A LIBERDADE É AMORAL

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 SOREN AABYE KIERKEGAARD - Vida, época, filosofia e obras

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Anarca



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MensagemAssunto: SOREN AABYE KIERKEGAARD - Vida, época, filosofia e obras   Ter Abr 06, 2010 5:07 pm

I - Época

A época em que viveu o filósofo dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard foi, inicialmente, um período de grande crise política e militar sofrida por seu país, em conseqüência das guerras napoleônicas. Somente na idade madura do filósofo, a Dinamarca veio a sair do atraso econômico causado pelos conflitos. Graças a uma política liberal que aboliu o trabalho obrigatório do camponês para os nobres seus senhores (regime medieval de servidão), e aboliu a monarquia absolutista, o país foi, aos poucos, foi se transformando em país industrializado e não apenas agrícola. Uma juventude universitária liderada pelo estudante Martin Lehmann, exigiu essas reformas liberais, e uma geração de intelectuais jovens, entre eles Kierkegaard, motivou que os meados dos anos 1800 fossem também chamados "idade de ouro" da literatura dinamarquesa. Kierkegaard viveu a maior parte de sua vida no reinado de Frederico VI, porém o período mais produtivo de sua maturidade transcorreu sob os reinados sucessivos de Christian VIII e Frederico VII.

II - Vida

Infância.

Søren Aabye Kierkegaard nasceu em Copenhague, Dinamarca, a 5 de maio de 1813 e cresceu num ambiente de devoção religiosa luterana. Seus pais procediam da península da Jutlândia, a parte continental da Dinamarca. Michael Pedersen Kierkegaard, o pai de Søren, era um homem de vontade forte, argüidor e argumentativo, autodidata por meio de muitas leituras, e muito voltado para questões espirituais. De origem humilde, porém havia se tornado rico e influente em seu meio social. Sua casa era ponto de reunião de líderes religiosos e políticos do seu tempo. Pertencia à corrente religiosa dos pietistas de Herrnhuter. Sofria ataques periódicos de depressão porque, devido a uma blasfêmia proferida quando jovem, não acreditava na salvação de sua alma.

A mãe de Kierkegaard, Anne, foi a segunda esposa de seu pai, o qual não tivera filhos da primeira mulher. Seu ingresso na casa foi como uma jovem empregada doméstica, que o pai de Kierkegaard engravidou antes de desposar, fato que contribuiu para aumentar ainda mais para ele o peso de suas culpas. Enquanto Kierkegaard escreveu muito em seus diários a respeito do pai, ele raramente escreveu sobre sua mãe. Ela morreu quando Kierkegaard tinha 21 anos.
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MensagemAssunto: Re: SOREN AABYE KIERKEGAARD - Vida, época, filosofia e obras   Qua Abr 07, 2010 12:00 pm

Formação.

A influência do pai sobre personalidade de Kierkegaard e sua obra tem sido sempre salientada. Ele foi o filho mais novo de sete irmãos. Quando nasceu, seu pai tinha 56 anos e sua mãe 45, razão de ele dizer que era um filho da velhice.

Uma importante anotação que Kierkegaard fez em seu diário, quando tinha vinte e cinco anos, a respeito do que ele chamou "Grande terremoto", revela o quanto a influência de seu pai foi perturbadora, em sua vida. Refere-se ao abalo que sofreu ao compreender o que acontecera ao pai e as conseqüências do acontecido para toda a família. Quando jovem, seu pai fora ajudante de administrador de uma fazenda na Jutlândia. Revoltado com as privações de sua vida de camponês, subiu ao alto de uma colina e amaldiçoou solenemente a Deus. Logo depois um tio seu, negociante de artigos de lã em Copenhague, chamou-o para o negócio. A partir daí o pai havia prosperado como negociante de roupas, tornando-se um homem rico: dono de 5 casas na capital que milagrosamente escaparam do bombardeio da cidade pelos ingleses em 1807. Também salvou-se da recessão e falência do estado em 1813, ano do nascimento de Søren, porque investiu em títulos de seguro tudo que tinha em dinheiro. Foi tão bem sucedido que pode aposentar-se com apenas quarenta anos. Viveu confortavelmente até os 82 anos, quando faleceu. No entanto, em suas crises de melancolia, sentia que o favorecimento do seu sucesso e sua longevidade haviam sido uma ironia, e na verdade vingança de Deus. Cinco de seus filhos morreram prematuramente, incluindo sua primeira esposa, e estava certo de que os dois filhos restantes haveriam de morrer quando chegassem à idade da morte de Cristo.

