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 A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer

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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Sex Out 01, 2010 3:13 pm

A presença do neonato no meio da relação entre homem e mulher atesta a imprescindibilidade da instituição social. Por um lado, o facto de a criança não aparecer imediatamente no próprio acto da geração introduz a possibilidade de desresponsabilização do pai, quando este não assume a paternidade. É preciso então que a instituição desempenhe a sua função «reguladora» no que diz respeito quer à imputação da responsabilidade, quer à ajuda que oferece para a educação dos filhos.

Mas será que a instituição não estava já presente antes de a criança nascer?

Há efectivamente algo de artificial no facto de ter diferido até agora a intervenção da instituição social do casamento. Eis o que, no entanto, se ganha com esta espera: por um lado, é a aliança, no sentido plenamente humano deste conceito, que fundamenta a relação sexual entre homem e mulher e explica as formas sociais e institucionais do casamento; por outro lado, é a instituição social no seu conjunto que é anunciada pela presença do «terceiro» que o neonato encarna.

A geração de um novo ser humano não é com efeito algo que concerne apenas aos genitores, mas ao conjunto da sociedade. É por isso que, se a aliança entre homem e mulher só lhes diz respeito, a forma institucional externa e visível tem que ser regulamentada pela sociedade.

Não com a finalidade de colocar travões a esta aliança, como se pensa muitas vezes hoje em dia, mas, pelo menos idealmente, para ajudar e facilitar esta aliança, como se a oficialização social desta fosse um estimulante para vencer os obstáculos do tempo.

Tal é a forma institucional do casamento. É compreensível então que, nas sociedades em que esta ajuda e protecção já não são nem reais nem percebidas como tal, o casamento entre em crise.

Na verdade, não é a aliança que entra em crise, mas a sua forma institucional – isto é, o casamento enquanto forma institucional.

Os responsáveis pela política social procuram então remediar esta situação inventando outras formas institucionais para contornar a crise: a união de facto, a comunhão de vida económica, o pacto social de união, etc.

A diferença reside na forma mais ou menos estável do compromisso social de que se reveste a aliança entre dois parceiros sexuais; do ponto de vista da análise teórica, essas medidas socio-políticas relativas a formas da união que não se chamam «casamento» não fazem senão confirmar a impossibilidade de prescindir da instituição social quando se trata de viver a sexualidade na duração do tempo.

O papel da instituição não consiste somente em editar as proibições fundamentais, tal como a do incesto, mas de organizar as regras da aliança para tornar esta viável, estável e fecunda. Deste ponto de vista, a «crise do casamento», muitas vezes estigmatizada hoje, reflecte a crise de uma sociedade que perdeu o sentido da ajuda que pode e deve conferir para proteger a aliança e a célula familiar.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Dom Out 03, 2010 10:08 pm

No âmbito institucional da aliança existe um ponto de vista da instituição enquanto tal que não é suficientemente levado em conta.

Interessa ou não interessa à sociedade que haja crianças? Interessa ou não interessa à sociedade que a criança possa crescer num ambiente saudável, estável e afectivamente rico? É altamente provável que nenhuma sociedade responda pela negativa.

Mas as sociedades ocidentais parecem bastante cegas quando se trata das consequências do seu interesse pela própria sobrevivência: subjaz, com efeito, um à priori profundamente individualista na reivindicação que consiste em reclamar os mesmos direitos para o casamento institucional e para as outras formas de união de parceiros sexuais.

O que se poderia compreender se estivesse em jogo somente o interesse dos indivíduos já não se compreende quando o «interesse» da comunidade social e política é posto em relevo. É portanto pela mediação da instituição que a sexualidade interfere directamente com o bem comum.

Ora, se é verdade que o bem comum é o bem de todos, ele não se identifica com a determinação imediata e aparente do bem individual. A questão que é urgente levantar diz portanto respeito às consequências do interesse «social» das formas institucionais de união sexual.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Qua Out 06, 2010 3:51 pm

2.6. A sexualidade e a política.

É a vários títulos que a compreensão da sexualidade deve passar pela mediação da política. Tal como se verificou no fim da análise da reciprocidade afectiva, a união sexual humana «conseguida» é aquela que conjura a agressividade transformando-a eventualmente em jogo amoroso. Mas este êxito nunca está definitivamente garantido; é por isso que a relação afectiva é, na sua vulnerabilidade constitutiva, ameaçada de regressar a um encontro de dominação e de poder.

A dominação sobre o corpo e sobre a mente do parceiro sexual é capaz, como se sabe, de atingir proporções de grande perversidade.

O mito de Fausto, mito fundamental na cultura do Ocidente não está longe, embora a sua peripécia seja outra que política.

A introdução da questão do poder e da dominação não se limita contudo à vivência intersubjectiva da sexualidade individual. Estão em causa a história da cultura e a lenta transformação dos usos e costumes. Os factos mais salientes são, do ponto de vista cultural, a subordinação secular da mulher ao homem, assim como a repressão da sexualidade na burguesia do século XIX.

O primeiro fenómeno, o da dominação na relação afectiva (dominação do homem sobre a mulher ou chantagem da mulher sobre o homem), aparece como um facto suficientemente conhecido e ilustrado, por exemplo na literatura e no cinema, para que não seja necessário comentá-lo longamente; trata-se do poder exercido ao nível privado da relação mais do que ao nível público da cultura.

É de notar contudo que a dimensão política cruza o exercício privado da dominação mediante a regulamentação da instituição. Até há pouco tempo o homem era «senhor» da mulher; a infidelidade masculina não tinha o mesmo peso do que a feminina, etc.

A evolução da legislação e do direito da família contém, de certeza, muitas informações susceptíveis de provar a intersecção do carácter privado e do carácter público e político da dominação.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Sab Out 09, 2010 2:09 pm

Um outro facto político abrange todos os episódios da dura conquista da igualdade entre os sexos. Esta conquista ainda está longe de ter chegado a bom porto, mas o seu movimento é tão dinâmico que o próximo século já se delineia como o século das mulheres!

Em Portugal existe uma «Comissão para a igualdade de direitos da mulher», mas ainda não pareceu necessário instaurar uma «Comissão para a igualdade de direitos do homem» - o que, por si mesmo, não deixa de ser sintomático.

