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 MAX WEBER - Vida, época, pensamento e obra

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Anarca



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MensagemAssunto: MAX WEBER - Vida, época, pensamento e obra    Sex Fev 10, 2012 4:48 pm

Sua família definia-se pelo protestantismo. Os antepassados de seu pai foram refugiados luteranos do Império Austríaco que se instalaram em Bielefeld e se tornaram importantes comerciantes de tecidos. A família maternal remontava a Wilhelm von Wallenstein, alemão que servira nos exércitos do grande Gustavo Adolfo, "Leão do Norte e Baluarte da Fé Protestante".

Os Wallensteins - nome que em sueco se pronuncia Fallenstein - tornaram-se intelectuais sui generis: mestres-escolas ou o que na Escócia teria o nome de dominies. Um deles entregou-se à bebida (o que parecia ser comum dos dominies) e abandonou sua esposa huguenote. Seu filho, G. F. Fallenstein, sofreu um período de perturbação mental, depois tornou-se apóstolo do nacionalismo e romantismo e do retorno às tradições populares alemães; após ter combatido contra Napoleão, alistou-se na polícia militar durante a ocupação de Paris em 1815 e, no ano seguinte, estava exercendo um cargo burocrático em Dusseldorf.

Em Paris, esse homem adicionou ao seu românico nacionalismo alemão e ao ódio a Napoleão um inconveniente apego às idéias libertárias da Revolução Francesa. Disso resultou não ter progredido em sua casa carreira, no desconfiado mundo da Restauração, até ser nomeado, em 1832, conselheiro do Estado (Regierungsrat) em Coblentz. Contraiu o seu segundo matrimônio em 1835 com Emilia Souchay, cuja filha, Helene Fallenstein, viria a ser a mãe de Max Weber.

Também os Souchay tinham um passado de refugiados por motivos de consciência religiosa: eram de origem calvinismo e tinham fugido de Orleans após a revogação dos editos de tolerância religiosa em favor dos Huguenotes, em 1685. Tornaram-se prósperos comerciantes em Francforte, com filiais de sua firma em Londres e Manchester.

Fallenstein teve êxito financeiro a partir de seu casamento e em 1842 mudou-se para servir o governo prussiano em Berlim. Não teve o mesmo êxito em seu novo cargo e retirou-se para Heidelberg em 1847. Aí se ocupou em boas obras e em circular nos meios intelectuais então dominados pelos historiadores Schlosser e seu discípulo Gervinus. Essa amizade seria importante para os destinos do jovem Weber.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: MAX WEBER - Vida, época, pensamento e obra    Sab Fev 11, 2012 8:05 pm

Schlosser era adversário da nova História "científica" criada por Leopold von Ranke. Nenhuma História, disse ele, podia estar isenta de juízos se valor e de preconceitos decorrentes de considerações não-históricas. O historiador tem o dever moral de julgar homens e acontecimentos. A História não só se ensina a si mesma como também é uma atividade ética que forma o caráter de seus estudantes e da vida pública dos mesmo.

Gervinus estava entre os sete professores de Göttingen demitidos por constitucionalismo pela monarquia hanoveriana; participou do Parlamento liberal de Francfurt, em 1848, defendeu uma Alemanha federal e foi adversário irreconciliável de Bismarck e do império Hohenzollern. Weber debater-se-ia a vida inteira, de modo inconcludente, com os problemas equacionados por esses estudiosos. Mas a influência de Gervinus seria mais que intelectual; afetaria a própria formação familiar, sensual e psicológica de Weber até ao dia de sua morte, pois Gervinus passara a viver no lar dos Fallenstein após a morte do chefe da casa. Tentou seduzir Helene, a mãe de Weber. Depois, procurou arranjar para ela o casamento com um dos seus discípulos. Helene fugiu para casa de sua irmã, esposa do historiador Baumgarten, em Berlim, onde conheceu e casou com o pai de Max Weber. Ela jamais superou seu pavor à vida sexual e o casamento foi um rosário de infelicidade, beatismo e queixumes.

