A LIBERDADE É AMORAL

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 BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA

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MensagemAssunto: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Qui Mar 04, 2010 9:38 pm

Eugen Berthold Friedrich Brecht é um dos autores alemães mais importantes do século XX, especialmente nas suas facetas de dramaturgo e de poeta. De formação marxista, Bertolt Brecht (seu nome artístico) dava grande importância à dimensão pedagógica das suas obras de teatro: contrário à passividade do espectador, sua intenção era formar e estimular o pensamento crítico do público. Para isso, servia-se de efeitos de distanciamento, como máscaras, entreatos musicais ou painéis nos quais se comentava a ação. Brecht expôs em escritos de caráter teórico e encenações modelares essa nova forma de entender o teatro.

O reconhecimento de sua genialidade chegou muito depressa: em 1922, foi concedido ao jovem Brecht o prêmio Kleist por Tambores da Noite. No entanto, no princípio dedicou-se à assessoria artística, trabalhando, por exemplo, para o Teatro Alemão de Berlim, de Max Reinhard, entre 1924 e 1926. Brecht consolidou-se como escritor independente logo após os musicais Ópera dos Três Vinténs (1928) – que bem mais tarde inspiraria a Ópera do Malandro, do brasileiro Chico Buarque de Holanda – e Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny (1930), escritos em colaboração com o compositor Kurt Weil. A crítica social contida nessas obras e seu humor cínico causaram escândalo na República de Weimar alemã.
A ascensão ao poder dos nazistas marcou o início de uma longa odisséia para Brecht, que, no final, o conduziu à Califórnia, onde permaneceu até o final da guerra e onde escreveu muitas das suas famosas obras teatrais: Galileu Galilei (1938), que aborda a responsabilidade da ciência, dando três pontos de vista distintos nas suas três versões; a peça antibelicista Mãe Coragem (1939); A Boa Pessoa de Setzuan (1941). Em colaboração com Lion Feuchtwanger, em As Visões de Simone Machard, transportou para a época da Segunda Guerra Mundial o mito de Joana d´Arc, personagem que já tinha abordado em 1930 em Santa Joana dos Matadouros, que só estreou em 1959. A obra contra Hitler, A Ascensão Irresistível de Arturo Ui, escrita no exílio na Finlândia, em 1941, só estreou depois da morte de Brecht. Após o regresso à Alemanha Oriental, fundou - e, a partir de 1949, dirigiu, conjuntamente com sua mulher - o Berliner Ensemble, onde se encenavam principalmente suas obras. Tal como as peças de teatro, a obra lírica de Brecht, publicada em quatro coleções, contém uma importante carga de crítica política e de ironia, embora também tenha composto poemas de amor muito pessoais. São especialmente conhecidas as Histórias do Sr. Keuner, coleção de breves episódios, que escreveu desde 1930 até a sua morte e foi publicada em 1958.
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Anarca

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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Qui Mar 04, 2010 9:39 pm

Elogio da Dialéctica

A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.
Os dominadores estabelecem-se por dez mil anos.
Só a força os garante.
Tudo ficará como está.
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.
No mercado da exploração diz-se em voz alta:
Agora acaba de começar:
E entre os oprimidos muitos dizem:
Não se realizará jamais o que queremos!
O que ainda vive não diga: jamais!
O seguro não é seguro. Como está não ficará.
Quando os dominadores falarem
falarão também os dominados.
Quem se atreve a dizer: jamais?
De quem depende a continuação desse domínio?
De quem depende a sua destruição?
Igualmente de nós.
Os caídos que se levantem!
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.
E o "hoje" nascerá do "jamais".

(Bertolt Brecht)
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Sex Mar 05, 2010 9:44 pm

A Verdade Unifica

Amigos, gostaria que soubésseis a Verdade e a dissésseis!
Não como cansados Césares fugitivos: Amanhã vem farinha!
Mas como Lenine: Amanhã à noitinha
Estamos perdidos, se não...
Ou como se diz na cantiguinha:

Irmãos, com esta questão
Quero logo começar:
Da nossa difícil situação
Não há que escapar.

Amigos, uma forte confissão
E um forte SE NÃO!