Por outro lado, numerosos são os estudos realizados sobre a evolução do lugar da mulher na sociedade (a educação das raparigas, o direito de voto, etc.).

Vale a pena, a esse respeito, referir os cinco volumes da História das Mulheres no Ocidente, de que se extrai a seguinte citação, da autoria de Françoise Collin.

«A constituição de um espaço verdadeiramente comum aos homens e às mulheres, que foi e continua a ser o objectivo principal do feminismo, apela inevitavelmente para as teorias da igualdade. Mas esta igualdade deve ser entendida como igualdade de direitos, não como igualização das identidades, que se faria, aliás, em proveito da identidade masculina existente. E deve também permitir a articulação das diferenças individuais ou colectivas, sem por isso as definir previamente. O espaço democrático é heterogéneo e gerador. O século XX vem assim modificar a concepção da igualdade desenvolvida pelo século XVIII, e que se baseia numa concepção dos sexos, como a das raças, das culturas ou mesmo das religiões, exige uma redefinição da democracia e da cidadania».

A compreensão do feminismo é mais larga que a questão da luta contra a dominação masculina; pretende, com efeito, voltar a circunscrever quase todas as facetas da cidadania e da organização do trabalho na sociedade civil. Não são contudo as etapas históricas desta progressão que importa sublinhar aqui, mas a mutação dos esquemas mentais e das representações simbólicas e das expressões linguísticas a partir das quais são compreendidos o sexo, o Eros, o prazer e a própria sexualidade.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Seg Out 11, 2010 3:01 pm

Na história da sexualidade é hábito salientar algumas rupturas; a mais importante situa-se no decurso do século XIX; a ruptura política da revolução francesa acompanha-se de outras rupturas, no campo literário e social.

Na maneira de viver a sexualidade os escritos de Sade e de Fourier, respectivamente antes e depois da revolução. «Algo se desfaz assim da alternativa entre sublimação e libertinagem; algo se introduz na língua que dá um importância nova à escrita do sexo.

“Sade, o amor liberto da lama do céu”, diz ao mesmo tempo René Char».

Esta revolução nos eixos referenciais da sexualidade foi descrita de modo diferente por autores como Adorno e Horkheimer, da Escola de Francoforte, ou, como Michel Foucault, cuja relativamente recente História da sexualidade constitui um desvio obrigatório para as mutações dos eixos referenciais simbólicos da sexualidade.

Tentar-se-á, em breves considerações, discernir alguns dos elementos principais dessas duas linhas de análise, que mereciam comentários mais desenvolvidos.

Para os dois representantes clássicos da Escola de Francoforte é a ligação entre Logos e Eros que sofre no princípio do século XIX uma forte mutação.

O conceito de «Logos» significa o tipo da racionalidade que se desenvolve nas filosofias da época moderna e que culmina com Hegel. Além disso, a interpretação de Adorno e Horkheimer pretende mostrar a ligação entre metafísica e política, de tal modo que o pensamento racional ao mesmo tempo inclui implicitamente e exprime a vontade de dominar racionalmente todas as esferas da existência.

O Eros está assim subjugado pelo Logos, a sexualidade não tem a liberdade de dar livre curso às suas energias, as quais se encontram reprimidas.

Mas a ruptura que, no século XIX, se instaura com Nietzsche e a sua transmutação dos valores consiste em denunciar as «contradições» da razão, de tal modo que quer a força do Eros quer a vontade de poder se libertam da tutela de uma razão que nivela tudo sob a aparente luz «apoliniana» do Logos.

Reciprocamente, a valorização do não racional e da energia sexual torna-se um meio de detecção das contradições da racionalidade moderna. Não se quer dizer que o tema da igualdade entre homens e mulheres surgiu na directa dependência da crítica contra a racionalidade moderna, mas que esta crítica forneceu à diferença entre os sexos um esquema mental no qual podia iniciar um caminho prometedor.

O que de todo o modo parece novo nesta interpretação das Luzes no imediato pós-guerra é a ligação tripla e recíproca entre a crítica da racionalidade moderna, a denúncia do poder politicamente dominador da razão e a reivindicação de uma liberdade sexual, enquanto expressão do não racional.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Sex Out 15, 2010 9:12 pm

Michel Foucault faleceu antes de concluir o seu vastíssimo projecto de estudo sobre a sexualidade; o segundo e o terceiro livro da sua História da sexualidade constituem uma análise preciosa da sexualidade no mundo greco-latino, mas o primeiro volume, "A vontade de saber", já indica a orientação do projecto global.

Sem entrar nos pormenores desta tese é possível deixar-lhe a palavra, o que se fará a partir das reflexões conclusivas do primeiro volume.

« (…)Pode compreender-se a importância assumida pelo sexo como valor político. É que ele está na charneira dos dois eixos ao longo dos quais se desenvolveu toda a tecnologia política da vida. Por um lado, tem que ver com as disciplinas do corpo: adestramento, intensificação e distribuição das forças, ajustamento e economia das energias. Por outro, tem que ver com a regulação das populações, por todos os efeitos globais que induz. Inserese simultaneamente nos dois registos; dá lugar a vigilâncias infinitesimais, a controlos de todos os instantes, a arranjos especiais de extrema meticulosidade, a exames médicos ou psicológicos indefinidos, a todo um micropoder sobre o corpo; mas dá também lugar a medidas maciças, a estimativas estatísticas, a intervenções que visam o corpo social por inteiro ou grupos tomados no seu conjunto. O sexo é simultaneamente acesso à vida do corpo e à vida da espécie. As pessoas servem-se dele como matriz das disciplinas e como princípio das regulações. Por isso é que no século XIX a sexualidade é procurada até no mínimo pormenor das existências; é acossada nos comportamentos, perseguida nos sonhos; suspeitam da sua presença sob as mais pequenas loucuras, perseguem-na até nos primeiros anos da infância; ela torna-se cifra da individualidade, aquilo que permite analisá-la e, ao mesmo tempo, o que torna possível fazer o seu levantamento».

Duas observações ilustram e completam esta citação. Entre 1974 e 1976 Foucault introduz os conceitos de bio-história e de bio-política.

Numa altura em que a «bioética» ainda não tinha o direito de cidadania que ela possui agora, Foucault sublinhava a importância de outros aspectos, parcial mas não integralmente contemplados hoje na bioética e no biodireito.

