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 A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer

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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Seg Nov 22, 2010 8:46 pm

4. Elementos de uma educação para a sexualidade

Uma educação para a sexualidade é tão necessária quanto difícil. É necessário, contudo, distinguir a auto-educação e a tarefa de educar outros, geralmente mais jovens.

Espera-se então do educador que ele seja, ele próprio, devidamente educado e que ele tenha a capacidade de encontrar o tom justo para falar da sexualidade. Ora, dado que esta é dinâmica e coextensiva à duração inteira da existência humana, a auto-educação para a sexualidade nunca pode ser considerada como acabada; aliás, a travessia das diferentes idades da vida mostra que esta auto-educação assume contornos diferentes e exigências novas.

Mas por educação para a sexualidade entende-se em geral a tarefa de educar outros, tarefa reservada em primeiro lugar à família e à escola, em seguida às instituições sociais, religiosas ou políticas para as questões de saúde física e mental, de relacionamento intersubjectivo e de planeamento familiar.

Só quando é erradamente reduzida à transmissão de conhecimentos objectivos relativos à reprodução humana, a educação para a sexualidade é considerada como terminada.

A primeira ideia de que o educador deve estar convencido é portanto a de que a educação para a sexualidade é um processo contínuo que não se esgota nos ensinamentos fornecidos na escola; tal como nesta não se ensinam todos os aspectos da vida da mulher ou do homem, do mesmo modo a educação para a sexualidade não será definitivamente assegurada pela escola, qualquer que seja a sua qualidade.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Qua Nov 24, 2010 11:12 pm

Por outro lado, mais do que em outras tarefas educativas, a educação para a sexualidade não encontra um educador perfeito ou exemplar, o que muitas vezes torna mais complexa a adopção de uma linguagem clara, serena e firme.

São portanto educadores imperfeitos que se devem encarregar da educação para a sexualidade, isto é, num campo que torna também difícil a separação entre a teoria ensinada e as próprias vivências do educador.

Além disso, sendo em regra geral mais velho que o educando, o educador tem uma experiência mais longa da sexualidade, o que eventualmente acarreta, além de experiências gratificantes e felizes, a presença de esperanças desiludidas, de sofrimentos ou feridas ainda não sanadas, de eventuais fracassos ou mesmo de perversões não confessadas.

Provavelmente animadas pela intenção de manterem uma neutralidade ideológica, as instâncias sociais e políticas encarregadas da programação da «educação para a sexualidade» resistem dificilmente à tentação da facilidade; esta consiste em restringi-la o mais possível ao ensino da anatomia e fisiologia da reprodução, assim como à descrição dos métodos contraceptivos, com um mínimo de considerações psicológicas pretendidamente desprovidas de elementos ideológicos susceptíveis de limitar ou canalizar a liberdade do educando.

O facto de codificar esta programação em diplomas legais não é, porém, uma garantia da sua qualidade, nem uma garantia de respeito pela pessoa dos educandos.

É, com efeito, um erro grave julgar que o respeito pela liberdade dos educandos exige que a educação para a sexualidade se limite às dimensões objectivas e biológicas do relacionamento sexual.

Tal como se fez na análise ética da sexualidade (ponto 3 acima), as considerações ulteriores seguirão a ordem da análise antropológica (ponto 2 acima) e da análise ética (ponto 3 acima) em vista a estabelecerem orientações gerais destinadas à programação da educação para a sexualidade.

O objectivo principal dessas orientações consiste em promover a dignidade da vida sexual contra a sua banalização, chamar para a responsabilização pelos comportamentos sexuais contra a irresponsabilidade nesse campo de acção, insistir no dever de respeito da outra pessoa contra todas as tentativas de utilização ou de instrumentação.

É neste contexto geral que se integrarão as considerações sobre o planeamento familiar e sobre a contracepção.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Sex Nov 26, 2010 12:17 am

4.1. A primeira orientação da educação para a sexualidade pede para não separar as três dimensões respectivamente anatomo-fisiológica, afectivo-relacional e social da sexualidade.

