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 LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...

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Anarca



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MensagemAssunto: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Jun 17, 2009 6:04 pm

Ao longo da história várias foram as formas de censura utilizadas pelo homem para esconder e apagar os livros e outros tipos de suportes documentais cujo o conteúdo fosse contrário às ideias vigentes e à ideologia "oficial".

A primeira lista oficial de “Livros Proibidos” adoptada pela Igreja Católica surgiu no V Concílio de Latrão em 1515, confirmada no Concílio de Trento em 1546 e sua primeira edição data do ano de 1557 como Index Librorum Prohibitorum.

A 32ª Edição publicada em 1948 incluía quatro mil títulos censurados.

O Index Librorum Prohibitorum é uma lista de publicações proibidas que foram consideradas heréticas pela Igreja Católica Romana a partir do ano de 1559.

O Papa Paulo IV (1555-1559) no seu último ano de pontífice viria mais tarde a instituir oficialmente, na “Sagrada Congregação da Inquisição”, a censura das publicações.

Os Índices eram regras aceites como um guia para o Censor Oficial que julgava se determinada obra tinha um conteúdo intelectual fora dos critérios da Igreja Católica ( qualquer manifestação de deficiência moral, sexualidade explícita, incorreção política, superstição, heresias, etc, ). Em caso afirmativo esse livro era imediatamente punido, ou seja, o seu autor colocado numa Lista Negra e a sua obra proibida, posta fora de circulação e queimada.

Nos próximos posts irei falar dos livros proibidos dos regimes totalitários (comunista, nazi, fascista e social-fascista) bem como das censuras "suaves" que os regimes democráticos fazem sobre todos os livre-pensadores que procuram alcançar o conhecimento e que fogem da norma instituída.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Jun 17, 2009 9:23 pm

O livro Maldito

Acredita-se que a milhões de anos atrás, desde o primeiro imortal a existir, um livro com todos os dados necessários para se saber da imortalidade, ronda o mundo atrás de novos imortais para escreve-lo.

A lenda diz que o primeiro imortal, escreveu a primeira página com seu próprio sangue, e passou a diante para o segundo o terceiro imortais escreverem a segunda e a terceira página, e assim por diante.

As vezes, o livro cai nas mãos de mortais, que se não souberem quardar o segredo, nunca saberão o que está escrito, pois as páginas ficam em branco.

Mas se houver o perigo de algum mortal abrir, prometer segredo, ler e depois contar a outros o que existia no livro, simplesmente terá um de dois destinos.

1- Serão apagadas de sua mente qualquer lembrança possível de qualquer palavra do livro

2- A Morte...

Já existem relatos de seitas que invocam de tudo um pouco, para conseguir o livro, e muitas vezes, sem sucesso.

Se você o encontrar, saiba que não é mero acaso, mas sim o seu destino...

Não conte, não fale e só leia o necessário para não atrair drásticas conseqüências.

Dizem que o livro tem capa avermelhada, com um contorno preto, e escrito na frente: Livro Maldito dos Vampiros - e entre a palavra Maldito, existe uma mancha de sangue, comprovando, ou não, quem o escreveu.

Mistério...



Última edição por Anarca em Dom Jun 21, 2009 8:01 pm, editado 1 vez(es)
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Jun 17, 2009 9:30 pm

O Livro de Toth

Estava também em Alexandria a obra completa do sacerdote e historiador egípcio Menethon. Considerado um sábio, teria escrito oito livros com todos os enigmas do Egito antigo decifrados, incluindo o misterioso Livro de Toth, considerado o “pai” dos livros malditos.

Escrito há cerca de 10 mil anos antes de Cristo, sua autoria é atribuída a Toth, o deus da sabedoria, da escrita, da aprendizagem, da magia e da medição do tempo, entre outros atributos.

Segundo o francês Jacques Bergier, pesquisador e autor de Os Livros Malditos, a primeira alusão ao Livro de Toth apareceu no papiro de Túnis, decifrado em 1868, em Paris, no qual é relatada uma conspiração para destruir o faraó por feitiçarias evocadas no começo do mundo. “O Livro de Toth dava o poder sobre a Terra, o oceano, os corpos celestes. Dava o poder de interpretar os meios secretos usados pelos animais para se comunicarem entre si, o poder de ressuscitar os mortos e de agir a distância”, afirma Bergier. “Seguramente, um livro como esse é um perigo insuportável.”

Há quem garanta que o Livro de Toth realmente ainda existe. E que esteja muitíssimo bem guardado, circulando em mãos nefastas que fariam parte de uma grande confraria conspiratória para ocultar todos os conhecimentos tidos como sobrenaturais: os Homens de Preto – sim, aqueles iguaizinhos ao filme, mas menos engraçados e mais sinistros. “Penso que esses homens vestidos de negro são tão antigos como a civilização. A meu ver, seu papel é impedir a difusão mais rápida do saber, difusão que conduziu à destruição de civilizações passadas”, diz.

Não é preciso ter uma mente tão elaborada para teorias conspiratórias como a de Bergier para notar que os livros, independentemente de seu conteúdo, são capazes de influenciar muita gente. Tanto é que, ao longo da história, eles continuaram a ser destruídos, seja na Inquisição ou nas Cruzadas, por razões religiosas, seja até recentemente nos regimes militares, por motivos políticos. Mas, sem dúvida, aqueles que contêm enigmas sobre a criação do mundo, evocações sobrenaturais ou demoníacas chegam mais rápido à fogueira – eles fazem a mente humana viajar para muito longe, talvez num túnel do tempo onde não haja controle. E isso apavora muita gente. Como disse certa vez o astrônomo britânico Fred Hoyle: “Estou convencido de que bastam apenas cinco linhas, não mais que isso, para destruir toda uma civilização”.


Última edição por Anarca em Qui Jun 18, 2009 12:05 pm, editado 1 vez(es)
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Jun 17, 2009 10:04 pm

ABC de Castro Alves (Jorge Amado)

Jorge Amado encontrava-se na região do Prata, em 1941, quando foi lançada a primeira edição do ABC de Castro Alves.

Era um momento conturbado da história brasileira, então regida pela ditadura estado-novista, o que faz com que esta obra seja vista como uma importante contribuição para a reestruturação da democracia.

O texto revela um rigor investigativo e um cuidado especial em narrar os passos mais importantes na vida do poeta Castro Alves, embora o próprio Jorge Amado tenha revelado que se permitiu liberdades nesta biografia, tomando-a "antes uma biografia do poeta que mesmo do homem".

Escrito em tom lírico e afectuoso, esta obra destaca-se entre as biografias de Castro Alves, um artista que nunca hesitou em envolver-se com os problemas dos homens.

Jorge Amado restitui a autenticidade do poeta, situa-o em sua época e tem a vantagem de conhecer e compreender como ninguem o poeta-abolicionista.

Certamente em nenhum outro autor poderia ser encontrada tamanha consciência militante de sua função pública nem tanto amor pelo homem e por sua obra.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Jun 18, 2009 12:05 pm

A Barca dos Sete Lemes (António Alves Redol)

Para quem trabalho eu?
Uma mulher lançava, a cantar, aquela interrogação ansiosa, e a resposta ninguém a dava. A pergunta é que passara para a boca duma fila de raparigas da Glória, sábias em traçar o eito e expeditas no manejo da foice.

Ó minha mãe dos trabalhos,
para quem trabalho eu?...

- Eh Ruço! Eli tu!...
O Arrenega deu-lhe com o cotovelo, ele levantou a cabeça, mas não viu o capataz. Tinha os olhos cansados de poeira e de sol, o peso da serrada Neve a doer-lhe no lado direito e um anel de fogo na lombeira e nos rins. «Aquilo é que era aprender o custo da galé», como dissera uma gloriana à hora do almoço.
- Vais cego, Ruço? Mete-te à banda do teu camarada!
Camarada uma gaita, que lhe prometera uma manta e uma caldeira e deixara-o a ver navios, com a desculpa de que a égua tinha fugido, a danada! Também que fizera ele? Ficar à espera de que outrem dê um assobio é trabalho para merecer paga tamanha? Havia de ceifar ali duas semanas, obrigar-se a pão com dentes e a cheiro de caldeira alheia, e só depois poderia pensar numa lobeira para se aquecer no Inverno.

... Trabalho, mato o meu corpo,
não tenho nada de meu...