Ora, é nitidamente do ponto de vista bio-histórico e bio-político que Foucault analisa a sexualidade.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Seg Out 18, 2010 12:33 am

Segundo Foucault, a ruptura inaugurada pelo século XIX consiste na passagem do sangue para o sexo.

Por sangue é preciso entender a linhagem que mantém a identidade do grupo familiar no sentido largo; a sexualidade é então vista através do prisma das gerações que pertencem ao mesmo grupo (o sangue azul; as famílias burguesas, etc.).

Os conceitos que norteiam esta compreensão são os de autoridade e de lei. A dimensão política da sexualidade reside, para Foucault, neste molde simbólico que associa directamente sexualidade e poder.

É por isso que o «belo sexo» é a mulher, reduzida à sua função de reprodutora. Ora, a transição do sangue para o sexo incide na mudança da ordem simbólica a partir da qual a sexualidade é pensada; a sexualidade já não é absorvida pela reprodução, mas invade toda a vida psíquica e a cultura.

Foucault sublinha a conquista, no século XIX, da separação entre teoria médica do corpo e teoria da sexualidade. A psicanálise compreende-se nesta conquista, mas, segundo Foucault, a psicanálise ainda reenvia para uma teoria da lei, da autoridade, neste sentido, ainda partilha em grande medida os antigos pressupostos da «ordem simbólica» do sangue.

Seria possível e interessante prolongar as reflexões de Foucault numa direcção inversa; não será que o exercício da política é também uma forma de expressão da vivência sexual?

Não é somente o estudo, por parte de Freud, do caso do presidente Wilson que sugere esta ideia, mas a análise de outros fenómenos colectivos.

O entusiasmo ou mesmo o delírio que animam grupos de manifestantes (por exemplo, em Maio de 1968 em Paris, ou em Abril de 1974 em Lisboa, etc.) levanta uma questão que merece uma atenção particular: em que medida o poder político é uma expressão da sexualidade? Dado que esta questão, porém, diz mais directamente respeito à análise do poder político que à da sexualidade, é suficiente salientar a sua pertinência sem lhe dar elementos de resposta.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Ter Out 19, 2010 8:46 pm

Esta breve sinopse das relações entre sexualidade e política permite tirar duas conclusões.

Uma coisa é o estilo de subordinação concreta da mulher que uma cultura pode inconscientemente alimentar. Neste caso, a relação entre sexualidade e política não é senão o reflexo de pressupostos culturais gerais. A aplicação destes pressupostos na vivência privada da sexualidade transforma muitas vezes esta subordinação em actos violentos de «machismo» ou de submissão dominadora.

Outra coisa é a detecção, por parte dos filósofos psicólogos ou sociólogos dos moldes ou «esquemas simbólicos» que interpretam esses pressupostos.

Mas, tal como se fez no fim da precedente análise dedicada à dimensão institucional da sexualidade, convém regressar do plano das teorias para o da praxis concreta.

Quando um casal jovem se vê perante a necessidade de diferir o casamento ou a vida em comum porque não dispõe das possibilidades financeiras de «arranjar» uma casa, quando este fenómeno atinge proporções largas numa sociedade, quando as casas disponíveis são feitas de modo tal que só possam abrigar um filho ou dois, quando a prevenção social da sida privilegia a distribuição de preservativos desde quase o fim da escola primária, então verifica-se que a questão da união sexual já não diz somente respeito aos indivíduos, mas à organização política da sociedade.

Além de todas as teorias subsistem aspectos concretos que tornam obrigatória a integração da análise política na compreensão da sexualidade.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Sab Out 23, 2010 1:32 pm

2.7. O prazer, a alegria e a felicidade.

Não será um pouco estranho introduzir tão tarde o tema do prazer sexual? Não será este atraso o reflexo de uma análise que ignora as realidades concretas, confirmadas pelas sondagens, para se refugiar nos aspectos filosóficos menos importantes para a vivência quotidiana? Qual é a razão deste atraso?

Uma análise que procura compreender um fenómeno não pretende nem deve reproduzir a ordem de importância dos factores tal como ela é eventualmente vivida.

É só preciso que, chegada ao fim, a análise consiga mostrar porque é que não podia começar pelo mais aparente.

O estudo sociológico indica que a procura do prazer e o desejo de ter filhos são, nas relações sexuais, dois factores que evoluem diferentemente conforme as idades.

O grupo etário mais jovem (de 15 a 45 anos) parte de uma nítida prioridade conferida ao prazer (prioridade cuja importância diminui com a idade), ao passo que o equilíbrio dos dois factores, do ponto de vista etário, se atinge no grupo situado entre 45-54 anos.

Antes de ser considerado por si próprio no âmbito da sexologia, o prazer sexual era, pelo menos no segundo milénio da sociedade ocidental, abordado na teoria dos fins ou objectivos do casamento. Qualquer que fosse a sua denominação o prazer vinha em terceiro lugar, depois da procriação e da comunhão de vida.

Tal como todos os «esquemas interpretativos», esta teoria gerou, no plano das consequências concretas, existências que atingiram formas de equilíbrio notáveis na conduta da sua vida sexual e outras que manifestaram desequilíbrios igualmente patentes.

Não se trata aqui de indicar rigorosamente em que consiste o equilíbrio ou o seu contrário, mas de salientar a relação, fortemente acentuada neste último século do milénio, entre libertação ou repressão do prazer sexual.

Hoje em dia, no entanto, verifica-se que acabou o período da sexualidade oficialmente reprimida, isto é, de uma sexualidade calada ou somente objecto de conversas privadas.

A sexualidade invadiu a praça pública; ainda que subsista como o lado muitas vezes secreto e escondido da personalidade individual, ela é analisada, debatida, dissecada nas revistas semanais.

O tema da sexualidade «vende-se» bem; do mesmo modo, a evocação próxima ou longínqua do prazer sexual é comercializada até aos limites da banalidade, quer na publicidade, quer nos espectáculos televisivos.

Será que o prazer sexual é o «núcleo» da sexualidade?
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Seg Out 25, 2010 8:56 pm

Se o ser humano fosse somente corpo animal objectivo, o prazer seria efectivamente o centro da sexualidade, centro inconscientemente ao serviço da sobrevivência da espécie.

Mas para o ser humano enquanto pessoa, o prazer só contém uma satisfação profunda se é mais do que simples prazer.

