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 JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras

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MensagemAssunto: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Ter Dez 15, 2009 10:27 pm

John Locke está entre os filósofos empiristas, assim chamados devido a abrirem espaço para a ciência junto à filosofia, valorizando a experiência como fonte de conhecimento. John Locke destaca-se pela sua teoria das idéias e pelo seu postulado da legitimidade da propriedade inserido na sua teoria social e política. Para ele, o direito de propriedade é a base da liberdade humana "porque todo homem tem uma propriedade que é sua própria pessoa". O governo existe para proteger esse direito.

Locke estava interessado nos tópicos tradicionais da filosofia: o Eu, o Mundo, Deus e as bases do conhecimento. É contemporâneo de Thomas Hobbes, mas, ao contrário deste, é liberal e tem convicções parlamentaristas. Foi enorme a influência da obra de Locke. Suas teses estão na base das democracias liberais. No século XVIII, os iluministas franceses foram buscar em suas obras as principais idéias responsáveis pela Revolução Francesa. Montesquieu (1689-1775) inspirou-se em Locke para formular a teoria da separação dos três poderes. A mesma influencia encontra-se nos pensadores americanos que colaboraram para a declaração da independência americana em 1776.

Primeiros anos.

John Locke nasceu na pequena cidade de Wrington, em Somerset, na região sudoeste da Inglaterra, a 29 de agosto de 1632, vindo a falecer em 1704. Foi criado em Pensford, nas proximidades de Bristol. Sua família era da linha puritana da religião anglicana. Seus pais, de origem modesta, foram John Locke, um pequeno proprietário e advogado que trabalhava como procurador e como funcionário do Juizado de Paz, e Agnes Locke, filha de um curtidor. Viviam em um chalé coberto de colmo num conjunto de moradias de famílias do mesmo nível da sua. Dos filhos do casal, John Locke era o mais velho de três, um morto na infância e outro, Thomas, cinco anos mais novo que o filósofo. Seu pai deu-lhe educação severa e correta, que Locke, adulto, reconheceu, votando-lhe respeito e afeição. Quanto à sua mãe, sabe-se apenas que era dez anos mais velha que o marido e provavelmente uma mulher bonita, a julgar por referências familiares escritas.

O período da infância e adolescência de Locke corresponde à fase ascendente da nova filosofia que irá culminar no Ilusionismo. As descobertas de Galileu se tornam conhecidas, Campanella publica trabalhos em Paris e aparecem as primeiras publicações de Hobbes e de Descartes. É também o período da guerra civil na Inglaterra (1642-1646): quando puritanos e presbiterianos escoceses aliam-se contra o Rei Carlos I; Oliver Cromwell comanda os rebeldes. É uma fase de tensão para sua família, envolvida mais de perto no conflito porque o pai de Locke lutou contra a monarquia, como capitão de cavalaria, nas tropas vitoriosas do Parlamento. Condenado pelo Parlamento, Carlos I é executado em 1649. Seu filho e herdeiro, o príncipe de Gales (1630-1685), que depois seria Carlos II, logrou escapar para a França, protegido por súditos leais, refugiando-se em Paris.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Qua Dez 16, 2009 5:40 pm

Estudos.

Após a vitória dos Parlamentaristas, um colega de armas e amigo de seu pai, o coronel Alexander Popham, tornou-se membro do Parlamento, em posição de indicar alunos para famosa Westminster School, controlada por um comitê do partido parlamentarista. Tendo 15 anos em 1647, Locke pode ser indicado e seu nome foi aceito.

Na Westminster School, em Londres, - o velho Colégio de São Pedro que Isabel I havia reformado quase um século antes, - Locke estudou principalmente grego e latim. Está ao final de seus estudos em Westminster em 1651, quando Hobbes publica "O Leviatã", cuja tese mais tarde ele irá criticar. Neste ano Hobbes retorna de Paris, onde freqüentava a corte inglesa no exílio.

Em 1652 Locke estava em condições de concorrer à escolha para estudar na Christ Church College, então o principal colégio em Oxford, o que dependia do bom desempenho escolar, de uma composição em Grego e de amigos influentes. Foi aprovado juntamente com cinco outros jovens. Seguiu para Oxford no final do ano; contava então dezenove anos. Como a maioria dos estudantes que depois se tornaram intelectuais ilustres na sua época, achou desinteressaste o curriculum de latim, retórica, gramática inglesa, filosofia moral, geometria, grego, lógica e metafísica, que era o ensino tradicional em seu tempo. Completou seus estudos de bacharelado em artes, assistido por um tutor, conforme o sistema no Christ Church College, no decurso de três anos e meio. Toda a comunicação com o tutor era em latim. Recebeu o grau de bacharel em 1656. Buscou complementar sua educação com a leitura de obras contemporâneas de filosofia, particularmente aquela que ganhava momento, a obra de Descartes. Mas, acima de tudo, interessou-se mais pela nova ciência experimental criada por Bacon (1561-1626) e lecionada em Oxford por John Wilkins, e adquiriu formação médica. Seu interesse pela medicina o aproxima de Richard Lower, que fez numerosas descobertas a respeito do coração e que foi o primeiro a efetuar uma transfusão de sangue.

Tanto o mundo da medicina como o da filosofia fascinam a Locke. O que escreveu nos anos seguintes, (1656-66), sua correspondência e seus livros preferidos indicam seus interesses, que eram as ciências naturais, por um lado, e a investigação social e política, por outro. Mas aquelas disciplinas básicas, no entanto, que constituíam o método escolástico, lhe foram úteis mais tarde, como filósofo. Em Junho de 1658, Locke fez jus ao M.A. Evidentemente ele conseguiu satisfazer os requisitos escolares porque foi contemplado com uma bolsa de estudante sênior em 1659 e, por ocasião do natal de 1660 foi eleito "Lecturer" (um cargo próprio dos colégios ingleses inferior ao de professor, equivalente a tutor, orientador ou instrutor de um grupo de alunos) de Grego no Christ Church.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Qui Dez 17, 2009 1:51 pm

O pai de Locke faleceu dois meses depois de sua nomeação. Deixou-lhe algumas terras e alguns chalés perto de Pensford, e este patrimônio haveria de suprir Locke com a renda para uma vida decente pelo resto de sua existência.

Após o enterro do pai, Locke voltou para Oxford para exercer suas tarefas de tutor. Nos três ou quatro anos que se seguiram trabalhou no Colégio, onde também residia. Na ocasião parece que pensou em abraçar o sacerdócio, ou que sua bolsa assim o requeria, mas em 1666, obteve uma dispensa que lhe permitiu manter sua bolsa sem se ordenar, residindo em Christ Church College por mais de trinta anos, afastando-se apenas temporariamente para Londres ou em viagem ao estrangeiro. Perdeu essa bolsa por mandato real em 1684, quando os monarquistas se tornaram senhores da situação política no país.

O Protetorado de Cromwell durou de 1653 até a data em que morreu, em 1658. Com a morte de Cromwell, o temor da desintegração do país levou o Parlamento a chamar de volta à Inglaterra o herdeiro do trono, para a restauração da monarquia. Carlos II foi coroado em 1660 e em 1662 casou com Catarina de Bragança, filha de dom João IV. Este casamento garantiu importantes vantagens comerciais para a Inglaterra que em troca dava a Dom João IV o que ele mais desejava, que era a proteção contra a ameaça da Espanha de retomar seu domínio sobre Portugal. O envolvimento inicial de Locke com a política começa em 1660, quando era, contrariando a linha política paterna, um monarquista convicto.

Nestes anos de 1660 e 1661 sua linha de pensamento era autoritária e dizia temer a anarquia. Alinhava-se com o pensamento de Hobbes, contra o qual mais tarde haveria de se voltar radicalmente. Escreveu contra a tolerância religiosa por essa época, tanto em Latim como em Inglês em resposta a Edward Bagshawe, que pensava que um governante deveria ter poder sobre as ações dos homens, porém devia deixá-los seguir seus próprios caminhos religiosos. Locke discordava de Bagshawe , acreditando que o magistrado devia ter poder até mesmo sobre a religião de seus súditos. Mais tarde suas convicções políticas, inclusive sua postura quanto à tolerância, haveriam mudar radicalmente.