O homem com quem Helene se casou era o filho caçula da família de Bielefeld e nascera em 1836. Seu irmão mais velho transformara o negócio de têxteis ao instituir um sistema racionalizado de produção e solidamente como empresário. O caçula, advogado por formação, tornou-se funcionário civil e jornalista em Berlim, depois de doutorar-se. Era um monárquico e bismarckiano fervoroso. Foi para Erfurt como magistrado e, depois, com o nascimento do filho, regressou a Berlim para seguir uma carreira secundária mas bem sucedida na política prussiana. Os comentadores descreveram suas opiniões como liberais; em nenhum país, salvo na Prússia dos Hohenzollern, poderia a concordância com Treitschke ou homens como ele ser considerada uma prova de liberalismo. Entretanto, o equívoco político de Max Weber pai é, de certo modo, compreensível.

A Alemanha Imperial não desenvolveu um partido autenticamente conservador. O novo Império sempre foi, em alguns aspectos fundamentais, uma potência cuja legitimidade não podia fluir da sabedoria do passado, ser uma continuação dos mos majorum. Os "liberais nacionais" bismarckianos, a quem Weber pai aderira, definiam a política pelo Estado, não pela sociedade, e o Estado era, para eles, a ordem estabelecida da Prússia. Como veremos, isso não era sinônimo, em absoluto, da ordem estabelecida na nova Alemanha unificada.
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MensagemAssunto: Re: MAX WEBER - Vida, época, pensamento e obra    Seg Fev 13, 2012 12:09 pm

O pai de Weber tampouco era apenas l´homme moyen sensuel (um homem vulgar e sensual), se bem que fosse essa a opinião que sua esposa tinha dele. Fazia parte daquele novo mundo, descoberto pelo século XIX, de jornais e revistas, de sufrágios universal e potências regionais, de mexericos, notícias e conhecimentos sobre o que se passava nos corredores do poder - nos parlamentos, gabinetes governamentais, sedes de partidos, administrações jornalísticas e numa corte. Os seus princípios morais eram os de uma "ética do êxito", não de méritos intrínsecos.

A dicotomia iria obcecar o filho mas, enquanto jovem, limitou-se a seguir as opiniões e juízos paternos. O círculo freqüentado pelo pai era intelectual, numa acepção restrita; os professores de História nele preponderavam mas a preocupação com a criatividade, a beleza, a crítica como paixão torturante, a novidade, eram-lhe estranhas. Esse mundo de Rickert, Sybel e Treitschke era intelectual, sim, mas também prosaico. O pai de Weber nada suportaria que fosse levada aos extremos, nenhum argumentação pública, nenhum curso de ação perseguido até ao fim: era um homem muito à vontade em Silão, complacente em público, exigente na vida privada, esperando muito dos outros. Cada um a seu modo, nem o pai nem o filho seriam muito desapontados nessa expectativa.

Helene Fallenstein-Weber opunha-se a tudo isso. Poderemos talvez pressentir que o sexo era a sua arma na guerra dos sexos. A acreditar em Marianne Weber, esposa de Max, a sua sogra Helene odiava a sexualidade: o leito conjugal seria um lugar de infortúnio e pecado. Somente a procriação podia justificar essa união de corpos a que a idade poria um misericordioso fim. O que isso significou para Weber pai pode ser imaginado com certa compaixão. De 1876 em diante, as relações dos pais de Max Weber foram de mútua estranheza institucionalizada. O quadro é conhecido de qualquer estudioso do século XIX. Como de costume nesse quadro, os Webers tiveram numerosos filhos e, como era também era usual na época, estavam familiarizados com a morte das crianças. Helene Weber usou a saúde frágil e o perigo de sua morte de seu primogênito como uma crítica e uma arma contra o marido, a quem tampouco seria perdoada a morte de uma filha de tenra idade.