Depois de se perder um bem é que chega o arrependimento - torce-se a orelha e nem uma lágrima de sangue. E ao fim e ao cabo por dez-réis de mel coado, por mor de uma coisa que parecia uma árvore dentro duma garrafa. Vejam lá se há ideia mais parva!
Se tivesse voltado para o Lobato, seria agora meio-caixeiro, com direito a dormir no sótão, numa cama de ferro com lençóis, e comida certa à mesa da cozinha. As criadas novas haviam de tratá-lo por senhor, Sr. Cidro, e, de cabelo penteado ao espelho, guarda-pó e botas amarelas, teria a vida aberta por uma estrada larga. Maldita ideia aquela, a da árvore! Uma coisa de anjinho...
«Eh Ruço! Endireita-me esse corte! Levas a foice cega, ó quê?!...»
Mesmo no Mula Brava, se não fosse a vergonha de lhe falar, depois do que se passara com a Mariana, sempre a vida podia tomar outro jeito. Quem,sabe?!... Talvez viesse a ficar com a oficina e com a mulher. Mas era coisa que se fizesse a um amigo?... E pode uma pessoa ter a mão no sangue quando a espevitam? Se até uma candeia de azeite, mal lhe bolem com a ponta dum gancho, se arrebita e dá mais luz, como pode um homem segurar as maldades do corpo?
Não fora habituado a trabalhos de campo, lá isso era verdade. E os outros, antes de se habituarem à servidão? Se até o Jerónimo Arrenega, que era valente, apanhara com o aguilhão dos bois, havia ele de se querer fidalgo? Ora essa, que tal estava o pinoca! Mas parecia-lhe inferneira de mais.
Queimava o sol de um lado, pesava a foice do outro, queixavam-se as mãos dos calos (toma lá uma mortalha, isso passa), mordiam as melgas e os mosquitos das abertas, e lá estavam com o trigo maduro a erva-gata mais o cardo-beija-mão, como dizia uma cantiga, e melhor lhe lembravam os dedos ardidos de golpes e espinhos.
«Eh Ruço!»
Ruça era nome de burro. Ruço era a avó dele e toda a geração de carneiros com cornos dobrados! Chiça pra tanta conversa!
E só agora se arrependia deter roubado nos avios da gente do campo. Antes furtar éguas com o Arrenega mais velho, mesmo com risco de ser enganado. Sempre era trabalho mais direito. Não fosse a vergonha de o descobrirem e bem sabia que rumo havia de tomar. Despedia-se à francesa, sem mais conversa, que ceifeiro sem manta não deixa rasto. O Arrenega que lhe recebesse o dia de jorna (lá ficava rico!) e se pagasse do dinheiro adiantado em pão e vinho. Depois enfiaria pela Charneca dentro, sem escolher caminho, andando à parva, de dia e de noite, até que as forças o deixassem. Sem uma sede de água. Sem uma côdea de pão. A morte havia de chegar, por força. Para que vivia ele, afinal? Para ser capacho do mundo, como dizia a criada do Lobato, que até essa se rira da sina boa fé? O pior, é que até na morte ficaria sòzinho!
Não havia coisa mais triste, não senhor.
No rancho talvez julgassem, que ele comia à parte por não ter comida de caldeira nem alforje. Quando o que lhe fazia mal era ver muita gente à sua volta. Atabafava. Apetecia-lhe pegar na foice, pôr-se a andar de roda - arreda, arreda - e afastá-los da sua beira. E dormir no meio da resteva com a cabeça num molho de trigo. Talvez um falcão o descobrisse lá do alto e se atirasse sobre ele de asas fechadas, para lhe arrancar os olhos e levá-los consigo por esse céu além. Pronto, acabava-se tudo!
- Não comes?, perguntou-lhe o Arrenega à ceia.
- Não tenho fome.
Bem percebia que o capataz o olhava de banda; talvez estivesse a pensar em chamá-lo e dar-lhe o fora.
Foi meter-se no palheiro e atirou-se para um canto. Tinha o corpo num trambolho e nem uma linha de coragem guardava nos braços e nas pernas. Nem uma linha. Tudo estava quebrado dentro dele e fora dele. Era uma pedra.
Lá fora cantava-se ainda. Ainda havia gente capaz de rir. Pela porta via passar vultos para o barracão do lado. Eram as glorianas, de cinta preta a prender-lhes a saia rodada, todas metidas na sua vida à parte da outra gente.
- Queres vir esta noite?
Estava para ali sem recordações daquelas, e por isso não podia entender a pergunta do Arrenega.
- Aonde?
-Gomo na Terra Velha...
Deixou escapar um não, despedindo o companheiro, mas o outro ficara à sua beira a compor a espiga de trigo que lhe sáía do lado direito do boné. Os dois irmãos aproximaram-se também e faziam sinais ao mais velho.
- Podias ao menos vir tocar prà gente, disse um deles.
- Eu tocar? Nem pago adiantado...
- Era um favor que fazias à gente, juntou Jerónimo a enrolar um cigarro, que depois entregou a Cidro para molhar a mortalha.
Sentou-se. Os três irmãos sorriam. O mais novo foi buscara gaita de beiços ao bolso do casaco e tirou-lhe uma fiada de sons.
- O rancho dos Foros tem raparigas de trás da orelha. Elas pediram pra te vir buscar... Querem fazer ver às da Glória.
- E que tenho eu com isso? Amanhã vou-me embora. Não aguento...
- Ora tu!... Um verde-gaio bem batido arrebita-te em menos dum forfe. A gente não pode dar importância ao corpo.
- Sucede o mesmo a todo o mundo. Ceifar não é brincadeira...
Eu a primeira vez que ceifei até febres tive, disse Jerónimo Arrenega.
Percebendo que Cidro, acamaradava, os três agarraram-no em charola e trouxeram-no a correr para o terreiro das motas. Logo um bando de raparigas abalou atrás deles, numa chilreada de gritinhos e chalaças. Puseram-se-lhe as cachopas à volta, cada uma com o seu mimalho.
- Vá, tocador duma cana! Se vossemecê, der música, hei-de ensinar-lhe onde se encontra um ninho de melros, disse uma atrevida de língua, que lá de mãos não gostava ela de brincadeiras.
- Ou de melras, Jaquina?, perguntou Jerónimo Arrenega.
- Melras manas... Mansinhas como um veludo. Nem é preciso assobiar-lhes.
- Ensinas-me?
- Só digo ao Ruço. Sempre gostei de cenouras; sou como as coelhas.
Queria tocar, dar-se à boa vai ela, mas os beiços adormeciam-lhe na harmónica, à procura de sons que fugiam.
- Empresta-me cá a tua gaita, tocador dum bruto!, gritou-lhe uma gaibéua.
Foi um alarido.
A moça furtara-lhe a harmónica e corria à volta do barracão, como se fosse uma bicha de rabear que fugia à sua frente e se lhe escapava. Cidro encheu-se de brios e meteu-se no jogo - talvez pregasse dois borrachos na cachopa para ela se não fazer fina.
- Anda, Ruço! Olha que essa sabe onde está o ninho!...
Acabou por perder as fúrias de galicho ofendido e já corria por brincadeira. Até que a gaibéua parou, de fadiga. Agarrou-a pelos braços. - Se estivéssemos sòzinhos, contava-te uma história...
- Se calhar, não a sabes toda. Não acredito que a saibas...
O capataz pusera-se à porta do aposento, a fumar uma cigarrada. Estava com a maldade nos ossos. Não era porque não gostasse de ver a mocidade divertir-se mas achava que no primeiro dia da ceifa tinha de dar um exemplo que segurasse aqueles rabezanos metediços.
Cidro já vinha pelo carril abaixo com a gaibéua metediça agarrada ao seu braço.
- Ih que lindo par!, gritava uma dos Foros, toda sacudida de ancas.
- Parece um casal de galinhas cocós... Tão carriços os dois!
Fez-se um cordão de pares atrás deles. Cidro já voltara a encontrar na gaita de beiços todas as músicas que sabia e tocava o Gallito, o que fez chegar os campinos à porta da mota dos bois.
O bailarico acabou por se armar num foguete. Faltavam homens. Dançavam a raparigas umas com as outras, depois de se disputarem por causa daquela que havia de guiar a outra. Os Arrenegas é que tiravam as raparigas todas com os olhos - eram mesmo uns lambões. E logo se puseram a contar as suas histórias de sempre, com manejos de pianista nas ancas das cachopas, e joelhos esquecidos nos rodopios das modas.
As raparigas da Glória vieram para a porta do seu barracão, mas não se embrulhavam no bailarico das outras, que aquilo era gente esquisita, nada de misturas. Cidra encostara-se a um carro lezirão, depois de convencer uma gaibéua a procurar outro par, com a desculpa de que não era capaz de tocar quando dava à perna. Estava que nem uma salada, mas logo que tivesse mais ganas havia de lhe falar a preceito - não julgasse a cachopa que ele era dos que não sabiam para que bandas ficava Lisboa.
E pôs-se a tocar uma valsa com todos os preceitos, assim como quem mandava a harmónica falar por si. Agora só se ouvia o rastejar dos pés no terreiro. Foi por isso que se distinguiu tão bem, agressivo e desmancha--prazeres, o grito arrenegado do capataz das gaibéuas:
- Quem é que te deu ordem? Sou aqui algum fardo de palha?
Cidro não sabia das leis que regem os ranchos que vêm à Lezíria. E continuou a tocar, sem se dar conta que poucos pares tinham ficado.
- Não ouves, Ruço? Quem te deu ordem pra começar o baile? - O outro corria para ele, desaustinado. - Amanhã não ferras, que é pra aprenderes. E é se quiseres, senão ala milhano, que ceifeiros como tu arranjam-se até- na borda das abertas.
Jerónimo Arrenega quis levar o capataz às boas, que o rapaz não tinha culpa, ora essa, eles e as cachopas é que o tinham desinquietado. Elas podiam dizer. E para que era o castigo? Depois do sol-posto não podiam dar uma folga?
No rancho que ele mandasse, não senhor, respondeu o outro. Duas horas ao sábado e chegava, que o patrão não pagava as jorlias pra eles dançarem à noite e não aguentarem de dia com uma gata plo rabo.
- Desculpe lá o tocador!, pediram-lhe as cachopas.
Assim apaparicado, o homem deu-se a bravezas de feitio. O Ruço é que não pegava no trabalho - não consentia faltas de respeito a ninguém, e muito menos a fedelhos que nem barba tinham na porca da cara.
O abegão, apareceu, achou que o homem estava a exagerar, mas não podia cortar-lhe a autoridade; pois doutra matreira já ninguém se entenderia ali dentro. Cidro empertigava-se na roda dos Arrenegas e gaguejava como nunca, ameaçando o outro com um fueiro do carro lezirão onde estivera sentado. Mas as fúrias pareciam ficar por ali.
Acabara-se o baile; Cidro sentiu pela primeira vez na vida que tinha gente do seu lado. O capataz mandava o pessoal recolher aos barracőes e nem os gaibéus lhe obedeciam. Que era mal feito, sim senhor, que era mal feito, aquilo ali táão era tropa. O rapaz não o tratara mal.
Formavam-se grupos no terreiro, os rabezanos atiçavam os ânimos e nem o abegão punha cobro, àquela barbúrdia.
As raparigas dos Foros é que se saíram: se no rancho havia setenta pessoas, cada uma podia dar cinco tostões da féria da semana para pagar o castigo ao tocador: E então?!.. O capataz ficava sujo. Do dinheiro que ganhavam, eles é que eram donos. Havia alguém que se torcesse? Por um dia de castigo davam-lhe quase uma semana.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sex Jun 19, 2009 1:07 pm

Fanny Hill (John Cleland)

Fanny Hill ou Memórias de uma mulher de prazer, considerado o primeiro romance erótico moderno, é também um dos grandes retratos da Europa do século XVIII. Em formato de cartas e narrado em primeira pessoa pela jovem Fanny Hill, o livro surpreende pela prosa sensual de Cleland e pelo estilo e elegância que o autor emprega ao contar as aventuras de iniciação sexual de uma jovem – nem tão inocente assim – que, órfã aos quinze anos, vai para Londres tentar a vida e acaba se tornando uma requisitada cortesã.