Noutros termos, este deve estar aberto a uma dimensão que, sem negar minimamente a sua realidade de prazer sensível, contém uma abertura constitutiva a algo que excede o prazer e a que se pode chamar «alegria».

A diferença entre o prazer sensível e a alegria reside na capacidade que a alegria confere de abrir a pessoa (enquanto corpo sexuado) para o outro, para o desejo do outro, para o seu prazer, para a sua alegria.

A alegria dilata a possibilidade de encontro com o outro ser humano, ao passo que o prazer sensível não partilhado pode reduzir a tensão do corpo, mas não satisfaz a sede de partilha intersubjectiva que distingue o animal do ser humano.

Não se trata aqui de fazer obra de moralista, indicando o que é bem e o que mal no comportamento individual; trata-se de discernir o que, do ponto de vista da compreensão do ser humano, se integra num dinamismo de construção da personalidade e o que caminha em sentido contrário a este dinamismo.

Mas quem é que decide, objectar-se-á, que determinados comportamentos, e no caso presente, comportamentos sexuais, se integram ou não se integram no dinamismo da construção da personalidade? Não será que a autonomia da pessoa implica o poder de decisão quanto à determinação do dinamismo da sua construção pessoal?

Aparentemente, segundo esta objecção, a análise que se pretende filosófica quereria de modo subreptício impor um determinado molde comportamental em matéria de sexualidade.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Qua Out 27, 2010 9:05 pm

A questão é simples, a resposta, complexa. Está-se com efeito na linha dedemarcação e de cruzamento entre a análise antropológico-filosófica e a análiseética.

Ora, quando se volta a colocar o ser humano no dinamismo da realização de sipróprio, opera-se um acto de projecção para o futuro, como se o que o ser humano virá a ser fosse incorporado na análise daquilo que ele é. Mas uma vez que a liberdade humana é necessária para que advenha o que «virá a ser», já não se está rigorosamente no campo da análise antropológica, quando se fala do «dinamismo deconstrução da personalidade».

É por isso que não se pode impor a ninguém a realização da sua personalidade. Cada ser humano escolhe-se a si próprio no seumodo de ser pessoa. Mas esta escolha não significa que não seja possível analisar a riqueza de conteúdo inerente ao facto de ser pessoa.

O exemplo psicológico da relação amorosa pode ser esclarecedor a esse respeito. Por um lado, é verdade que cada ser humano tem a «liberdade de escolha» de viver o amor tal como ele quer (embora a liberdade de escolha não se identifique com o sentido mais rico ou profundo da liberdade); por outro lado, esta liberdade de escolha não se substitui às «leis» psicológicas que a psicologia descobre no desenvolvimento da relação amorosa e descreve como a sua dinâmica evolutiva; esta relação tem as suas leis, leis do começo, dos modos de enfrentar os obstáculos que o tempo acumula, leis que predizem o fim eventual desta relação amorosa em caso de não superação dos obstáculos.

A espontaneidade do coração que vibra com a relação amorosa não escapa às leis ou às «regularidades» psicológicas que regem o comportamento afectivo e sexual.

Mutatis mudandis, a análise filosófica da relação sexual tem, de modo semelhante, a capacidade de indicar a relação entre prazer, alegria e felicidade. É neste sentido que pode haver prazer sexual sem alegria, mas também alegria sem prazer sensível.

Facilitar o aparecimento do prazer sexual - com ou sem «técnicas», com ou sem novos remédios - não induz automaticamente um suplemento de alegria na relação sexual; poderá induzir se outros factores de natureza afectiva, relacional ou ética estiverem presentes.

Para o ser humano consciente o prazer sexual não deveria estar desligado da responsabilidade. Se a responsabilidade implica em primeiro lugar um modo de «responder» ao outro ou face ao outro, o prazer sexual é autenticamente humano quando incorpora uma dimensão de responsabilidade.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Sex Out 29, 2010 9:07 pm

A felicidade implica um estado de alma mais estável e, enquanto tal, instaurando uma certa unidade de vida no seio da dispersão temporal.

Mesmo quando um instante preenche da sua riqueza a plenitude da existência só se falará de felicidade se este instante tiver a capacidade de projectar a sua sombra – ou a sua luz – sobre um determinado tempo futuro do ser humano.

Do mesmo modo o olhar retrospectivo que avalia uma parte do passado ou a sua totalidade falará de felicidade não em relação a um acto, eventualmente repetido, mas em relação a uma unidade temporal.

A consequência quanto ao prazer sexual é então evidente, mesmo se a sua aplicação nas várias fases da existência humana não é tão fácil de realizar: o prazer sexual contribui para a felicidade humana somente mediante a sua incorporação em outras dimensões afectivas e éticas que são parte integrante da existência humana.

Em sentido contrário, a realização da «felicidade» não implica necessariamente ou imprescindivelmente a presença do prazer sexual.

Seria filosoficamente errado reprimir a priori o prazer sexual em nome da «alegria» ou da «felicidade» autêntica; mas também não se pode reduzir a alegria ou a felicidade à exclusiva dimensão do prazer físico.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Sab Out 30, 2010 7:32 pm

2.8. A sexualidade e o erotismo.

Múltiplos são os discursos sobre o erotismo. Por um lado, o erotismo evoca tudo o que suscita o desejo sexual. Assim entendido, ele não se limita aos actos, mas abrange textos e obras, representações e comportamentos enquanto relacionados de perto ou de longe com a actividade sexual genital. Por outro lado, o erotismo está, em muitos livros ou artigos, considerado como a dimensão da existência que abrange no sentido largo a «arte de amar», quer no sentido físico, quer no sentido espiritual.

Seria aberrante ter a pretensão de esgotar em poucas palavras o fenómeno do «erotismo», mas também seria gravemente lacunar tratar da sexualidade ignorando a importância do assunto. O acordo é fácil quanto à etimologia; o Erôs grego designa «o amor, o deus do Amor, o desejo amoroso, às vezes desejo emgeral.

Entre o discurso sobre o Eros no diálogo O banquete de Platão e a teoria freudiana do Eros muita água passou debaixo da ponte. Do mesmo modo, entre a compreensão do Eros no Ocidente e a sua representação nas várias culturas asiáticas, por exemplo, as semelhanças serão tão numerosas como as divergências.