Como o pai, Søren Aabye sofria de persistente melancolia. Pesava sobre a família o temor das conseqüências do pecado do pai, e lhe pareceu que a morte de seus cinco irmãos era sinal de vingança divina, e que ele próprio haveria de morrer muito jovem. Um sinal desse temor foi o quanto Kierkegaard escreveu, prolificamente, no ano que antecedeu a marca de seus trinta e quatro anos de idade. Acreditava que a família estava amaldiçoada, e que seu pai haveria de ministrar os últimos sacramentos a todos os filhos. Tinha saúde precária e por isso fora rejeitado pelo exército como incapaz.

Rompeu relações com o pai, vindo a reconciliar-se com ele só bem mais tarde, pouco antes de perde-lo em 1838.

Desanimado, rejeitou a vida burguesa que o pai lhe havia preparado e que seu irmão mais velho, o pastor Peter, abraçou. Misturou-se aos jovens de seu tempo e entregou-se a uma vida dissipada. Ele porém não herdou apenas a melancolia do pai, seu sentimento de culpa e ansiedade, sua religiosidade pietista escrupulosa, mas herdou também seu talento para argumentação filosófica e uma imaginação criativa. Foi para a universidade de Copenhague estudar teologia, mas mudou para filosofia. Sofreu influência dos prof. Paul Martin Moller e Frederik Christian Sibbern: ambos detestavam filosofia sistemática e usavam romances de ficção para expor seus pensamentos filosóficos. Juntou-se aos intelectuais do romantismo, os quais buscavam viver intensamente seus sentimentos, em contraste com a superficialidade e rotina tediosa da vida burguesa. Porém, sofreu com os críticos literários que o ridicularizavam. Tudo isto confirmou os ensinamentos do pai, que giravam em torno dos sofrimentos de Cristo, de que a verdade (o próprio Cristo) se estabelece mediante sofrimentos, de que o mundo é governado por mentiras e injustiças. A mágoa lhe trouxe o grande desgosto pela humanidade de que estão impregnados quase todos os seus trabalhos.
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MensagemAssunto: Re: SOREN AABYE KIERKEGAARD - Vida, época, filosofia e obras   Qui Abr 08, 2010 5:23 pm

A morte do pai (1838) ensejou grande mudança no comportamento de Kierkegaard, a partir de então marcado por súbito amadurecimento. O velho deixou para os dois filhos sobreviventes, Søren Aabye e seu irmão mais velho, Peter, uma fortuna considerável, que permitiu ao filósofo passar o resto da vida escrevendo, sem qualquer preocupação financeira. Então ele retornou aos estudos de teologia na universidade de Copenhague e dois anos depois concluiu o mestrado.

Maturidade.

Kierkegaard viveu solteiro e um dos grandes acontecimento de sua vida foi justamente romper um noivado, ao mesmo tempo que a grandeza de sua obra nasceu praticamente das racionalizações filosóficas e românticas formuladas por ele para justificar para si mesmo e para a sociedade sua renúncia. Ele conheceu em 1837, Regine Olsen (1822-1904), em casa de amigos que fora visitar. Ela pertencia a uma família abastada de Copenhague e tinha 14 anos, idade núbil para as moças daquela época, e Kierkegaard não tinha como rejeita-la, face ao interesse que despertou na jovem. Viu-se levado ao noivado três anos depois, em 1840, um evento com grande repercussão devido à grande projeção social de sua família e da família de sua noiva. Quando não suportou mais a situação, Kierkegaard rompeu o noivado subitamente e embarcou para a Alemanha. Porém, procurou fazer que todos pensassem que ele fora rejeitado por Regina, a fim de que, segundo ele, a reputação da noiva nada sofresse. Ficou seis meses em Berlim.