Antes da virgindade de Fanny ser posta à venda por uma cafetina, a jovem se apaixona por Charles, com quem foge. Passam a viver juntos, mas, inesperadamente, ele precisa deixar a cidade. Fanny passa, então, de menina insegura a cortesã de muitos amantes. Nesse ponto, o romance se torna inovador, já que Fanny, além de não mostrar arrependimento pelas suas ações, descreve com detalhes explícitos suas aventuras, conferindo à obra um caráter de ode ao prazer sexual. O livro, entretanto, demorou a ser reconhecido pela crítica, que somente nos últimos anos conferiu-lhe a devida importância. O texto, de luzes filosóficas revolucionárias, está atualmente ao lado de obras dos mais renomados autores ingleses, tais como Daniel Defoe e Henry Fielding.

A polêmica acompanha a obra desde o seu lançamento. Editado em dois volumes – o primeiro, em novembro de 1748, e o outro, em fevereiro de 1749 – Fanny Hill não agradou em nada à patrulha religosa da época. Após o lançamento, Cleland, os editores e os impressores foram presos, acusados de obscenidade, e, posteriormente, em juramento, o escritor teve que abjurar o livro. A partir de então passaram a circular edições piratas muito concorridas, que só ajudaram a divulgar os escritos. Nos Estados Unidos, Fanny Hill esteve banido até 1966.


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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sex Jun 19, 2009 8:37 pm

Missão em Portugal (Álvaro Lins)

Álvaro de Barros Lins nasceu em Caruaru (PE) no dia 14 de dezembro de 1912, filho de Pedro Alexandrino Lins e de Francisca de Barros Lins. Bacharelou-se em Direito e em 1932, ingressou no magistério. Logo em seguida iniciou sua carreira jornalística como redator do Diário de Pernambuco. Em outubro de 1934 foi convidado por Carlos de Lima Cavalcanti, interventor e depois governador de Pernambuco, para ocupar a Secretaria de Governo estadual.

Em 1936, seu nome fazia parte da chapa do Partido Social Democrático (PSD) de Pernambuco, fundado por Lima Cavalcanti, para disputar uma cadeira à Câmara dos Deputados. No entanto, o golpe que instaurou o Estado Novo suspendeu as eleições. Com isso, Álvaro Lins deixou a Secretaria de Governo e abandonou seus planos políticos, voltando-se para o exercício da crítica literária. Transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1940, começando a trabalhar no Correio da Manhã.

Em janeiro de 1946 foi convidado para o cargo de consultor técnico da Divisão Cultural do Itamarati, onde permaneceu até 1952, exercendo ainda nesse período várias funções no Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura (Ibecc), agência especializada da Unesco no Brasil.

No mesmo ano também foi lecionar na Universidade de Lisboa.

Regressou ao Brasil em agosto de 1954, devido à crise desencadeada pelo suicídio de Vargas. Reassumiu as atividades jornalísticas e a cátedra de literatura no Colégio Pedro II. Em abril de 1955 ocupou na Academia Brasileira de Letras (ABL) a cadeira número 17, vaga com a morte de Edgar Roquete Pinto.

Participou ativamente, como jornalista e como político, da luta para garantir a posse de Juscelino Kubitschek na presidência da República em 1956. Nessa época, trabalhando ainda no Correio da Manhã, afastou-se da crítica literária para assumir a direção política do jornal. Em janeiro de 1956 foi convidado por Kubitschek para chefiar seu Gabinete Civil, função que exerceu até novembro desse mesmo ano. Álvaro Lins deixa o cargo da chefia de Gabinete para assumir a embaixada do Brasil em Lisboa.

Pouco depois da chegada de Álvaro Lins a Lisboa, em 1957 o presidente de Portugal Francisco Higino Craveiro Lopes visitou o Brasil, estabelecendo na ocasião os termos dos atos de regulamentação do Tratado de Amizade e Consulta entre Brasil e Portugal. Álvaro Lins considerava tal acordo "lesivo aos interesses do Brasil". De fato, suas posições tornariam inevitável seu choque com a ditadura salazarista e o colonialismo por ela sustentado. O impasse foi criado quando, no início de 1959, a embaixada brasileira concedeu asilo ao líder oposicionista português, general Humberto Delgado. Esse asilo, homologado pelo Itamarati como uma decisão do governo brasileiro, não foi reconhecido pelo governo de Portugal, o que consistiu, nas palavras de Álvaro Lins, um "flagrante desacato" ao próprio governo Kubitschek.

Sentindo-se nesse episódio abandonado por não ter podido contar com o presidente Kubitschek "para desagravá-lo e desafrontar a representação do Brasil em Lisboa", Álvaro Lins protestou com veemência quando uma comissão especial do governo português chegou ao Rio de Janeiro com o objetivo de convidar Kubitschek para participar dos festejos henriquinos em Portugal na condição de co-anfitrião e co-chefe de Estado português. O presidente brasileiro não só aceitou o convite como solicitou que Portugal concedesse asilo político em seu território ao ditador Fulgencio Batista, deposto pela Revolução Cubana em janeiro de 1959.

Pouco tempo depois, descontente com a posição assumida por Juscelino, Álvaro Lins escreveu-lhe uma carta rompendo política e pessoalmente com o presidente e condenando seu "compromisso com a ditadura salazarista". Acusava ainda a política do governo Kubitschek de "cumplicidade com as ditaduras, de maneira particular com a de Portugal, a do Paraguai e a da República Dominicana".

Em 1959 foi exonerado da embaixada em Portugal. Porém, antes de deixar seu posto em Lisboa, devolveu ao governo português a condecoração da Grã-Cruz da Ordem de Cristo, que lhe fora conferida pelo presidente Craveiro Lopes. De volta ao Brasil, recolheu-se a sua cátedra de literatura.

Em 1960 publicou Missão em Portugal, relato do dia-a-dia de sua experiência na embaixada em Lisboa.

Nesse livro, que lhe valeu o prêmio Jabuti, foi publicada também sua carta de rompimento com Juscelino Kubitschek.

Em 1961, Álvaro Lins passou a dirigir o suplemento literário do Diário de Notícias do Rio de Janeiro. Deixando o jornal em 1964, dedicou os últimos anos de sua vida a escrever livros.

Casou-se com Heloísa Ramos Lins, com quem teve dois filhos. Faleceu no Rio de Janeiro no dia 4 de junho de 1970.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sab Jun 20, 2009 9:20 pm

Quando os lobos uivam (Aquilino Ribeiro)

Aquilino Gomes Ribeiro nasceu a 13 de Setembro de 1885, em Carregal de Tabosa, no concelho de Sernancelhe, Beira Alta, e faleceu em Lisboa a 27 de Maio de 1963.

Orientado pela família para a carreira eclesiástica, estudou em Lamego e Viseu, antes de ingressar no seminário de Beja, onde esteve de 1902 a 1904. Por ausência de vocação, abandonou os estudos teológicos e dois anos depois já está em Lisboa, onde se dedica ao jornalismo e se envolve em actividades políticas de natureza revolucionária, tendentes a derrubar a monarquia. Na sequência de uma explosão acidental no seu quarto, na qual morreram dois carbonários, foi preso. No entanto, conseguiu evadir-se e exilou-se em Paris, só regressando a Portugal no início da grande guerra, em 1914.

Entre 1910 e 1914 frequentou em Paris a Sorbonne. De regresso a Portugal leccionou durante algum tempo no Liceu Camões e trabalhou na Biblioteca Nacional entre 1919 e 1927. Nessa fase ajudou a fundar a revista Seara Nova, tendo integrado a sua primeira direcção. Entretanto envolveu-se em actividades conspiratórias contra o regime autoritário surgido do golpe militar de 1926. Detido na sequência de um levantamento abortado, conseguiu evadir-se, tendo-se exilado novamente em França, donde só regressou em 1932, após uma amnistia.

A publicação do romance Quando os lobos uivam deu origem, em 1959, a um processo judicial de natureza censória contra o autor.

Ao longo da sua vida exerceu uma intensa actividade literária, abrangendo, além da ficção, biografias, crónicas, ensaios históricos e literários, textos polémicos, a par com a tradução de textos marcantes da literatura mundial.

A primeira fase da sua obra romanesca, que se prolonga até 1932, traz a marca da sua origem rural. Encontramos aí, como temas dominantes, a resistência dos espoliados à repressão moral dos seus instintos vitais; a exaltação do amor carnal e a integração do homem no conjunto das forças naturais.

