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 GEORG SIMMEL E A FILOSOFIA DO DINHEIRO

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Anarca

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MensagemAssunto: GEORG SIMMEL E A FILOSOFIA DO DINHEIRO   Ter Mar 30, 2010 7:05 pm

Georg Simmel e a filosofia do dinheiro - I

A sociologia alemã, ciência de grande vigor nos finais do século XIX, mobilizou-se naquela época para tentar entender as profundas e aceleradas transformações que se sucediam, a toque de caixa, na sociedade de então. Acontecimentos espetaculares ocorriam um após o outro. Em 1871, o IIº Reich Alemão fora proclamando por Bismarck, unindo finalmente os vários estados germânicos baixo um só império. Em seguida, aproveitando-se de um mercado integrado, brotaram indústrias por todo os lados, enquanto estradas-de-ferro cortavam o Reich de cima a baixo. A nação fervia de entusiasmo crente num futuro magnífico.

Entrementes, gente do campo e das aldeias, abandonando seus lugarejos aos milhares, vinham tentar a vida nas fábricas, atraídos pelos salários e pelas oportunidades de uma vida mais diversificada. A Alemanha, em curtíssimo tempo, deixara de ser um pais feudal e entrava aos trancos e aos espantos no mundo moderno. Daí entender-se a preocupação dos intelectuais em estudar o capitalismo, a bolsa de valores, a tecnologia, o status social, os tipos de lideranças, as finanças, as classes sociais e, como Georg Simmel fez: o dinheiro.

Enfrentando a metrópole

"Simmel investiga, quando em leitura, como um perfeito dentista, com a mais delicada sonda ele penetra na cavidade das coisas.. Com a maior das deliberações ele separa o nervo da raiz, devagar ele o remove..."
(Emil Ludwig)

Até quase o final do século XIX, o povo alemão desconhecia cidades grandes. Berlim, a capital do Reich, a maior da Alemanha, estava bem longe de ser comparada nas suas dimensões à Londres, Nova Iorque ou Paris.
Nada mais natural, por conseguinte, do que a sociologia daqueles tempos, especialmente a de Georg Simmel ( 1858-1918), preocupar-se primordialmente com as reações do indivíduo frente ao mundo urbano. Para ele, tido hoje como o principal sociólogo da avant-garde do principio do século XX, o problema primordial circunscrevia-se na questão de como era possível manter e preservar a autonomia e a existência individual face as impressionantes forças impessoais da época. Os desafios representados pela presença da coerção social, da herança histórica, da cultura externa e da crescente tecnificação da vida, produziam alterações irreversíveis na vida dos indivíduos. De que modo, pois, um interiorano, daqueles milhares que desembarcavam diariamente nas estações das cidades, conseguiria adaptar-se aos grandes conglomerados humanos que surgiam a toda hora sem ver sumir suas características mais pessoais, sua singeleza, sua afabilidade e pureza aldeã? Como evitar que o seu estupor frente ao ineditismo de tudo o que via não o paralisasse, permitindo que ele se sentisse esmagado, impotente, frente aos mecanismos ocultos da tecnologia e da impessoalidade onipresente que agiam sem esmorecimento sobre ele?

Expressionismo e antiurbanismo

O trauma da cidade grande, quase uma urbofobia, por assim dizer, tema que ele tratou no seu Die Großstädte und das Geistesleben (A Metrópole e o Espirito da Vida), de 1903 , também foi recorrente em boa parte da temática do expressionismo alemão, no qual um conjunto notável de artistas, tais como Herwarth Walden, Otto Dix, Ludwig Meidner, Ernst Ludwig e Georg Grosz, expuseram nas suas telas a sensação de solidão, abandono, indiferença, medo e pânico que uma metrópole provocava nos indivíduos. O interessante é que Simmel havia nascido exatamente no coração de Berlim (na Leipzigstrasse com a Friedrichstrasse) e, como cientista social, teve sua atenção despertada exatamente para o que ele passou a ver ao seu redor, o constante afluxo da gente do interior para tentar a vida na capital.