Helene era devota à sua maneira. Nas questões de religião seu espírito era decidido. Buscava Deus pessoalmente, não por intermédios de ritos ou de teologia. Não O procurava emocionalmente mas numa conduta de silenciosa e decisiva religiosidade. Impressionava-a muito a pregação que dominava a Nova Inglaterra oitocentista, qual - roubava todo o vigor ao Cristianismo e ao Calvinismo, recusando o dramatismo e o terror, a ordem e o esplendor - defendia o obstinado repúdio de emoções e desejos, combinado com o individualismo intolerante e a busca do dever inconfortável na rotina cotidiana.
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MensagemAssunto: Re: MAX WEBER - Vida, época, pensamento e obra    Ter Fev 14, 2012 10:31 pm

De certa forma, isso representa o retorno a um velho tema, influencia na Grã-Bretanha e na América, desenvolvido no século XVIII pelos calvinista e operante no catecismo abreviado da Igreja da Escócia - mas que não será encontrada, penso eu, em Calvino ou em Knox. Esse tema consistia na idéia de que a santificação do indivíduo é um processo exemplificado na zelosa e obediente colaboração na obra de Deus, tal como foi praticada por Adão no Paraíso, antes da Queda, após a Queda , a santificação só é oferecida pela Aliança da Graça aos que trabalham em seus ofício e profissões. Mas, para Helene Weber, leitora dos teólogos e pregadores da América oitocentista, esses ensinamentos estavam separados de suas raízes, humanizados, moderados e racionalizados por duzentos anos de história. O pensamento de seu filho seria poderosamente afetado por eles.

Quando Helene teve de fugir de Heidelberg para Berlim, não mais que uma mocinha de dezessete anos, refugiou-se na casa de sua irmão mais velha, Ida, cujo marido, Hermann Baumgarten, seria mais outra influência sobre o espírito do jovem Max. Baumgarten era inimigo declarado exatamente daquelas coisas e daqueles homens a quem Max Weber pai estava tão ligado. Nulo era o seu apreço pelo eloqüente, vulgar e patético Treitschke; e, ao criticar Treitschke, atacava implicitamente a Prússia e a dinastia Hoenzollern. Acreditava, como toda a sua geração, na unificação dos Estados alemães mas não na unificação dos cursos. As suas atitudes, mantidas no período posterior a 1871, eram em grande parte as de Gervinus. Por tanto, Baumgarten afastou-se da ordem política para pregar uma história conduzida sem facciosismo partidário e condenar o império bismarckiano como instável, insensato em seu culto da guerra e da força, e em sua rejeição de um parlamentarismo autêntico. Um atitude apolítica desse gênero, expressa em público, é em si mesma uma de política , evidentemente.

A tia de Weber, Ida, adotava uma posição religiosa semelhante à de Helene Weber mas, ao invés desta, era uma pessoa notoriamente dominante em seu lar. Exercia uma caridade impertinente, proclamado a primazia do dever cristão. Weber encontraria no lar dos Baumgarten um enigma e um desafio em período crucial de sua carreira, quando foi mobilizado e aquartelado em Estrasburgo, a capital da Alsácia ocupada pelos alemães. As idéias política e religiosas dos Baumgartens incorporaram-se às antinomias de seu pensamento de jovem adulto. Num certo sentido, porém, estiveram presentes durante toda a sua infância e adolescência. Nem todas as correntes da Alemanha fluíram em sua mocidade - os trabalhadores e os nobres não figuravam nela - mas havia o suficiente nesse meio materialmente confortável, intenso mas prosaico, para fazer de Max Weber um homem colhido para sempre na rede de contradições herdadas e contemporâneas. Entre outra coisa, a sua sociologia é registro das suas tentativas para escapar dessa rede.
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MensagemAssunto: Re: MAX WEBER - Vida, época, pensamento e obra    Qua Fev 15, 2012 4:17 pm