Nas décadas seguintes Locke prosseguiu em seus estudos privados, e parte dos eventos sociais de que participava eram encontros em que discutia com amigos questões filosóficas e científicas. Foi o período em que Locke avançou seus estudos médicos e científicos assistindo aulas do fisiologista Thomas Willis (1621-1675), que tentava explicar o funcionamento do corpo por interações químicas, um renomado conhecedor do sistema nervoso, que foi professor em Oxford de 1660 a 1675. Nesse período colaborou com Robert Boyle (1627-1691, um dos fundadores da química moderna e seu amigo chegado, descobridor de que, a uma temperatura constante o volume de um gás é inversamente proporcional à pressão.

Tanto quanto Locke, Boyle tinha preocupações religiosas, sustentando que o estudo científico da natureza era um dever religioso. Conduziu seus experimentos em Oxford e a partir de 1668 vivia em Londres. Ao final dessa fase inclui-se outro amigo, Thomas Sydenham (1624-1689), um eminente cientista médico, chamado "O Hipócrates Inglês" e que, pelo seu livro "Observações Médicas" publicado em 1676, tornou-se o fundador da medicina clínica. Locke escreveu então Essays on the Law of Nature, ("Ensaios sobre a Lei da Natureza") em 1663-64, mas nunca publicou essa obra.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Sex Dez 18, 2009 9:51 pm

Locke foi eleito Censor de Filosofia Moral em 1663 e manteve o cargo por um ano, ao fim do qual iria deixar Christ Church. Seu irmão morreu aquele ano em Pensford e Locke decidiu passar algum tempo fora como diplomata, em lugar de continuar na sua posição acadêmica ou estudos científicos.

Missão diplomática.

A experiência diplomática que teve Locke, apesar de curta, teve importante reflexo em sua filosofia. Ele foi o secretário da missão diplomática de Sir Walter Vane a Brandenburg em 1665. Foi sua primeira viagem ao continente. Em Brandenburgo impressionou-o a tolerância entre as várias facções religiosas e escreveu a esse respeito uma carta para Boyle, ressaltando que aquela paz devia-se parte ao poder dos magistrados, parte à boa natureza e prudência do povo, que mantinha diferentes opiniões sem nenhum ódio secreto ou rancor.

Efectivamente, o eleitorado de Brandenburg mantivera-se tanto quanto possível neutro na Guerra dos Trinta Anos, - entre católicos, calvinistas e luteranos, - sofrendo, no entanto, a invasão dos suecos. Quando Frederico Guilherme, o Grande Eleitor (1620-1688) assumiu o poder em 1640, iniciou um programa de reconstrução do principado incluindo desde obras militares de fortificação a obras civis como a construção de canais de navegação, e efetivou a união da Prússia ao eleitorado, o que aumentava consideravelmente seu poder e importância no contexto político europeu. A partir dessa experiência em Brandenburgo Locke começou a rejeitar a visão de Hobbes que ele antes aceitava.

Sua atuação na missão causou boa impressão a muitos na Inglaterra e no seu retorno em 1666 lhe foram oferecidas numerosas oportunidades em postos diplomáticos, inclusive de imediato na Espanha, os quais ele declinou devido ao seu interesse em medicina, retornando ao seu refúgio em Oxford.

Médico e Conselheiro Político.

Como médico chamou a atenção de Lord Anthony Ashley Cooper (1621-1683) político parlamentarista, futuro primeiro conde de Shaftesbury. O conhecimento começou acidentalmente em 1666, por intermédio de Sydenham. Locke desejava permanecer em Oxford e obter o grau de Doutor em Medicina sem ter que frequentar todas as classes. Lord Ashley obteve do Secretário de Estado uma carta para o Christ Church College permitindo a Locke estudar sem as obrigações acadêmicas de aluno. Locke então deixou a tutoria ao final do ano. Na primavera seguinte, em 1667 Lord Ashley o convidou para fazer parte da equipe de empregados de sua casa, servindo como médico da família. Locke aceitou e viajou para Londres.

Lord Ashley era um político parlamentarista, ousado e agressivo, oponente radical das medidas de Carlos II (1630-1685) que tentava fortalecer o absolutismo. Seus ideais políticos eram a monarquia constitucional, a sucessão do trono por um protestante, liberdades civis, tolerância religiosa, governo através do parlamento, e expansão da economia britânica. Como tais ideais eram afins com os defendidos por Locke, havia entre ambos amizade e um entendimento perfeito. Apesar de não se dar bem com o clima de Londres, o período junto a Ashley foi certamente o mais ativo da vida de Locke. Alem de Lord Ashley e Thomas Sydenham, seu círculo de cientistas intelectuais amigos incluíam, entre outros, também John Mapletoft e James Tyrrell, este um colega médico de Sydenham e que era também um "divine" (teólogo).
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Sab Dez 19, 2009 5:06 pm

Locke encontrava-se ainda com representantes da escola de humanistas cristãos, os Platônicos de Cambridge, intelectuais que, apesar de simpáticos à ciência empírica, opunham-se ao materialismo por considerá-lo falho em explicar o elemento racional na vida humana. Tendiam a ser liberais em política e religião, porém tanto quanto eles ensinavam um Platonismo que se apoiava na crença em idéias inatas, Locke não poderia seguí-los; mas a sua tolerância, a ênfase deles na prática dos costumes como uma parte da vida religiosa, e sua rejeição ao Materialismo eram aspectos que Locke achava atraentes. Um destes humanistas, adepto da existência de idéias inatas, era Ralph Cudworth, cuja obra "Verdadeiro sistema intelectual do universo" influenciou consideravelmente o pensamento de Locke, e cuja filha haveria de hospedá-lo em seus últimos anos. O livro I do Ensaio de Locke é dedicado à crítica do inatismo defendido pelo amigo. A escola humanista estava muito de perto de uma outra que influenciou Locke nessa época, a do Latitudinarianismo, um grupo liberal dissidente da Igreja Anglicana. Para esse grupo, se um homem confessava Cristo, isto apenas deveria ser suficiente para habilitá-lo a ser membro da Igreja Cristã, e acordo em coisas não essenciais não deveria ser requerido, um grupo liberal dissidente da Igreja Anglicana. Esses movimentos prepararam Locke para a escola antidogmática e liberal de teologia que ele encontraria mais tarde na Holanda, uma escola em rebeldia contra a estreiteza do Calvinismo tradicional. Em 1667 escreveu um ensaio sobre a tolerância que seria a base para o futuro Letters on Toleration.

Os interesses de Locke afastaram-se por certo tempo da medicina. Em 1668 Benjamin Whitcote, o teólogo ("divine") latitudinário líder da Cambridge School, vigário da St. Lawrence Jewry, em Londres, atraiu Locke para sua congregação. Esta professava uma forma de cristianismo que considerava a teologia como racional, e isto acendeu o interesse de Locke pela religião e as escrituras, sobre o que irá publicar um trabalho, mais tarde. Interessou-se também por Economia, preparando o trabalho que publicaria anos mais tarde com o título Some Considerations of the Lowering of Interest and Raising the Value of Money ("Algumas considerações sobre a redução dos juros e o aumento do valor da moeda"). Porém retornou ao interesse médico quando Ashley adoeceu subtamente. Ele salvou a vida do estadista por meio de uma habilidosa cirurgia, quando este adoeceu em maio de 1668. Então Locke teve que por de lado qualquer projeto para se entregar inteiramente a dar-lhe cuidados médicos. Diagnosticou a doença como problema do fígado. Fez um cirurgião drenar um cisto, inserindo um tubo de prata. Ashley recuperou maravilhosamente e concluiu que devia sua vida a Locke.