O seu estilo caracteriza-se por uma exuberância vocabular que só tem paralelo em Camilo. e os seus textos estão recheados de arcaísmos, regionalismos e termos da gíria popular. Algumas das suas obras exploram temas lendários e hagiográficos. Tudo isso contribui para a criação de um ambiente pesado, com o seu quê de barroco, à revelia da literatura urbana do século XX.

"Quando os Lobos Uivam" retrata a saga dos beirões em defesa dos terrenos baldios durante a ditadura, nos finais dos anos 40 e início dos anos 50.

Anos 50. Beira Alta. Nas fráguas da serra dos Milhafres existe o lugar de Rochambana. Um casebre ladeado por menos de dois hectares de terra onde o velho Teotónio Louvadeus vive com a terra, e com a serra, velho lobo eremita que esgravata dali o alimento e o engenho para conviver em paz com a sua solidão.

Teotónio Louvadeus tem a força do granito e por entre as gentes daqueles lugares perdidos, e escondidos nas lapas da serrania, corre à boca pequena que tem pacto com o Diabo: fala com os lobos que ameaçam outros lugares e rebanhos, mas que vêm comer à mão do velho. Não se importa com os boatos. Apenas teme a venatória. A guarda sabe que não tem igual caçador furtivo nas redondezas.

Há mais de dez anos que o filho Manuel partiu para o Brasil. Em Arcabuzais deixou a mulher, Filomena, e dois filhos - Jorgina e Jaime - com a jura de regressar rico, pelo menos remediado, com dinheiro suficiente para matar de vez a fome, essa doença ruim que pairava como ameaça sobre a multidão de humildes que nascia e vivia na serra de Milhafres.

O velho Teotónio sonhava com o dia em que podia abraçar o filho, e como não rezava a Deus, rogava à serra, que a serra tinha a generosidade das mães, que lho enviasse de volta. Talvez fosse por suplicar tanto que Manuel Louvadeus regressou. Não trazia fortuna, é certo, mas regressava menos pobre do que no dia em que deixara Arcabuzais.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sab Jun 20, 2009 11:56 pm

A BASTARDA (La Bâtarde) (Violette Leduc)

A primeira vez que ouvi falar em Violette Leduc foi na extensa autobiografia de Simone de Beauvoir: ela mencionava uma mulher terrivelmente feia, mas muito elegante, que escrevia com "sinceridade intrépida". No entanto, sem saber do que tratavam seus textos, Violette Leduc não passava para mim de um nome bonito apenas.

Muito tempo depois, remexendo num sebo do centro do Rio, deparei com A BASTARDA, livro mais conhecido de Violette Leduc. Dando uma rápida folheada, fiquei impressionado com a qualidade do texto, que me seduziu de imediato. Não será fácil encontrá-lo a venda no Brasil - a menos que, como fiz eu, se recorra aos sebos. Mas creio que vale a tentativa.

Na década de 40 do século passado, assim que começou a publicar - por indicação de Simone de Beauvoir a Albert Camus - Violette foi saudada com grande entusiasmo por importantes escritores contemporâneos de então: Sartre, Genet, Jouhandeau... Contudo, ela não se tornou de imediato uma escritora prestigiada pela crítica, do mesmo modo que só muito lentamente o público passou a dedicar-lhe moderada atenção. Essa situação encontra explicação em algumas peculiaridades da própria obra de Leduc. Na ocasião da publicação de Ravages (Destroços), ela se viu obrigada pelos editores a eliminar do texto integral as passagens tidas como violentamente eróticas. Os trechos extirpados passaram a constituir, mais tarde (ainda assim mutilados), a novela Teresa e Isabel (Thérèse et Isabelle) - publicado integralmente apenas em 2000. O episódio põe em foco a audácia de uma escritora que jamais refreou a autenticidade de seus temas e de sua linguagem. Reveladores também de certas dimensões da obra de Violette Leduc são os títulos de alguns de seus outros livros. Além de Ravages, podem ser citados L'Asphyxie (A Asfixia), L'Affamée (A Esfomeada) e La Vieille Fille et Le Mort (A Solteirona e o Defunto) - denominações nada amenas ou complacentes, mas, ao contrário, indicadoras de um universo profundamente conturbado.

Sinopse:

"Desde as primeiras páginas, a autora nos esmaga sob o peso das fatalidades que a talharam. Durante toda a infância, a mãe lhe insuflou um irremediável sentimento de culpa, culpa de ter nascido, de ter saúde frágil, de custar dinheiro, de ser mulher e fadada aos males de sua condição feminina. [...] Sua avó, com ternura, preservou-a da destruição total. Graças a ela, Violette Leduc pôde salvaguardar uma vitalidade e um fundo de equilíbrio que, nos piores momentos de sua história, a impediram de soçobrar." (trecho do prefácio de A BASTARDA, escrito por Simone de Beauvoir).

Em A BASTARDA encontram-se presentes as principais características da literatura de Violette Leduc. Nesse relato em que uma mulher desce às regiões mais secretas de si mesma, a narradora/autora percorre sucessivas etapas de sua vida, e penetra num mundo pleno de ruído e raiva, em que o amor muitas vezes traz o nome de ódio e em que a paixão de viver se expande em gritos de desespero. Ao longo da narrativa, porém, vai se delineando aquele que é o grande tema de sua obra: a condição da mulher. Mas A BASTARDA não se reduz à sua dimensão autobiográfica, muito menos a um mero libelo feminista, pois se trata de uma obra em que se consuma exemplarmente a observação de Simone de Beauvoir a propósito de Violette Leduc: "...é próprio dos artistas e escritores fabricar a realidade com o imaginário."

Trechos:

"Meu caso não é único: tenho medo de morrer e sinto-me aflita por estar no mundo. Nunca trabalhei. Nunca estudei. Chorei e gritei. As lágrimas e os gritos tomaram muito do meu tempo. Pensar no tempo perdido é uma tortura. Não sou capaz de pensar longamente, mas posso deleitar-me na contemplação de uma folha de alface murcha, onde não tenho remorsos para ruminar. O passado não nos alimenta. Partirei tal como cheguei, intacta, carregada de todos os defeitos que me torturaram. Gostaria de ter nascido estátua, mas não passo de uma lesma debaixo da minha estrumeira. As qualidades, as virtudes, a coragem, a meditação, a cultura. De braços cruzados, esfacelei-me contra essas palavras."
[...]
"Pois um bastardo é alguém que por força há de mentir, visto que é o fruto da fuga e do ludíbrio, um armazém de todas as irregularidades. Sentia-me intimidada, mas queria ser bem educada. É assim que a hipocrisia pode começar. Compreendia confusamente que ele teria desejado ver-me desaparecer. Eu era o peso de um grande amor, uma mosca pousada sobre um pano branco. Não ralhava comigo, no entanto, aterrorizava-me. À mesa, calada durante as refeições e depois das refeições não ousava portar-me bem nem portar-me mal. Aborrecia-me, dissolvia-me, vomitava-me a mim própria. 'Come, filha, come. Vês, a tua mãe come.' 'Sim senhor, não senhor, muito obrigada, não tenho vontade, muito obrigada.' Uma toalha de mesa, um garfo, uma faca, um descanso de talher, que estorvos. Claro que nunca faltou de comer na casa deles, mas à mesa era como se eu estivesse sentada numa cadeira de três pés."

Mini-Biografia:

Bastarda, feia, pobre, solitária, apaixonada por mulheres e homossexuais, traficante do mercado negro durante a 2ª Guerra, Violette Leduc (1907-1972) se classificava como o somatório de todas as marginalidades incômodas. A fim de se "desculpar" por seu nascimento e vencer a distância que a separava dos outros, transformou sua vida dramática em tema para seus livros.

Violette Leduc constitui caso único na literatura francesa: sua obra - autobiográfica demais para ser considerada romance, romanceada demais para ser considerada autobiografia - permanece como algo inrotulável. Ainda hoje obscura mesmo para os franceses, seus livros nunca tiveram um verdadeiro sucesso de público - apesar do reconhecimento por boa parte da crítica. Atualmente, sua obra tem sido avaliada, estudada e utilizada como objeto de teses universitárias em vários países.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Dom Jun 21, 2009 8:16 pm

Águas Novas (Tomás da Fonseca)

Peça em 4 actos. "Na esperança de que possa servir de refrigério, tanto aos humildes que têm fome de pão, como aos vencidos com sede de justiça".

Henrique Salles da Fonseca chegou à vida com o propósito de contribuir para a modernização da sociedade portuguesa, trazia na sua bagagem uma forte moral cristã, uma opinião muito negativa quanto à acção social da Igreja e um empenhado anti-clericalismo, uma Fé totalmente abalada e uma profunda adesão ao conceito republicano da «liberdade, igualdade e fraternidade».

Com forte pensamento crítico sobre os dogmas nacionais, não hesitou em colaborar na busca de novos caminhos que conduzissem Portugal ao ressurgimento. Mas considerando que o dogma fornece coordenadas que permitem a exploração de vias potencialmente caóticas, nunca abdicou da ética por que se regeu desde a infância e navegou com relativa serenidade por entre os escolhos do nihilismo revolucionário em busca das novas regularidades por que pugnava.

Assim, firme na defesa das suas ideias e munido de uma coragem moral que desafiou todas as vicissitudes, teve um papel preponderante na geração que fez a República sempre lutando pelos Direitos do Homem como eles muito mais tarde haveriam de ser universalmente declarados pela ONU.

Em 1910 foi Chefe do Gabinete do primeiro Presidente do Ministério republicano, Dr. Teófilo Braga e em 1916 foi eleito Senador pelo Distrito de Viseu.

