a graça esgalgada." (Cap. 7)"

Connie é oriunda de uma família abastada. Teve uma educação livre e conheceu o amor físico antes mesmo do casamento. A intimidade entre ela e seu primeiro namorado foi maior que a que tinha com o esposo:-

"E deram-se cada um ao rapaz com quem mais ardorosamente debatiam sobre o amor. A discussão era o principal; o amor físico não passava de uma espécie de retorno ao instinto, espécie de reação." (Cap. 1)

"A intimidade entre dos dois lembrava a de passageiros dum navio que vai indo ao fundo." (Cap. 1)

"Havia e não havia intimidade entre ambos. Havia intimidade espiritual, mas nenhuma corporal. Eram íntimos que não se tocavam." (Cap. 2)

Constance sente-se infeliz em razão da impossibilidade de realizar-se sexualmente no casamento. Apesar disso, é uma mulher muito segura. O bastante para receber Michaelis na saleta do terceiro andar de Wragby criando as condições para o escritor possuí-la (Cap. 3) e para visitar a cabana em que Mellors cuidava dos faisões possibilitando o envolvimento entre ambos (Cap. 10). Nas duas oportunidades Connie aproveitou-se da impossibilidade do esposo seguí-la para conseguir o que desejava.

Ao longo da narrativa a conduta de Constance se modifica sensivelmente. Até envolver-se sexual e emocionalmente com Mellors, Lady Chatterley não havia tido um relacionamento pleno com um homem. Quando o consegue afasta-se progressivamente do marido até abandoná-lo para ficar definitivamente com o amante. Ela é, portanto, uma personagem redonda.

Mellors "... Tinha qualquer coisa de Tommy Dukes, pensou Constance." (Cap. 5)

"...Não era muito vigoroso. "Mas bastante cheio de vida e rijo", advinhou o instinto feminino de Constance." (Cap. 4)

Mellors difere de todas as outras personagens masculinas. Filho de um mineiro, casou-se muito jovem, teve uma filha e separou-se partindo para as Colônias onde chegou a tenente do Exército (Cap. 8/14). Após a morte do Coronel que nomeou-o oficial, retornou para Tevershall e empregou-se como guarda-caça de Clifford. Homem solitário, avesso ao convívio social, procura levar uma vida sem sobressaltos junto a natureza. Mellors dá pouco valor ao dinheiro, desdenha tanto as classes alta e média quanto a classe operária, procurando levar uma vida pautada nos ideais estóicos (Cap. 10). A princípio, não pretende envolver-se com mulher alguma.

"Mellors não desejava de maneira alguma entrar em contato com uma mulher, tanto os contatos anteriores lhe abriram na alma feridas difíceis de fechar. Se não pudesse ficar completamente só no mundo, certamente morreria. Desligara-se em absoluto do mundo exterior. Seu último refúgio era a floresta - era aquele esconder-se dentro das árvores." (Cap.

Não era um homem muito requintado ou bonito, mas muito atraente:-

"Nudez perfeita, pura, solitária, dum ser que vive só e sempre consigo mesmo. Além disso, uma certa beleza pura. Beleza não, talvez, mas a irradiação, a chama quente, branca, de uma vida solitária a revelar-se em contornos que podiam ser tocados: um corpo." (Cap. 6)

Sincero, Mellors chega a ser indelicado. Não sem uma pitada de ironia. Apesar de dominar perfeitamente o inglês, prefere usar um dialeto vulgar.

"Constance olhou-o nos olhos, procurando compreender o que ele dizia naquele nevoeiro de dialeto.
- Por que não fala inglês como toda gente?
- Eu? Julgo que falo o inglês de toda gente." (Cap.

"- Por que fala nesse patoá de Yorkshire?
- Não é de Yorkshire, é o de Derby - respondeu Mellors, com seu sorriso irônico e distante.
- Pois seja, por que fala nesse patoá de Derby? No começo recebeu-nos com o inglês de toda a gente.
- Sim? E não posso mudar, se isso me apraz? Não, não. Deixem-me falar no patoá de Derby, se isso me dá gosto. Creio que não há objeções contra.
- Parece-me um pouco afetado - disse Hilda.
- Talvez. Mas em Tevershall seria a senhora a afetada." (Cap. 16)

Ao contrário de Mick, em matéria de amor Mellors não é exigente. Aceita o que Constance pode proporcionar-lhe:

"As palavras de Mellors não a consolaram. Os seus soluços aumentaram.
- Não, não - disse ele. - Temos de aceitar o trigo e a palha. Desta vez tivemos a palha." (Cap. 12)
Mellors também é uma personagem redonda. A princípio recusa-se a ter qualquer envolvimento com uma mulher e prefere viver isolado. Depois de conhecer Constance passa a relacionar-se sexual e afetivamente com ela passando a encarar a vida em sociedade com um pouco mais de otimismo.

ANTAGONISTA

Para consumar sua união os protagonistas tem que vencer as convenções sociais. Logo, o antagonista não é um personagem claramente identificável, mas as referidas convenções sociais.

PRINCIPAIS

Clifford "Mostrava-se, porém, cheio de vivacidade, jovial, quase alegre, de tez fina, aspecto geral de saúde, olhos azuis, brilhantes e provocadores. Trajava-se com apuro, sobretudo nas gravatas. Apesar disso tinha o olhar tresnoitado e o ar ausente dos estropiados." (Cap. I)

"...era o tipo do homem varonil, de ombros largos, tez quente. Sua voz tranqüila e seu olhar às vezes cheio de audácia revelavam-lhe a natureza íntima. Mas nos modos oscilava entre hostilidade orgulhosa e humildade quase tímida." (Cap. 2)

Clifford é um homem rico e poderoso. Senhor de Wragby, da mina e da vila, casou-se com Constance e logo depois foi para a guerra retornando mutilado. Sua ligação com a esposa tem importância apenas espiritual (Cap. 4). E não poderia ser de outra forma pois ele ficou impotente e preso a uma cadeira de rodas em virtude da mutilação. Após recuperar-se das lesões, passou a dedicar-se à literatura chegando a fazer sucesso apesar de ser um escritor menor:-

"Clifford tinha a habilidade literária de analisar com humorismo as gentes, dissecá-las, descobrir o motivo das ações humanas e por fim reduzir tudo a pedaços. Mas não é isso o que os cães de luxo fazem com as almofadas? Só que não era novo e nada tinha de travessura; antes, estranhamente velho e obstinadamente vaidoso." (Cap. 5)

Incentivado pela Sra. Bolton, Clifford abandona a literatura e entrega-se de corpo e alma à administração da mina (Cap. 9). O baronete é tradicionalista, aristocrático, capaz de admitir que a esposa tenha um filho de outro homem:-

"- Seria quase desejável que você tivesse um filho de outro homem..." (Cap. 5)

O baronete mantém sua conduta infantil do início ao fim da narrativa. Trata-se de uma personagem rigorosamente plana.