Em Platão a natureza de Eros é múltipla, mas no sentido mais elevado o Eros significa, de modo positivo, o elan da alma que chega à plenitude do saber; sendo «elan que não satisfaz o múltiplo, o delírio erótico chegado ao seu termo gera discurso e conhecimento por plenitude, não por falta.

Depois de Platão, nenhum filósofo conferirá um tal peso à noção: reduzido aos fantasmas envolvendo o desejo sexual, erôs já não será senão um obstáculo à ataraxia do sábio»36. O sentido da plenitude cede o passo à carência e à expectativa do desejo, de tal modo que a emoção sexual se sinta invadida pelo encanto perturbador e pelo lusco-fusco de Eros.

O encontro com o cristianismo obriga, no entanto, a definir as fronteiras entre o amor «erótico» e o amor cristão. Se é a Agapê que caracteriza o amor de Deus pela sua criatura, qual será a diferença entre o amor Eros e o Amor Agapê37? A escolástica tematizou esta ideia, aliás já em vigor antes das grandes sínteses do século XIX.

O amor Eros procura o bem do amado em função do bem daquele que ama, ao passo que o amor Agapê procura o bem do amado exclusivamente em função do amado. Só o amor Agapê será verdadeiramente altruísta.

É por isso que o amor de «caritas», que traduz a Agapê, será o paradigma do amor cristão, deste amor que, de maneira desinteressada, está inteiramente virado para o bem do ser amado.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Dom Out 31, 2010 2:39 pm

Hoje, na esteira das análises do corpo sexuado, reina uma compreensão valorizando mais positivamente o erotismo. Para este efeito contribuíram quer a literatura, quer as artes plásticas, quer o cinema. Admitindo-se que o campo do «erótico» se desmarca do obsceno, assim como do pornográfico, então o erotismo aparece como a «carga» de atracção afectiva que surge da «linguagem» dos corpos, num subtil jogo do mostrar e esconder, do oferecer e reter.

No fim de contas a sexualidade humana integra o erotismo na medida em que passa pela mediação da imaginação. É por isso que a sexualidade genital imediata e o erotismo não crescem de modo paralelo, como se o curto-circuito da satisfação física imediata eliminasse a dimensão imaginativa e erótica do jogo amoroso.

A dificuldade actual que o erotismo apresenta reside na sua utilização para fins comerciais ou publicitários. Será que o erotismo que invade a vida social e pública resistirá a este ataque que o ameaça matar o poder de criatividade da imaginação?

Quando tudo se mostra directamente, é difícil ainda imaginar um resto de «mistério». Talvez seja esse o papel mais nobre do erotismo: preservar a «aura de mistério» que faz parte da sexualidade.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Ter Nov 02, 2010 4:24 pm

2.9 A sexualidade e a ternura.

A sexualidade que se desdobra na duração, resistindo ao desgasto do tempo assim como à força do hábito, gera a ternura recíproca. A ternura poderia ser globalmente abordada como a ligação afectiva que manifesta, pela expressão verbal e gestual activa e inventiva, uma forma de amor respeitoso para com o outro.

Mas importa notar imediatamente que a ternura não se limita ao âmbito da sexualidade genital, embora não seja necessário, no quadro de uma análise sintética da sexualidade, discriminar as formas de ternura; tal como existem várias formas de amor - amor conjugal, amor parental, amor filial, amor de amizade, o amor marcado pelo Eros, o amor Agapê, do mesmo modo, as formas da ternura diversificam-se em conformidade com a expressividade e o respeito específico a cada forma de amor.

Além disso, as manifestações da ternura evoluem no decurso do tempo: seria bastante estranho que a expressão da ternura no casal que tem trinta ou quarenta anos de vida em comum seja idêntica à de dois seres humanos cujo amor ou namoro tem seis meses de duração.

Não reservada à esfera da sexualidade, a ternura, que provém de um outra dimensão da afectividade, cruza também a manifestação sexual do amor.

Com o decorrer dos anos é normal que a força física da sexualidade diminua, sendo pertinente observar, porém, que a expressão afectiva do amor é capaz de inventar formas cada vez mais ricas e profundas de ternura.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Qua Nov 03, 2010 11:37 pm

2.10. A sexualidade e o fracasso

Nenhuma esfera da existência está ao abrigo do fracasso. Ultrapassa contudo os limites desta análise definir com toda a precisão o que se entende por fracasso no campo da sexualidade.

O fracasso, não necessariamente definitivo, pode ser subjectivamente sentido pela incapacidade individual de gerir o desejo sexual ou de integrar de modo equilibrado as componentes da sexualidade genital.

Pode ser também subjectivamente percebido como a ruptura de uma relação afectiva ou sexual que tinha sido iniciada com a intenção - ou a presunção de intenção - de estabilidade gratificante.

Pode enfim ser diagnosticado de modo objectivo ou de fora quando se assiste à incapacidade notória de integrar uma ou várias dimensões das sexualidades acima analisadas.

Antes de analisar a assunção ou a imputação das responsabilidades, é preciso notar que não só a vida afectiva ou profissional, mas também a «vida psicosexual» - expressão que não indica o isolamento ou o carácter estanque desta «vida» na existência humana - atravessa fases de educação, de evolução e de amadurecimento.

«O desejo conhece, tal como o próprio homem, uma infância e uma idade adulta; acontece-lhe perder-se ou bloquear em qualquer sítio no caminho para a maturidade; conjuntamente deseja e não deseja aquilo que o pode preencher.

Tal é o caso do desejo de amar e de ser amado, o mais decisivo de todos. Mas a nossa maneira primeira e imediata de amar consiste em incorporar o outro em nós para o tornar semelhante a nós. O outro deixa aí a sua autonomia e o amor perde também aí o seu parceiro.

Mas o fracasso será somente provisório porque nos incita a procurar uma outra maneira de amar».
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Ter Nov 09, 2010 10:35 pm

A sexualidade é o campo no qual o voluntário e o involuntário se cruzam de modo complexo. É por isso que convém evitar uma moralização imediata e fácil daquilo que, estando intimamente ligado à história individual, não se compreende senão mediante uma escuta longa e benevolente.

Além disso, o que se apresenta externamente como fracassado pode provir de factores pessoais conscientes e responsáveis, ou conscientes mas compulsivos; pode igualmente provir de acontecimentos externos ou objectivos que alteraram a capacidade de acção ou de reacção.