Vida

Sociólogo alemão, Max Weber nasceu em Erfurt, Turíngia, e 21 de abril de 1864 e morreu e Munique a 14 de junho de 1930. Seu pai, grande industrial têxtil na Alemanha ocidental, pertenceu ao partido liberal-conservador; sua mãe era de família de professores liberais e humanistas. Aos dois anos de idade, ficou doente - muito doente, sem dúvida, embora possamos duvidar do diagnóstico de meningite - e tornou-se o alvo particular do melancólico desvelo de sua mãe.

Em 1869, a família mudou para o bairro berlinense de Charlottenburg e Weber aí freqüentou a escola, recebeu uma educação ortodoxo predominantemente clássica. Em 1882, foi para Heidelberg e ingressou na Faculdade de Direto. Em 1884, estava em Estrasburgo como suboficial da reserva. Em 1884-85, encontramo-lo a estudar em Berlim, no ano letivo seguinte em Göttingen. (No sistema universitário alemão nada havia de incomum nessa movimentação de lugar.)

Depois de deixar Göttingen, Max Weber passou mais três anos numa posição secundária de advocacia em Berlim, preparando sua tese de doutorado e voltando a Estrasburgo como oficial da reserva por um breve período (também serviu em Posen nessa qualidade). Doutorou-se como uma tese sobre a História dos Empórios Medievais, em 1889. Era agora um "assessor" nos tribunais de primeira instância de Berlim. Em 1891, qualificou-se como professor universitário com uma tese sobre o Significado da História Agrária Romana para o Direito Público e Privado. (Foi ao examinar essa tese que o grande historiador Theodor Mommsen disse: "Quando estiver prestes a baixar à sepultura, o estimadíssimo Max Weber será o único a quem poderia dizer: - Meu filho, eis a minha lança, que ficou pesada demais para o meu braço.")

Em 1892, ocupava um cargo de assistente na Faculdade de Direito de Berlim e casou, nesse mesmo ano, com sua prima em segundo grau do lado paterno.
Em 1894, a Universidade de Freiburg-im-Breisgau conferiu-lhe uma cátedra de Economia Política.
Em 1897, sucedeu em Heidelberg ao economista Knies. viajou pela Europa - Inglaterra, Escócia, Bélgica, Itália - e nos Estados Unidos. Em 1903, em colaboração com Sombert e Jaffe, Weber fundou a revista Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik.

Durante a guerra de 1914-15, trabalhou em administração hospitalar. Em 1918 voltou ao ensino numa cadeira de Sociologia especialmente criada em Viena. No ano seguinte foi ocupar a cadeira onde lecionava antes um outro economista famoso, Brentano, em Munique. Morreu no ano seguinte.

Se excetuarmos o prolongado "colapso", é uma história bastante típica de vida acadêmica; mas essa exceção foi considerável. Não se pode deixar de admirar a talvez aprovar esse elemento no sistema universitário alemão que permite a um homem, embora eminente e intelectualmente produtivo, abjurar o ensino por vinte anos.

Max Weber representa na Alemanha do começo do século XX, a burguesia culta, que estava, pela estrutura semifeudal do país do imperador Guilherme II, excluída da atividade política.

Saindo dessa atmosfera familiar, Weber se tornou eminente professor universitário, jornalista influente, historiador, economista, filósofo e, principalmente, sociólogo. Marcou-o o estigma de uma enfermidade psíquica, que constituiu impedimento ao ininterrupto exercício do magistério universitário.