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Sab Mar 06, 2010 11:09 pm

Citações de Bertolt Brecht:

Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem
Tema: Ordem

Não conseguireis desgostar-me da guerra. Diz-se que ela destrói os fracos, mas a paz faz o mesmo
Tema: Guerra

Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito
Fonte: "A Ópera dos Três Vinténs"
Tema: Amor

Primeiro vem o estômago, depois a moral
Fonte: "A Ópera dos Três Vinténs"
Tema: Moral

Perante um obstáculo, a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva
Fonte: "Vida de Galileu"
Tema: Dificuldade

De todas as coisas seguras, / a mais segura é a dúvida
Fonte: "Um Homem é um Homem"
Tema: Dúvida

Pão e um gole de leite são vitórias! / Um quarto quente: uma batalha vencida! / Para te fazer crescer / Devo combater dia e noite
Tema: Mãe

Apenas a violência pode servir onde reina a violência, e / apenas os homens podem servir onde existem homens
Fonte: "Santa Joana dos Matadouros"
Tema: Violência

A confiança pode exaurir-se caso seja muito exigida
Fonte: "Vida de Galileu"
Tema: Confiança

Para quem tem uma boa posição social, / falar de comida é coisa baixa. / É compreensível: eles já comeram
Fonte: "Breviário Alemão"
Tema: Comida
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Ter Mar 09, 2010 12:16 am

O «Ensina-me»

Quando era novo, mandei fazer numa tábua
A canivete e nanquim a figura dum velho
A coçar-se no peito por causa da sarna
Mas de olhar implorativo porque esperava que o ensinassem.
Uma segunda tábua pra o outro canto do quarto,
Que devia representar um moço a ensiná-lo,
Nunca mais foi feita.

Quando era novo tinha a esperança
De encontrar um velho que se deixasse ensinar.
Quando for velho, espero
Que se encontre um moço e eu
Me deixe ensinar.

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Ter Mar 09, 2010 10:04 pm

Louvor do Esquecimento

Bom é o esquecimento.
Senão como é que
O filho deixaria a mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros e
O retém para os experimentar.

Ou como havia o discípulo de abandonar o mestre
Que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O discípulo tem de se pôr a caminho.

Na velha casa
Entram os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá estivessem
A casa seria pequena de mais.

O fogão aquece. O oleiro que o fez
Já ninguém o conhece. O lavrador
Não reconhece a broa de pão.

Como se levantaria, sem o esquecimento
Da noite que apaga os rastos, o homem de manhã?
Como é que o que foi espancado seis vezes
Se ergueria do chão à sétima
Pra lavrar o pedregal, pra voar
Ao céu perigoso?

A fraqueza da memória dá
Fortaleza aos homens.

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Qui Mar 11, 2010 12:11 am

Citações de Bertolt Brecht:

Temam menos a morte e mais a vida insuficiente
Tema: Morte

A vida é curta e o dinheiro também
Tema: Dinheiro

O que não sabe é um ignorante, mas o que sabe e não diz nada é um criminoso
Tema: Saber

Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la
Tema: Revolução

O amor é a arte de criar algo com a ajuda da capacidade do outro
Tema: Amor

Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis
Tema: Heroísmo

A verdade consegue impor-se apenas na medida em que nós a impomos; a vitória da razão só pode ser a vitória daqueles que a possuem
Tema: Verdade

Quem não conhece a verdade não passa de um tolo; mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso!
Tema: Verdade

Todos correm atrás da felicidade, mas a felicidade está a correr atrás de todos
Tema: Felicidade

Não há problema em hesitar se depois prosseguir
Tema: Hesitação
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Qui Mar 11, 2010 4:24 pm

De que Serve a Bondade

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Sex Mar 12, 2010 11:05 pm

Louvor do Revolucionário

Quando a opressão aumenta
Muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.
Ele organiza a luta
Pelo tostão do salário, pela água do chá
E pelo poder no Estado.
Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?

Onde quer que todos calem
Ali falará ele
E onde reina a opressão e se fala do Destino
Ele nomeará os nomes.

Onde se senta à mesa
Senta-se a insatisfação à mesa
A comida estraga-se
E reconhece-se que o quarto é acanhado.