Em uma das referências que faz ao seu caso com Regine, diz: "Se eu houvesse explicado as coisas para ela, eu teria que lhe ensinar coisas horríveis, meu relacionamento com meu pai, sua melancolia (devido à maldição), a noite eterna que me cobre, meu desespero, luxúria, e excessos"...etc. Porém não muito depois Kierkegaard ficou sabendo que Regine estava noiva de Johan Frederik Schlegel (1817-1896), que tinha sido instrutor dela. De repente Kierkegaard viu que nada, com respeito à aquele caso, tinha a importância que ele pensava ter. Em 1854, um ano antes da morte de Kierkegaard, o casal mudou-se para as Índias Ocidentais Dinamarquesas onde Schlegel foi governador. O filósofo, quando morreu em 1855, estava já pobre. Mas o que lhe restava deixou para Regina.

Em Berlim Kierkegaard assistiu as aulas de Friedrich Wilhelm Joseph Schelling (1775-1854). Ele maravilhou-se com os brilhantes ataques de Schelling ao hegelianismo então em moda.

Obras.

Em suas obras, Kierkegaard fez uso do pseudônimos para uma finalidade muito especial. Eles representam, não ele próprio, mas personagens com pontos de vista e atitudes próprias. Estabelece uma dialética entre esses personagens, ou seja, entre dois ou mais pseudônimos seus. Deste modo, um livro assinado com um pseudônimo responde a outro livro, assinado com outro pseudônimo. O Pseudônimo Johannes Climacus trata do dilema entre a dúvida e a fé. Vigilius Haufniensis ocupa-se dos aspectos psicológicos do pecado e da ansiedade. Johannes de Silentio e Constantin Constantius ocupam-se da ética, a partir dos aspectos envolvidos no relacionamento de Kierkegaard com Regine Olsen. Anti-Climacus é o cristão ideal, etc. O seu propósito não era o anonimato mas desvincular sua personalidade dos assuntos polêmicos de que tratava.
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MensagemAssunto: Re: SOREN AABYE KIERKEGAARD - Vida, época, filosofia e obras   Sex Abr 09, 2010 11:49 am

Os escritos de Kierkegaard, consignados ao período de sua juventude (1834-1842) e depois impressos, incluem um artigo sobre a emancipação da mulher, outro sobre a liberdade de impressa escrito para a Liga dos Estudantes, e principalmente sua primeira obra publicada: "Dos papeis de alguém ainda vivo".

Além das várias obras, Kierkegaard deixou cartas e documentos, alguns reunidos depois em obras póstumas, e na publicação em vários volumes Søren Kierkegaards Papirer (Papeis de Kierkegaard), primeira parte, os datados de 1834-47, e segunda parte, de 1848-55, restando milhares de notas de interesse religioso, pessoal ou histórico, a serem ainda aproveitadas.

Ultimos anos.

Após a querela com os hegelianos, Kierkegaard torna-se um reformador religioso. Por volta de 1854 Kierkegaard estava convencido de que Deus o autorizava a atacar asperamente a igreja dinamarquesa e seu clero, o que ele começou logo a fazer com uma série de pequenos livros e panfletos e até com um periódico chamado "O Momento", de cujos números ele foi o único colaborador. Em 21 artigos no "A Pátria", em 1854 e 1855 ele faz um duro ataque à igreja oficial, como já referido, por ter erradicado o verdadeiro cristianismo, e por tê-lo substituído por uma religião do Estado. Intolerante com a hipocrisia, critica os que fingiam espiritualidade enquanto agiam segundo interesses mundanos. Considerava tais pessoas um produto da cultura cristã: o indivíduo cauteloso, respeitável, imperturbável, um cavalheiro da classe média. E sentiu-se chamado por Deus para a tarefa especial de mostrar aos seus concidadãos a verdadeira natureza do Cristianismo.