A doença surgiu depois de 1897, revelando-se em depressões e sintomas psicossomáticos; Weber oscilava entre períodos de intenso trabalho e de quase invalidez, sobre a qual sempre triunfou, enfim, sua poderosa inteligência; ficou insatisfeita sua ambição de agir e de contribuir para a determinação dos destinos de sua nação. Sem qualquer vestígio de racismo e condenando todas as veleidades imperialistas, era Weber, no entanto, um ardente nacionalista alemão.
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MensagemAssunto: Re: MAX WEBER - Vida, época, pensamento e obra    Qui Fev 16, 2012 8:35 pm

Formação Intelectual

Weber estudou direito nas universidades de Heidelberg, Göttingen e Berlim, adquirindo competência profissional em história, economia e filosofia. Em 1893, iniciou, em Berlim, sua carreira universitária como docente de economia política. No ano seguinte, foi nomeado professor de economia na universidade de Freiburg im Breisgau; em 1895, professor catedrático em Heidelberg.

Influencia na mocidade pelo filósofo Wilhelm Dilthey, manteve depois contato permanente com Alfred Weber (seu irmão), com o historiador Eberhard Gotheim, com o filósofo Wilhelm Windelband, com o historiador literário Friedrich Gundolf, com Werner Sombart, Ferdinand Tönnies, Robert Michels, Georg Simmel e Georg Lukács. Três gerações da elite intelectual alemã participavam das reuniões em casa de Max e Marianne Weber, em Heidelberg.

Da multiplicidade desses contatos nasceu o grande trabalho “Die Protestantisch Ethik um der Gesit des Kapitalismus” (“A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”), primeiro exemplo de um estudo interdisciplinar; no caso, de uma síntese de pesquisas de história econômica e de história da religião. Esse trabalho, que é até hoje a obra mais famosa de Weber, saiu entre 1904 e 1905 no Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik (Arquivo de Sociologia e de Política Social), revista cuja direção tinha assumido, junto com Sombart, em 1903. Seus trabalhos, nessa época, têm, muitas vezes, veemente tendência política: combateu o latifúndio na Alemanha oriental dos Junkers, predizendo-lhes catástrofe parecida com a do império romano; também combateu a burocracia prussiana e o semi-absolutismo do imperador Guilherme II. Durante a guerra de 1914 – 1918, fez apaixonada oposição jornalística ao governo imperial, citando as advertências dos profetas do Velho Testamento.

Em 1918, retomou, depois de longa pausa, as atividades docentes, ministrando na universidade de Viena um curso de “crítica positiva da concepção materialista da história”, onde expôs idéias a respeito de vinculações entre a sociologia das religiões mundiais e as organizações políticas e econômicas. No ano seguinte, ocupou cátedra na universidade de Munique, exercendo forte influência na redação da constituição da república de Weimar. Uma grande carreira política parecia abrir-se-lhe, quando a morte o surpreendeu.
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MensagemAssunto: Re: MAX WEBER - Vida, época, pensamento e obra    Sab Fev 18, 2012 12:12 am

Viveu como um erudito de interesses enciclopédicos e como grande burguês, mantendo o hábito dos salões intelectuais. Sua projeção no pensamento sociológico reflete a tradição acumulada pela filosofia e pelas ciências alemãs do fim do século XIX, o que permitia à produção acadêmica uma base sólida.

Cumpre mencionar, a Max Weber, três vinculação de ordem acadêmica e política. Uma delas era com a Evangelischse-Soziale Verein (União Social Evangélica), organismo protestante que representava uma reação à sociedade industrial e urbana, em seus primórdios, semelhantes à que o Socialismo Cristão e seus sucessos na Inglaterra e, ainda mais de perto, o Movimento do Evangelho Social, nos Estados Unidos, também caracterizaram.

Em seus pontos de vista, a União concordava com atitudes de Helene Weber e dos Baumgartens. Era uma tentativa de tornar a fé e a caridade relevantes para uma sociedade transformada, mediante a administração e a previdência sociais. Max Weber era sócio fundador desde 1890 e, através dessa filiação, associo-se ao político e publicista Friedrich Naumann.