Sra. Bolton "... era uma criatura muito atenciosa, que falava com bastante sotaque um inglês pesadamente correto e, pelo hábito de tratar crianças durante anos, adquirira ótima opinião sobre si mesma e muita convicção. Uma respeitabilíssima representante da classe dirigente da aldeia." (Cap. 7)

"...tinha este curioso gosto pela dominação, essa infinita urgência de afirmar-se, que é um dos signos da loucura nas mulheres modernas. Julgava-se devotada de corpo e alma aos outros." (Cap.

"...Gostava dos mineiros, dos quais tratara muito tempo; mas sentia-se muito superior a eles. Sentia-se quase da classe alta..." (Cap. 7)

A enfermeira contratada para cuidar de Clifford ficou viúva há vinte e dois anos (Cap. 7). Tem duas filhas adultas e acredita que todos os homens não passam de bebes (Cap. 9). Rapidamente conquista a confiança e a atenção de Clifford, que passa a sentir-se muito a vontade em sua companhia:-

"A Sra. Bolton fazia tudo para Clifford, o qual se sentia mais a gosto com ela do que com a esposa..." (Cap. 9)

Nas entrevistas com o baronete, Sra. Bolton entrega-se de corpo e alma a sua atividade predileta:- fofocar sobre a intimidade dos habitantes de Tavershall (Cap. 9). É ela que espalha a notícia de que Constance estava grávida levantando suspeitas quanto a paternidade da criança:-

"... Vieram as amigas vê-la, a professora da escola, a mulher do farmacêutico, a Sra. Weedon, a mulher do contador. Depois de muito admirado e gabado aquilo, a conversa recaiu sobre Lady Chatterley - no filho que ia ter.
Mas a Sra. Bolton estava convencida de que, se tal milagre sobrevisse, não seria obra de Sir Clifford. Evidente..." (Cap. 11)

Apesar de seus defeitos, a enfermeira é dona de um interessante bom senso. Quando Clifford pergunta a ela se existem muitos bolchevistas na aldeia ela responde:-

"... Os moços inclinam-se um pouco, mas só na superfície. Tudo quanto querem é dinheiro para o cabaré e as corridas. Só quando não têm dinheiro é que vão ouvir os belos discursos dos vermelhos. Mas, no fundo, ninguém crê nisso." (Cap. 9)

"...Por isso não vejo como possa vir o bolchevismo, porque tudo quanto os moços querem é dinheiro para diversões, roupas... e o mesmo se dá com as moças." (Cap. 9)

Ao contrário do cinismo de Mick, do sensualismo intelectual de Dukes, do estoicismo de Mellors e do conservadorismo de Clifford, a Sra. Bolton tende a manter um certo cepticismo.

"... Parece que muito cedo os homens não terão vez na face da terra. Tudo serão máquinas. Mas dizem que isso é o que o povo dizia quando teve de renunciar às antigas instalações industriais. Eu me lembro de uma ou duas. Mas parece que, quanto mais máquinas, tanto mais gente. Dizem que se podem tirar do carvão de Tevershall os mesmos produtos de Stacks Gate; é engraçado, Stacks Gate não dista nem três quilômetros daqui. Mas é o que dizem." (Cap. 9)

A Sra. Bolton trata os homens como se fossem crianças durante toda obra. Sem dúvida alguma é uma personagem plana. Optamos por considerá-la uma personagem principal por um único motivo. Ela forma com Clifford o casal doentio que rivaliza com o saudável casal Mellors/Constance.

SECUNDÁRIAS

A princípio, devemos alertar que todas as demais personagens da obra são planas. Suas condutas são invariáveis.

Sir Malcolm "...cheio de corpo, mas não muito. Coxas fortes, sólidas e ainda ágeis; coxas dum homem que não recusava nenhum prazer da vida. Seu egoísmo, seu bom humor, sua tenaz necessidade de independência, sua insaciável sensualidade - tudo ela como que via em suas coxas ágeis e firmes. Um homem de verdade! Mas envelhecia, o que era muito triste. Mas em suas pernas vigorosas, espessas, másculas, havia algo desse vivo poder de emoção e ternura que é a própria essência da mocidade e não se apaga nunca." (Cap. 17)

O pai de Connie é um homem sensual e aberto. Proporcionou uma educação livre à filha e até sugeriu-lhe que tomasse um amante para compensar a incapacidade de Clifford de amá-la:

"- Por que não procuras um amante, Constance?" (Cap. 3)

Michaelis "...não era inglês. Nada nele afinava com o inglês verdadeiro, nem seu rosto pálido, nem seu rancor de alma. Michaelis era todo ressentimento e rancor, o que não escapava aos olhos advertidos dos gentlemem que timbram em não deixar transparecer seus sentimentos. Mas o pobre Michaelis havia recebido muitos pontapés, circunstância que lhe dava aqueles modos de rabo entre as pernas. Rompera caminho unicamente levado pelo instinto; a desfaçatez cínica o pusera na frente do palco." (Cap. 3)

O primeiro amante de Lady Chaterlley é um homem atirado, cínico e dissimulado. Escritor de sucesso, a convite de Clifford passou a freqüentar Wragby. Aproveitou-se da primeira ocasião que teve para manter relações sexuais com Lady Chatterley na casa do amigo, o qual depois encarou como se nada tivesse acontecido. Entretanto, Michaelis tinha um defeito terrível:

"... Tinha o coito muito rápido, acabava depressa e abandonava-se sobre seus seios, deixando-a desapontada, perdida." (Cap. 3)

Apesar de refinado e polido, Mick é exigente, grosseiro e cruel. Além disso, é incapaz de admitir suas própria deficiências:

" - Todas as mulheres são as mesmas - disse por fim. - Ou não gozam, como se fossem estátuas, ou esperam que o homem "acabe" para só depois gozarem... e o macho que fique à sua disposição. Jamais encontrei mulher que gozasse juntamente comigo." (Cap. 5)

Tommy Dukes "...ficara no Exército e já era brigadeiro." (Cap. 4)

Dukes é amigo de Clifford e participa dos saraus literários em Wragby. É culto e valoriza mais a contemplação do que a especulação fisolófica:

"...Vêde Sócrates e seus amigos, nos diálogos de Platão. Quanta perversidade, que alegria em ferir o próximo, fosse qual fosse o adversário: Protágoras ou qualquer outro! E Alcebíades, e todos os discípulos menores, congregados para o estraçalhamento! Vale muito mais Buda, tranqüilamente à sombra da figueira, ou Jesus contando aos seus discípulos histórias singelas, calmamente. Não, há qualquer coisa de radicalmente falso nessa vida mental que mergulha as raízes no despeito e na inveja. Temos de julgar a árvore pelos seus frutos." (Cap. 4)

Apesar disso, o brigadeiro admite que o sexo tem uma importância crucial nas relações entre homens e mulheres:-

"... A verdadeira ciência emana do conjunto do nosso ser consciente, do nosso ventre e do nosso pênis, tanto quanto do nosso cérebro e do nosso espírito." (Cap. 4)

Lady Chatterley chega a interessar-se por ele mas nada ocorre entre ambos. O militar relaciona-se bem com o sexo apenas intelectualmente. Não tem paixão e é incapaz de agir:

"- Será que eu pertenço a essa classe?
- Sim. E você bem sabe que não nos vem a tentação do beijo.
- Claro. Por menos macho que seja não encontro nunca uma fêmea da minha espécie. E mulheres não faltam... mas apenas me agradam, eis tudo. Quem poderá forçar-me a amá-las ou a fingir amor, fazendo o jogo do sexo?" (Cap. 6)

Leslie Winter "Um velho gentlemam enriquecido com o carvão no reinado de Eduardo, o qual viera mais duma vez caçar ali. Solteirão, vivia Winter num explêndido castelo muito bem tratado, mas sitiado pelas minas. Gostava de Clifford, embora vexasse de vê-lo na literatura, com o retrato nos jornais. Um dândi da escola do Rei Eduardo, para o qual a vida era a vida e escrever, uma tolice. Muito galanteador de Lady Chatterley. Achava-a encantadora, virginal, reservada, excelente para um homem que não era homem." (Cap. 10)

O padrinho de Clifford é um velho aristocrata conservador que acredita nas teorias racistas em voga no início do século:-

"... Pensar que o meu Clifford está reconfortado pela esperança de um filho! E que um dia poderá dar trabalho a toda gente de Tevershall. Ah! meu caro, manter o nível da raça e proporcionar trabalho para todos, que maravilha." (Cap. 11)

Winter morre logo depois e seu castelo é demolido e a propriedade loteada e vendida. Sua morte e a demolição de Shipley simbolizam a morte da velha Inglaterra e o nascimento da nova Inglaterra.

Hilda "... como uma Palas corada e fresca, pendeu a cabeça e refletiu. A cólera que lhe tumultuava lá no fundo não ousava subir à tona, tanto era conhecedora do temperamento agressivo da irmã, igual ao de Sir Malcolm. (Cap. 16)

A irmã de mais velha de Constance é voluntariosa. Levou-a ao médico contra a vontade de Clifford (Cap. 7) e, apesar de contrariada, ajudou Lady Chatterley a encontrar-se com Mellors na cabana (Cap. 16) . Hilda separou-se do marido e não quer mais saber de sexo (Cap. 16). A exemplo de Clifford adota uma postura aristocrática, não admite a ligação entre pessoas de classes diferentes:-

"Verdade que Hilda não gostava de Clifford - da sua gelada certeza de ser alguma coisa. Sim, Clifford imprudentemente estragara a vida de Constance, de modo que ela gostaria que a irmã o abandonasse. Mas, pertencendo à sólida classe média escocesa, repugnava-lhe qualquer "abaixamento" de si ou da família." (Cap. 16)

"- Você fartar-se-á dele em pouco tempo - disse ainda -, e ficará com vergonha dessa ligação. A gente não pode meter-se com criaturas do povo." (Cap. 16)

VI - TEMPO

O tempo é rigorosamente cronológico. Clifford e Constance casaram em 1917 e retornaram a Wragby no outono de 1920. Na primavera daquele ano começou o romance entre Connie e Mellors. Após Clifford ficar sabendo de tudo e de sua separação de Constance, Mellors escreve-lhe pouco antes da primavera seguinte.

"Casara-se com Clifford Chatterley em 1917..." (Cap. 1)

"Constance e Clifford voltaram para Wragby, no outono de 1920." (Cap. 2)

"A natureza, entretanto, estava em plena primavera..." (Cap. 10)

"E tinha também de esperar a primavera, o nascimento da criança, e a volta do outono. Escreveu a Constance esta carta:" (Cap. 19)

O livro cobre, portanto, o período de mais ou menos um ano. A vida das personagens parece estar condicionada aos ciclos naturais. Apesar da falta de especificação precisa das datas, em geral a narrativa é linear. Todavia, às vezes, ela transcorre aos saltos.

"As duas irmãs partiram na manhã seguinte. Constance com ar de cordeirinho pascal, encolhida ao lado da outra. Sir Malcolm não se achava em Londres, mas a casa de Kensington estava aberta.
O doutor auscultou Constance cuidadosamente, indagando de vários pormenores de sua vida." (Cap. 7)

Em apenas dois parágrafos curtos são resumidas a partida, a viagem, a chegada a Londres e a ida de Constance ao médico.

Outro recurso largamente empregado no livro é o flash-back, um efeito produzido pela narrativa feita por Mellors:-

"- Vou contar. Aos dezesseis anos comecei a namorar uma pequena filha dum professor em Ollerton, linda, realmente linda...." (Cap. 14)

Em pelo menos uma oportunidade, o narrador antecipa de maneira sucinta fatos que serão narrados adiante com mais detalhes:

"Constance teve de sujeitar-se a um verdadeiro inquérito. Clifford, ausente na hora do chá, entrou pouco antes de cair a tempestade. "Onde está a senhora?" Ninguém sabia. A Sra. Bolton supunha que andasse a passeio pelo bosque. Mas pelo bosque com um tempo daquele?" (Cap. 16)

Na seqüência são narrados os fatos que antecedem a chegada de Constance a mansão. O inquérito começa muito depois, quando Lady Chatterley encontra o esposo:-

"Chegando ao castelo, Constance foi diretamente ao escritório do marido, furiosa contra ele - furiosa contra aquele rosto pálido e alterado, aqueles olhos salientes. E explodiu.
- Devo dizer-lhe que não vejo com que direito ousa mandar seguir-me pelos criados!
Clifford também explodiu.
- Deus do céu! Onde esteve? Ausente de casa durante horas com um tempo assim? Que diabo foi fazer neste maldito bosque? Que significa esta expedição? Horas e horas já que a chuva passou. Sabe que horas são? É de deixar um homem doido! Onde esteve, com todos os diabos?!" (Cap. 16)

VII - ESPAÇO

A principal preocupação do autor é com o espaço aberto. Há uma clara distinção entre o espaço social (construído pelo homem) e o natural. O primeiro é sempre deprimente, feio, opressivo. O segundo, ao contrário, é quase sempre belo, aprazível e saudável.

"... Mas, ai! A pouca distância viam-se as chaminés da mina de Tevershall, sempre fumarentas, e mais adiante a aldeia do mesmo nome, feia e suja com o todas aldeias das zonas de mineração." (Cap. 2)

Algumas vezes existe uma perfeita sintonia entre o espaço e o estado espírito da personagem. Outras vezes não:-

"Constance avançava. Do velho bosque lhe vinha uma velha melancolia que acalmava um pouco, que valia mais que a dura insensibilidade do mundo exterior. Era-lhe agradável tudo o que havia de interior nesse remanescente de floresta, na indizível reticência das velhas árvores, um poder de silêncio por ali; e no entanto, uma presença vital." (Cap. 6)

"A natureza, entretanto, estava em plena primavera com as campânulas a florescerem nos bosques e os rebentos das árvores explodindo chuva de gotas verdes. Não era terrível aquele fulgor da primavera em tudo, menos em seu coração gelado?
Constance sentia-se à beira do fim." (Cap. 9)

Não há muita preocupação com a descrição detalhada dos espaços fechados. Todavia, eles sempre refletem a personalidade de seus habitantes. Assim, o aleijado, dissimulado e doentio Clifford ocupa uma mansão sombria próxima à mina:-

"... Do soturno casarão de Wragby ouvia-se o barulho das perfuradeiras nas minas, o paf-paf das máquinas a vapor, o apito das locomotivas e o ranger dos vagões nos trilhos." (Cap. 2)