Locke era conselheiro pessoal de Ashley não apenas em matéria médica mas em assuntos gerais. Fez os acertos para o casamento do herdeiro de Ashley com a filha do duque de Rutland, assistiu sua nora em 1671, no seu resguardo, e dirigiu a alimentação e a educação do recém nascido que viria a ser o III conde de Shaftesbury, o famoso autor de Characteristics of Man, Manners, Opinions, Times, obra que despertou grande interesse entre os intelectuais europeus, inclusive Kant. Assessorou Lord Ashley em vários assuntos políticos importantes e conviveu com os mais altos círculos intelectuais e políticos da época. Devido a Lord Ashley ter direitos de propriedade na Carolina, Estados Unidos, Locke participou da elaboração de uma constituição para aquele futuro estado americano. Nesta época começa também a redigir o que seria "O Ensaio sobre o Entendimento Humano" no que trabalhou por mais de 20 anos.

Nos anos passados em Londres Locke tornou-se também membro da Sociedade Real, onde se procedia a discussões, experiências e demonstrações científicas. A sociedade fora fundada cinco anos antes e como seu membro Locke estava em dia com os avanços científicos; foi eleito em 1668. No entanto, seus próprios aposentos eram uma extensão da Sociedade. Seus amigos certamente ansiavam por aquelas horas de alheamento das preocupações diárias em que, na mais cálida amizade, se reuniam nos aposentos de Locke para conversar sobre achados científicos e sobre questões filosóficas. O próprio Locke iniciava os debates e assim discutiu e anotou os pontos de vista sobre o conhecimento humano como rascunho do que 19 anos mais tarde seria o seu famoso "Ensaio".
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Dom Dez 20, 2009 7:16 pm

Período na França.

A partir 1667 Lord Ashley ganhou poder, dando um passo na direção do mais alto cargo do reino ao integrar o grupo de cinco membros do ministério do Rei conhecido como a "Cabal", um trocadilho porque as primeiras letras dos nomes de seus cinco membros formava a palavra cabal, o mesmo que "cabala". Em 1672 Ashley foi feito Primeiro Conde de Shaftesbury e ao final desse mesmo ano foi nomeado Lord Chanceler da Inglaterra, o mais alto cargo no governo. Na ocasião Locke vinha sofrendo muito com a fumaça e a neblina de Londres; no inverno Locke tossia dia e noite e tinha cada vez maior dificuldade para respirar. Apesar de necessitar sempre da assistência de Locke, Lord Ashley permitiu-lhe umas férias na França. Locke decidiu viajar com um grupo para a França., em viagem de lazer. De lá foi chamado de volta à Inglaterra por Ashley, primeiro para ser seu secretário de benefícios "Secretary of Presentations"; cabia-lhe supervisionar assuntos eclesiásticos que eram afetos à chancelaria de Ashley. No ano seguinte, passou a secretário do Conselho do Comércio e Agricultura (Council of Trade and Plantations) que Ashley havia criado.

Após dois anos na secretaria do Conselho do Comércio Locke, muito incomodado pela asma de que sofria, deixou Londres, voltando para Oxford, decidido a finalizar os estudos requeridos para o bacharelado em Medicina, o que obteve em fins de 1674. No início do ano seguinte foi indicado para uma das duas residências de medicina do colégio. Receioso, no entanto, da situação política que se agravava, Locke decidiu deixar a Inglaterra e passar uma temporada na França, país do qual guardava agradáveis recordações de férias. Buscou o clima ameno do sul da França, fez pelo interior viagens de lazer enquanto residia em Montpellier. O diário que escreveu desse período contem suas observações sobre lugares e costumes, e sobre as instituições do país. Contem também muitos pensamentos que depois tomariam forma de postulados no seu "Ensaio sobre o Entendimento Humano". Em Montpellier recebeu a notícia de que Lord Ashley havia sido preso na Torre de Londres. Se estivesse na Inglaterra, teria sido preso com ele, do mesmo modo que outros auxiliares imediatos seus foram detidos.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Seg Dez 21, 2009 7:06 pm

A permanência de Locke na França deixou de ser apenas interesse seu, quando se tornou tutor do jovem filho de um amigo de Lord Ashley, que lhe escreveu uma carta solicitando-lhe assumir aquele encargo. No caminho entre Montpellier e Paris, onde iria encontrar o jovem discípulo, Locke sofreu o contratempo de uma febre alta e precisou de um mês para recuperar-se e concluir a viagem até a Capital, onde o jovem o aguardava.

Em Paris, Locke fez contactos que influenciaram profundamente sua visão da Metafísica (A natureza do ser) e da epistemologia, principalmente com a escola seguidora de Gassendi e particularmente com seu líder François Vernier. O já falecido Pierre Gassendi (1592-1655) , filósofo e cientista, havia criticado a super-especulação na filosofia de Descartes e defendera o retorno à doutrina de Epicuro, isto é ao empirismo (enfatizando a experiência dos sentidos), ao hedonismo (sustentando ser o prazer o bem), e à física corpuscular (com a realidade feita de partículas atômicas). Gassendi sustentava que o conhecimento do mundo exterior depende dos sentidos, porém o homem pode, através da razão, derivar muita informação além da evidência ganha empiricamente.

Exílio na Holanda.

Na primavera de 1678, após quatro anos na França (1675-79), Locke retornou à Inglaterra e imediatamente para a casa de Ashley Cooper. Este havia ficado preso um ano na Torre, mas, ao tempo da volta de Locke já estava livre e fazendo política novamente, como presidente do Conselho Privado, enquanto seus inimigos estavam prisioneiros em seu lugar. Locke era novamente seu braço direito.

Lord Ashley, agora conde de Shaftesbury estava do lado do Parlamento e cada vez mais se opunha às medidas de Carlos II (1630-1685) que tentava fortalecer o absolutismo. Por outro lado, o herdeiro do trono, James, irmão de Carlos II, era católico, e a maioria protestante liderada por Shftesbutry queria excluí-lo da sucessão. Em 1681, por não conseguir conciliar os interesses do rei com os do Parlamento, Lord Ashley foi demitido. Carlos II dissolveu o parlamento em 1681.
Em 1682 as disputas entre realistas e parlamentaristas reacendeu devido a Londres estar confiada a cheriffs fieis à monarquia. Descontente com o controle firme dos realistas sobre a política na cidade, e consequente perda de poder do seu grupo, Lord Ashley pensou organizar uma revolta mas seus planos foram descobertos e ele e seus auxiliares e amigos passaram a ser vigiados com olhos de falcão. Espiões foram designados para vigiar inclusive a Locke. Pelo final do ano o governo tinha evidências suficientes para prender Lord Ashley mas este, absolvido por um jure de Londres, fugiu para a Holanda, onde veio a falecer no início de 1683.

Locke continuou sob vigilância na Inglaterra. A fama de Hobbes, morto em 1679, foi logo sucedida pela de John Locke. Porém a permanência na Inglaterra tornou-se para ele progressivamente insustentável. Em 1683 uma carta foi enviada da Corte ao reitor do Christ Church College advertindo-o de que Locke, que era da casa do conde de Shaftesbury (Lord Ashley) havia em várias ocasiões se comportado facciosa e desobedientemente com o governo. Locke apresentou sua defesa em uma carta e recebeu de um amigo, Lord Pembroke, a garantia de que havia limpo seu nome com o Rei...