Mais antiga e ilustre (datava de 1872) era a Verein für Sozialpolitik ( União Social-Política), uma das mais importantes de todas as sociedades eruditas na história das ciências sociais. Em seus primeiros tempos, a União Social-Política propôs idéias avançadas sobre política social mas, depois de 1881 e com as provisões de Bismarck no campo do seguro social, passou a interessar-se menos pela propaganda e mais com pesquisa e o debate entre acadêmicos.

Durante quase toda o período em que Weber foi seu membro (1888-1920), a figura dominava da União chamava-se Gustav Schmoller, responsável pelo fato de a agremiação ter-se desviado da Economia técnica e teórica para se concentrar em questões da sociedade, através da história social e econômica. A União foi um estímulo às pesquisas de Weber e uma plataforma para as suas opiniões e polêmicas. Seria absurdo considerar a União não-política, depois de sua mudança de orientação política em 1881, pois as suas pesquisas não se orientavam pela ciência desinteressada, por problemas decorrentes do desenvolvimento interno das ciências sociais, mas sempre por questões de escolha, alarma ou decisão pública. Não pretendo dizer que isso se fizesse, de algum modo, através de opção e interesse inconscientes; era algo direto e deliberado.
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MensagemAssunto: Re: MAX WEBER - Vida, época, pensamento e obra    Dom Fev 19, 2012 3:18 pm

Em terceiro lugar, havia a vinculação ao Partido Liberal Nacional. Embora nacional, sem dúvida, o liberalismo dessa agremiação talvez não fosse reconhecido em qualquer outro país da Europa. Era o partido do pai Weber, que foi membro tanto da Dieta prussiana como do Parlamento imperial ou Reichstag.

Quer na religião, quer na política, Max Weber sempre foi ambíguo. Apesar de toda a sua preocupação com as questões de fé e caridade cristãs, considerava-se, como ele próprio disse, "religiosamente desafinado". A respeito dos partidos políticos, era positivamente instável e pressente-se que isso não se devia apenas ao desejo de manter uma objetividade acadêmica e equilibrada. Suas dúvidas sobre os liberais nacionais são evidentes mesmo quando Weber não contava mais de vinte e três anos. Entretanto, manifestou constantemente atitudes próprias dos nacionalista liberais em relação aos problemas da política alemão, pelo que, por exemplo, pôde apoiar - e, no entanto, criticar ambiguamente - a aceitação pelo Partido Liberal Nacional das leis anti-socialista de Bismarck. Até na súbita libertação da derrota, a partir de 1918-20, subsistiram as atitudes ambíguas, se bem que ele pareça estar agora, por fim, politicamente engajado como homem e cidadão.

Quem o desejar poderá atribuir boa parte dos flertes políticos de Weber - menos uma questão de adultério que de adulteração - às dificuldades reais de seu tempo e lugar, somadas aos escrúpulos de um espírito sutilmente cônscio de todos os fios e pressões que constituem a rede da política. Parecem-me, se atentarmos para todas aquelas matérias em que Weber foi claro e coerente. que isso é fazer-lhe demasiada justiça. E cumpre lembrar. é claro, que uma parte dessa culpa não cabe realmente a Weber mas àquelas autores que, desde a sua morte, têm trabalhado para fazer dele um mestre moderno não só de pensamento e cultura mas também de atitudes e ação política.


Marxismo

O choque de estruturas intelectuais diferentes, muitas vezes antagônicas, ao lado dos trabalhos de intelectuais socialistas de fora das universidades, como Kautsky, Eduard Bernstein e Franz Mehring criavam tensão desafiadora, à qual Weber não deixou de reagir. Em sua obra, o desfio mais marcante que enfrentou foi alimentado por Marx, fonte do mais conseqüente debate teórico e metodológico nas ciências sociais contemporâneas. Não disposto a rejeitar o materialismo histórico, Weber optou por utilizar esse método como princípio heurístico.
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MensagemAssunto: Re: MAX WEBER - Vida, época, pensamento e obra    Seg Fev 20, 2012 10:10 pm

A oposição principal de Weber ao marxismo consiste em negar ao método de Marx a função de fonte de explicações monocausais para fenômenos sociais universais. Considera-se que, afastada a questão de se Weber compreendia ou não a redução causal proposta no pensamento dialético de Marx, tal abordagem resultou extremamente frutífera nas ciências sociais.