Mellors, um homem sincero, saudável e solitário, vive numa cabana pobre e acolhedora junto à floresta:-

"Ela foi a porta e lançou a água no jardim. Que encanto aquele lugar tão calmo, tão realmente silvestre." (Cap. 12)

"Constance foi para os fundos da cozinha, onde havia uma bomba de água. À esquerda viu uma porta, sem dúvida a da despensa. Abriu-a e sorriu diante do que ela chamava despensa: um simples armário caiado. Mas Mellors achara jeito de arrumar ali um pequeno barril de cerveja e mais mantimentos. Constance tomou um pouco de leite duma leiteira amarela." (Cap. 12)

O narrador rejeita adotar qualquer perspectiva idílica em relação ao espaço social. Isto fica mais evidente na descrição feita de Veneza:-

"... Remava com exagerado ímpeto pelo meio dos pequenos canais de hediondos muros verdes e peganhentos - os canais que atravessam os bairros pobres onde a roupa lavada pende de corda e tudo cheira a esgoto..." (Cap.17)

Logo depois da morte de Winter, seu castelo é demolido e propriedade loteada e vendida.

"Um ano depois da visita de Constance tudo estava completamente mudado. Onde se erguera o Castelo Shipley, havia uma formação de novas ruas e "vilas" de tijolo vermelho. Ninguém teria sonhado que doze meses atrás ali existiria o castelo de estuque. Uma Inglaterra destrói outra. A Inglaterra dos Winters estava no fim, morta - apenas não totalmente removida.
Que viria depois? Constance só via novas casas de tijolos a se estenderam pelos campos, novas construções a se erguerem em redor, novas operárias com vestidos de seda, novos operários de rumo ao Palácio de Dança. Essa geração ignorava completamente a velha Inglaterra. Havia um hiato na continuidade da consciência; uma parada quase americana, industrial. Que virá depois?" (Cap. 11)

A velocidade das mudanças no espaço social e suas conseqüências não passam desapercebidas ao narrador. O rompimento da continuidade dá a personagem a impressão de ausência de historicidade, criando uma nova espécie de desconcerto do mundo.

VIII - NARRADOR

O livro é narrado em terceiro pessoa. O narrador é onisciente e, no início da obra, adota uma posição francamente favorável às mulheres.

"E as mulheres tem de ceder, tão infantilmente teimosos os homens se mostram. Ou a mulher cede ou temo-las a se comportarem como crianças malcriadas que estragam tudo com seus amuos." (Cap. 1)

"...São assim os homens. Ingratos e nunca satisfeitos." (Cap. 1)

Em alguns momentos, o narrador alinha-se com as personagens, ou seja, partilha as mesmas sensações que elas:-

" Essa inesperada brutalidade consternou Constance. Ouvir aquilo, quando ainda se achava sob a impressão dum prazer acima de qualquer descrição!... Como a maioria dos homens de hoje, ele havia "acabado" muito no começo - o que força a mulher a passar à ativa." (Cap. 5)

E não só emoções, o narrador também partilha os mesmos ideais que suas personagens:-

"Vivia tão alheado de tudo, tão divorciado da Inglaterra que era realmente Inglaterra; tão radicalmente incapaz de situar-se, que ainda pensava bem de Horácio Bottomley. Sir Geoffrey defendia a Inglaterra de Lloyd George, como seus antepassados defenderam a Inglaterra e São Jorge: e nunca percebeu que havia uma diferença. Dêsse modo, ia derrubando as velhas árvores dos parques na firme intenção de salvar a Inglaterra." (Cap. 1).
Vê-se, portanto, que o narrador critica o esforço de guerra do pai de Clifford adotando a mesma perspectiva de Connie para quem:-

"...A própria guerra parecia-lhe coisa ridícula." (Cap. 1)

Pouco antes do final do texto, o narrador entra em contradição. No capítulo 16 Constance confessa para a irmã que está grávida. No seguinte, o narrador afirma que ela não falara a ninguém de sua gravidez.

"-Nunca. Além disso, estou grávida dele." (Cap.16)

"Constance não falara a ninguém da sua gravidez, nem a Hilda..." (Cap. 17)

IX- RECURSOS ESTILÍSTICOS

Ao longo da obra são utilizados diversos recursos estilísticos. Quanto aos recursos expressivos podemos citar os seguintes :-

Metáfora

"A guerra desabara sobre sua cabeça um teto, e a moça via claro que tinha de viver e aprender." (Cap. I)

"Foi nos últimos tempos que o ferro e o carvão devoraram o corpo e a alma desses homens." (Cap. 11)

Através destas metáforas o narrador significa o impacto ocorrido na vida de Lady Chatterley e o das mudanças econômicas na vida das pessoas.

Elipse

"...Entretanto, as mulheres a ele se entregavam às vezes. Até inglesas." (Cap. 3)

"Até inglesas" ao invés de "Até as inglesas"

Comparação

"... Além disso, lembrava alguma coisa nadando de um lado a outro - como ratos num rio escuro." (Cap. 3)

Antítese

"...Tão fortes na sua fragilidade!" (Cap.

É óbvio que as idéias de força e fragilidade são antitéticas.

"Só uma coisa subsistia: um estoicismo teimoso e o prazer de ostentá-lo." (Cap. 6)

A propósito do Estoicismo, Bertrand Russel informa que dentre seus princípios figura o seguinte:- "A virtude consiste em uma vontade que está de acordo com a natureza" . Como a ostentação repugna à natureza, segue-se que não é uma virtude estóica e a frase é antitética.

"Clifford e a sua anarquia conservadora." (Cap. 17)

A inexistência do poder institucionalizado (anarquia) é incompatível com a idéia de manutenção do status quo (conservadorismo).

Prosopopéia

"...Também as árvores esperavam; esperavam obstinadamente, estoicamente, exalando de si um poder de silêncio." (Cap. 6)

"Carvalheiras veneráveis erguiam seus troncos, enegrecidos pelas chuvas, lançando para todos os lados a galharada audaciosa." (Cap.

Árvores não são obstinadas, estóicas ou audaciosas. Estas são qualidades humanas.

Sinestesia

"Caminhava com dificuldade, embaraçada pela tranqueira vegetal, colhendo aqui uma primavera, ali uma violeta de perfume gelado." (Cap.

"Constance obedeceu. Tomou a vela e subiu - e ele apalpou-lhe as ancas com os olhos." (Cap. 16)

No primeiro fragmento o narrador mistura olfato e tato, no segundo o tato com a visão.

Metonímia

"Muita frialdade naquele ponto, e nenhuma nota colorida de flor a alegrar os sombrios." (Cap.