A igreja da Dinamarca era estatal e a religião luterana a religião oficial do Estado. Bastava nascer no país para ser automaticamente cristão. Kierkegard alegava que isto reduzia a nada a possibilidade de uma verdadeira conversão radical a Cristo. O cristianismo deve ter por fundamento a vontade livre, sem a qual tudo perde o sentido.

O pastor local, um verdadeiro funcionário público, representava a Coroa e por isso, além da prática de suas funções especificamente religiosas, também era quem coleta impostos, realizava os recenseamentos, fazia o recrutamento militar, mantinha os registros civis nos livros da igreja, supervisionava as escolas, e cuidava da assistência aos pobres, e era o presidente do Conselho Municipal, além de cuidar de seus próprios interesses, muitas vezes a maior fazenda das vizinhanças. As questões políticas e os rancores misturavam-se facilmente com os assuntos religiosos, gerando escândalos.

Atacou o Bispo Jacob Pier Myster, um prelado culto e secularizado, por juntar o hedonismo de Goete com os sofrimentos de Cristo. Não chegou a criticá-lo abertamente, pois o bispo era seu amigo e havia sido o orientador espiritual de seu pai. Porém, com a morte de Myster em 1854, atacou publicamente o bispo que o sucedeu, Hans Lassen Martensen (1808-84), um hegeliano, pregador na corte, o qual Kierkegaard não respeitava.

Morte.

As tensões daqueles dois anos da sua campanha afetaram sua saúde. Em outubro de 1855 Kierkegaard caiu inconsciente na rua, e ficou com paralisia das pernas. Levado ao Hospital, era visitado ali diariamente pelo amigo Pastor Boesen, tendo proibido a entrada de seu irmão Peter, do qual divergia pelas razões mesmas da sua campanha. Não quis receber a comunhão, para não recebê-la das mãos de um pastor da Igreja Luterana que ele disse devia ser abandonada, uma vez que Deus estava sendo desrespeitado em suas igrejas. Após internado 40 dias, veio a falecer.

Seu enterro foi acompanhado por um multidão engrossada por estudantes que fizeram a guarda de seu corpo. O Pastor Peter, seu irmão, fez a oração fúnebre na "Frue Kirke", a mais importante igreja de Copenhague, e que logo cedo ficou lotada. Muitos protestaram por ter o corpo sido trazido à Igreja, por acharem que a igreja nacional não devia se imiscuir, em respeito à oposição que lhe havia feito o filósofo.
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MensagemAssunto: Re: SOREN AABYE KIERKEGAARD - Vida, época, filosofia e obras   Dom Abr 11, 2010 7:10 pm

III - Filosofia.

Ante hegelianismo.

Segundo Kierkegaard, diante da vida há várias opções possíveis, o que é, portanto, incompatível com a malha lógica em que, segundo Hegel, caem todos os fatos e também as ações humanas. Aquele pensador alemão postulava, muito ao modo aristotélico, que a história do universo obedece a uma lógica absoluta, e o homem não tem liberdade porque ele está já, previamente, preso nessa malha lógica da História. Em outras palavras, Hegel não deixa espaço para a liberdade e a fé, por causa da lógica dialética do absoluto racional, um sistema que rege todas as coisas e de cujo determinismo o homem não pode escapar.

No citado "Post-scriptum", com o pseudônimo de Johannes Climacus (1846), Kierkegaard sustentou que uma sistematização lógica para a existência era impossível, uma vez que a existência é incompleta e está evoluindo constantemente. Isto implicaria um erro, que seria a tentativa de introduzir mobilidade na Lógica.

A verdade.

Se não há lógica na existência, mas a existência é verdadeira, então a verdade também não tem lógica. Esta é a questão que Kierkegard aborda em ""Post-scriptum não científico". Assim, para ele, não encontramos a verdade como uma coisa objetiva e lógica, destacada de nós, mas através de nosso modo único e peculiar de apreender as coisas que é nossa paixão: a verdade é encontrada através da subjetividade. Quanto maior o ardor com que se acredita, mais verdadeiro é o objecto do conhecimento. Isto evidentemente eqüivale a fazer da verdade a expressão da fé. É ao colocar maior ou menor fé em algo, que construímos nossa verdade.