Pode provir de perturbações afectivas de natureza múltipla; enfim, a sua origem pode ser uma simples incompatibilidade psicológica de relacionamento.

Não se devem contudo esconder a existência de autênticas perversões no campo da sexualidade.

Não é mistério para ninguém que elevado é o número de indivíduos atingidos por perturbações psicológicas de toda a ordem no campo da sexualidade.

A palavra deve então ser remetida à psiquiatria antes mesmo de a abrir à reflexão moral. Nesses casos, a ajuda ética não será senão complementar.

A título conclusivo e para além do foro psiquiátrico, é preciso sublinhar uma causa frequente, na sociedade contemporânea, de fracasso da vivência sexual: quando a sexualidade genital, a afectividade e a dimensão institucional do relacionamento amoroso não se conciliam de modo suficientemente harmonioso, isto é, quando qualquer uma dessas dimensões se vive com a exclusão das outras, está presente um germe de fragmentação e de fracasso deste relacionamento.

Mas uma vez que ele é vivido em conjunto, será infelizmente suficiente que um dos dois membros desta relação falhe para que o outro seja igualmente afectado.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Qui Nov 11, 2010 10:36 pm

2.11. A sexualidade e a sublimação.

A sublimação é um conceito que hoje evoca imediatamente a psicanálise44.

Pouco importa referir que a sublimação, segundo o Freud de 1915, é um dos quatro destinos da pulsão. Pouco importa referir que a sublimação da pulsão pela criação artística é, segundo Freud, um simples meio de evitar a neurose, que a sublimação mediante a religião não faz senão constituir uma neurose colectiva que dispensa da neurose individual.

Num sentido largo, a sublimação designa a canalização das energias sexuais para a realização de outras actividades, de natureza cultural, artística ou profissional.

A causa inconsciente situar-se-á possivelmente (certamente, segundo Freud) na procura de evitar o desprazer ou o sofrimento ao nível pulsional (em virtude do «princípio de realidade» que põe uma barreira não superável ao «princípio de prazer»).

É permitido, contudo, transpor o sentido freudiano da sublimação para lhe conferir um conteúdo mais abrangente. A sublimação desempenha então uma dupla função; por um lado, mostra que todas as energias com as quais o ser humano vive a sua afectividade ou o seu amor, prossegue os seus fins e a realização dos seus desejos, mergulham num fundo opaco e não transparente de energia pulsional; vistos pelo prisma da energia pulsional todas as actividades humanas, banais ou eminentemente espirituais, se enxertam num fundo pulsional ou libidinal.

Por outro lado, nas formas concretas que a actividade consciente reveste (por exemplo, na profissão, nas manifestações de ternura, na criatividade cultural ou científica), existe um «excedente de sentido» relativamente à energia pulsional.

Este excedente de sentido escapa à análise psicanalítica e exige, conforme os casos, uma abordagem especificamente estética ou cultural ou religiosa ou científica ou ética.

Segue-se daí, para a compreensão da sexualidade, que a energia sexual não precisa necessária e imprescindivelmente de uma «actividade» directamente sexual para a realização espiritual do ser humano.

Muitas existências humanas dedicaram-se, sem a actividade sexual genital, a «causas» científicas, artísticas, políticas, religiosas, profissionais ou simplesmente marcadas pelo valor ético do altruísmo, de modo tal que foram existências equilibradas, conseguidas e, eventualmente, plenamente preenchidas.

Era necessário, no termo - mas somente no termo - de uma análise da sexualidade, mostrar que a sublimação está presente em todas as existências, que exerce uma função essencial na construção da personalidade e que pode mesmo atingir níveis testemunhando a riqueza de sentido que o ser humano é capaz de dar à sua existência.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Sab Nov 13, 2010 12:03 am

2.12. Conclusão da análise antropológico-filosófica

A sexualidade humana contém uma multiplicidade de facetas, que a análise precedente corre o risco de apresentar de modo fragmentado. É por isso que convém congregá-las num feixe coerente e unificado.

Os fins mais evidentes da sexualidade, tais como são espontaneamente pensados e se encontram descritos consensualmente, são respectivamente o«amor» (ou a relação amorosa), a procriação («ter filhos») e o prazer. Mas é preciso compreender que a sexualidade humana atravessa todas as dimensões da pessoa (cfr. 2.1, «o corpo sexuado»), não se limitando à actividade da sexualidade genital.

Ora, essas dimensões vivem-se também no tempo (cfr. 2.2, «a sexualidade, o desejo e o tempo»), o que exige uma certa unidade de comportamento e dá coerência à existência, uma vez que o ser humano é incapaz de se reduzir à vida puramente animal.

Em sentido contrário a esta vida animal, a «proibição do incesto» (cfr. 2.3) foi sempre considerada como o limiar a partir do qual a «natureza» no homem acede à «cultura»: no seu comportamento sexual, o ser humano inscreve este acesso negativamente pela proibição do incesto e positivamente pela sua abertura a formas de aliança viradas para a exterioridade social do grupo humano.

Tais exigências, contudo, não representam senão condições de possibilidade para que surja o sentido verdadeiramente humano da sexualidade, isto é, a «relação de reciprocidade afectiva» (cfr. 2.4), com todos os ricos cambiantes do amor.

Está-se aqui em terreno sólido e seguro, como se, finalmente, se tivesse acesso ao sentido primordial da sexualidade. Mas será que este amor só diz respeito aos dois seres que se amam? Quer o aparecimento da criança nascida do acto de amor, quer o reconhecimento da instituição social pelo casamento (cfr. 2.5, «o papel do terceiro e da instituição») prova que o amor não se fecha numa relação exclusivamente dual.

Os problemas sociais acarretam porém decisões políticas; além disso, a história da cultura e a compreensão diacrónica da sexualidade tornam incontornável a relação entre «sexualidade e política» (cfr. 2.6); aliás, os moldes culturais imaginários fazem com que se tenha pensado a sexualidade em termos de poder e de domínio. Mas essas teses não interessam muito senão os especialistas das ciências humanas.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Sab Nov 13, 2010 9:58 pm

A realidade concreta, tal como a vivemos todos os dias, com um certo encanto e com uma certa perplexidade, é o fenómeno do «erotismo» (cfr. 2.7), no qual se misturam atracção, imaginação e mistério.