Em 1918, por se opor à ditadura de Sidónio Pais, foi preso durante dois meses na cadeia civil de Coimbra em simultâneo com o seu cunhado José Lopes de Oliveira, período em que se dedicou a ensinar as primeiras letras aos presos de delito comum analfabetos seus companheiros de cela.

Professor de raros recursos pedagógicos, a sua ligação ao ensino foi um acto contínuo e em 1922 publicou o livro “História da Civilização” que pouco depois foi adoptado como livro escolar. Dentre as grandes questões a que nunca se furtou, ficou famosa a polémica que desenvolveu com João de Deus Ramos sobre o ensino religioso nas escolas.

Contando com o apoio de Francisco Grandella, promoveu a instalação de inúmeras escolas primárias de modo a combater o analfabetismo, causa por que pugnou até ao final da vida.

Feroz opositor das ditaduras, foi perseguido pelas suas ideias políticas liberais durante o consulado salazarista. Os seus livros foram alvo de censura e proibição. Contudo, nas mais 12 vezes que foi encarcerado não voltou a ser misturado com presos de delito comum e muito se ria com o facto de os próprios guardas prisionais à socapa lhe pedirem autógrafos em exemplares escondidos dos seus livros. Nunca foi torturado e a família sempre foi autorizada a visitá-lo.

Associá-lo a qualquer regime totalitário como o PCP tentou, é denegri-lo, apanhá-lo à traição, não respeitar os seus ideais de liberdade absoluta, democracia pluralista, cultura crítica e anti-dogmática.

A título póstumo foi-lhe concedida a Ordem da Liberdade e essa, sim, não se confunde com qualquer opção autocrática, monolítica ou obscurantista.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Jun 23, 2009 3:25 pm

Barcas Novas (Fiama Hasse Pais Brandão)

O livro “Barcas Novas” de Fiama Hasse Pais Brandão (Editora Ulisseia, 1967) é um curioso livro cuja temática incide sobre episódios bem conhecidos da nossa história, não para constituir mais uma perspectiva sobre os mesmos mas para problematizar a história moderna e nessa conjectura é um livro engagé aparecendo como alternativa ao que então faziam os poetas que se reivindicavam do movimento neo-realista (ou cujas opções estéticas se enquadravam no neo-realismo; ou se não era uma alternativa, apontava pelo menos uma saída possível para alguns dos impasses com que se debatia o movimento.

O livro passa em revista o início da nossa arte de navegar a partir de um conhecido poema de Joam Zorro, poema que dá o nome ao livro, mas também à batalha de Aljubarrota, o drama de Alcácer-Quibir, a memória dos nossos mortos, o assassinato de Inês de Castro, o cerco de Lisboa.

São alusões a episódios que marcaram de algum modo o nosso viver colectivo e que servem de contraponto aos desastres que uma política suicida nos havia de conduzir nos anos 60 com o envio de milhares de soldados para a guerra colonial (em termos literários, Fiama usa-os para reflectir o momento presente; de algum modo, poder-se-á dizer que os poemas que constituem este livro funcionam, na sua globalidade, como uma metonímia).
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Jun 24, 2009 10:35 am

Baudelaire (Jean-Paul Sartre)

Baudelaire é uma obra escrita por Sartre em 1947 na qual ele aplicou seu método progressivo-regressivo numa tentativa de abordagem psicanalítica empreendida através da biografia do poeta.

O objetivo da psicanálise existencial - diferentemente da psicanálise freudiana – volta-se para o desvendamento do projeto original do sujeito. Desvendar esse projeto significa, por um lado, identificá-lo, através da compreensão que temos das condições materiais e dos atos, como significantes do comportamento do outro - momento progressivo; e, por outro, identificar nas formas particulares, singulares e afetivas a efetivação desse projeto – momento regressivo.

Sartre dá início a este trabalho recuperando, portanto, no “vai-vem” progressivo e regressivo que caracteriza tal método, os aspectos mais reveladores da existência de Baudelaire. As características apontadas em primeiro plano, partem das falhas e contradições objetivamente observadas em seu comportamento: Baudelaire era perverso, mas adotava rigorosamente os mais banais princípios morais; era refinado, mas freqüentava as mais miseráveis prostitutas; era solitário, mas apresentava-se sempre acompanhado; era esforçado, mas incapaz de manter um trabalho de forma regular; sonhava com viagens, mas a única viagem que realizou foi uma empresa sofrida. Partindo de alguns dados objetivos como esses, Sartre retoma, de forma regressiva, a origem e a infância de Baudelaire.

Baudelaire nasceu no ano de 1821, originário de uma família burguesa do início do século XIX. Tendo apenas seis anos, quando seu pai faleceu, formou com a mãe um forte e indissolúvel vínculo afetivo. Um ano após a morte do pai, a mãe casa-se novamente e Baudelaire é colocado em uma pensão. Esse fato teve uma importância capital na vida do poeta que, até então, formava com sua mãe uma unidade religiosa, na qual ele era inteiramente absorvido, ou seja, sua mãe se lhe configurava como um ser necessário e sua fusão com esse ser justificava sua existência. Entretanto, era exatamente esse ser absoluto que agora o rejeitava. Sua transferência para um pensionato veio acompanhada de uma ruptura: sem que houvesse um momento de transição, Baudelaire é jogado bruscamente em uma existência individual, solitária e injustificada. Essa solidão, apesar de ser vivenciada por ele como um destino, não se expressa numa passividade, mas é na cólera pela condição que lhe foi imposta, que ele reconhece a sua condenação.

O reconhecimento de sua alteridade se dá na humilhação, no rancor e na escolha heróica e vingativa do abstrato. Baudelaire constitui, com isso o seu orgulho. Trata-se, contudo, de um orgulho fundamentado no vazio, que se alimenta de si mesmo. Não há nesse orgulho a sustentação de um sucesso ou o reconhecimento de alguma superioridade: sua única fonte é a forma vazia e universal da alteridade. Ele se faz diferente, único e singular. E essa sua singularidade alcança uma tal profundidade, que faz dele um ser totalmente voltado para si mesmo. Ele constrói um espelho narcísico que impede a imediaticidade de sua consciência e aponta incessantemente seu ser-objeto. Voltado sobre si mesmo, Baudelaire tenta estabelecer uma dualidade que lhe permita ver-se como um outro; sua consciência, assim observada, perde sua espontaneidade. Baudelaire não vê, por exemplo, uma árvore; ele vê-se, vendo essa árvore. Sua consciência é, para ele, uma consciência sempre refletida; ele é um outro para si mesmo. Segundo Sartre, encontra-se aí o grande drama baudelairiano: ele quer ser dois. Isto significa, para o poeta, empreender a posse do Moi pelo Moi e ser testemunha de sua própria dor. Baudelaire é, ao mesmo tempo, a vítima e o carrasco. Entretanto, todo esse esforço termina em fracasso: narcisicamente, ele contempla a própria imagem sem poder, contudo, apossar-se dela. Tudo o que ele encontra são as formas universais da condição humana que ele reconhece no orgulho, na lucidez e no tédio que advém da gratuidade e da injustificabilidade de sua existência. Reside aí, segundo Sartre, a escolha original do poeta: Baudelaire, em sua liberdade, escolheu a solidão como uma forma definitiva de afirmar sua singularidade, pela constituição de uma essência fixa, ou seja, fazer-se coisa, ser uma transcendência-transcendida, em suma: ser de má-fé.

Na ambigüidade da sua má-fé, Baudelaire apresenta uma natureza contraditória. Por um lado, ele empreende um esforço de recuperação que lhe possibilite tornar-se coisa pois, só como coisa, ele poderia satisfazer a necessidade de possuir-se; enquanto coisa, ele recusa o papel de criador de valores assumindo os valores impostos pela sociedade e pela religião, cuja moral católica lhe foi transmitida pela família; torna-se um produto divino, tem sua existência justificada e aplaca a angústia da solidão e da responsabilidade. Mas, em troca, coloca em risco sua liberdade. Por outro lado, seu orgulho reclama essa liberdade que faria dele seu próprio criador. Na verdade, Baudelaire quer ser uma liberdade-coisa. Não opta por uma, nem por outra; não opta entre ser livre ou tornar-se coisa, ele opta pela não-escolha, ou seja, opta pela má-fé; por um projeto de má-fé.

Temos até agora alguns aspectos mais relevantes sustentados pelo movimento regressivo da análise sartriana. Vejamos então, por um movimento progressivo, de que forma Baudelaire manifestava empíricamente o significado de uma “situação”, adequando-a ao seu projeto original. Sartre assinala, entre outras, algumas características que se tornaram célebres no comportamento do poeta, como o seu horror à natureza, e o seu famoso “dandismo”.

O horror de Baudelaire pela natureza está enraizado no pavor que lhe causa a consciência de gratuidade de sua contingência e de sua existência injustificada. Com isso, a visão de uma paisagem muda e desordenada lhe conduzem à monotonia e ao tédio, causando-lhe pavor. O mundo das plantas, os legumes, os vegetais, a terra, a água corrente trazem uma espontaneidade e uma fluidez que lhe é ameaçadora. Baudelaire faz-se, então, inteiramente urbano. Cercado pelas luzes da cidade, por suas águas encanadas, pelas suas construções e seus utensílios, o poeta obtém a garantia de uma existência justificada. A natureza opõe-se, ao trabalho do homem, pois é este que pode transformá-la e imprimir-lhe a marca humana. Baudelaire não quer ser natural ele nega o que lhe é naturalmente dado, nega sua contingência e constrói a imagem através da qual, pretende se apresentar ao mundo, celebrizando-se, então, pela marca inofensiva de seu delicado dandismo.