O autor designa o substantivo (bosques) pela sua qualidade omitindo-o

Hiperbole

"...Constance sentia-se velha de milhões de anos." (Cap. 10)

Anáfora

"...Sim, Paris era triste, uma das cidades mais tristes do mundo, na sua sensualidade mecânica, na eterna caça ao dinheiro, ao dinheiro, ao dinheiro, apenas não sabia ser bastante americanizada ou londrificada para ocultar o seu cansaço num ringir mecânico!" (Cap. 17)

"...Constance só via novas casas de tijolos a se estenderam pelos campos, novas construções a se erguerem em redor, novas operárias com vestidos de seda, novos operários de rumo ao Palácio de Dança." (Cap. 11)

Onomatopéia

"Constance ouviu o toque-toque dum pica-pau; depois o barulho do vento suave e misterioso entre as larias." (Cap. 13)

"...ouvia-se o barulho das perfuradeiras nas minas, o paf-paf das máquinas a vapor... (Cap. 2)

Como vimos anteriormente, ao longo da obra o narrador abusa dos recursos expressivos. Contudo, esta linguagem rica, elaborada, conotativa, a princípio não se aplica ao sexo. Ao descrever a relação entre Constance e Mick o narrador prefere usar uma linguagem direta, franca, denotativa:

"...Ela se interessava pela satisfação sexual física que Mick lhe permitia depois de seu rápido orgasmo; ele tinha prazer em servir-lhe de instrumento." (Cap. 3)

"Mick chegou ao orgasmo e ela continuou no tumulto selvagem da palpitação dos rins, com o seu parceiro embaixo, heroicamente ereto, dando-se-lhe todo. O gozo lhe veio intenso, com gritinhos." (Cap. 5)

Após o envolvimento de Constance e Mellors, a linguagem modifica-se um pouco. Ao tratar das relações sexuais entre ambos, o narrador passa a empregar uma linguagem expressiva, metafórica:

"Constance parecia transfeita em mar, toda vagas que se inchavam e subiam em surtos impetuosos até que, lentamente, toda a massa obscura entrasse em ação - oceano a palpitar sua sombria massa silenciosa. E lá embaixo, no fundo dela, as profundezas do mar separavam e rolavam lado a lado do centro onde o mergulhador mergulhava docemente, mergulhava cada vez mais fundo, tocando-a cada vez mais fundo; e ela se sentia alçada cada vez mais no fundo e as vagas de si mesma iam rolando para alguma praia, deixando-a descoberta; e cada vez para mais longe rolavam as vagas de si mesma, que a abandonavam, até que, de súbito, numa deliciosa convulsão, o mais vivo do seu espasmo foi alcançado; ela o sentiu alcançado - e tudo se consumou; seu "eu" esvaiu-se; Constance não era mais Constance, e sim apenas mulher." (Cap. 12)

Esta variação na linguagem é significativa e não pode ser desprezada. Parece que o narrador pretende deixar claro que para ele sexo e amor são coisas distintas que merecem tratamentos distintos. É claro que o sexo está contido no amor, mas este é qualitativamente diferente do ato físico através do qual se obtém o prazer físico. Mas não é só isso.

Consolidada a união entre Mellors e Lady Chatterley, o autor passa a omitir os detalhes das relações sexuais entre ambos.

"- Deite-se - disse ele. Deixe-me montar.
Mellors não resistia à urgência.
Depois que voltaram à tranquilidade, a mulher quis novamente examinar o misterioso falo do homem." (Cap. 14)

A omissão dos detalhes indica que a partir do momento que o amor uniu as personagens, a descrição do ato físico perdeu progressivamente sua importância. Isto reforça a tese de que o autor faz uma clara distinção entre o amor (que contém o sexo) e o ato físico desprovido de emoção. Em virtude disto acreditamos que o livro foi injustamente acusado de ser pornográfico . Só seria pornográfico se o autor insistisse na descrição dos coitos até o final, o que não ocorre.

A ironia é uma característica marcante da linguagem empregada pelo narrador:-

"Bom humor em Wragby! Pois ela o revelou, e empregava sobretudo para estimular o trabalho de Clifford, cuja literatura nunca lhe pareceu tão boa. Cegamente ele colhia os frutos da satisfação sexual que a esposa tirava da ereta passividade de Mick." (Cap. 3)

Em certo momento Mellors e Constance estão na cabana tomando chá e discutindo sobre a gravidez dela e o destino da criança (Cap. 12). O guarda caça sente-se ofendido por ter sido usado pela amante para dar um herdeiro a Clifford. Lady Chatterley, por sua vez, fica irritada com Mellors em razão dele sentir-se usado por ela. O diálogo termina da seguinte maneira:-

" - Obrigada pelo chá - disse ela.
- E eu tenho a agradecer a madame a honra que me fez servindo-se do meu bule - foi sua resposta." (Cap. 12)

Nesse contexto, o vocábulo "bule" tem duplo sentido. Tanto pode significar o objeto empregado por Constante para fazer e servir o chá quanto o pênis do guarda-caça que engravidou-a.

Em certo momento, o autor reproduz a oralidade na escrita:-

"Pronunciava o nome Chatterley como a gente do povo: "Chat'ley"." (Cap. 6)

Lady Chatterley nota uma certa semelhança entre Mellors e Tommy Dukes:-

"... Tinha qualquer coisa de Tommy Dukes, pensou Constance." (Cap. 5)

Mas a semelhança entre ambos não fica apenas no plano do imaginário da personagem. Em pelo menos uma oportunidade, a forma de ambos representarem seus sentimentos é muito parecia:-

"Tommy Dukes torceu-se de rir.
- Meu anjinho, ah, se assim fôsse! Se assim fôsse! Não meu coração vive inerte como uma batata..." (Cap. 4)

- Não quero fornicar com você. Tenho o coração frio como batatas neste momento.(Cap. 14)

Como em literatura quase tudo é intencional, devemos considerar que este jogo de semelhanças visa reforçar a impressão inicial de Constance. Sendo assim, fica evidente o elaborado processo de construção da obra e a criatividade do autor no manejo da língua.

A natureza da relação entre Mellors e Constance é revelada pela linguagem empregada:-

"... Nesse momento o coração de Lady Chatterley sentiu que não poderia nunca mais que ele a deixasse descoberta. Doravante, Mellors tinha de a cobrir sempre, sempre." (Cap. 10)

O vocábulo "cobrir" é utilizado no fragmento acima com o sentido de "sobrepor-se a (a fêmea), para a cópula" . "Descoberta" está no mesmo campo semântico que "cobrir", significando "sem ser sobreposta pelo macho para a cópula". Através de suas escolhas o autor quer significar que Mellors é o macho de Lady Chatterley e ela sua fêmea.

Ao longo da obra o narrador dialoga com a literatura inglesa e francesa. Faz constantes citações aos filósofos da antigüidade clássica e à mitologia grego-romana. Referidos diálogos intertextuais acabam se transformando num verdadeiro recurso estilístico, pois conferem mais beleza e profundidade à obra.

X - MENSAGEM

Diversas são as mensagens veiculadas pela obra. Para evitar dispersão concentraremos nossos esforços na análise da principal. Afinal, é a partir deste núcleo que todas as demais estão organizadas.

A obra faz uma clara distinção entre dois tipos de relacionamento. Fica parecendo que a intenção do narrador é sugerir ao leitor que podemos optar entre um ou outro.