A verdade, para Kierkegaard, não é uma "coisa", mas uma afirmação em relação ao mundo, uma posição de vida. Quando ele diz "a verdade é subjetividade", isto é somente enquanto o sujeito traz tanta paixão junto com seu pensamento que a síntese será um fato verdadeiro. O que é subjetivo é verdade, enquanto a coisa objetiva, ao contrário, é incerta. Porém, aquilo que é incerteza, objetiva sustentada com o mais apaixonado empenho, torna-se verdade, a mais alta verdade existente para alguém". Então, o que é esta paixão que move o indivíduo?

Paixão.

Em ""Post-scriptum não científico" o filósofo diz que a paixão é uma qualidade de lutar para chegar a ser, é o processo de vir a ser. A paixão é o motivo afirmativo do desenvolvimento, a vontade de se submeter e portanto de sofrer as mudanças do vir a ser. Essas mudanças são um sofrimento, são temporárias, e o ideal buscado é imaginado como perfeito e completo. Mas a pessoa ao buscar realizar os ideais apaixonadamente sustentados encontra ainda mais acentuada a condição limitada e finita da existência humana.
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MensagemAssunto: Re: SOREN AABYE KIERKEGAARD - Vida, época, filosofia e obras   Seg Abr 12, 2010 1:07 pm

Fé e Paradoxos.

Uma vez que as verdades essenciais estão fora do nosso alcance na medida que não podemos delas nos aproximar objetivamente, elas aparecem para nós sob a forma de paradoxos. O paradoxo é uma tensão entre afirmações, entre pelo menos dois focos. Por exemplo, em termos de paradoxo religioso, podemos citar a doutrina cristã de ser Jesus inteiramente divino e inteiramente humano. Ninguém pode entender como tal coisa seja possível. No entanto, não há aí contradição evidente, de modo que essa afirmação pudesse ser logicamente falsa. Uma contradição lógica coloca duas premissas opostas mutuamente excludentes, tal como "Pedro é um homem e não é um homem", na qual a palavra "homem" tem o mesmo significado nos dois lados do enunciado.

Qualquer tentativa de solucionar o paradoxo será uma tentativa, ou de objetivar o que não pode ser conhecido objetivamente, - porque estamos no processo de "vir a ser" -, ou de dispensar o papel da fé como tolice o que, novamente, implica que acreditamos poder conhecer alguma coisa de modo absoluto, como se tratássemos de fora do sistema ( ou do universo) - como se de uma posição objetiva.

Fenomenologia.

Não podemos conhecer de modo absoluto, pois Kierkegaard enfatiza, como vimos, a verdade subjetiva sobre a verdade objetiva, isto é, o que existe é, segundo ele, "a verdade que é verdadeira para mim". Quando dizemos que nosso pensamento corresponde à coisa que pensamos, estamos no mínimo inconscientes da mediação dos sentidos que é necessária ao conhecimento do objeto, mediação que é incompleta ou de algum modo prejudicada. Em outras palavras, quando identificamos o pensamento com o ser a ele correspondente, estamos nos enganando. Portanto, Kierkegaard conclui que quando alegamos conhecer uma coisa, só podemos dizer isto como um ato de fé. Este é precisamente o fundamento da fenomenologia de Husserl para quem nós só podemos conhecer objetos ideais, não as coisas em si. Então, o sistema lógico de Hegel torna-se impossível.

Existencialismo.

Ao pensador objetivo, Kierkegaard opõe o indivíduo único, subjetivo. A verdade repousa na subjetividade, e, assim como a verdade, a verdadeira existência é alcançada por meio da intensidade dos sentimentos. Sem paixão não há movimento para o pensador. Existir, em contraste com simplesmente ser, envolve um relacionamento infinito consigo mesmo e uma ligação apaixonada com a vida. Nós não encontramos a verdade por via de uma "objetividade" destacada mas através de um profundo engajamento com o mundo. Assim, por simplesmente aprender as coisas "objetivamente", nos esquecemos o que é existir. O indivíduo realmente existente (a) está em uma relação infinita consigo mesmo e tem um interesse infinito em si e no seu destino; (b) Sempre sente a si mesmo em um "vir a ser", com uma tarefa diante de si; e (3) Está apaixonado, inspirado com um pensamento apaixonado. Ele chama a isto "paixão de liberdade". Com este pensamento Kierkegaard abre as portas do Existencialismo.
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MensagemAssunto: Re: SOREN AABYE KIERKEGAARD - Vida, época, filosofia e obras   Ter Abr 13, 2010 1:03 pm

Liberdade.