Sartre assinala que o dandismo criado por Baudelaire tem ainda a função de defesa contra os outros. Com essa imagem, ele afirma sua singularidade, se faz diferente, se faz “outro” que não os “outros”. Esses “outros” são os poderosos juízes, cujas regras ele transgride, mas às quais se submete, com a esperança de ser perdoado. A sua transgressão não se completa, permanece dissimulada, no meio do caminho, nos limites do Bem tradicional e, como as demais escolhas, numa típica atitude de má-fé, essa também é abortada antes mesmo de se realizar.

Baudelaire é um rico exemplo da aplicação do método progressivo regressivo – originalmente construído como um repúdio ao dogmatismo marxista – no qual o filósofo afirma a irredutibilidade do indivíduo, diante das determinações histórico-sociais. Ao trazer tais prerrogativas para a psicanálise, Sartre tenta conciliar dois aspectos que, em sua ontologia fenomenológica, não tiveram a necessária relevância: a evidência da História e a obscuridade da infância. Entretanto, vale lembrar que Baudelaire é uma obra que vai muito além dessa possibilidade – que, sem dúvida alguma, complementa o pensamento e enriquece a compreensão da obra sartriana – mas trata-se, sobretudo, de uma belíssima descrição fenomenológica da aventura humana.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qua Jun 24, 2009 7:26 pm

O Macaco Louco (A.Szent-Gyorgyi)

Gyorgyi, biólogo americano de origem Húngara, - Prémio Nobel Medicina e da Fisiologia em 1937 - morreu a 22 Outubro de 1986.

As ideias de A.Szent-Gyorgyi, na sua Obra "O macaco Louco", são muito curiosas:

- A humanidade cresce como as serpentes, mudando de pele de vez em quando.

- Porque se comporta o homem como um perfeito idiota? Na defesa militar temos gasto rios de dinheiro e o que conseguimos com isso? Insegurança, nervosismo e um bilhete para a autodestruição, tendo colocado o nosso destino em mãos nas quais não temos a menor razão para confiar.A ciência moderna já conseguiu ser possível, caso algum maluco assim o deseje,que morramos todos juntos.

- Vivemos todos numa jaula muito estreita. O facto de pessoas de épocas diferentes pensarem de formas também diferentes não significa que a jaula se tenha ampliado, mas sim que ela se moveu.

- Não foi a descoberta do avião uma inquietação? (e agora a segurança?);E a inquietação com os “quanta” e os átomos? Se eu visse átomos ou quanta em vez de camiões, seria atropelado.

- O que torna insustentável a despesa com o material bélico atómico, é o facto de ele não poder ser utilizado.Isto obriga-nos a colocar a questão da vida para além da morte de outra forma, a saber: Hoje pela primeira vez, devemos interrogar-nos sobre se haverá vida ANTES da morte.

- A altura dos pedestais das estátuas que erguemos aos nossos heróis é proporcional ao número de pessoas que por causa deles morrerram.E o mandamento principal é: “Não matarás”. Mas a natureza é construída sobre mortes!Se tentássemos ensinar um tigre a não matar, ele rir-se-ia de nós, se pudesse.

- A morte de familiar é uma tragédia, mas a de 10.000 é estatística.

- Os exércitos são uma ameaça para a paz e para a nossa própria existência e quanto maiores e melhores forem tanto maior ameaça se tornam.Os exércitos inimigos são os maiores aliados uns dos outros.Uns não sobreviveriam sem os outros. São todos muito corajosos e temem apenas uma coisa:a Paz, que os tornaria supérfluos.
Mas os governos não prescindem dos exércitos. Não é verdade que povos assustados são mais fáceis de governar?

- O político pensa na eleição seguinte, mas o estadista pensa na geração seguinte.- Os governos continuam a aumentar os seus arsenais bélicos que se não forem utilizados, são um desperdício e, se o forem, serão a nossa destruição.

- A evolução da ciência tem mostrado que a história já não é feita nas capitais do mundo, mas sim nos laboratórios.
A última guerra mundial não foi ganha pelos nossos exércitos, mas sim pelos nossos cientistas. Hitler não ganhou a guerra porque não confiava na ciência.

- A característica essencial do método científico é encarar os problemas como problemas. Não interessa saber quem tem razão, mas sim saber qual é a verdade.

- Infelizmente a estupidez é aditiva, ao passo que a inteligência não o é.
O juiz que me condenaria à prisão por me ter recusado a matar seria, em princípio, o mesmo que condenaria um qualquer tenente por ter obedecido à ordem de matar.

Em Conclusão:

Quem compreender a situação é porque não está bem informado e quem estiver bem informado não pode comprender a situação...
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Jun 25, 2009 1:38 pm

A voz e o sangue (Carlos Loures)

Nasce em Lisboa, na freguesia de Santa Justa, em Outubro de 1937.

Entre 1958 e 1960 é um dos coordenadores da revista «Pirâmide», da qual são publicados três números. Nestes cadernos colaboram numerosos escritores, na sua maior parte ligados ao movimento surrealista: Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco, Herberto Hélder, Pedro Oom, António José Forte, Ernesto Sampaio, Manuel de Castro, etc. Ali se publicam também inéditos de Raul Leal, figura do «Orpheu», e de António Maria Lisboa.

Em 1962 publica a sua primeira colectânea de poemas, «Arcano Solar» (Círculo de Cultura Ibero-americana), onde é visível a influência dos seus mestres surrealistas.

Revelando um forte compromisso ideológico, «A Voz e o Sangue» (Novo Rumo, Tomar, 1968), violento libelo contra a ditadura, é apreendido e vale ao autor seis meses de prisão.

Dentro da mesma linha de um realismo socialista, «A Poesia Deve Ser Feita Por Todos» (Ulmeiro, 1970), é também apreendido pela polícia política. Em 1990 publica nova colectânea poética, «O Cárcere e o Prado Luminoso» (Edições Salamandra, Lisboa).

Em 1985 estreia-se como ficcionista com o romance «Talvez um Grito» (Edições Salamandra), obra distinguida pelo júri do Prémio Diário de Notícias. Em 1995 publica o seu segundo romance «A Mão Incendiada» (Edições Colibri, Lisboa).
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Jun 25, 2009 9:39 pm

As Torres Milenárias (Urbano Tavares Rodrigues)

Tendo como ponto de partida uma situação de absurdo (uma evasão extraterrestre do planeta terra), Urbano Tavares Rodrigues explora e desenvolve as reacções psicológicas de um grupo de burgueses face a uma situação extrema - a proximidade da morte. Mas a psicologia da multidão em breve cede o lugar a uma espécie de «exame de consciência», revelador das diversas naturezas individuais de cada personagem.

Urbano Tavares Rodrigues não é apenas o grande escritor do Alentejo, das suas gentes e das suas paisagens, é também o romancista e contista de Lisboa e de outras atmosferas cosmopolitas que, como jornalista e professor universitário, bem conheceu, viajando por todo o mundo.

Catedrático jubilado da Faculdade de Letras de Lisboa, membro da Academia das Ciências, tem uma obra literária e ensaística muito vasta e traduzida em inúmeros idiomas, do francês e do espanhol ao russo e ao chinês. Obteve diversos prémios, entre eles o de Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, o prémio Fernando Namora, o Ricardo Malheiros da Academia das Ciências, etc.

De entre os seus maiores êxitos de crítica e de público, lembramos A Noite Roxa, Bastardos do Sol, Os Insubmissos, Imitação da Felicidade, Fuga Imóvel, Violeta e a Noite, O Supremo Interdito, Nunca Diremos Quem Sois, A Estação Dourada.

Urbano Tavares Rodrigues, que foi afastado do ensino universitário durante as ditaduras de Salazar e Caetano, participou activamente na resistência e foi preso e encarcerado por várias vezes nos anos sessenta.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sex Jun 26, 2009 3:49 pm

O assalto ao Santa Maria (Henrique Galvão)

Estamos perante um livro de História.
O «Santa Maria» já desapareceu. Os dois chefes da operação que se desenrolou a bordo desse barco, também já desapareceram: Humberto Delgado, assassinado, em circustâncias ainda não esclarecidas, Henrique Galvão, exilado.
Os restos desses dois Portugueses esperam um dia o regresso à Mãe-Pátria.
Henrique Galvão foi, sem dúvida, um grande Português, a quem o País ficou a dever inestimáveis serviços. Sofreu muito. Morreu pobre, esquecido, abandonado, como sucede, em geral, aos que lutam sinceramente pelas suas ideias.

"Vou para onde me empurraram: para a revolta."
(Henrique Galvão)

"Vamos arrependermo-nos mil vezes. É muito mais perigoso que Delgado."
(Oliveira Salazar)
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sex Jun 26, 2009 11:29 pm

As Mãos Sujas (Jean Paul Sartre)

As Mãos Sujas, a peça mais célebre de Sartre, nasce da oposição política de um realista e de um idealista. Um chefe revolucionário colabora com os seus adversários; uma facção do seu próprio partido considera essa táctica inoportuna e encarrega um jovem idealista de o assassinar.

Este livro reflecte principalmente as ideias de Sartre sobre o problema da liberdade.

A filosofia de Sartre, tão discutida, pode ser definida como uma filosofia da liberdade e da responsabilidade. Ao homem compete inventar a própria vida e o próprio destino e escolher a própria liberdade e construir o seu valor. Esta filosofia é designada sob o nome genérico de "existencialismo" e revela-se, sobretudo, nos volumes L' être et le Néant, Situations e Critique de la Raison Dialectique. Em 1964, Sartre foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, que recusou.
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Vitor mango



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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sab Jun 27, 2009 1:30 am

Anarca escreveu:
As Mãos Sujas (Jean Paul Sartre)

As Mãos Sujas, a peça mais célebre de Sartre, nasce da oposição política de um realista e de um idealista. Um chefe revolucionário colabora com os seus adversários; uma facção do seu próprio partido considera essa táctica inoportuna e encarrega um jovem idealista de o assassinar.