Com base em pressupostos pluricausais, Weber explicita a questão das relações entre a super e a infra-estrutura social. O mesmo argumento de causalidade múltipla levou-o a elaborar um conceito de classe social baseado em critérios do mercado econômico, e de sua dominação por uma política de controle monopolista. Embora sem negar a existência dos conflitos de classes, não os considerou como elemento único que leva à transformação social; afirmou que, quando tal conflito se verifica, é acompanhado por outros fatores, favoráveis ao rompimento das ordenações existentes na vida das sociedades.

Refletindo sobre a aplicação do materialismo de Marx às estruturas econômicas, Weber encontrou um padrão para tratar outras estruturas, principalmente as burocracias políticas e militares. A ênfase de Marx na separação do trabalhador assalariado dos meios de produção econômica aparece, na perspectiva weberiana, como tendência universal do capitalismo. Seria, enfim, inevitável a ruptura, como último resultado da implantação da ordem burocrática no mundo moderno.
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MensagemAssunto: Re: MAX WEBER - Vida, época, pensamento e obra    Qui Fev 23, 2012 3:02 pm

Posição Teórica

O grande debate de Weber com as idéias de Marx é caracterizado por certa ambigüidade. De um lado, foi Weber o único professor universitário alemão de sua época que defendeu o marxismo. Por outro lado, sua teoria, que atribui ao espírito religioso do calvinismo a primazia na formação da mentalidade econômica do capitalismo, é rigorosamente antimaterialista. Também insiste Weber no fato de que a ação individual é a unidade analítica a ser tomada como elemento essencial para a reflexão sociológica. Tal ponto de partida o expôs ao perigo de um subjetivismo radical, comum na tradição utilitarista; Weber soube, porém, evita-lo, propondo que o significado de tal ação deveria ser compreendido e interpretado no contexto histórico em que se verificava.

Rejeitou de modo claro uma orientação unilateralmente historicista que não fornecesse padrão sistemático para uma análise científica. Para ele, o comportamento individual verificável constituía-se na ação social, objeto de estudo da sociologia e da história. A característica fundamental da ação social, para essas ciências, seria a da orientação por um significado mentalizado pelo agente, que refere o sujeito ao contexto onde atua no tempo e no espaço. O debate a respeito da posição teórica de Weber ainda continua, apontando-lhe influências kantianas, racionalistas, nominalistas e outras. Mas é indubitável a originalidade do pensamento weberiano
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MensagemAssunto: Re: MAX WEBER - Vida, época, pensamento e obra    Dom Fev 26, 2012 10:47 pm

Originalidade

Sua contribuição transcende escolas e correntes de pensamento filosófico e social porque a singularidade de suas idéias não permite identificação com as existentes em sua época. Todos os que tentam interpreta-lo fora de suas premissas, esbarram em equívocos paradoxais. Como político, usava o partido liberal para combater o kaiser; ao negar Marx, concede-lhe a dignidade que nenhum outro membro da elite intelectual alemã lhe quis dar; como ateu, valoriza extremamente o papel das crenças religiosas; como nominalista, pratica a construção sistemática de conceitos científicos para a sociologia; como racionalista teoriza sobre tipos de ação emocional, concedendo papel importante a esta tanto quanto às ações racionais; como herdeiro de hegelianismo, nega o absoluto e utiliza a dialética de modo autônomo.

