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 WHITMAN & EAKINS - O POETA E O PINTOR

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MensagemAssunto: WHITMAN & EAKINS - O POETA E O PINTOR   Qua Mar 24, 2010 9:16 pm

Somente na velhice, no ano de 1887, é que Walt Whitman, nome maior da poesia norte-americana, conheceu Thomas Eakins, um ativo pintor da escola realista e fotógrafo principiante, que, como o poeta, era admirador de um mundo sem artifícios, sem enfeites, cru e nu como eles entendiam que a arte americana deveria ser. Ambos foram perseguidos por terem celebrado o corpo humano além do que podia admitir numa sociedade marcada pelo puritanismo religiosos e pelos costumes vitorianos daquela época.

Encontro em Camden

Walt Whitman, cinqüentão e com problemas derivados de um ataque de paralisia, fora morar com seu irmão George em Camden, em 1873 , lugar em Nova Jersey, próximo à Filadélfia, onde uns tempos depois, na Mickle Street nº 328, comprou uma casa. Foi nela que Thomas Eakins compareceu pela primeira vez em 1887 para pintar-lhe um retrato. Aquela altura Whitman havia se tornado num patriarca das letras americanas, admirado no mundo da língua inglesa, merecedor de todas as atenções dos artistas (outros retratos de Whitman , além do de Eakins, foram feitos por Herbert Gilchrist e J.W.Alexander, enquanto Sidney Morse fez-lhe um busto). O poeta gostou muito da veracidade da tela de Eakins, pois não o idealizara. Pintou-o tal como o viu – um homem idoso, um velhote faceiro, sem apelar para nenhuma glamourização ou truque de rejuvenescimento. Whitman disse então que ele "nunca tinha conhecido senão um só artista, e este é Thomas Eakins...Eakins não é um pintor, é uma força!" E, no entendimento dele, isso se devia a que o pintor, resistindo a tentação tão comum aos artistas, negava-se terminantemente a realizar qualquer coisa que fosse ilusório, postiço ou descompromissado com o real.

Por uma estética americana

Os dois, o poeta e o pintor, se tornaram amigos. E a razão disso, entre outras afabilidades, era de que afinavam-se no que entendiam deveria ser a arte do seu país. Mesmo tendo Thomas Eakins feito incursões nas exposições européias - numa das viagens que ele fez encantara-se com Diego Velazquez, com Rembrandt e outros holandeses - , acreditava que os artistas americanos tinham que trilhar um caminho próprio, o mais distante possível dos barroquismos e artificialismos dos europeus. Ele e Whitman advogavam por uma arte nova, sem penduricalhos, que de algum modo espelhasse a rudeza do Novo Mundo e sua simplicidade democrática. Algo destituído da pose e das formalidades exageradas, voltado à realidade e não à fantasia, bem longe das maneiras e das convenções do Velho Mundo. A América tinha que ter uma arte só sua, uma estética inclinada ao naturalismo, admiradora do ato singelo sem porém ser vulgar.

O cru e o nu

Walt Whitman, homossexual, desde a publicação de Leaves of Glass, as Folhas da Relva, um notável poema publicado em 1855, sofrera acentuadas críticas por sua indisfarçada apologia ao corpo, ao nu e à relaxação geral. Até o único emprego federal que ele conseguira certa vez obter, quando estivera em Washington durante a guerra civil, ele perdera. O seu chefe, ao saber quem ele era, não hesitou em demiti-lo. Com Thomas Eakins não foi diferente, pois ao insistir em pintar um grupo de homens nus em toda sua carnalidade, especialmente os que aparecem no quadro The Swimmers, os banhistas, ele foi convidado a desligar-se da escola de artes da Pensilvânia onde era diretor. Havia pois entre os amigos artistas esse outro fator convergente: eles celebravam a exuberância do corpo como a expressão mais sincera da ideologia da espontaneidade e singeleza que eles consideravam a mais adequada à América. Se para Whitman “The United States themselves are essentially the greatest poem” (in Preface to Leaves of Grass), os Estados Unidos em si mesmo eram um grande poema, para Eakins ele representava a natureza em estado primário não podendo sua arte trair o compromisso com o realismo. O resultado disso, dessa aspiração, encontra-se na tela de Eakins já mencionada, cuja cena – um bando de homens nus tomando banho num lago - , uma celebração da alegria da nudeza ao ar livre, foi diretamente inspirada na estrofe n.º 11 do “Song of Myself”, a “Canção de mim mesmo” , intitulada Twenty-eight young men bathe by the shore, “vinte e oito jovens banhando-se na praia”. Desse encontro entre Whitman e Eakins, ocorrido nos finais do século XIX, é que pode-se determinar o surgimento de uma série de movimentos de emancipação dos costumes que chegarão até à liberação sexual dos dias presentes - na América e em boa parte do mundo (a tela de Van Gogh “Noite estrelada”, seguramente também foi inspirada na “Song of Myself” de Whitman).

O poema de Whitman

Twenty-eight young men bathe by the shore,
Twenty-eight young men and all so friendly;
Twenty-eight years of womanly life and all so lonesome .
She owns the fine house by the rise of the bank,
She hides handsome and richly drest aft the blinds of the window.
Which of the young men does she like the best?
Ah the homeliest of them is beautiful to her.
Where are you off to, lady? for I see you,
You splash in the water there, yet stay stock still in your room.
Dancing and laughing along the beach came the twenty-ninth bather,
The rest did not see her, but she saw them and loved them.
The beards of the young men glisten'd with wet, it ran from their long hair,
Little streams pass'd all over their bodies.
An unseen hand also pass'd over their bodies,
It descended trembling from their temples and ribs.
The young men float on their backs, their white bellies bulge to the sun, they do not ask who seizes fast to them,
They do not know who puffs and declines with pendant and bending arch,
They do not think whom they souse with spray.

Fonte : Walt Whitman – Song of Miself
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