Não será mais adequado preferir ao tumulto do desejo erótico a paz da «ternura» (cfr. 2.8)? Os jovens poderiam pensar que o «sexo» com ternura é o único remédio ou alibi sexual dos mais velhos!

Eles enganam-se, contudo, tal como se pode saber em virtude de uma compreensão mais profunda da ternura.

Mas quem tem acesso a esta compreensão, o filósofo ou todo o ser humano? Não será que o analista ignora a realidade concreta da vida dos homens ao ponto de julgar que, na sexualidade, tudo deve espontaneamente «correr bem»?

A esta aparente ingenuidade é preciso opor a dura realidade do «fracasso» (2.10), às vezes mais espalhado que o equilíbrio. Mas se o fracasso não é nem universal nem definitivo, a razão deve ser procurada mais longe, na capacidade que o ser humano possui de se apoiar nas suas energias pulsionais mais fundas para as «sublimar» (2.11).

Além de Freud pode-se pensar que a capacidade de sublimação não está reservada aos únicos artistas que se exprimiram nas obras da sua criação; todo o ser humano, enquanto ser espiritual, tem ao seu alcance esta possibilidade, com ou sem a actividade da sexualidade genital, de sublimar as energias da libido num acto expressivo e criativo da sua própria pessoa.

A análise filosófica da sexualidade, no entanto, não pode pôr o seu ponto final com a problemática da sublimação; esta ultrapassa a dimensão da sexualidade, embora esteja também sempre exigida por ela.

A conclusão conclui-se portanto com o reenvio para a evidência mais simples à qual os dados sociológicos faziam eco, mas evidência agora enriquecida de uma densidade reflexiva que lhe fazia falta: «o sexo com amor» da sociologia justifica-se se for entendido como vivência sexual numa relação intersubjectiva durável e numa comunhão (ou «com-união») de vida; o «sexo para ter filhos» justifica-se pela assunção da responsabilidade pessoal e social por novos seres humanos, no seio da relação intersubjectiva durável; o «sexo enquanto prazer» justifica-se pelo prazer responsável, fonte de alegria não isenta de ascese e de sublimação, que brota da sexualidade humana vivida nas suas múltiplas dimensões.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Qua Nov 17, 2010 1:13 am

3. Elementos para uma análise ética da sexualidade

Apresentar uma ética da sexualidade, além de ser por natureza uma tarefa delicada, deve ter em consideração os seus destinatários e os valores destes.

A vivência da sexualidade, com efeito, implica sempre, de modo implícito ou explícito, uma tomada de posição quanto a determinados valores éticos. Ora, os valores éticos não se impõem de fora, o que implica que uma ética da sexualidade não obrigue senão a pessoa que decide aceitá-la.

A ética da sexualidade não se identifica portanto com um código dos direitos ou dos deveres em matéria de respeito jurídico dos indivíduos humanos do ponto de vista da sexualidade.

É preciso distinguir o ponto de vista ético do indivíduo quanto à vivência da sua própria sexualidade (a avaliação que cada um faz de si próprio), o ponto de vista relacional, isto é, a dimensão intersubjectiva, privada e íntima, dos actos ou atitudes que implicam a presença de uma outra pessoa (a interacção no relacionamento sexual), enfim, as tomadas de posição sociais ou públicas sobre assuntos relacionados com a sexualidade.

Os valores não se apresentam do mesmo modo em cada um destes ângulos de análise.

Além disso, uma teoria ética da sexualidade tem que se manter num nível suficientemente alto de generalidade para não cair na confusão entre os princípios que fornecem fortes e claras orientações de vida e a «sabedoria prática» destinada a resolver os problemas ou dificuldades provindo dos casos concretos.

Seguir-se-á para a enunciação destes princípios a ordem de exposição da «análise antropológica» da sexualidade (n.º 2, supra).
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Qui Nov 18, 2010 11:01 pm

3.1. Uma vez que a sexualidade atravessa toda a pessoa humana, tal como se mostrou pela análise do «corpo sexuado», a ética da sexualidade implica que o «bem» do ser humano, no que diz respeito ao seu comportamento sexual, repouse na ligação livremente assumida entre a vida do corpo, a afectividade e a mente.

Noutros termos, a sexualidade cortada da relação afectiva não é, a médio ou longo prazo, construtora da personalidade humana.

O corolário deste princípio tem também a sua importância: a finitude, que marca a vida afectiva e implica que não podemos ter laços afectivos com uma multiplicidade indefinida de pessoas, afecta igualmente o comportamento sexual, de tal modo que o «don juanismo» (independentemente das suas conotações psicanalíticas) não se enquadra com o bem ético da pessoa na sua vida sexual.

3.2. A construção da personalidade realiza-se no tempo. Esta condição temporal do ser humano implica, no que diz respeito à sexualidade, um dinamismo e uma evolução progressiva.

Este dinamismo não é possível sem uma certa coerência consigo próprio na gestão do desejo e da força sexual. A coerência na condução da vida sexual pode ser interpretada em termos de fidelidade a si próprio e constitui um princípio ético em vista ao desenvolvimento da personalidade humana no tempo.

3.3. Sob pena de problemas psicológicos graves, a identidade do ser humano exige que a sua posição no seio da sua família seja para ele mesmo clara e sem ambiguidade.

O incesto opõe-se radicalmente à construção equilibrada da personalidade humana, não somente por motivos de natureza psicológica, mas porque o princípio de aliança, que preside à sexualidade humana, exige que a família se abra sobre o exterior e não se feche sobre si própria.

O princípio ético da aliança não tolera o incesto.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Sex Nov 19, 2010 10:53 pm

3.4. O amor sexual, enquanto união com uma outra pessoa, é comunhão de vida, no respeito pela alteridade do outro. A construção ética da personalidade no plano da vida sexual far-se-á na promoção conjunta do amor e do respeito pela pessoa do outro, sem que este se torne simples objecto de prazer, isto é, sem que este se transforme num instrumento nas mãos de quem quer que seja.

O amor sério e profundo tende para a exclusividade e para uma duração cujo fim, à partida, não seja previsto. A construção ética da personalidade visa, no plano da vida sexual, a realização de um amor sério e duradouro.

3.5. O relacionamento sexual duradouro tem, quer se queira quer não, uma dimensão socio-institucional (o que se verifica pelo facto de as «uniões de facto» procurarem o seu reconhecimento pela sociedade).