Outros traços apresentados em sua contribuição não são suficientes para defini-lo de modo claro. Muitas vezes sua teoria é vista como subjetivista, quando sua posição quanto à objetividade é claramente manifesta. Outras vezes á chamado de psicologista, quando suas opiniões a respeito das descobertas de Freud são muito cépticas. No entanto, sua teoria oferece importante paralelo entre a sociologia e a psicologia, como respeito ao fato de a ação de um ego estar referida a um alter, conforme mostra Talcott Parsons, ao associa-lo a Freud.

Como empiricista, Weber é historicista confesso. Defendendo basicamente a posição de construir uma razão sociológica autônoma, cuja teoria e método apresentassem eficácia na interpretação de fenômenos sociais, Weber conseguiu, através dela, questionar não só as idéias preconcebidas a respeito do mundo, como a própria filosofia de seu tempo.

Como filósofo foi Weber político e como político foi cientista. Mas não teve filosofia sistemática: seu espírito era filosófico. A empresa intelectual de Weber, antes de tudo, foi surpreender a sociedade tal como é pensada pelos agentes individuais, e acompanhar a maneira como seus significados mentalizados se modificavam no tempo. Realizou seu empreendimento, criando uma crítica da razão sociológica.
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MensagemAssunto: Re: MAX WEBER - Vida, época, pensamento e obra    Dom Mar 04, 2012 10:49 pm

Contribuições Teóricas

Weber chamou seu método de “construção de tipos ideais”. Partindo da ação social, categoria construída como unidade analítica básica, constrói unidades lógicas mais abrangentes, sempre apontando tipologias similares, implícita ou explicitamente, em cada unidade. Mostra que a ação social é mutuamente referida por significados comuns e compõe o conceito de relação social, tratando a seguir do conceito de associação. Nas associações, destaca o caráter ordenado, um contexto organizado que serve como referência para os agentes individuais dele participantes. De modo análogo à ação social, as associações desempenham atividades sociais orientadas no sentido dos fins determinados pela ordem em que têm existência.

Refinando o conceito de ordem, elabora mais dois outros com ele relacionados: o de validez e o de legitimidade, com vistas a demonstrar o caráter de dominação de todas as associações humanas. Desse modo, explicita uma tipologia de autoridade, sua mais divulgada contribuição para a sociologia e a ciência política. Contudo, enquanto tal tipologia reforça paradigmas com elementos enfatizados em uma dimenção diacrônica, sua teoria mostra a possibilidade de se surpreenderem sincronicamente associações com dominações de natureza diversas. Assim sendo, associações religiosas, militares, econômicas e políticas (partidos e Estado) são sistematicamente tratadas por Weber, com o objeto de apontar elementos estruturais de dominação dentro de uma ordem institucional global.

Weber considera que uma progressiva tendência á racionalização se constitui no princípio mais geral da transformação social. Tal tendência se expressa em uma reorganização dos significados internalizados nos agentes sociais, permitindo a implantação de ordens sucessivas. Desse modo, a realidade histórica é pontilhada de descontinuidades. Nessa perspectiva, a história apresenta ciclos totais, interrompidos por movimentos de caráter excepcional, chamado por ele de carismáticos. Em torno de uma oscilação entre o cotidiano e o extracotidiano - a rotina e o carisma -, compões um padrão de transformação multilinear, conforme demonstra a vinculação sistemática de todos os seus estudos sobre a religião e sobre a burocratização que chega a substituí-la.

Apesar de seus escritos captarem inúmeros paradoxos, na tentativa de interpretar os múltiplos aspectos da realidade social, Weber consegue tratar dialeticamente elementos antagônicos, tanto na teoria como na filosofia da história. Desse modo, ao nível da teoria, a ação social se funde na ordem institucional e, ao nível de sua concepção histórica, o personalismo excepcional do carisma se funde na impessoalidade da organização burocrática. O estado de liminaridade que Weber captou nas situações de transição social, bem como seus aspectos sobrenaturais, integram atualmente temas de investigações da maior importância nas ciências sociais. O debate sobre as teorias de Weber continua.
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