Porém Locke decidiu refugiar-se na Holanda, confiando a um amigo íntimo, o parlamentar Edward Clarke, seus interesses na Inglaterra. No ano seguinte seu nome foi incluído numa lista enviada ao governo holandês de 84 traidores procurados pelo governo Inglês. Para escapar de ser preso e deportado, Locke mudou de nome, fazendo-se chamar Dr. van der Linden. Mudava-se de uma cidade para outra e visitava furtivamente seus amigos. porém em breve pode mostrar-se novamente e viajar livremente por toda a Holanda. No exílio sua saúde melhorou, e fez muitos amigos entre os intelectuais holandeses.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Ter Dez 22, 2009 1:42 pm

Por cinco anos Locke permaneceu na Holanda onde se deu muito bem, dedicou-se à medicina, fez amigos e teve tranquilidade para colocar em ordem seus pensamentos sobre as questões filosóficas que o preocupavam e escrever, principalmente mais alguns capítulos do Essay Concerning Human Understanding e do Letters on Toleration. É a época em que Isaac Newton comunica à Royal Society de Londres, em 1686, sua hipótese sobre a gravitação universal e Leibniz escreve obras importantes (o "Discurso de Metafísica" e o Systema Theologicum). De modo particular fez amizade com o teólogo intelectual Philip van Limbroch, o líder do clero Remonstrant, uma linha dissidente do protestantismo holandês a qual, tanto quanto os latitudinários ingleses, seguia a linha liberal do teólogo holandês Jacobus de Arminius, em oposição à linha ortodoxa radical predominante de Gomarus.

Dedicou a Limbroch a Epistola de Tolerantia", livro foi completado em 1685 porém publicado anonimamente na Holanda somente em princípios de 1689 para logo depois ter uma edição corrigida na Inglaterra, em 1690. A controvérsia que se seguiu a este trabalho levou Locke a publicar, além da segunda "Carta" de 1690, uma terceira, em 1692. Um abstract do "Ensaios" foi publicado no Bibliotheque universelle Leclerc em 1688, um jornal no qual Locke colaborou durante o seu exílio.

Locke permaneceu na Holanda até 1688, quando Jaime II, coroado em 1685, foi derrubado. O casamento de Carlos II não deu filhos. Pouco antes dele morrer, a rainha Catarina levou-o a reconciliar-se com a Igreja Católica. Com o seu falecimento em 1685 Jaime II (1685-88), católico, seu irmão, ascendeu ao trono inglês. Em 1692 Catarina retornou a Portugal. Parecia que o exílio na Holanda iria ser longo para Locke. O rei católico, irmão e sucessor de Carlos II, tentou sufocar a igreja anglicana. O Parlamento reagiu e o depôs; obrigando-o a fugir para a França. Foi a célebre "Revolução Gloriosa". O Parlamento chamou Maria Stuart, protestante, filha do rei deposto, (Maria II da Inglaterra 1689-94) que reinou conjuntamente com seu marido Guilherme de Orange (Guilherme III da Inglaterra) até 1694, quando falece Maria II, e 1702, quando falece Guilherme III, e o trono passa, - ainda em vida de John Locke -, para a devotada anglicana Anne (1665-1714), irmã de Maria II.

Últimos anos.

A "Revolução sem sangue e gloriosa" ("the glorious bloodless revolution") havia cumprido os ideais de Shaftesbury e Locke. Primeiro e principalmente, a Inglaterra tornou-se uma monarquia constitucional controlada pelo Parlamento; a partir de Guilherme III o monarca inglês é figura decorativa. Segundo, após a revolução tornaram-se maiores a liberdade do indivíduo nas cortes de justiça, a tolerância religiosa e a liberdade de pensamento e expressão.

Encorajado a voltar para a Inglaterra pela mudança política e também porque foi convidado a morar com seu amigo Dr. Charles Goodall, Locke pôs seus negócios em ordem, fez as malas e partiu para a Inglaterra em um domingo, 20 de fevereiro, 1689 a bordo do barco Isabella.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Dom Dez 27, 2009 3:24 pm

Após seu regresso o filósofo começou a freqüentar os salões do amigo Lord Pembroke onde ele encontrou-se com alguns de seus mais famosos contemporâneos, inclusive Isaac Newton. Locke trocou cartas com Newton a respeito desde as órbitas planetárias como das Escrituras. Apesar da situação favorável, Locke, desde sua volta participou pouco da política. O novo governo reconheceu seus serviços pela causa da liberdade e lhe foi oferecido o posto de embaixador britânico em Berlim ou Viena, o primeiro junto a corte de Frederick III, que alguns anos depois haveria de fundar o reino da Prússia unindo os territórios herdados de seu pai, Frederico Guilherme, em cujo reinado Locke estivera em missão diplomática na antiga capital, Brandenburgo. Locke recusou ambos os postos alegando seus problemas de saúde. Porém aceitou o cargo menos importante de membro da Comissão de Apelação (Commission of Appeals) no mesmo ano de seu regresso.

Por ocasião de seu regresso Locke contava cinquenta e sete anos. Com problemas de saúde motivados pela poluição atmosférica de Londres, deixava a cidade tantas vezes quanto possível em visita a amigos no interior, hospedando-se finalmente na mansão de Oates, uma pequena propriedade rural pertencente Sir Francis e Lady Masham. Sua hospedeira era uma mulher que ele tinha conhecido por muitos anos, por ser filha do já mencionado Ralph Cudworth, o professor platonista de Cambridge que Locke admirava pelo tipo de teologia liberal; uma crescente afinidade intelectual com a família levou-o a aceitar a oferta de moradia. Em casa de Lady Masham. Sua saúde melhorou e de lá continuou sua influência política como líder intelectual dos parlamentaristas Whigs. A maior tarefa deste último período de sua vida, no entanto, seria a publicação de seus trabalhos, os quais eram o produto de longos anos de gestação. Encontrou logo que retornou, editor para seus dois grandes trabalhos, o famoso "Ensaio Sobre o Entendimento Humano", e o igualmente importante Two Treatises of Government ("Dois Tratados Sobre o Governo Civil"). Publicou este último anonimamente, porém tão determinado a ocultar sua autoria dessa obra que destruiu todas as cartas e manuscritos a ela referentes.

Em março de 1690 apareceu o longamente esperado Essay concerning Human Understanding ("Ensaio sobre o Entendimento Humano"), sobre o qual havia trabalhado intermitentemente desde 1671. O livro alcançou sucesso imediato e provocou uma volumosa literatura de ataque e resposta. De uma parte os jovens queriam introduzi-lo na universidade. Uma versão simplificada do Ensaio foi publicada como introdução para estudantes universitários, e de outro as elites se reuniram para descobrir um meio de suprimi-lo. Novas edições revistas surgiram em 1694, 1695, e 1700. As últimas edições contêm muitas modificações devidas à correspondência do autor com William Molyneux, do Trinity College, de Dublin, um devotado discípulo, com o qual Locke tinha uma calorosa amizade.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Seg Dez 28, 2009 2:07 pm

Outros interesses também ocuparam Locke ao longo da década de 90. As dificuldades financeiras do novo governo levaram-no a publicar em 1691 o acima citado Some Considerations of the Consequences of Lowering of Interest, and Raising the Value of Money ("Algumas considerações sobre a redução dos juros e o aumento do valor da moeda") com um desdobramento em novas considerações sobre a questão publicada quatro anos mais tarde. Assistiu o amigo Edward Clarke, já citado, membro da Casa dos Comuns, na preparação de alguns atos que o mesmo defendeu no parlamento: projetos em favor dos direitos do cidadão (ato sobre o direito de busca em casa dos suspeitos) e sobre a liberdade de imprensa (ato regulamentando as impressões gráficas).

Parece que a partir do simples gosto por cuidar da saúde das crianças, Locke desenvolveu um interesse por normas úteis à sua educação. Ele havia escrito a Clarke, da Holanda, uma série de cartas aconselhando-o quanto à melhor educação de seu filho. Estas cartas formaram a base de seu influente Some Thoughts Concerning Education ("Alguns pensamentos relativos à Educação"), saído em 1693, criando novos ideais no campo da educação.