Este livro reflecte principalmente as ideias de Sartre sobre o problema da liberdade.

A filosofia de Sartre, tão discutida, pode ser definida como uma filosofia da liberdade e da responsabilidade. Ao homem compete inventar a própria vida e o próprio destino e escolher a própria liberdade e construir o seu valor. Esta filosofia é designada sob o nome genérico de "existencialismo" e revela-se, sobretudo, nos volumes L' être et le Néant, Situations e Critique de la Raison Dialectique. Em 1964, Sartre foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, que recusou.

Vivia com a Simone Beauvoir mas cada qual na sua casa
Conheceu Jean-Paul Sartre na Sorbonne, no ano de 1929, e logo uniu-se estreitamente ao filósofo e a seu círculo, criando entre eles uma relação polêmica (foi uma relação "aberta", pois o casal tinha experiências amorosas com terceiros) e fecunda, que lhes permitiu compatibilizar suas liberdades individuais com sua vida em conjunto.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Dom Jun 28, 2009 12:06 am

As Memórias do Capitão (J. Sarmento Pimentel)

João Sarmento Pimentel(1888-1987) escreveu um livro de memórias notável.

Homem aguerrido, lutou até ao fim da sua longa vida, pelos ideais a que sempre se manteve fiel.

Este livro é um retrato da sua personalidade, da sua época, da sua infância, adolescência e idade adulta. Enfrentou desde cedo, a hipocrisia social de uma sociedade monárquica, que tentou combater. Mais tarde, depois da implantação da republica, veio a desilusão, o Estado Novo e o seu exílio prolongado no Brasil.

Neste país irmão, nunca deixou de estar comprometido com a sua pátria, mantendo sempre uma profícua correspondência com muitos intelectuais da sua época. No seu livro de memórias, pode compreender-se o porquê desta rectidão de carácter que o Capitão João Sarmento Pimentel fez questão de descrever prestando assim uma homenagem a sua mãe «...foi a bondade, o carinho, a energia, as altas virtudes morais daquela santa Mãe portuguesa, que deram firmeza de carácter, e verdadeira noção de honradez, aos três moços seus filhos. Eles foram homens do seu tempo e, como seus maiores amantes e defensores da liberdade, correram o mundo e lutaram pela sua vida e na defesa da Pátria.»

A mãe de Sarmento Pimentel, não apoiava os ideais republicanos de seu filho, mas deixou-o prosseguir a sua caminhada...
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Dom Jun 28, 2009 1:50 pm

Novelas Eróticas (Manuel Teixeira Gomes)

Manuel Teixeira Gomes nasceu em 1860 em Vila Nova de Portimão e faleceu em 1941, em Bougie, na Argélia. Estadista e escritor, começou a sua carreira política como diplomata, vindo a ser Presidente da República em 1923-1925, quando o regime parlamentar atravessava alguns dos seus mais críticos momentos.

O seu livro “Novelas Eróticas” de 1935, é um alegre repositório de amores e desamores de transcendente candura. Nesta obra Teixeira Gomes, relata desventuras amorosas com uma dose apelativa, mas não tanto como o título possa sugerir, de sensualidade, respira-se da sua escrita a imaginativa arte de amar e os rodeios e complexidades que a decompõem no acto final, expresso pela consumação do amor de dois seres feitos um, por força de sentidos e sentimentos, que tem tanto de avassaladores como de perenes ou imorredoiros.

Crê-se que estes seis textos que compõem a obra têm uma forte componente biográfica, quando não na situação pelo menos nas descrições físicas dos lugares que Teixeira Gomes bem conhecia. É uma obra injustamente esquecida de um escritor que tem o dom da escrita escorreita e cativante, é um autor injustamente posto de lado pelas elites literárias, que importa pois redescobrir, numa dimensão do humano puro gozo da escrita bela.

Como diplomata (antes e depois do consulado sidonista, que o expulsou do corpo diplomático), coube-lhe enfrentar, o que fez com êxito, situações de grande melindre e complexidade, designadamente combater a hostilidade ou pelo menos a desconfiança das monarquias europeias (Inglaterra, Espanha) perante o regime republicano instaurado em Portugal e evitar o desmembramento, na Conferência de Paz, do império português após a Primeira Guerra Mundial. A sua acção como presidente da República não teve, porém, o mesmo sucesso, pois teve de enfrentar crises políticas (entre elas a de 18 de Abril de 1925) e animosidades pessoais que impossibilitaram a concretização dos consensos que sempre procurou, para além das forças que, através da acção política legal e da conspiração, procuravam derrubar o regime republicano parlamentar.

Na sua actividade literária - da qual se destacam obras como "Gente Singular" (1909), "Novelas Eróticas" (1935) e "Maria Adelaide" (1938) - encontram-se simultaneamente traços esteticistas e naturalistas, bem como uma particular influência da tradição helenística. Todavia, a mais notável constante da sua escrita residirá provavelmente no impulso de transfiguração da experiência pessoal em produtos esteticamente acabados.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Seg Jun 29, 2009 9:51 pm

A Pedir Chuva (Tomás da Fonseca)

A Pedir Chuva é uma Palestra a propósito do uso das orações destinadas à imploração das chuvas em tempo de seca, integrada na «Biblioteca de Fomento Rural»

Chegado à vida com o propósito de contribuir para a modernização da sociedade portuguesa, trazia na sua bagagem uma forte moral cristã, uma opinião muito negativa quanto à acção social da Igreja e um empenhado anti-clericalismo, uma Fé totalmente abalada e uma profunda adesão ao conceito republicano da «liberdade, igualdade e fraternidade».

Com forte pensamento crítico sobre os dogmas nacionais, não hesitou em colaborar na busca de novos caminhos que conduzissem Portugal ao ressurgimento. Mas considerando que o dogma fornece coordenadas que permitem a exploração de vias potencialmente caóticas, nunca abdicou da ética por que se regeu desde a infância e navegou com relativa serenidade por entre os escolhos do nihilismo revolucionário em busca das novas regularidades por que pugnava.

Assim, firme na defesa das suas ideias e munido de uma coragem moral que desafiou todas as vicissitudes, teve um papel preponderante na geração que fez a República sempre lutando pelos Direitos do Homem como eles muito mais tarde haveriam de ser universalmente declarados pela ONU.

Em 1910 foi Chefe do Gabinete do primeiro Presidente do Ministério republicano, Dr. Teófilo Braga e em 1916 foi eleito Senador pelo Distrito de Viseu.

Em 1918, por se opor à ditadura de Sidónio Pais, foi preso durante dois meses na cadeia civil de Coimbra em simultâneo com o seu cunhado José Lopes de Oliveira, período em que se dedicou a ensinar as primeiras letras aos presos de delito comum analfabetos seus companheiros de cela.

Professor de raros recursos pedagógicos, a sua ligação ao ensino foi um acto contínuo e em 1922 publicou o livro “História da Civilização” que pouco depois foi adoptado como livro escolar. Dentre as grandes questões a que nunca se furtou, ficou famosa a polémica que desenvolveu com João de Deus Ramos sobre o ensino religioso nas escolas.

Contando com o apoio de Francisco Grandella, promoveu a instalação de inúmeras escolas primárias de modo a combater o analfabetismo, causa por que pugnou até ao final da vida.

Feroz opositor das ditaduras, foi perseguido pelas suas ideias políticas liberais durante o consulado salazarista. Os seus livros foram alvo de censura e proibição. Contudo, nas mais 12 vezes que foi encarcerado não voltou a ser misturado com presos de delito comum e muito se ria com o facto de os próprios guardas prisionais à socapa lhe pedirem autógrafos em exemplares escondidos dos seus livros. Nunca foi torturado e a família sempre foi autorizada a visitá-lo.

Associá-lo a qualquer regime totalitário como o PCP tentou, é denegri-lo, apanhá-lo à traição, não respeitar os seus ideais de liberdade absoluta, democracia pluralista, cultura crítica e anti-dogmática.

A título póstumo foi-lhe concedida a Ordem da Liberdade e essa, sim, não se confunde com qualquer opção autocrática, monolítica ou obscurantista.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Ter Jun 30, 2009 10:24 pm

O pássaro pintado (Jerzy Kosinski)

O livro que deu fama (e infâmia em igual grau, para alguns) ao seu autor chega, enfim sem censura e pressão política, a Portugal. Perto de quarenta anos após uma primeira edição censurada e retirada do mercado, em pleno estertor do salazarismo, O Pássaro Pintado de Jerzy Kosinski é, por fim, lançado em Português deste lado do Atlântico. Esta odisseia de uma criança anónima que sobrevive durante os anos da Segunda Guerra Mundial, escondida, nas aldeias e florestas da Polónia, do perigo dos invasores alemães e da brutalidade do resto do mundo, é um misto de memória pessoal (também o autor foi separado dos pais nesse período) e de tentativa de exorcismo de uma geração através da representação do inefável, do inimaginável. Sem qualquer sentimentalismo e pendor ideológico, somos levados pela mão para o centro do palco do mais terrível drama da História. E deixados na floresta. Pelos olhos desta criança, a trama política é relativizada: qualquer agressor é um inimigo, e todos os são quando temos a pele da cor errada, no local e na época errados. E num tal cenário, os monstros míticos tendem a misturar-se com os demónios humanos. Ao mesmo tempo, um memento mori e um hino poderoso à fantasia criadora e à capacidade de sobrevivência, O Pássaro Pintado é um clássico, mas é também um desafio: conseguirá o leitor sair da floresta?
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Qui Jul 02, 2009 4:32 pm

Capitães da Areia (Jorge Amado)

Jorge Amado retrata os meninos como moleques atrevidos, malandros, espertos, famintos, ladrões, agressivos, falsos, soltos de língua, carentes de afetos, de instrução, de comida.