Soren Aabye Kierkegaard é considerado o pai do existencialismo. Ele lançou as bases do movimento existencialista, embora o termo "existencialismo" não estivesse então em uso. Em "O Conceito de Angústia" (1844). Fala do pecado enquanto supõe o livre-arbítrio (a angústia de que trata é a da livre escolha entre as possibilidades, que se tornou a idéia básica do futuro movimento.

Se a verdade é subjetiva, decorre daí uma liberdade ilimitada. Kierkegaard não só rejeitou o determinismo lógico de Hegel (tudo está logicamente predeterminado para acontecer) como também sustentou a importância suprema do indivíduo e das suas escolhas lógicas ou ilógicas. Qualquer forma de absoluto (E aí está um ataque a Hegel) que não seja a liberdade, será necessariamente restritiva da liberdade. Qualquer forma de absoluto que não seja a liberdade, contraria a liberdade. Para Kierkegaard é mesmo impossível que liberdade possa ser provada filosoficamente, porque qualquer prova implicaria uma necessidade lógica, o que é o oposto de liberdade.

O pensamento fundamental de Kierkegaard, e que veio a se constituir em linha mestra do Existencialismo, é a falta de um projeto básico para a existência do homem, venha de onde vier. Qualquer projeto para o homem representaria uma limitação à sua liberdade, e que esta liberdade é, portanto, incompatível com a malha lógica em que, segundo Hegel, caem todos os fatos e também as ações humanas, e mais ainda que a liberdade gera no homem profunda insegurança, medo e angústia. Não existe uma essência definidora do homem. Nenhum projeto básico. Esse pensamento de Kierkegaard foi mais tarde traduzido por Sartre na frase "no homem, a existência precede a essência".

Sua crença na necessidade de que cada indivíduo faça uma escolha consciente e responsável tornou-se outro pilar do movimento existencialista.

O individualismo existencialista é sua ênfase principal. Com efeito, dos temas do existencialismo contemporâneo, a maior parte já está nos escritos de Kierkegaard.

Angústia.

Kierkegaard sentiu a necessidade de ampliar para a esfera da psicologia suas idéias a respeito da filosofia da liberdade. O resultado foi o conceito de angústia e o conceito de desespero, se podemos realmente diferenciá-los em sua obra, pois aparentemente, nas traduções inglesas, acham-se baralhados.
Em "O conceito de angústia", disse que a liberdade gera no homem profunda insegurança, medo e angústia. Ele focaliza a angústia, como medo do indefinido do desconhecido, diferente do medo e do terror diante do perigo conhecido. o medo e terror que deriva de uma ameaça objetiva (por exemplo, um animal, um assaltante, etc.). Esta é talvez a primeira obra escrita de psicologia existencial. - um sentimento que não tem objeto definido, claro.

A liberdade presume possibilidades, e as possibilidades criam a angústia, seja porque estão escassas, ou, no outro extremo, porque existe um número muito grande de opções. Um colapso pode ocorrer tanto por muitas quanto por poucas possibilidades abertas ao indivíduo. Por isso torna-se um verdadeiro problema de vida descobrir quais são os verdadeiros dons e talentos de uma pessoa.
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MensagemAssunto: Re: SOREN AABYE KIERKEGAARD - Vida, época, filosofia e obras   Qua Abr 14, 2010 12:07 pm

Em "Risco e incerteza" diz que cada decisão é um risco. A pessoa sente a si mesma rodeada e plena de incertezas. No entanto, ela decide. Existem possibilidades reais, e qualquer filosofia que as negue é opressiva, sufocante.