Segundo ele, se o século XVIII fizera o indivíduo libertar-se dos elos que o ligavam ao estado e à igreja, dando-lhe autonomia moral e econômica, o século XIX exigia agora a especialização. Esta, ao tempo em que dotava-o de uma prática e uma função, fazia-o sentir-se ainda mais solitário, sentindo-se como um minúsculo e alienado elo de uma cadeia de produção impressionante e interminável.

Tipos sociais

Aquela posição privilegiada, de poder assistir da janela do lugar em que nascera o desfilar constante de gente vinda de todos os lados, seguramente deve ter contribuído para que ele, mais tarde, em 1885, ao assumir como sociólogo o posto de Privatdozenten do Departamento de Filosofia da Universidade de Berlim, preocupar-se em construir uma galeria de tipos sociais. Desinteressado em criar um sistema psicológico ou sociológico, como tantos outros pensadores alemães fizeram até então, meio que seguindo as pegadas de Nietzsche, a quem tanto admirava, preocupou-se com fenômenos mais prosaicos, tal como “ o estrangeiro”, “ o pobre”, “o aventureiro”, “o mediano”, “o renegado”, e tantos outros mais, concebendo-os, cada um deles, com reações e expectativas próprias mas pertencentes ao todo. Percebeu cada um deles movia-se num circulo muito singular, deduzindo então que o fenômeno social mais evidente provocado pela industrialização e urbanização, foi a ampliação assombrosa dos círculos em que cada um se inseria. O que o atrai era a diversidade social da cidade e não a estandardização.
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MensagemAssunto: Re: GEORG SIMMEL E A FILOSOFIA DO DINHEIRO   Qui Abr 01, 2010 8:56 pm

Georg Simmel e a filosofia do dinheiro - II

Círculos sociais

Nos tempos feudais, na época pré-moderna como ele preferia dizer, a dilatação dos círculos em que um indivíduo vivia era mínima. Os círculos eram conexos, rijos, hierárquicos, não se ampliando além da choupana, da capela e do castelo. E, se o sujeito fosse um mestre de oficio, sua vida confinava-se aos horizontes da corporação a que pertencia, atingindo no máximo a Hansa, um conjunto de cidades comerciais associadas, da qual a sua fazia parte. Na cidade moderna a configuração era outra. O operário podia estar submetido ao olhar do patrão, mas depois que ultrapassava a porta da fábrica, ao contrário do súdito ou do servo feudal, ele cultivava outros círculos (do sindicato, do clube social ou esportivo, etc.), nos quais ele era livre para poder assumir posições de mando que bem compensavam a subordinação que exigiam dele durante o trabalho.

Possibilidades ilimitadas

Portanto, a vida moderna oferecia uma possibilidade quase ilimitada para um indivíduo ser muitas coisas ao mesmo tempo (empregado, sócio, síndico, diretor de uma entidade social, etc..), alargando assim as suas possibilidades de liberdade. Segundo Simmel “o número de diferentes círculos no qual o indivíduo se move, é um dos indicadores do desenvolvimento cultural, pois permite que ele ocupe distintas posições na interseção de vários círculos”. O “envolvimento multifacetado numa variedade de círculos contribui sem dúvida para incrementar a autoconsciência, pois conforme o indivíduo se liberta do círculo que o aprisiona, ele adquire uma consciência cada vez maior da sua liberdade” – ampliando assim o seu senso de singularidade e liberdade. Naturalmente que tudo isso cobrava um preço. A principal característica psicológica do ele definia como de Tipo Metropolitano, submetido à intensificação da estimulação nervosa, era um estado de excitação permanente, no qual somente uma sólida estrutura intelectual poderia proteger sua subjetividade das “ forças abrumadoras da vida metropolitana”. Exatamente o que faltou a Franz Biberkof, o personagem de Alfred Döblin do seu clássico romance expressionista “Berlin, Alexanderplatz”, de 1930, um pobre diabo, um ex-correcional que se vê envolvido em incontáveis peripécias em sua desastrada tentativa de reintegrar-se até que se vê engolfado pela maré nacional-socialista.