Pra onde quer que o expulsem, para lá
Vai a revolta, e donde é escorraçado
Fica ainda lá o desassossego.

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Sab Mar 13, 2010 8:13 pm

Citações de Bertolt Brecht:

Muitos juízes são absolutamente incorruptíveis; ninguém consegue induzi-los a fazer justiça
Tema: Juiz

A guerra encontra sempre um caminho
Tema: Guerra

Que é roubar um banco em comparação com fundar um banco?
Tema: Negócios

As mães dos soldados mortos são juízes da guerra
Tema: Guerra

Quando a verdade for demasiado débil para se defender, terá de passar ao ataque
Tema: Verdade

As convicções são esperanças
Tema: Convicção

Não se tira nada de nada, o novo vem do antigo, mas nem por isso é menos novo
Tema: Novidade

Um homem deve ter pelo menos dois vícios. Um só é demasiado
Tema: Vício

Porque não me fio nele, somos amigos
Tema: Amigo

Terrível é a tentação de querer ser Deus
Tema: Deus

A ambição da ciência não é abrir a porta do saber infinito, mas pôr um limite ao erro infinito
Tema: Ciência

Pergunte sempre a cada ideia: a quem serves?
Tema: Proveito
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Dom Mar 14, 2010 8:57 pm

O Camponês Trata das Leiras

O camponês trata das leiras
Mantém em forma as vacas, paga impostos
Faz filhos pra poupar criados e
Está dependente do preço do leite.
Os da cidade falam do amor ao torrão
Da sadia cepa campesina e
Que o camponês é o fundamento da Nação.

Os da cidade falam do amor ao torrão
Da sadia cepa campesina e
Que o camponês é o fundamento da Nação.
O camponês trata das leiras
Mantém em forma as vacas, paga impostos
Faz filhos pra poupar criados e
Está dependente do preço do leite.

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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Qua Mar 17, 2010 1:03 am

Louvor do Aprender

Aprende o mais simples! Pra aqueles
Cujo tempo chegou
Nunca é tarde de mais!
Aprende o abc, não chega, mas
Aprende-o! E não te enfades!
Começa! Tens de saber tudo!
Tens de tomar a chefia!

Aprende, homem do asilo!
Aprende, homem na prisão!
Aprende, mulher na cozinha!
Aprende, sexagenária!
Tens de tomar a chefia!

Frequenta a escola, homem sem casa!
Arranja saber, homem com frio!
Faminto, pega no livro: é uma arma.
Tens de tomar a chefia.

Não te acanhes de perguntar, companheiro!
Não deixes que te metam patranhas na cabeça:
Vê c'os teus próprios olhos!
O que tu mesmo não sabes
Não o sabes.
Verifica a conta:
És tu que a pagas.
Põe o dedo em cada parcela,
Pergunta: Como aparece isto aqui?
Tens de tomar a chefia.

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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Dom Mar 21, 2010 12:30 am

Sobra a Construção de Obras Duradouras

Quanto tempo
Duram as obras? Tanto
Quanto o preciso pra ficarem prontas.
Pois enquanto dão que fazer
Não ruem.

Convidando ao esforço
Compensando a participação
A sua essência é duradoura enquanto
Convidam e compensam.

As úteis
Pedem homens
As artísticas
Têm lugar pra a arte
As sábias
Pedem sabedoria
As destinadas à perfeição
Mostram lacunas
As que duram muito
Estão sempre pra cair
As planeadas verdadeiramente em grande
Estão por acabar.

Incompletas ainda
Como o muro à espera da hera
(Esse esteve um dia inacabado
Há muito tempo, antes de vir a hera, nu!)
Insustentável ainda
Como a máquina que se usa
Embora já não chegue
Mas promete outra melhor.
Assim terá de construir-se
A obra pra durar como
A máquina cheia de defeitos.

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Seg Mar 22, 2010 2:07 pm

"O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."

(Bertolt Brecht)
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Qua Mar 24, 2010 9:09 pm

O Horror de ser Pobre

Risco c'um traço
(Um traço fino, sem azedume)
Todos os que conheço, eu mesmo incluído.
Para todos estes não me verão
Nunca mais
Olhar com azedume.