A angustia e o pavor diante da liberdade em relação às possibilidades, o que ele considera uma doença do espírito, têm três origens:

Uma é a materialidade, a inconsciência de que se é tanto um ser espiritual quanto físico.

Falta de espiritualidade: Estar inconsciente de que se tem um Eu - de que se é um ser espiritual e não meramente um ser físico ou físico-mental. Falhar em compreender que se é capaz de reflexão, que se é uma síntese.

Outra origem é quando o homem tem consciência do seu eu, mas não o aceita, e desespera-se por ser esse Eu, por ser de um certo modo, sem conseguir modificar-se. Gostaria de ser César, por exemplo. consciência do Eu interior.

O Eu quer escapar do Eu que ele sabe que é. Parece que o indivíduo se desespera com respeito a alguma coisa. Mas e apenas aparência. Na verdade desespera com respeito a si mesmo e por isso quer livrar de si próprio. Quanto tem um slogam ambicioso "Ou César ou nada" e não consegue chegar a ser César, ele desespera-se por isso.

Mas isto também significa outra coisa: precisamente porque ele não conseguiu ser César, ele agora não consegue tolerar a si mesmo, ser ele mesmo. Consequentemente ele não se desespera porque não chegou a ser César mas desespera sobre si mesmo pelo fato de que não conseguiu ser César. Consequentemente, desesperar-se sobre alguma coisa não é propriamente o desespero. desespera sobre si mesmo porque não chegou a ser César.

Desesperar alguém sobre si mesmo em desespero de desejar livrar-se alguém de si mesmo - esta é a formula de todo desespero.

A terceira origem é desespero do desafio, da provocação, da rebeldia, da oposição: consciente do eu interior e desejando afirmar esse Eu. O homem se desespera pelas suas limitações. Não reconhece a relatividade e a dependência última do Eu humano perante Deus.

Encapsulamento ou má fé.

Passar da ignorância confortável para a autoconsciência leva ao pavor, ou ansiedade. Perguntando que estilo e estratégia uma pessoa usa para evitar a ansiedade, Kirkegaard pergunta como essa pessoa está escravizada por suas mentiras sobre ela mesma e para ela mesma. Uma forma de fuga é ignorar o próprio eu, tornar-se um autômato, apegar-se a um papel.

O caráter é uma estrutura construída para evitar a percepção do terror, perdição, e aniquilação que todos nós enfrentamos.

Em "A doença para a morte", Kierkegaard nos lembra que nossa maior dificuldade não é porque temos um Eu e não ficamos leais a ele, mas que freqüentemente nós nem ao menos achamos em nos mesmos um Eu autêntico que mereça tal lealdade. Podemos perder o Eu e voltá-lo para atividades exteriores como uma camuflagem de seu vazio interior.
Freud, um grande leitor de Nietzsche, que por sua vez apoiou-se em Kirkegaard, com certeza tirou desse pensamento de Kierkegaar o que veio a rotular de "mecanismo de defesa" e "repressão".

O homem automaticamente "cultural" confinado pela cultura e é escravo dela, seduzido na trivialidade pela rotina confortável da vida social e das alternativas limitadas e seguridade opaca que ela oferece a ele. Tal pessoa ele chama filisteu.

O filisteu teme a verdadeira liberdade, porque ela coloca em perigo a estrutura de negação que cerca sua rotina cultural, abrindo as possibilidades das quais ele quer distância.

É o que freqüentemente caracteriza o filisteu burguês - membro da confortável classe média urbana, mais provavelmente do mundo dos negócios. Filisteus burgueses operam dentro de fronteiras de esperteza com a qual eles tentam acomodar "o possível". Cálculo, auto-proteção, onde métodos do tipo comercial são presumivelmente transferidos para a vida do espírito, com resultados fatais previsíveis. A pessoa materialista ignora que tem um Eu eterno.
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MensagemAssunto: Re: SOREN AABYE KIERKEGAARD - Vida, época, filosofia e obras   Sex Abr 16, 2010 6:32 pm

Criança.