Por outro lado, a procriação natural dos seres humanos pressupõe – salvo casos de procriação medicamente assistida – a relação sexual.

O princípio ético da vida sexual no que diz respeito à procriação exige que seja respeitado o direito da criança a ser acolhida pelo pai e pela mãe no quadro de uma família estável.

3.6. Existe uma relação entre ética e política no plano da vida sexual. Os comportamentos sexuais implicam sempre pressupostos culturais; a construção ética da personalidade integra o respeito pela equidade no relacionamento sexual.

Reciprocamente, as formas de machismo ou de desigualdade que não têm em atenção esta equidade não são conciliáveis com a ética da sexualidade. Por outro lado, é um dever das instâncias de decisão políticas tomar as medidas necessárias
para que seja possível a construção ética da personalidade no plano da vida sexual.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Sab Nov 20, 2010 10:13 pm

3.7. O prazer, a alegria e a felicidade não são conceitos idênticos na medida em que não designam a mesma realidade.

No domínio da vida sexual, a construção ética da personalidade tende para uma cada vez mais estreita ligação entre prazer e alegria, tendo em conta que a alegria implica sempre a possibilidade ou a realidade de uma partilha com um outro ser humano, respeitado enquanto tal (cfr. supra, n.º 4).

Quanto mais for partilhada numa base que não seja exclusivamente corpórea, mais a alegria preencherá o ser humano. Quanto mais profunda e estável for a alegria, mais susceptível ela será de gerar uma felicidade autêntica.

3.8. Serão ética e erotismo conciliáveis? Debaixo de todos os seus desvios é preciso trazer à luz do dia o valor construtivo do erotismo. A força dinâmica que habita o erotismo é um misto de atracção, de imaginação e de mistério. A alteração de qualquer um desses factores tem a capacidade de desvirtuar o erotismo da sua dimensão construtiva respeitante à vivência «saudável» da sexualidade.

O relacionamento sexual sem atracção torna-se mecânico; sem imaginação, torna-se objectivante, transformando facilmente o outro em objecto, ao passo que sem a «aura» de mistério, ele se torna facilmente desprovido de respeito e de encanto.

Além disso, enquanto ligado ao desejo, o erotismo é o lugar no qual podem surgir grandes desvios ou perversões; deste ponto de vista não deixa de ser preocupante a invasão da pornografia pela via da Internet.

Quais serão o conteúdo da imaginação, a capacidade imaginativa e a capacidade de relacionamento do ser humano se este for, no campo da sexualidade, obcecado pelo écran da pornografia? Entre outros aspectos, a pornografia contém um germe mortífero para a expressão da ternura.

3.9. Existirá uma ética da ternura? Em termos metafóricos poder-se-ia dizer que a ternura é a poesia do amor. A criatividade inerente à ternura é uma via que harmoniza e concilia a expressão humana do amor com o reino da vida e com o mundo do cosmos.

É por isso que a ternura pode reunir, segundo Erich Fuchs comentando um poeta, o triplo canto provindo do mundo, da palavra e da carne.

Uma ética da ternura contribui para individualizar e personalizar o encontro sexual, constituindo deste modo um valor especificamente humano. Mas, além disso, é preciso referir que a ternura está aberta a uma variedade e a uma multiplicidade de expressões, de modo tal que o seu campo de manifestação não se limita à esfera da sexualidade: existem formas de ternura específicas a cada relacionamento afectivo (amor parental, filial, amizade, etc.).
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   Dom Nov 21, 2010 10:15 pm

3.10. Não estando ao abrigo do fracasso, o percurso humano da sexualidade realiza-se de modo diferente e com um ritmo diferente para cada indivíduo. Uma ética da sexualidade implica que, se for caso disso, o fracasso seja assumido e integrado não como aniquilador da pessoa, mas enquanto ponto de partida de um progresso sempre possível na construção da personalidade.

3.11. Na construção da personalidade não existe progresso sem frustração. A educação implica o confronto com a frustração, em proveito de uma maior unificação da pessoa. Do mesmo modo, não existe progresso sem ascese. O que vale para qualquer dinamismo ou procura de realização pessoal, ao nível físico, profissional ou espiritual, rege também a educação da personalidade no que diz respeito à sua sexualidade.

A frustração inevitável torna-se ética quando é assumida, não como tendo um valor em si mesma, mas enquanto etapa para a obtenção de um bem considerado superior no quadro da construção da personalidade.

3.12. A ética da sexualidade não tem somente como destinatários as pessoas que vivem uma relação afectiva e sexual. Por múltiplas razões, de natureza involuntária ou voluntária, existem pessoas que vivem na situação de abstinência ou de continência sexual. Tal é o caso de pessoas, jovens ou não, que não tiveram a sorte - ou ainda não tiveram a possibilidade - de encontrar a pessoa com a qual teriam desejado ou desejariam partilhar a sua vida, tal é o caso de seres humanos com deficiências; outra situação, mais frequente ainda, é a da viuvez assim como a de pessoas divorciadas.

Do mesmo modo, existem seres humanos que assumiram livremente o celibato em nome de um ideal religioso, de uma consagração religiosa ou por dedicação a uma causa científica ou altruísta que monopolizava todas as suas forças.

Também não está excluído que a situação de solidão devida a motivos involuntários seja ulteriormente assumida voluntariamente e com serenidade. Ora, a ética da sexualidade - assim como foi referido no ponto 2.11 acima - diz igualmente respeito aos seres humanos que se encontram nessas situações.

Toda a pessoa se exprime no seu corpo sexuado, toda a pessoa é sensível ao erotismo, toda a pessoa é chamada a receber e dar marcas de ternura apropriadas à sua situação, toda a pessoa constrói a sua busca de felicidade através do tempo, com altos e baixos, com êxitos e eventuais fracassos, toda a pessoa é digna de respeito e chamada a ser respeitadora da liberdade dos outros.

Assim, uma ética da construção da personalidade através da vivência da sexualidade sublinha também que, apesar das suas dificuldades específicas, múltiplas são as formas de viver uma sexualidade harmoniosa e serena fora do campo das relações sexuais.
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MensagemAssunto: Re: A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer   

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A HISTÓRIA DA SEXUALIDADE HUMANA - Luís Archer
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