O tema filosófico do «corpo sexuado»46 significa que a sexualidade não se acrescenta à uma pessoa já constituída como pessoa independentemente da sua condição sexuada, mas que ela atravessa a existência inteira, com a sua face psicológica e social.

Por isso mesmo, a educação para a sexualidade não pode fazer abstracção das múltiplas dimensões ligadas à existência humana sexuada, uma vez que a fisiologia do corpo é, com toda a sua importância básica, somente um dos níveis nos quais se desenrola a existência da pessoa.

4.2. Não é só a educação para a sexualidade que leva tempo, mas a própria evolução do equilíbrio psicológico relativo à vivência da sexualidade. Convém insistir na evolução da sexualidade através do tempo. Nesta evolução sexual e afectiva, todo o ser humano atravessa múltiplas fases psicologicamente descritas.

Uma consequência tem uma importância particular: um desequilíbrio ou uma dificuldade aparentemente não superável num determinado momento não implica um desequilíbrio definitivo.

Em sentido contrário, o equilíbrio obtido numa determinada idade não é a garantia certa da sua permanência para o futuro. O equilíbrio entre as várias dimensões da sexualidade e da afectividade é sempre frágil, mas dinâmico e nunca adquirido de uma vez para todas; ele exige por parte da mulher e do homem uma atitude de espírito aberta, atenta e activa.

Além disso, a educação para a sexualidade mostra a necessidade de integrar o tempo na gestão do desejo e da afectividade. As ligações afectivas não se realizam num instante, requerem um tempo de aproximação e de aprofundamento, sem o qual o encontro sexual perde a sua riqueza humana.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Seg Nov 29, 2010 10:14 pm

4.3. A educação para a sexualidade orienta o ser humano para a conquista da sua identidade humana, masculina ou feminina.

Um dos maiores perigos que ameaçam esta conquista é a fusão psicológica e afectiva, que torna o ser humano, jovem ou adulto, dependente de uma outra pessoa possessiva (por exemplo, mãe ou pai, filha ou filho) ou que impede o confronto com a alteridade dos outros.

Sendo Ética e psicologicamente mortífero, o risco de fusão tem que ser evitado. Múltiplas são as formas de fusão, nomeadamente no incesto. Faz parte das orientações educativas da sexualidade sublinhar a incompatibilidade entre a aquisição da personalidade adulta e as formas de relacionamento fusional. A relação deve substituir-se à fusão.

4.4. Viver um amor humano duradouro implica um grande respeito pela alteridade do outro. É com certeza essencial introduzir as diferenças entre a modalidade feminina e a modalidade masculina de viver a existência; tal é o propósito da antropologia diferencial.

Assim, os principais elementos da antropologia diferencial devem fazer parte das orientações educativas da sexualidade. Mas dado que o outro não é uma mulher ou um homem em geral, mas tal mulher e tal homem concreto, a aceitação da sua pessoa enquanto outra ultrapassa as exigências da antropologia diferencial.

Existe, com efeito, uma diferença entre aceitar teoricamente que o outro ser humano, com o qual se inicia ou se prolonga uma relação afectiva, seja diferente e aceitar praticamente que, em virtude desta diferença ele não possa ser moldado por «mim», tal como «eu» projecto e imagino esta diferença.

Reconhecer a alteridade do outro na sua liberdade implica que se inverta a relação espontânea que se constrói entre a sua pessoa e a imagem que «eu» me formo da sua pessoa: não é a realidade do outro que deve conformar-se à imagem, mas a imagem à realidade.