Tem raízes também no pensamento de Kierkegaard o postulado da psicanálise existencial de que as mentiras do caráter são construídas para a criança ajustar-se a seus pais, ao mundo, além de aos próprios dilemas existenciais. Essas defesas do caráter tornam-se automáticas e inconscientes. Essas mentiras negam nossas possibilidades. Conduzem as pessoas a ter medo de pensar por si mesmas. Deixar a criança explorar o mundo e desenvolver seus próprios poderes da a elas uma "sustentação interna", uma autoconfiança diante da experiência.

Saúde.

Saúde não é "ajustamento normal" ou "normalidade cultural". A pessoa realmente saudável é aquela que transcendeu a si mesma despindo-se das mentiras do nosso caráter, entendendo a verdade de nossa situação e quebrando nosso espírito fora de sua prisão condicionada. O amadurecimento requer ambos o reconhecimento da realidade de alguém seus verdadeiros dons e talentos e dos seus limites.

Angústia e pecado.

O homem pode escapar da angústia pela fé. Kierkegaard insiste que o homem está em pecado e não pode compreender o bem porque não quer compreender e precisa da revelação de Deus para mostrar que ele se acha em pecado. A ansiedade não é em si mesma um pecado, diz ele, pois é a reação natural da alma quando em face ao escancarado abismo da liberdade.

Em "A doença para a morte" diz que, experimentando o pavor, alguém salta para o pecado mas, se o desafio do cristianismo é aceito, passa da culpa à fé. Assim o pavor é o prelúdio do pecado e não sua conseqüência, como poderia a princípio parecer.

O homem pode escolher o pecado em sua fuga da angústia, e o pecado a certa altura, traz mais angústia. O próprio pecado traz ansiedade, um componente da ansiedade de liberdade.

Sem a fé, a angústia leva ao desespero. O pavor é a ansiedade em face do eterno. Esta ansiedade pode levar o pecador de volta a Deus que o criou e lhe deu a liberdade, e assim a ansiedade pode ser salvadora pela fé. A angústia foi, então, o caminho para a fé.

Ética.

Individualismo moral.

Kierkegaard aborda uma questão ética polêmica, ao indagar se um julgamento moral pode ser suspenso em virtude de um poder maior. Ele exemplifica com o episódio em que Abraão recebe de Deus a ordem de matar Isaac. Assim ele vê o sacrifício de Abraão e Isaac: obediência a um dever, no caso a obediência a uma ordem de Deus que é a essência de tudo que é ético, mas que exigia dele um ato não ético. Kierkegaard buscava justificar-se por haver rompido seu noivado, o que ele considerava um ato não ético, porém o fez por um motivo que considerava eticamente superior, sua dedicação a Deus. Dos três modos de vida que ele considerava possíveis, o modo de vida estético, o modo de vida ético e o o modo de vida religioso, este último era superior aos demais.

Modos.

No caminho da vida há várias direções, embora se coloquem em três categorias de escolha. Assim é que distingue três escolhas fundamentais do homem, três tipos de vida a escolher: a estética, ética e religiosa que não são três concepções teóricas do mundo, mas sim, três maneiras de viver. Inicialmente Kierkegaard apresenta apenas dois modos de vida, ou estágios, se tomados como etapas transientes.

Modo de vida estético.

O esteticista vive no instante e não conhece outro fim da vida senão gozar o instante que passa. Infiel, quer sempre provar novidades, foge permanentemente ao tédio, recusa engajar-se, são os Don Juans ou o intelectual cético e diletante.

Modo ético.

No modo de vida ético o homem encarna as regras universais do dever. Trabalhador consciencioso, marido e pai devotado, leva tudo a sério, pouco flexível, prisioneiro de idéias acabadas, e se crê cidadão exemplar.

Modo religioso.

No modo de vida religioso o homem não está submetido a regras gerais mas é um indivíduo diante de Deus. Sua relação com Deus não se traduz em conceitos e regras gerais, mas em inspiração fora do universo da razão. Abraão está pronto para sacrificar seu filho Isaac porque Deus o ordena, mas esta ordem não é justificada por nenhuma finalidade ética.
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