O livro é dividido em três partes. Antes delas, no entanto, vem uma sequência de reportagens, que caracterizam os meninos e mostram diversas visões sobre os acontecimentos.

Primeira parte

Conta algumas histórias quase independentes sobre alguns dos principais Capitães de Areia (o grupo chegava a quase cem, morando num trapiche abandonado, mas tinha líderes).

O ápice da primeira parte vem em dois momentos: quando os meninos se envolvem com um carrossel mambembe que chegou na cidade, e experimentam as sensações infantis; e quando a varíola ataca a cidade e acaba matando um deles, apesar da tentativa do padre José Pedro em ajudá-los, e tendo grandes embaraços por causa disso.

Segunda parte

Sub-titulada de "Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos", relata a história de amor que surge quando Dora torna-se a primeira "Capitã da Areia". Apesar de inicialmente os garotos tentarem estuprá-la, Dora vira uma espécie de mãe para eles. "Canção da Bahia, Canção da Liberdade".

Terceira parte

Mostra a desintegração dos líderes. Sem-Pernas se mata antes de ser capturado pela polícia que odeia; Professor parte para o Rio de Janeiro onde torna-se um pintor de sucesso, entristecido com a morte de Dora; Gato se torna uma malandro de verdade, abandonando eventualmente sua amante Dalva, e passando por Ilhéus; Pirulito se torna frade; Padre José Pedro finalmente consegue uma paróquia no interior, e vai para lá ajudar os desgarrados do rebanho do Sertão; Volta Seca se torna um cangaceiro do grupo de Lampião e mata mais de 60 soldados antes de ser capturado e condenado; João Grande torna-se marinheiro; Boa-vida continua sua vida de capoeirista e malandro; Pedro Bala, cada vez mais fascinado com as histórias de seu pai sindicalista, vai se envolvendo com os doqueiros e finalmente os Capitães de Areia ajudam numa greve. Pedro Bala abandona a liderança do grupo, mas antes os transforma numa espécie de grupo de choque. Assim Pedro Bala deixa de ser o líder dos Capitães de Areia e se torna um líder revolucionário comunista.

Personagens

Pedro Bala, o líder, uma espécie de pai para os garotos, mesmo sendo tão jovem quanto os outros, e depois descobre ser filho de um líder sindical morto durante uma greve;
Volta Seca, afilhado de Lampião, tem ódio das autoridades e o desejo de se tornar cangaceiro;
Professor, lê e desenha vorazmente, sendo muito talentoso acaba no Rio de Janeiro pintar ficando conhecido por isso;
Gato, que com seu jeito malandro acaba conquistando uma prostituta, Dalva;
Boa-Vida, era um malandro, capoeirista, adorava Querido-de-deus, teve uma queda por Gato logo quando este chegou no Trapiche;
Sem-Pernas, o garoto coxo que serve de espião se fingindo de órfão desamparado (em uma das casas que vai é bem acolhido, mas trai a família ainda assim, mesmo sem querer fazê-lo de verdade);
João Grande, o "negro bom" como diz Pedro Bala, segundo em comando;
Querido-de-Deus, um capoeirista que é apenas amigo do grupo;
Pirulito, tem grande fervor religioso;
Dora, era a "mãe" de todos do trapiche, é amada por Professor e por Pedro Bala. Fica doente e antes de morrer faz sexo com Pedro Bala. Pedro Bala diz que Dora, ao morrer, vira uma estrela no céu;
Raimundo era chefe do capitães da areia antes de Pedro Bala, foi ele que cortou o rosto de Pedro Bala, mas logo vai embora;
Don'Anninha é mãe de Santo amiga dos Capitães da Areia;
Padre José Pedro é amigo dos Capitães da Areia e que procura fazer Daqueles meninos homens de bem e crentes em Deus.


Análise

O que o livro "Capitães da Areia" nos transmite, na verdade, é o fato de cada um dos garotos tentar substituir o amor de mãe que lhes falta. Pirulito descobriu Deus para lhe transmitir um pouco desse carinho; Gato descobriu Dalva, uma mulher já feita, muito mais velha que ele, que lhe dava prazer todas as noites; Volta-Seca no seu padrinho, Lampião, que lhe permitia sonhar que um dia se juntaria a ele e juntos lutariam contra o sistema; Professor acha seu afeto na pintura e nela mostra seus sentimentos; e assim por diante. Contudo, a realidade é que, por mais que eles tentem, esse carinho de mãe não pode ser substituído e que há sempre aquele espaço vazio nos seus corações, o que os leva a continuar a conduzir a vida, na maior parte dos casos, pela criminalidade. Mostra também que o problema desses meninos faz parte da nossa realidade e que não são todas as pessoas que se preocupam com isso, tratando esses meninos como delinquentes.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Sex Jul 03, 2009 6:59 pm

VAGÃO J (Vergílio Ferreira)

O romance inicia-se com as personagens de uma feira numa cidadezinha de Portugal. A partir desses personagens populares começa a se destacar a família dos Borralhos.

Os Borralhos estão na posição mais inferior da escala social, são miseráveis e também são considerados ladrões pela maioria da população: “Manuel Borralho pertencia à família dos Borralhos, que eram ladrões, ladrõezinhos reles, se multiplicavam como cogumelos”.

A família Borralho era constituída por Chico Borralho, o pai, que perde uma perna num acidente numa pedreira. Inválido, sem poder trabalhar, transforma-se num peso para a família, ainda mais que é dado às bebidas. Joaquina Borralho, a mãe, mulher vulgar e inculta, que tenta fugir da miséria pelos meios menos adequados, incentiva, por exemplo, a filha a roubar coisas nas casas em que trabalha como empregada. Quando o marido morre e os filhos ficam mais velhos parte para Lisboa com Calhau, um agregado da família e seu irmão Gorra.

Manuel Borralho, é o filho mais velho. Numa briga esfaqueia outro homem, o Bogas. É preso por um mês. É apaixonado por Maria do Termo, que não lhe corresponde o sentimento. Como o pai, embebeda-se freqüentemente e se mete em confusões. Por ciúmes de Maria do Termo assassina o Dr. Soeiro, pessoa de classe social elevada na cidade. Preso pelo crime é condenado ao degredo. Ao voltar muitos anos depois, encontra Maria do Termo transformada em prostituída decadente e acabam vivendo juntos.

João Borralho, outro filho de Joaquina, passa por vários empregos. Casa-se com Gornicho. É do tipo trabalhador, mas daqueles que estão sempre sendo explorados sem chegar a tomar consciência disso. Sua revolta com o Mundo é a de um simples.

Joaquim, quando criança desejava ter um papagaio de seda, nunca o teve. Arruma emprego de operário numa fábrica. Será sempre um operário, mas isso já é um progresso para as perspectivas sociais oferecidas aos Borralhos.

António Borralho, o caçula. É o único que consegue ir à escola. Dona Estefânia o protege, pois pretende encaminhá-lo para o seminário. Já no seminário, num acidente com fogos de artifício perde a mão e volta para casa com os seus sonhos desfeitos.

Maria Borralho, a filha mais velha, trabalha na casa de D. Estefânia. Por incentivo da mãe rouba a despensa. Engana o filho da patroa com algumas carícias para receber alguns presentes. Acaba grávida de um rapaz pobre e casa-se com ele.

Calhau, agregado dos Borralhos. Corcunda, torto, cigano. Acaba por ter um relacionamento com Joaquina, e chegam juntos a planejar a morte de Chico Borralho.

Família que luta contra a fome, a quem falta toda sorte de instrução e cultura, vivem no limite entre a humanidade e o animalesco.

Por outro lado, temos as pessoas que se contrapõem aos Borralhos pela condição social: Dr. Soeiro (homem de muitos poderes), Sr. Joãozinho (que junta dinheiro para comprar uma casa nova na Quinta), Sr. Castro (que tem muitas propriedades) e D. Estefânia.

Na escola, António Borralho ganha a simpatia do professor, este é quem dava caderno e lápis para o menino poder estudar. O professor demonstra ter uma visão crítica da sociedade em que vive.

Ti Ana, mãe de Maria do Termo, teve esta “filha de um patrão qualquer”. Maria não cede aos apelos de Manuel Borralho, mas se deixa enganar pelo Dr. Soeiro. Assim a filha repete a situação da mãe.

Chico Borralho sentindo-se um peso para a família e muito amargurado pela sua condição, suicida-se atirando-se sob as rodas da camioneta que o levava ao médico.
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MensagemAssunto: Re: LIVROS PROIBIDOS, IDEIAS MALDITAS...   Dom Jul 05, 2009 12:07 am

O Motim (Miguel Franco)

Peça publicada em 1963, em edição do autor (Miguel Franco), e levada à cena a 5 de Fevereiro de 1965 no Teatro Avenida, pela companhia do Teatro Nacional D. Maria II, esta peça histórica tem como tema uma sublevação dos homens do Porto contra a criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, que, de insignificante agitação, foi considerada rebelião formal e punida pronta e injustamente por ordem de Sebastião José de Carvalho e Melo pela condenação à morte de 30 cidadãos que alegadamente teriam participado no motim. O dramatismo da peça atinge o seu paroxismo com o desespero crescente dos acusados que, depois de um momento de ingénua perplexidade, compreendem com desalento que serão injustamente condenados à morte. A coragem com que um dos acusados, Tomás Pinto, recebe a sentença cruel impõe-se como modelo de dignidade e de resistência, o que explica a proibição de exibição da peça pelo regime salazarista após a sua quinta representação.
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