Em 1695 ele publicou um tratado religioso com um elevado apelo por um cristianismo menos dogmático, intitulado The Reasonableness of Christianity em que dá as escrituras como "uma coleção de escritos destinados por Deus para a instrução do grosso analfabeto da humanidade no caminho da salvação, e, portanto, de modo geral e nas questões principais, para ser entendida no sentido pleno e direto de palavras e frases". Publicou essa obra anonimamente. Durante esse período participou também de um Club denominado "O colégio", um agremiação destinada a discutir assuntos políticos e através do qual Locke suave e discretamente influía sobre o Parlamento. Retornou ainda uma vez à vida pública, quando, em 1696, foi escolhido pelo Rei para ser um dos Comissários para Comércio e Agricultura. Para cumprir suas obrigações Locke foi forçado a mudar-se de Oates para Londres, a despeito do agravamento de sua asma. Neste cargo Locke tratava de assuntos de comércio com as colônias e agricultura, exercendo uma mão firme dentro do conselho. Quatro anos mais tarde decidiu afastar-se do Conselho devido principalmente a sua saúde decadente.

Últimos anos.

Nos anos seguintes Locke raramente deixou Oates. Muitos amigos o visitaram lá, como o amigo parlamentar Edward Clarke com a esposa e os filhos, aos quais Locke dedicava grande afeição, e inclusive Sir Isaac Newton, que não veio discutir matemática, porém as Epístolas de São Paulo, um assunto que interessava muito a ambos. Outro visitante frequente era seu jovem amigo Anthony Coolins (1676-1729) que mais tarde publicaria seu célebre Discouse of Free-thinking (1713) além de dois tributos póstumos a John Locke publicados em 1708 e 1720.

Em seus últimos anos ocupou-se de principalmente de responder a críticas ou revisar edições de seus trabalhos.
Uma das críticas teve maior repercussão; foi a de Edward Stillingfleet, bispo de Worcester, que, no seu Vindication of the Doctrine of the Trinity (1696), atacou a "nova filosofia". Sua crítica chamou atenção para um dos pontos menos satisfatórios do "Ensaio", sua explicação da idéia de "substância". Locke respondeu no início de 1697 em A Letter to the Bishop of Worcester. Stillingfleet retrucou poucos meses depois e Locke aprontou logo uma segunda carta. Stillingfleet fez nova replica em 1698 e uma extensa carta de Locke apareceu em 1699, ano em que a polêmica foi interrompida pela morte do bispo.

Ao fim de sua vida Locke ficou extremamente doente ao ponto de não poder levantar-se do leito. Faleceu a 28 de outubro de 1704, aos 72 anos. Foi enterrado na igreja paroquial de High Laver.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Ter Dez 29, 2009 12:48 am

FILOSOFIA:

Origem das idéias.

A principal preocupação de Locke em sua teoria do conhecimento foi combater doutrina difundida por Descartes, da existência de idéias inatas na mente do homem. Para Locke a mente humana era como uma folha em branco que receberia impressões através dos sentidos a partir das experiências do indivíduo, sem trazer consigo, do nascimento, quaisquer idéias tais como a de "extensão", de "perfeição" e outras, como pretendia Descartes. Diz Locke, no parágrafo 3 do Capítulo 2, "Das idéias simples", do livro II, do seu "Ensaio sobre o entendimento humano": "Somente são imagináveis as qualidades que afetam aos sentidos."..."E si a humanidade houvesse sido dotada de tão somente quatro sentidos, então, as qualidades que são o objeto do quinto sentido estariam tão afastadas de nossa noticia, de nossa imaginação e de nossa concepção, como podem estar agora as que poderiam pertencer a um sexto, sétimo ou oitavo sentidos"...que talvez existam em outras criaturas "em alguma outra parte deste dilatado e maravilhoso universo". Todas as idéias vêm ou da experiência de sensação ou da experiência de reflexão.

Idéias de sensação.

Destas ele diz: "Em primeiro lugar, nossos sentidos, que têm trato com objetos sensíveis particulares, transmitem respectivas e distintas percepções de coisas à mente, segundo os variados modos em que esses objetos os afetam, e é assim como chegamos a possuir essas idéias que temos do amarelo, do branco, do calor, do frio, do macio, do duro, do amargo, do doce, e de todas aquelas que chamamos qualidades sensíveis... eu chamo sensação".

Mecanismo de geração das idéias de sensação.

Antecipando-se, de certo modo, à teoria corpuscular da luz, diz: "E como a extensão, a forma, o número e o movimento de corpos de grandeza observável podem perceber-se a distancia por meio da vista, é evidente que alguns corpos individualmente imperceptíveis devem vir deles aos olhos, e desse modo comunicam ao cérebro algum movimento que produz essas idéias que temos em nós acerca de tais objetos"..."Vamos a supor, então, que os diferentes movimentos e formas, volume e número de tais partículas, ao afetar aos diversos órgãos de nossos sentidos, produzem em nós essas diferentes sensações que nos provocam as cores e cheiros dos objetos; que uma violeta, por exemplo, por ou impulso de tais partículas imperceptíveis de matéria, de formas e volume peculiares e em diferentes graus e modificações de seus movimentos, faça que as idéias da cor azul e do aroma dessa flor se produza em nossa mente."
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Ter Dez 29, 2009 2:42 pm

Tipos de idéias de sensação.

Locke utiliza o termo "idéia" com um significado amplo. Inclui todos os diferentes modos da experiência de consciência: representação e imagem, percepção, conceito ou noção, sentimento, etc. um uso muito diverso do que, por exemplo, faz Platão.

Idéias de qualidades primárias.

São de qualidades primárias aquelas idéias que concebemos por influência direta do objeto. "Assim consideradas, diz Locke, as qualidades nos corpos são, primeiro, aquelas (idéias) inteiramente inseparáveis do corpo, qualquer que seja o estado em que se encontre. "Por exemplo, tomemos um grão de trigo e dividámo-lo em duas partes; cada parte tem (a idéia de) solidez, extensão, forma e mobilidade. ... e si se segue dividindo até que as partes se tornem imperceptíveis, reterão necessariamente, cada uma delas, todas essas qualidades."

Idéias de qualidades secundarias.

Mas, em segundo lugar, há idéias de qualidades tais que em verdade não correspondem a nada nos objetos mesmos, e sim a poderes que os objetos têm de produzir indiretamente em nós diversas sensações. Sua aparência, forma, volume, textura e ou movimento de sus partes imperceptíveis, e assim são as cores, os sons, os gostos, cheiros, etc. A estas Locke chama "qualidades secundarias", e teoria que, do mesmo modo como as coisas produzem em nós as idéias de qualidades primárias, também produzem as idéias das qualidades secundarias, ou seja, pela operação de partículas imperceptíveis sobre nossos sentidos. As qualidades secundarias dependem das primarias. Quanto disse tocante às cores e cheiros, pode entender-se também respeito a gostos, sons e demais qualidades sensíveis semelhantes, as quais, qualquer que seja a realidade que equivocadamente lhes atribuímos, não são nada em verdade nos objetos mesmos, sino poderes de produzir em nós diversas sensações, e dependem de aquelas qualidades primarias, a saber: volume, forma, textura e movimento de sus partes, como já disse.

As idéias das qualidades primarias são semelhanças com algo que está nos corpos, mas as qualidades secundárias, nada há nos corpos que se lhes assemelhem. Nos corpos somente há as ditas qualidades primárias que, no entanto, podem, por variação de volume, forma e movimento das partes imperceptíveis dos corpos mesmos produzir em nós essas sensações que são secundárias; como a idéia de doce, azul, quente, etc.

Idéias de reflexão.

A mente não tem idéias inatas, mas faculdades inatas: a mente percebe, lembra, e combina a idéias que lhe chegam do mundo exterior. Ela também deseja, delibera, e quer, e estas atividades mentais são elas próprias a fonte de nova classe de idéias.

Tipos de idéias de reflexão.

De acordo com Locke todas as idéias de Reflexão caem nas seguintes subcategorias:

Memória: a habilidade de chamar uma idéia ausente de volta à consciência;
Retenção: a habilidade de manter um pensamento na consciência;
Discernimento: a habilidade de reconhecer diferenças entre as coisas;
Comparação: a habilidade de reconhecer as semelhanças entre as coisas;
Composição: a habilidade de construir novas idéias tomando como material outras idéias; e
Abstração: a habilidade de distinguir princípios de relação abstratos (tais como provas matemáticas), os quais jazem por trás de outras idéias e assim criar uma idéia de generalidade.