Ao relacionamento saudável, representado pelo par Constance/Mellors, é dada toda ênfase. A união entre os dois rompe com todas as convenções sociais. Constance e Mellors são, em última análise, apenas um homem e uma mulher que desejam levar ao limite todas as possibilidades de sua união. Daí a plena satisfação sexual que obtém nos contatos físicos ganhar relevo. A importância desta é essencial para a estabilidade emocional de ambos a partir da qual cada um faz o que é necessário para conservar o relacionamento.

No outro extremo, o casal Clifford/Sra. Bolton representa um relacionamento doentio. O baronete impotente é tratado como se fosse um filho pela enfermeira. A Sra. Bolton, por sua vez, dá mostras de não ser normal em virtude de preferir a intimidade doentia com Clifford a casar com outro homem.

Diante destes extremos é essencial responder uma questão. Afinal, a obra considera-os fruto de uma opção consciente das personagens ou conseqüências de suas tendências naturais?

Sobre os antecedentes de Mellors só sabemos o essencial. Quando jovem deixou-se seduzir pela literatura apenas como uma maneira de tornar-se amante da namorada . O guarda-caça é sem dúvida alguma um homem sensual. Optou por isolar-se do mundo não por apatia ou ausência de apetite sexual, mas em virtude de suas frustrações amorosas. Logo que reconhece uma fêmea em Lady Chatterley trata-a de maneira adequada, ou seja, copula com ela sem preocupar-se com seu estado civil.

Lady Chatterley, por sua vez, também é muito sensual. Teve sua primeira experiência sexual antes mesmo de casar. Para nós isto já não tem muita importância em virtude de ter se transformado num lugar comum. Todavia, não podemos esquecer que a história se passa no início do século XX. A conduta de Lady Chatterley denota um apetite sexual fora do comum em razão dos tabus que cercavam o sexo fora do casamento na época. Note-se que Clifford já era incapaz de satisfazê-la antes mesmo de ficar aleijado. Depois de casada Constance envolve-se com Michaelis e com Mellors. O primeiro deixa-a frustrada em razão de sofrer de ejaculação precoce, o segundo a faz sentir-se uma fêmea desejada. O resultado é previsível, ela larga tudo (casamento, situação econômica definida, posição social, etc.) para ficar com seu macho. Tudo indica que ela herdou a sensualidade do pai .

Antes de ficar aleijado, Clifford já não era capaz de satisfazer sexualmente a esposa. Ele já demonstrava uma certa infantilidade, a qual acentuou-se depois do ferimento que deixou-o aleijado e impotente. Esta infantilidade Clifford pode ter herdado do pai, que segundo o narrador mantinha-se divorciado da realidade e dedicou-se de corpo e alma ao esforço de guerra sem questionar as decisões do Governo Britânico .

Após o falecimento do esposo, a Sra. Bolton evitou envolver-se novamente com um homem. Aliás, Ted Bolton de certa maneira também se comportava como se fosse uma criança, pois recusava o prazer para não engravidar a esposa . A Sra. Bolton consolava-o, como se ele fosse seu filho. Em virtude de sua profissão, a enfermeira acostumou-se a tratar os homens como se fossem crianças. Após algum tempo, Sra. Bolton passa a tratar Clifford como se ele também fosse uma criança, como se fosse seu filho. Ele corresponde e a intimidade doentia entre ambos cresce até consolidar-se .

Diante de tantas evidências fica mais ou menos claro que a conduta das personagens segue um padrão. A ligação entre Mellors e Constance é fruto de suas inclinações naturais. Ambos são sensuais e precisam de um parceiro que corresponda às suas necessidades sexuais. A de Clifford e Sra. Bolton o resultado de seus desvios emocionais. O quadro de ambos poderia ser descrito como de regressão . Clifford retorna à infância e a Sra. Bolton ao tempo em que tinha filhos pequenos.

É clara a preocupação do autor na caracterização psicológica das personagens. Mas seu trabalho não para por aí. Da união Mellors/Constance e Clifford/Sra. Bolton podemos concluir que os relacionamentos retratados no livro, sejam eles saudáveis ou doentios, resultam de um fator inexorável: a lei da afinidade associativa. Uma das maiores aquisições da psicologia social, esta lei é a pedra angular em que a obra está solidamente ancorada do inicio até o final.

Assim, a mensagem principal da obra parece ser que a lei da afinidade associativa realmente existe e funciona (pelo menos funcionou no caso das personagens). Mais que isto, que nenhuma convenção social é capaz de impedir que pessoas semelhantes se aproximem. Note-se que Constance, oriunda de uma sólida família de classe média e esposa de um baronete, não hesita em abandonar tudo para ficar com o guarda caça. Clifford, um aristocrata empedernido que condenava qualquer tipo de intimidade entre membros de classes sociais distintas, acabou vencendo seus preconceitos para entregar-se de corpo e alma ao relacionamento doentio com a enfermeira (sua empregada).

A necessidade do outro, do igual, daquele que satisfará as necessidades da personagem arrasta-a à uma associação socialmente indesejada, deslocando-a de sua classe. Já não importa a raça, o meio ou o momento, mas apenas a satisfação das necessidades humanas mais básicas, que para o autor estão relacionadas à sexualidade. Nesse contexto, "O Amante de Lady Chatterley" é tributário da teoria de Freud, para quem o sexo ocupa uma posição de destaque na construção da personalidade .

Outro ponto importante do livro é a crítica à valorização desmedida do dinheiro, que o autor identifica ao culto da Deusa Cadela . Culto este a que se dedicam as pessoas de todas as classes sociais . A propósito, devemos esclarecer que consultamos a obra "As Máscaras de Deus" de Joseph Campbell e não encontramos nenhuma referência a este culto na mitologia primitiva ocidental ou na mitologia oriental .

XI - CONCLUSÕES

Desde logo vê-se que o narrador procura não idealizar, que evita adotar a mesma perspectiva do Romantismo:-

"Constante e Hilda choraram-nos apaixonadamente. Por fim, esqueceram-nos." (Cap. 1)

Esta ausência de idealização do amor aproxima o romance dos ideais Realistas. O tratamento dispensado pelo autor ao espaço social (construído pelo homem) também revela uma influência daquele movimento iniciado no final do século XIX. Entretanto, a obra não adere totalmente aos cânones do Realismo.

O interesse do autor pela aberração sexual (representada pelo casal Clifford/Sra. Bolton) é apenas marginal. O livro se organiza em torno do relacionamento entre Mellors e Lady Chatterley. Mas este não se resume ao sentimento. O prazer resultante do intenso contato entre ambos é fundamental para a consolidação do casal. Nesse contexto até mesmo a traição ou o triângulo amoroso (Mellors/Constance/Clifford) perde a importância que tinha no Realismo. Aliás, o relacionamento entre os três não chega a ser um triângulo amoroso, pois Constance não tem qualquer tipo de contato físico com o esposo.

Note-se, ademais, que ao contrário do Realismo, a conduta das personagens não é determinada por questões como raça, meio e momento, mas exclusivamente pelas suas necessidades sexuais . Nada é capaz de evitar que os iguais se relacionem, nem mesmo as diferenças de classes entre Mellors e Constance ou Clifford e Sra. Bolton.