A filosofia do dinheiro

Bem ao contrário da tradição intelectual, que sempre uniu tanto teólogos como pensadores socialistas em seu repudio total ao dinheiro, Simmel lançou um outro olhar sobre a importância dele. Pontualmente, no iniciar do século XX , em 1900, tido como o Século do Dinheiro, ele publicou o seu "Philosophie des Geldes", a Filosofia do Dinheiro, ensaio no qual, além de apresentar uma outra visão, não pecaminosa, da função do dinheiro, chamou a atenção para as conseqüências da impessoalidade na sociedade moderna e seus efeitos sobre os indivíduos. O enfoque de Simmel evitou a habitual demonização do dinheiro feita pelos sacerdotes, pelos poetas e intelectuais em geral, como uma cunhagem satânica, fabricada nos porões da maldade, com a tarefa de vir corromper, degradar e aviltar o ser humano. Simmel entendeu a sua difusão e ampla aceitação na moderna sociedade como resultado lógico de uma época onde os laços históricos tradicionais haviam sido rompido ou perdidos. Os que, anteriormente, prendiam o vassalo ao suserano, o servo ao seu senhor, o mestre à guilda, o artesão ao grêmio local, o filho e a mulher ao pai e este, por sua vez, ao avô na família patriarcal, todas as relações estabelecidas pelos vínculos de fidelidade e compromisso que caracterizavam os hábitos e costumes na vida pré-moderna.

Dinheiro e impessoalidade

Para Simmel a monetarização da vida moderna foi a decorrência natural da necessidade da substituição dos vínculos de sangue e de parentesco por algo impessoal, inodoro, prático e universal como o dinheiro. Entre outras razões porque na sociedade moderna declinara a dominação tradicional que fazia com que, como na idade medieval, um senhor dispusesse a seu bel prazer de um outro, seu servo ou criado doméstico. Se bem que a dominação não desaparecesse de todo, ela limitava-se agora à certas funções específicas e por um certo tempo e num lugar particular. Era impossível imaginar-se o funcionamento do capitalismo urbano de hoje estribado em valores, códigos e liturgias associadas aos idos pré-modernos, época em que um fio de barba ou do bigode era a garantia da palavra dada. O dinheiro tornou-se a mais eficaz expressão da impessoalidade, a mais adequada de todas para estabelecer um convívio harmônico e um relacionamento social que envolvia não uma centena ou um milhar de pessoas, mas sim de milhões delas.

O sonante era bem mais do que um padrão de valor ou meio de troca, pois “simboliza e corporifica o espirito da racionalidade, da calculabilidade e da impessoalidade”, servindo, igualmente, como “um medidor das diferenças qualitativas entre as coisas e as pessoas”. É ele, o dinheiro, por fim, quem pavimenta o caminho entre a velha Gemeinschaft , a comunidade, e a Gesellschaft, a sociedade, fazendo com que cálculos abstratos invadam a vida social, libertando os indivíduos das amarras que antes o prendiam ao estado, a igreja, a aldeia, ao grêmio e à família. Simmel, portanto, mostrou-o, o dinheiro, resultante da interação crescente da economia de mercado e não como o “vil metal” tão difamado ao longo da história. Para ele dinheiro era liberdade!

“Meu legado será que nem uma caixa, a qual será distribuída entre muitos herdeiros, cada um deles transformará em algo lucrativo conforme a sua natureza: este lucro, por sua vez, não demorará muito em revelar ser derivado do meu legado”.
(Georg Simmel - 1918)
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