A experiência é pois dupla. Nossa observação tanto pode visar objetos externos da sensibilidade quanto as operações internas da própria mente. No primeiro caso as idéias são de sensação, no segundo, de sentido interno ou "reflexão". No entanto, sem a sensação a mente não teria com que operar e portanto não poderia ter idéias de suas operações, ou seja, idéias de reflexão.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Qua Dez 30, 2009 9:50 pm

Classificação estrutural das idéias.

Essa classificação geral em idéias de sensação e de reflexão tem duas categorias cada uma: Ideias simples e idéias complexas.

Ideias simples são aquelas que não podem ser distinguidas em diferentes idéias, como quente, frio, branco, etc., e Idéias complexas as que são produzidas pelo entendimento por repetição, comparação, união de idéias simples.

E nada ha mais claro para um homem que a percepção clara e distinta que tem das idéias simples; a frialdade e a dureza, que um homem sente em um pedaço de gelo, são, na mente, idéias tão distintas como o aroma e a brancura de um lírio, ou como o sabor do açúcar e o aroma de uma rosa. No entanto, tem sido demonstrado por alguns autores que certos exemplos de idéias simples dados por Locke são na verdade idéias complexas.

Definição de idéias complexas.

A mente tem o poder de considerar a varias idéias unidas, como uma só idéia. As idéias complexas são aquelas produzidas pelo conhecimento repetindo, comparando ou unido idéias simples. Às idéias assim feitas de varias idéias simples unidas Locke chama "idéias complexas". Exemplo: beleza, gratidão, um homem, um exército, o universo. As idéias simples são os elementos das idéias compostas, seja combinadas na idéia de uma coisa única, como por exemplo, a idéia de homem ou de ouro, seja combinadas em idéias de coisas compostas, mas que continuam representando coisas distintas, como são as idéias de relação, como a de filiação, que une, sem alterá-las as idéias de pai e filho.

Subdivisão das idéias complexas.

Diz Locke: "Qualquer que seja a maneira como as idéias complexas se compõem e descompõem, e ainda quando seu número seja infinito, e não tenha término a variedade com que enchem e ocupam os pensamentos dos homens, sem embargo me parece que podem compreender se todas dentro de estes três capítulos: 1) Os modos. 2) As substancias. 3) As relaciones".

Modos: Desculpando-se por usar a palavra em um sentido um tanto diferente do significado habitual, Locke chama "modos" as idéias complexas originárias de qualquer combinação, e que não subsistem por si mesmas. Tais são as idéias significadas pelas palavras triângulo, gratidão, assassinato, poder, identidade, ou um número, por exemplo.

Subdivisão dos modos.

Locke distingue duas classes de modos, simples e compostos ou mistos. Nos primeiros a idéia simples combina-se consigo mesma, como a idéia de número, que resulta da combinação das idéias de unidades; ou a de espaço, proveniente da combinação das idéias de partes homogêneas. A idéia do Infinito é um modo simples, resultante da repetição ilimitada da unidade homogênea de número, duração e espaço. Também a idéia de Poder é um modo simples, formado pela repetida experiência de modificações comprovadas nas coisas sensíveis e no próprio homem por um determinado agente. Os modos compostos, ou mistos, derivam da combinação de várias idéias simples diferentes, heterogêneas. Exemplos: a idéia de beleza, que consiste em uma certa composição de várias idéias de cor e forma que produz gozo no espectador.

Substância.

Locke define Substâncias segundo diz a própria palavra, coisas que subsistem por si; seria o caso da idéia de homem entre outras. A Substância não é mais que o conjunto de idéias simples, que a experiência mostra sempre agrupadas: o ouro é dúctil, denso, amarelo, etc. O substrato daquilo que os sentidos nos transmitem é incognoscível. A substância, como coisa em si, existe, mas não se pode saber o que seja, e a única investigação possível é a pesquisa experimental das idéias de qualidade que lhes atribuímos: conjunto de idéias simples de sensação. Objeta-se a Locke que tomar "substância" como um substrato que imaginamos para as coisas é uma simplificação inaceitável. Ao contrário dos modos, subsistem por si mesmas e são singulares ou coletivas. Substancias singulares são aquelas combinações de idéias simples que se supõe representam distintas coisas particulares que subsistem por si mesmas. Assim, si à substancia se une a idéia simples de um certo cor esbranquiçado apagado, com certos grados de peso, de dureza, de ductibilidade e de fusibilidade, teremos a idéia do chumbo. Substancias coletivas são aquelas combinações de idéias reunidas, como um exército de homens, ou um rebanho de ovelhas; essas idéias coletivas de varias substancias assim reunidas, são, elas mesmas, uma idéia única, complexa, como o é, por exemplo, a de homem.

Alma: Analogamente a substância, é um conjunto de idéias de reflexão

A relação.

Terceiro, a última espécie de idéias complexas é a que Locke chama "relação", que consiste na consideração e comparação de uma idéia com outra. Assim são as propriedades de relações matemáticas como quadrado, triangular, etc. São relações em termos de propriedades relacionais matemáticas como o quadrado, o triângulo, etc.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Qui Dez 31, 2009 3:01 pm

Mecanismo de geração das idéias complexas.

As idéias complexas de substância, modos, e relações são todas produto da atividade de combinação e abstração da mente operando sobre idéias simples que foram dadas, sem qualquer conexão, ou pela sensação ou reflexão. No entanto, Locke não apresenta nenhuma hipótese sobre o próprio mecanismo de associação das idéias, deixando para Hume supor que tal atividade se deve a afinidades várias entre as idéias simples, afinidades que exerceriam a necessária atração para sua combinação ou "associação" em idéias complexas. Enquanto a sensação é um processo passivo, a reflexão pode ser ativa ou passiva. As idéias simples provêem todas das coisas mesmas. A mente não pode ter outras idéias das qualidades sensíveis fora das que lhe chegam do exterior por meio dos sentidos, nem qualquer outra idéia de reflexão diferente das operações de uma substância pensante, que não sejam as que encontra em sí mesma.

Mas apesar de que é certo que a mente é completamente passiva na recepção de todas as suas idéias simples, também é certo que exerce vários atos próprios pelos quais forma outras idéias, compostas de idéias simples, as quais são o material fundamental de todas as demais. Os atos da mente pelos quais esta exerce seu poder associativo sobre sus idéias simples são principalmente estes três:

(1) Combinar várias idéias simples em uma idéia composta; assim é como se fazem todas as idéias complexas.
(2) Juntar duas idéias, sejam simples ou complexas, para as colocar uma junto a outra, de tal maneira que se possa vê-las simultaneamente sem combina-las em uma única; é como a mente obtém todas as suas idéias de relações.
(3) Isolar uma idéia de todas as demais idéias que a acompanham: esta operação se chama abstração, e é como a mente faz todas sus idéias gerais.

Tudo isto mostra que o modo de operar do homem é mais ou menos o mesmo nos mundos material e intelectual. Porque em ambos o homem não tem poder sobre os materiais, nem para fabricá-los, nem para destruí-los; tudo que faz é, ou uni-los, ou então colocá-los um junto ao outro, ou separá-los completamente.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Sab Jan 02, 2010 10:51 pm

A verdade.

O conhecimento é a "percepção das conexões de um acordo, ou desacordo e repugnância entre nossas idéias". Este acordo ou desacordo pode ser de quatro tipos: identidade ou diversidade, relação, coexistência ou conecção necessária, existência real. O conhecimento humano, argumenta Locke, apoia-se (1) na experiência do mundo exterior adquirida através dos sentidos e (2) sobre aquilo do mundo interior de fatos psíquicos obtido através da introspecção (ou, na terminologia de Locke, "reflexão").