O livro não pode ser considerado como pornográfico. A variação da linguagem no tratamento dispensado ao sexo antes e de depois do início do relacionamento entre Mellors e Constance indica uma clara distinção entre o ato físico e o sentimento que o contém. A proibição da obra foi mais fruto dos preconceitos da época do que propriamente de suas características nocivas. Além disso, parece que Lawrence nunca foi perdoado por ter criticado a Inglaterra durante a I Guerra Mundial e ter se casado com uma parente do ás alemão Manfred von Richtofen.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Jul 21, 2010 4:52 pm

Amor e Felicidade no Casamento (Fritz Kahn)

Fritz Kahn (Halle, 29 de setembro de 1888 - Lugano, Suíça, 14 de janeiro de 1968) foi um judeu alemão, médico ginecologista, autor de livros sobre ciências do quotidiano, astronomia medicina, em especial sobre o corpo humano.

Fritz Kahn nasceu em Halle (Alemanha) em 1888, onde estudou, tendo completado sua formação em Berlim no Sophien-Gymnasium, em 1907. Formou-se em Medicina, também em Berlim, em 1912. Nessa cidade iniciou carreira como ginecologista, tendo casado com Irma Glogau. Seus primeiros trabalhos, artigos escritos, foram sobre Astronomia e Aviação

A partir de 1914 serviu no exército durante a Primeira Grande Guerra e suas experiências no conflito ficaram bem evidenciadas ao longo de sua obra. Em 1933, pouco antes da ascensão de Adolf Hitler, Kahn foi para a Palestina, de onde não regressou por força da situação política em seu país. Fixando-se em Jerusalém, se tornou cidadão Palestino. Ficou no Oriente até 1939, indo daí para Portugal, depois França, de onde emigrou para Nova Iorque, Estados Unidos, em 1941. Teve apoio de Varian Fry e Albert Einstein.

Na América teve produtiva carreira e muita popularidade como escritor de obras sobre Medicina e Biologia, as quais foram traduzidas para muitos idiomas. Ministrou conferências e aulas para diversas escolas e universidades e em programas radiofônicos apresentava questões médicas e científicas. Morreu em Lugano, Suíça, em 1968.

Assuntos abordados na obra "Amor e Felicidade no Casamento" :

Sexualidade.
Formação sexual e conjugal de jovens e adultos.
Personalidade.
Psicologia do homem e da mulher.
Método de Ogino e Knaus.
A escolha do Cônjuge.
Núpcias.
Casamento Feliz.
O Acto Sexual e a Vida Sexual no Matrimônio.
Fertilidade.
Desarmonia Conjugal.
Medidas contra o Matrimônio Infeliz.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Jul 22, 2010 6:16 pm

Interrogação ao Destino (André Malraux num ensaio de Vergílio Ferreira)

Trinta e cinco anos depois da 1ª.edição, o ensaio de Vergílio Ferreira, Interrogação ao Destino ainda se pode e deve ler como uma primeira abordagem crítica e biográfica de André Malraux, um dos grandes escritores franceses deste século. Não por ser A Condição Humana o maior romance que o comunismo pôde inspirar e aquele em que uma ideologia política alcançou enorme expressão no domínio da sua profundidade humanística, mas sobretudo porque foi única a obra que Malraux produziu em termos literários, que continua a ser lida e o será mesmo daqui a muitos anos como uma das mais representativas do século em que viveu. E se essa obra estiver certa, como proclamava o autor de Para Sempre, 'o erro do nosso juízo será um erro para esse juízo apenas - ou antes, para o modo como o efectivámos e não em referência ao termos valorizado o que valorizámos'. Sim, é verdade, relembra ainda Vergílio Ferreira, 'o primeiro acto de Malraux foi dizer'não' a um destino que proclamou injusto e absurdo. Mas dizendo-o activamente, foi precisamente a acção que lhe determinou toda a aventura. Muito depressa, no entanto, nós esquecemos que essa aventura não foi aventureira. O 'não' não foi absoluto. Malraux não foi um niilista'.

Mas que espécie de 'interrogação' percorre todo este ensaio? A complexidade da obra literária de Malraux e as suas posições políticas tão contraditórias foram realmente os pólos para analisar ou emitir os juízos mais desencontrados sobre a sua personalidade intelectual. Ao longo dos tempos (e mesmo ainda hoje), quando certas barreiras se desmoronaram ou alguns dos valores defendidos pelo autor de A Condição Humana foram já postos em causa. E, desde sempre, Vergílio Ferreira não deixou de proclamar a sua viva e sincera admiração pelo consagrado autor francês e de alguma forma tentou percorrer os mesmos passos na sua aventura literária. Por isso, neste ensaio agora reeditado o que sobressai é a definição de princípios a que todo o artista se obriga, mesmo quando se trata de uma personalidade complexa e polémica como a de André Malraux, fixando-se mais na análise do autor de As Vozes do Silêncio na perspectiva mais literária do que política que, como se sabe, lhe criou alguns amargos de boca até ao fim da vida.

Porém, para lá das limitações que se coloquem à obra malrauxiana, que pagou o tributo de o ser do mesmo homem político de sérias contradições no governo gaullista, Vergílio Ferreira não podia esquecer que essa obra se revela acima de tudo como a interrogação do homem sobre o que ao homem mais interessa, ou seja, à sua condição humana. E daí afirmar sem nenhuma espécie de dúvida que a obra de Malraux é póstuma a si mesma, porque desde sempre ultrapassou as posições públicas que assumiu, na dimensão pessoal de saber que a obra literária que realizou, fruto de directa experiência em várias partes do Mundo, não como 'aventureiro' ou 'sonhador' de outras utopias, mas como forma de interrogar o seu próprio destino e os homens dentro dele, sempre pelos caminhos da política, da arte e da literatura e merecer assim que toda a França e a Europa dos últimos cinquenta anos o tivessem como referência espiritual e intelectual, mesmo nos momentos em que Malraux foi mais admirado e exaltado ou depois insultado e vilipendiado até à hora da sua morte.

Assim, reler este ensaio de Vergílio Ferreira, que foi posto fora de circulação aquando da primeira edição em 1963, é de algum modo retomar esse diálogo inalterável com o autor de Cartas a Sandra, senti-lo ainda a nosso lado e dizer-nos que o exemplo legado por André Malraux representa ainda, sem qualquer disfarce, 'uma vida cheia, vida total, na grandeza e na tragédia, que é grandeza também', e lembrar, na forma de questionar esse pessoalíssimo destino de escritor e político, que 'o percurso de Malraux atravessou praticamente tudo o que nos mora no sonho, na ambição, no que exprime a nossa dignidade de sermos homens'.

Serafim Ferreira

VERGÍLIO FERREIRA
INTERROGAÇÃO AO DESTINO, MALRAUX
Bertrand Editora / Lisboa, 1998
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sex Jul 23, 2010 6:26 pm

Angola - Cinco Séculos de Exploração Portuguesa (Américo Boavida)

Médico angolano, o autor denuncia e define o que foi o regime colonial em sua terra, documentando suas afirmativas com informações e dados impressionantes. Obra de desmistificação, esclarece o leitor sobre a justiça da causa que levou os angolanos à luta pela libertação nacional.