O horror de ser pobre!
Muitos gabavam-se que aguentariam, mas era ver-
-lhes as caras alguns anos depois!
Cheiros de latrina e papéis de parede podres
Atiravam abaixo homens de peitaça larga como toiros.
As couves aguadas
Destroem planos que fazem forte um povo.
Sem água de banho, solidão e tabaco
Nada há que exigir.
O desprezo do público
Arruina o espinhaço.
O pobre
Nunca está sozinho. Estão todos sempre
A espreitar-lhe pra o quarto. Abrem-lhe buracos
No prato da comida. Não sabe pra onde há-de ir.
O céu é o seu tecto, e chove-lhe lá pra dentro.
A Terra enxota-o. O vento
Não o conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia
Deixa-o nu. Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém.
Mas nada ajuda
Quem dinheiro não tem.

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Sab Mar 27, 2010 11:42 am

Contra a Sedução

Não vos deixeis seduzir!
Regresso não pode haver.
O dia já fecha as portas,
Já sentis o frio da noite:
Não haverá amanhã.

Não vos deixeis enganar,
E que a vida pouco vale!
Sorvei-a a goles profundos!
Pois não vos pode bastar
Que tenhais de a abandonar!

Não vos contenteis de esp'ranças,
Que o tempo não é demais!
Aos mortos a podridão!
O maior que há é a vida:
E ela já não está pronta.

Não vos deixeis seduzir
Ao moirejo e à miséria!
Que pode fazer-vos o medo?
Morreis como os bichos todos,
E depois não há mais nada.

Bertold Brecht, in 'Canções e Baladas'
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Seg Mar 29, 2010 10:53 pm

Canção da Inocência Perdida

O que a minha mãe dizia
Não pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
Se isto não vale pra a roupa
Também não vale pra mim.
Que o rio lhe passe por cima
Breve fica branca, assim.

Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas só ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
A roupa já estava parda,
No rio a fui mergulhar.
No cesto está virginal
C'mo sem ninguém lhe tocar.

Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus, como uma
Babilónia de pecado.
A roupa branca no rio
Enxaguada à roda, à roda,
Sente que as ondas a beijam:
«Volta-me a brancura toda».

Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.
Assim acontece à roupa
E a mim acontecerá.
A água corre depressa,
Sujidade diz: Vem cá!

Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.
Chamaram-me nomes feios,
Coisa feia agora sou.
Com poupanças e jejuns
Nenhuma mulher se acalma.
Roupa guardada na arca,
Na arca se não faz alva.

E veio depois um outro
No ano que se seguiu.
Vi que me fazia outra
Com o tempo que fugiu.
Mete-a na água e sacode-a!
Há sol, cloreto e vento!
Usa-a, dá-a de presente:
Fica fresquinha a contento.

Bem sei: Muito pode vir
'Té que nada por fim. fica.
Só quando ninguém a usa
A roupa se sacrifica.
E uma vez que apodreça
Nenhum rio a embranquece.
Leva-a consigo em farrapos.
Um dia assim te acontece.

Bertold Brecht, in 'Canções e Baladas'
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Ter Mar 30, 2010 6:54 pm

Prazeres

O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados
Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialéctica
Tomar duche, nadar
Velha música
Sapatos cómodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser amável.

Bertold Brecht, in 'Do Pobre B.B.'
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MensagemAssunto: Re: BERTOLT BRECHT - O POETA MARXISTA   Qui Abr 01, 2010 8:50 pm

Nunca te Amei Tanto

Nunca te amei tanto, ma soeur,
Como quando de ti parti naquele pôr-de-sol.
O bosque engoliu-me, o bosque azul, ma soeur,
Sobre que já pousavam as estrelas pálidas a oeste.

Não me ri nem um pouco, nada, ma soeur,
Eu que a brincar ia ao encontro dum destino escuro —
Enquanto os rostos já atrás de mim
Devagar empalideciam no anoitecer do bosque azul.
Tudo era belo naquele anoitecer único, ma soeur,
Nunca mais depois e nunca antes assim —
Verdade é: só me ficaram as grandes aves
Que ao anoitecer têm fome no céu escuro.

Bertold Brecht, in 'Do Pobre B.B.'
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