No primeiro caso, o acordo ou desacordo é percebido imediatamente, por intuição; no segundo, ele é percebido através da demonstração, mediante a mediação de uma terceira idéia, porém cada passo na demonstração é ela mesma uma intuição, uma vez que o acordo ou desacordo entre duas idéias comparadas será imediatamente percebido. Isto reduz todo o processo a pura intuição estruturada em reflexão e a própria certeza é intuitiva. Portanto, apesar de que o conhecimento se origina na experiência sensível e introspectiva, isto é apenas o começo; porque muitos outros fatores têm que ser cuidados também - fatores tais como o raciocínio que habilita uma pessoa a deduzir, de proposições empiricamente baseadas, conclusões mais gerais a respeito do mundo, tanto físico quanto mental. Tal raciocínio pode ser indutivo (parte do particular para as leis gerais) ou ele pode ser dedutivo (o geral rege o particular). O raciocínio matemático, por exemplo, é dedutivo; e este tipo de conhecimento é somente para ser entendido. Locke adverte que as proposições da Matemática e da Ética são demonstráveis, porém referem-se à combinação de idéias complexas geradas na própria mente: não são garantia de qualquer coisa fora da mente. O conhecimento matemático e ético envolvem relações entre idéias e não pretendem coisas de existência real.. Por isso suas proposições não são garantia de qualquer coisa fora da mente. Assim, o conhecimentos matemático e ético podem ser firmemente estabelecidos, porque envolvem relações entre idéias e não pretendem coisas de existência real.

A intuição, permite discernir as relações entre afirmações (relações) que garantem a extração de inferências. Através de tais intuições intelectuais, o conhecimento necessário e universal é possível. Porém, a dedução permite a certeza em apenas dois casos; quando se trata do conhecimento de coisas que realmente existem, só existem duas certezas: nossa existência, por intuição, e a existência de Deus, por demonstração. Quanto ao Eu, a certeza intuitiva é proveniente da reflexão (um encadeamento de intuições), que o homem tem de sua própria existência: certeza da existência do nosso Eu (Descartes). Locke concorda com Descartes em que a existência do Eu está implicada em cada estado de consciência. Quanto a Deus, se existem seres inteligentes, deve existir uma causa inteligente. É a certeza demonstrativa da existência de Deus por demonstração: da existência do efeito (o mundo) se infere a existência da causa que o produziu (prova a posteriori). Locke concluiu que, no caso dos seres humanos, o conhecimento intuitivo está limitado em extensão na maioria dos casos, conhecimento é somente provável, e Locke examinou os graus de probabilidade e a natureza da evidência.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Seg Jan 04, 2010 7:57 pm

Além do conhecimento propriamente (intuitivo e demonstrativo) Locke reconhece um terceiro grau de conhecimento, que não faz juz estritamente a esse nome. Este é nossa apreensão sensível das coisas externas, ou de objetos reais além de nós mesmo e Deus: é a certeza por sensação referente aos corpos exteriores ao homem: certeza da existência das coisas externas por meio da sensação. À esta certeza proveniente da correspondência das idéias à realidade Locke faz corresponder também a verdade encontrada na área das ciências experimentais, área do conhecimento na qual a certeza das ciências ideais (matemáticas e morais) não está presente.

Locke reconheceu que as ciências naturais não podem dar certeza completa. O conhecimento empírico derivado dessa fonte é incerto e nunca propicia mais que probabilidade, enquanto o ideal do conhecimento é a certeza. A certeza no domínio das ciências experimentais, dependeria do critério de verificação da adequação entre as idéias que estão na mente humana e a realidade exterior a ela. No entanto, cuidadoso raciocínio, com a aplicação de raciocínio matemático onde possível, irá aumentar a probabilidade de atingir conhecimento verdadeiro nesse campo.

Vontade.

Um outro aspecto da mente humana com a qual lida Locke é o da Vontade. Locke reconhece a existência da vontade humana afirmando que os homens estão basicamente estruturados para experimentar as sensações de dor e prazer, e que toda ação é o resultado de um movimento no sentido de um ou movimento de afastamento do outro. Ele escreve: "A dor tem a mesma eficácia e costumeiramente nos predispõe ao trabalho, que o prazer tem, estando nós tão prontos a empregar nossas faculdades para evitar aquela, como a perseguir a este". Porém mais adiante, no entanto, expressa o pensamento de que o homem é capaz de escolher por si mesmo o que é agradável ou penoso, apesar de possuir instalado pelo criador o mecanismo que o dirige para o prazer e para fugir da dor.

Teoria Política

Resposta a Filmer.

É opinião de alguns autores que, apesar de publicado depois da Revolução Gloriosa, o Two Treatises of Government ("Dois Tratados sobre o Governo") de Locke não é a justificativa da revolução como pode parecer, nem uma resposta a Thomas Hobbes, cuja doutrina desaprovou, mas sim uma resposta a que Locke havia iniciado a redigir anos antes, em 1681, à teoria absolutista de Robert Filmer, o qual havia dito que a soberania absoluta de Adão legitimava o poder absoluto dos reis como herdeiros de Adão, e mais que o homem nasce sob o controle de seus pais, portanto ele nasce em estado de submissão política. Na primeira parte do "Dois Tratados", Locke responde dizendo que as Escrituras não conferem poder absoluto dos pais sobre seus filhos e portanto o governo total do rei não podia ser justificado por aquela comparação (paradigma). Estranha-se que Locke dispensasse tanta atenção a essa teoria tão absurda.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Qua Jan 06, 2010 12:48 am

Natureza Humana.

Em todos essas questões sociais e políticas Locke via que o fator último é a natureza do homem. Locke tinha consciência deste ponto ao escrever seu trabalho sobre a Lei da Natureza (Low of Nature) já em 1662. Locke explica a vontade humana afirmando que os homens estão basicamente estruturados para experimentar sensações de dor e prazer, e que toda ação é o resultado de buscar um ou fugir do outro. Para entender o homem, no entanto, não é suficiente observar suas ações, é necessário também perguntar pela sua capacidade de conhecimento. Para Locke, os homens nascem livres e com direitos iguais: "nascemos livres na mesma medida em que nascemos racionais". O governo e o poder político são necessários, mas assim também é a liberdade do cidadão: e em um tipo de governo democrático, monarquia constitucional, um tipo de governo é possível no qual o povo ainda é livre.

Estado natural.

Em primeiro lugar, no estado natural não há governo como nas sociedades políticas, falta uma lei estabelecida, fixa e conhecida; mas os homens estão sujeitos à lei moral, que é a lei de Deus. No entanto, apesar de que a lei natural é clara e inteligível para todas as criaturas racionais, os homens, sem embargo, têm tendência a não considerá-la como obrigatória quando se refere a seus próprios casos particulares. Em segundo lugar, falta no estado de natureza um juiz público e imparcial, com autoridade para resolver os pleitos que surjam entre os homens, segundo a lei estabelecida. Em terceiro lugar, falta no estado de natureza um poder que respalde e dê força a uma causa justa. Aqueles que por injustiça cometam alguma ofensa, lhes é possível fazer que sua injustiça impere por meio da força.

No estado natural os homens seriam iguais, independentes e governados pela razão. Porque no estado de natureza (omitindo agora a liberdade que se tem para desfrutar de prazeres inocentes), um homem possui dois poderes: O primeiro é o de fazer tudo o que lhe pareça oportuno para a preservação de sí mesmo e dos outros, dentro do que lhe permite a lei da natureza; por virtude dessa lei, que é comum a todos eles, ele e o resto da humanidade são uma comunidade, constituem uma sociedade separada das demais criaturas. E si não fora pela corrupção e maldade de homens degenerados, não haveria necessidade de nenhuma outra sociedade, e não haveria necessidade de que os homens se separassem desta grande e natural comunidade para reunir-se, mediante acordos declarados, em associações pequenas e afastadas umas das outras. O outro poder que tem o homem no estado de natureza é o poder de castigar os crimes cometidos contra essa lei. A ambos poderes renuncia o homem quando se une a una sociedade política particular ou privada, si podemos chama-la assim, e se incorpora a um Estado separado do resto da humanidade.