Américo Alberto de Barros e Assis Boavida, nasceu em Luanda a 20 de Novembro de 1923, filho de Joaquim Fernandes Alves Boavida e de Acília de Assis. Viveu a sua infância no bairro capitalino das Ingombotas, junto com o seu irmão Diógenes, quatro anos e meio mais novo. Os dois irmãos fizeram os estudos primários em Luanda.

Depois dos seus estudos secundários, no Liceu Salvador Correia, Américo Boavida teve a oportunidade de partir para Portugal, em 1947, onde frequentou a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e de onde, cinco anos mais tarde, saiu licenciado em Medicina e Cirurgia.

Em 1952, logo a seguir à sua formação universitária, passou a ser membro da Ordem dos Médicos Portugueses. Ainda em Portugal, acrescentou aos seus estudos universitários um diploma em medicina tropical, pelo Instituto de Medicina Tropical de Lisboa, obtido em 1953 e, mais tarde nesse mesmo ano, um diploma em saúde pública, pelo Instituto de Medicina Sanitária “Dr. Ricardo Jorge”, também de Lisboa.

Antes de regressar a Angola, foi do Porto até à vizinha Espanha, em Outubro de 1954, onde frequentou o seu primeiro estágio em ginecologia, na Faculdade de Medicina da Universidade de Barcelona.

Regressou a Angola em 1955, oito anos depois de ter partido. A sua primeira decisão foi a de optar por exercer medicina por conta própria, por não pretender servir os hospitais do estado colonial. Exercia em dois consultórios. Um deles ficava na Baixa, onde consultava em ginecologia e obstetrícia. O outro consultório do Dr. Américo Boavida – que rapidamente se tornou conhecido e procurado – estava instalado num pequeno apartamento do primeiro andar do edifício onde havia a Farmácia Angola, na Alameda.

Nesse consultório, onde ademais da sua especialidade praticava clínica geral, atendeu inúmeros pacientes de condição social desfavorecida, que tinham no médico seu compatriota os cuidados e a atenção sanitária e humana que dificilmente podiam naquela altura encontrar na Luanda colonial.

Conheceu, em Luanda, Maria da Conceição Deolinda Dias Jerónimo. Casaram-se em Lisboa a 21 de Agosto de 1958, e levou imediatamente a sua esposa até Barcelona, onde era esperado na Faculdade de Medicina catalã – a mesma onde já tinha estado 4 anos antes – para um novo estágio em ginecologia.

Em 1960, resultado da pressão exercida pela polícia política portuguesa em Luanda, e receando o perigo anunciado por um rumor que propagava a sua eminente prisão, Américo Boavida, juntamente com a sua esposa, toma a decisão de sair para o exterior de Angola.

Chega a Paris onde faz um estágio de três meses na Clínica Ginecológica do reputado hospital Broca, ligado à Faculdade de Medicina de Paris.

Vai para Conakry ainda em 1960, quando o MPLA começa a organizar-se. No primeiro Comité Director do MPLA, junto com Viriato da Cruz, Mário de Andrade e Lúcio Lara, estavam três médicos: Eduardo Santos, na defesa e segurança, Hugo de Menezes e Américo Boavida, ambos nas relações exteriores.

Coube a Américo Boavida ser o médico escolhido pela direcção do MPLA para dirigir o Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados (CVAAR) que haveria de ser criado em Léopoldville. Aberto o escritório do CVAAR em 1961 em Léopoldville, Américo Boavida desempenha nele um papel activo até 1963, exercendo simultaneamente no posto médico de uma fábrica na capital congolesa.

Em 1963 – profundamente abalado por uma grave crise no seio da direcção do MPLA – deixa Léopoldville em direcção a Rabat. O casal Boavida haveria de residir nessa cidade maghrebina durante cerca de três anos. O médico mantém, no entanto, uma intensa actividade profissional e de reflexão. Trabalha no hospital Aviçène, onde exerce ginecologia. É na capital marroquina que ele escreve o seu livro “Angola, cinco séculos de exploração portuguesa” onde expressa a sua preocupação por que os activistas angolanos da luta pela Independência conheçam com competência a realidade económica e conjuntural da situação colonial contra a qual estavam a combater.

Em 1965 viaja a Praga onde faz um estágio, entre Março e Setembro, no Instituto Checoslovaco de Aperfeiçoamento dos Médicos.

O seu único filho, Mudumane Diógenes Van-Dúnen Boavida, nasce a 13 de Outubro de 1965.

Em Junho de 1966, Américo Boavida visita a Suécia, onde faz um curso de pós-graduação em planificação familiar, promovido pela Sociedade Sueca de Obstetrícia e Ginecologia. Ainda na capital sueca, participa como delegado ao 5º Congresso Mundial sobre Fertilidade e Esterilidade.

Em Janeiro de 1967, faz as malas com a sua família e abandona Marrocos, descendo para Brazzaville para responder ao apelo lançado pela direcção do MPLA pela abertura da Frente Leste, onde eram necessários médicos para cuidar dos combatentes feridos e da saúde precária da população local.

Foi acompanhado por José Mendes de Carvalho, Hoji ya Henda, que Américo Boavida resolutamente viajou de Brazzaville para a Frente Leste.

Sob orientações do presidente do MPLA, a sua esposa e filho, são enviados para viver na retaguarda, em Dar es Salaam.

Américo Boavida foi o primeiro médico a responder ao apelo e a chegar à Frente Leste. Aí desenvolve – durante quase dois anos – uma extenuante acção médico-sanitária em vastas regiões do Moxico e do Cuando-Cubango, organizando os Serviços de Assistência Médica (SAM) do MPLA.

Era cedo de manhã do dia 25 de Setembro de 1968, na “Base Hanói II”, um lugar perto do rio Luati e da floresta de Cambule, quando um bombardeamento aéreo do exército português surpreende o acampamento do MPLA onde Américo Boavida se encontrava. O médico sucumbe sob o efeito da deflagração de explosivos lançados de um helicóptero para o lugar onde estava.

“Amanhã ou depois de amanhã, Angola há-de mudar são palavras recolhidas do repertório popular que Américo Boavida, sentado numa escrivaninha em Rabat, Marrocos, um dia de 1964, escolheu, para servir de exergue ao capítulo de conclusões que encerra o seu livro “Angola, cinco séculos de exploração portuguesa”, publicado pela primeira vez em 1966.

Ao escrever e publicar este livro, o autor pretendia denunciar a realidade da colonização a que os angolanos estavam submetidos e contribuir para a elaboração de um estudo que – sugeria – tinha de ser feito pelos próprios angolanos sobre essa mesma realidade, consubstanciado em dados e factos económicos, sociais, políticos e históricos.

Mas já nessa altura, o médico e combatente avisava: “se não pode existir em nosso espírito menor hesitação sobre o desfecho fatal do conflito que nos opõe ao Governo português e seus aliados – que não pode ser outro que a Independência – já o mesmo não sucede quanto ao conteúdo que caracterizará essa Independência”.

Esse conteúdo viria a estar – como dolorosamente a realidade pós-colonial nos confirma agora – dependente da capacidade dos angolanos em conhecer devidamente os problemas que os afectam, assim como as causas desses problemas.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Hoje à(s) 1:08 am

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