Ora, o amor adolescente, em virtude do narcisismo psicológico que o afecta, elevase difícil e lentamente a esta aceitação; por isso mesmo, os namoros precoces costumam, de facto, chegar rapidamente a um impasse. Uma orientação educativa fundamental consiste em fazer compreender e aceitar tanto quanto possível a alteridade irredutível do outro enquanto pessoa singular.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Ter Nov 30, 2010 11:11 pm

4.5. A ética mostrou que o ideal para o qual se deve tender, do ponto de vista da procriação humana, é o aparecimento dos filhos no quadro de um núcleo familiar estável e fundado no amor.

Por outro lado, o acolhimento dos filhos modifica o equilíbrio relacional da célula familiar. Em virtude da dinâmica concreta do relacionamento afectivo e sexual, é portanto desejável que a maternidade e a paternidade sejam responsáveis. A educação para a sexualidade recebe daí uma nova orientação; a maternidade e paternidade responsáveis exigem uma reflexão conjunta e prévia sobre o planeamento familiar e sobre as melhores medidas a tomar para este efeito.

4.6. As relações entre sexualidade e política são abordadas de múltiplos lados. A orientação educativa à qual dão origem em primeiro lugar diz respeito à igualdade de direitos e de deveres, à luta contra as formas de exploração da mulher e dos menores.

Diz-se frequentemente que o século XXI será o século das mulheres, o século em que as mulheres irão adquirindo a sua igualdade efectiva com os homens.

Nas orientações da educação para a sexualidade, um lugar será reservado quer à denúncia das formas de violência física e psicológica contra as mulheres e as crianças, contra a prostituição e a pedofilia, quer ao meios de lutar contra o mal que daí decorre para a sociedade.

De modo mais positivo, a promoção da mulher não pode senão promover o homem, dado que o encontro afectivo e sexual se realiza na base da igualdade e não na base de qualquer forma de subordinação.

Além disso, a procriação responsável deve ser encarada pela sociedade como um serviço valioso que lhe é prestado, de modo tal que uma política privilegiando a família não seja considerada como uma concessão do Estado às famílias, mas, pelo menos nos países ocidentais, como um direito, no qual o próprio Estado é parte interessada.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Qui Dez 02, 2010 11:58 pm

4.7. A análise ética mostrou a necessidade de distinguir prazer físico, alegria e felicidade, e de apresentar o modo como se articulam reciprocamente. Em matéria de sexualidade, a insistência quase exclusiva no prazer e na aparente «normalidade» dos encontros sexuais desligados de projecto estável tem como conclusão habitual o facto de reduzir a educação para a sexualidade à descrição fisiológica da relação sexual e à utilização de preservativos.

Deste ponto de vista, quando os diplomas legais regulamentando a educação sexual se limitam a tratar dos aspectos físicos da sexualidade, sem terem em atenção o desenvolvimento equilibrado de todas as dimensões desta, quando recorrem quase exclusivamente à campanha de preservativos para a solução dos problemas sexuais, manifestam uma compreensão gravemente redutora da sexualidade.

Com o pretexto de uma louvável luta contra o risco de Sida, a educação para a sexualidade, tal como consta de certos diplomas legais, acaba por ter efeitos negativos e opostos à finalidade educativa proclamada.

A orientação que se pode destacar desta problemática consiste numa regra de método: tentar sempre resolver os problemas particulares a partir de uma perspectiva global integrando todas as dimensões humanas da sexualidade.

Apesar da sua força, o prazer sexual não pode sozinho pretender ocupar o lugar desta perspectiva global.

4.8. Atracção, imaginação e mistério cruzam-se no erotismo. Enquanto ligado à força do desejo, o erotismo delineia o campo no qual as maravilhas abertas pela sexualidade podem também degenerar em perversões. Entre os extremos que representam a banalização do erotismo pela pornografia e as atitudes de fuga por causa de medos subterrâneos ou de complexos inconscientes, o erotismo aparece como a oportunidade de constituir um elo de ligação entre a presença dos corpos e o aparecimento do afecto ou do amor.

Tal como na precedente regra de método, vislumbra-se a orientação educativa que pede para não isolar o erotismo da globalidade das dimensões humanas da sexualidade.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Sex Dez 03, 2010 11:58 pm

4.9. A importância da ternura compreende-se à medida que o ser humano, homem ou mulher, avança em idade. Com pouca probabilidade de erro pode-se afirmar que um relacionamento sexual que, no decurso dos anos, não gera formas cada vez mais profundas de ternura está ameaçado de desmoronamento.

A orientação educativa surge com toda a sua força: a ternura faz parte de todas as formas de amor e não pode ser esquecida na análise da sexualidade. Por outro lado, ela encontra ou inventa expressões que, embora enraizadas no corpo sexuado (ou na dimensão sexuada da pessoa), não precisam de se apoiarem na relação sexual propriamente dita, mas tecem do mesmo modo profundos laços afectivos.

4.10. O percurso de cada ser humano é singular e, na maior parte dos casos, feito de aprendizagem por ensaios e erros.

Apresentar a realização sexual da vida humana como um caminho fácil e espontâneo, além do facto de ser um erro, é sinal de uma grande ingenuidade. Aqui também convém a expressão de Aristóteles reservada à vida ética: trata-se de uma «rude tarefa».

Mesmo quando devem ser assumidas as consequências dos fracassos na descoberta ou na vivência da sexualidade, elas nunca fecham definitivamente a porta a uma autêntica realização humana. A proposta educativa a esse respeito consiste em ter a coragem de reconhecer os fracassos, de os assumir e de acreditar que o caminho da vida está sempre aberto para quem o procura descobrir ou inventar.

Mas, não será necessariamente no mesmo plano da vida sexual ou afectiva que novas portas se abrirão. Noutros termos, o caminho da realização da vida humana tem possibilidades que não passam necessariamente pela vida sexual activa.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Ter Dez 07, 2010 8:57 pm

4.11. As soluções mais fáceis dos problemas relacionados com a vida sexual não são necessariamente as melhores, nem as mais adequadas. Se o progresso exige, quase em todos os sectores da existência humana, esforços e renúncias, a educação para a sexualidade não faz excepção.

A aceitação de frustrações, nos diversos planos que integram a sexualidade humana, deve ser referida nas orientações que presidem a esta educação. A principal tarefa da educação, quando se trata de impor ou de se impor frustrações, reside na orientação da atenção; quando a atenção se fixa no objectivo ou no bem procurado através da frustração, esta torna-se mais facilmente suportável e a sua aceitação aparece como uma mediação para a realização de um projecto existencial que, no sentido exacto da expressão, «vale a pena».

Propor, no campo da sexualidade, uma orientação de vida que «vale a pena», tal é provavelmente a orientação primeira e última da tarefa educativa, quer para os educandos, quer nos casos em que educador e educando são... a mesma pessoa.

4.12. Esta orientação que «vale a pena» dirige-se a todos, quer às pessoas que vivem numa relação sexual e afectiva, quer às pessoas que, por um motivo qualquer (cfr. o ponto 3.12 acima) são levadas a encontrarem expressões não directamente sexuais nos seus relacionamentos afectivos.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Sab Dez 11, 2010 3:41 pm

Conclusão:

A presente reflexão tentou clarificar filosoficamente as dimensões ou os aspectos que constam da sexualidade humana, propor princípios éticos gerais e estabelecer orientações destinadas à educação para a sexualidade.

O destino da sexualidade está intimamente ligado à vivência da pessoa.

Retomando as palavras já comentadas na introdução, concluir-se-á que a sexualidade humana aparece como um misto e um mistério de sentido e de força a descobrir de múltiplas formas, como um campo de maravilhas no qual o outro ser humano surge na sua dignidade e na sua fragilidade solicitando o respeito, finalmente como um lugar de possível errância, deixando sempre, contudo, uma porta aberta à reconquista da dignidade pessoal.

O Relator,
Prof. Doutor Michel Renaud
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