Propriedade.

Locke argumenta que, quando os homens se multiplicaram a terra se tornou escassa, fizeram-se necessárias leis além da lei moral ou lei da natureza. Isto o leva a querer unir-se em sociedade com outros que tanto quanto ele tenha a intenção de preservar suas vidas, sua liberdade e suas posses, e a tudo isso Locke chama de "propriedade". Mas não é esta a causa imediata da constituição do governo. O direito à propriedade seria natural e anterior à sociedade civil, mas não inato. Sua origem residiria na relação concreta entre o homem e as coisas, através do processo do trabalho. O trabalho é a origem e justificação da propriedade. Se, graças a este o homem transforma as coisas, pensa Locke, o homem adquire o direito de propriedade.

Locke considera que, no seu estado natural, o homem é senhor de sua própria pessoa, e de suas coisas, e não está subordinado a ninguém. O resultado que está sujeito constantemente à incerteza e à ameaça dos demais pois no estado natural um é rei tanto quanto os demais, e como a maior parte dos homens não observa estritamente a equidade e a justiça, o desfrute da propriedade que um homem tem em uma situação dessas é sumamente inseguro.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Qua Jan 06, 2010 5:58 pm

Origem da sociedade.

Porque o homem teria criado a sociedade? Devido à ameaça ao gozo da propriedade e à conservação da liberdade e da igualdade. Para evitar a concretização dessas ameaças o homem teria abandonado o estado natural e criado a sociedade política. A sociedade civil tem origem quando a lei moral não é mais respeitada e o homem precisa exercer seu direito natural de punir os transgressores. Faz-se necessária então a administração da Lei conferida, por via de um compromisso social ou contrato a oficiais autorizados. Por traz destes postulados está a idéia da independência do indivíduo. No primeiro e no segundo "Tratado sobre o Governo Civil", Locke sustenta que o estado da sociedade e, consequentemente, o poder político, nascem de um pacto entre os homens. Antes desse acordo os homens viveriam em estado natural. Ao entrar em sociedade, os homens renunciam à igualdade, à liberdade e ao poder executivo que cada um teria no estado natural. Estado Natural.

A tese do pacto social fora defendida por Hobbes (1588-1679) mas para o fim oposto de justificar o absolutismo. Segundo Hobbes, no estado natural todos os homens teriam o destino de preservar a paz e a humanidade e evitar ferir os direitos dos outros (deveres que Locke considera próprio do estado natural). O pacto social primordial seria apenas um acordo entre indivíduos reunidos para empregar sua força coletiva na execução das leis naturais renunciando a executá-las pelas mãos de cada um. Seu objetivo seria a preservação da vida, da liberdade e da propriedade.

Origem do Governo.

Na segunda parte, ou Secundo Tratado, trata da questão da verdadeira origem do poder político. Aqui é que ele fala do contrato social enfatizando a bondade e racionalidade naturais do homem. Locke acreditava que a liberdade que o povo podia ter não era absoluta e que o povo cedia parte dessa liberdade a fim de manter a segurança. O Governo, diz Locke, é uma delegação; seu propósito é a segurança da pessoa e da propriedade dos cidadãos, e os indivíduo tem o direito de retirar sua confiança no governante quando este falha na sua tarefa. Por conseguinte, o grande e principal fim que leva a os homens a unir-se em estados e a por-se sob um governo, é a preservação de sua propriedade.

Na sociedade política, pelo contrato social, as leis aprovadas por mútuo consentimento de seus membros e aplicadas por juizes imparciais manteriam a harmonia geral entre os homens. Os homens transferem à comunidade social, através do pacto, o direito legislativo e executivo individuais. O soberano seria, assim, o agente executor da soberania do povo .O acordo que dá legitimidade ao governo é por sua vez fundamentado nos dois direitos do homem na sociedade natural: o de sua preservação e de seus bens e o de castigar a infração à lei natural. Neste acordo vê Locke o fundamento da legitimidade do poder legislativo e do poder executivo. Isto cria o desejo de cada renunciar ao poder de castigar que tem, e de entregá-lo a una sola pessoa para que o exerça entre eles; esto é o que os leva a conduzir-se segundo as regras que a comunidade, o aqueles que tenham sido por eles autorizados para tal propósito, ha acordado. E é aqui donde temos o direito original do poder legislativo e do executivo, assim como o dos governos das sociedades miasmas.

O homem renuncia ao primeiro poder que tem no estado natural, o de empregar a própria força para se defender, confiando essa tarefa ao governo. Esse poder é abandonado pelo homem para reger-se por leis feitas pela sociedade, na medida em que a preservação de si mesmo e do resto dessa sociedade o requeira; e essas leis da sociedade limitam em muitas coisas a liberdade que o homem tinha quando obedecia apenas à lei da natureza.

Em segundo lugar, o homem renuncia ao segundo poder que tem no estado natural, o de empregar a própria força, para castigar os infratores; confiando essa tarefa ao governo; renuncia por completo a sua poder de castigar, e emprega sua força natural -a qual podia empregar antes na execução da lei da natureza, tal e como ele quisera e com autoridade própria- para assistir ao poder executivo da sociedade, segundo a lei da mesma o requeira; pois ao encontrar-se agora em um novo Estado, no qual vai desfrutar de muitas comodidades derivadas do trabalho, da assistência e da associação de outros que laboram unidos na mesma comunidade, assim como da proteção que vai a receber de toda a força gerada por dita comunidade, ha de compartir com os outros algo de sua própria liberdade em a medida que lhe corresponda, contribuindo por si mesmo ao bem, a prosperidade e a seguridade da sociedade, segundo esta se o peça; o qual no é somente necessário, sino também justo, pois os demais membros da sociedade fazem o mesmo. No entanto, o contrato social não implica submissão ao governo.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Qui Jan 07, 2010 8:13 pm

Revolta.

Locke distingue o processo do contrato social criador da comunidade, do subsequente processo pelo qual a comunidade confia o poder político a um governo...embora contratualmente relacionados entre si, os integrantes do povo não estão contratualmente submetidos ao governo...o homem que confia poder é capaz de dizer quando se abusa do poder. A renúncia ao poder pessoal somente pode ser para o melhor, e por isso o poder do governo e legislatura constituída pelos homens no acordo social não pode ir alem do requerido para a finalidades desejadas. Mas ainda que os homens, ao entrar em sociedade, renunciam a igualdade, a liberdade e ao poder executivo que tinha no estado de natureza, pondo todo esto em manos da sociedade mesma para que o poder legislativo disponha de ele segundo o requeira o bem da sociedade, essa renuncia é feita por cada uno com a exclusiva intenção de preservar-se a si mesmo e de preservar sua liberdade e sua propriedade de una maneira melhor, já que no pode supor-se que criatura racional alguma cambie sua situação com o desejo de ir a pior.

E por isso, o poder da sociedade o legislatura constituída por eles, no pode supor-se que vá mais além do que pede o bem comum, sino que ha de obrigar-se a assegurar a propriedade de cada uno, protegendo-os a todos contra aquelas três deficiências que mencionávamos mais arriba e que faziam do estado de natureza una situação insegura e difícil. E assim, quem quer que ostente o poder legislativo supremo em um Estado está obrigado a governar segundo o que ditem as leis estabelecidas, promulgadas e conhecidas do povo e no mediante decisões imprevisíveis; ha de resolver os pleitos por juizes neutros e honestos, de acordo com ditas leis; e está obrigado a empregar a força da comunidade, exclusivamente, para que essas leis se executem dentro do país; e si se trata de relaciones com o estrangeiro, deve impedir o castigar as injurias que venham de fora, e proteger a comunidade contra incursões e invasões. E todo isto no deve estar dirigido a outro fim que não seja o de lograr a paz, a segurança e o bem do povo.

Locke é radicalmente contra a justificativa do absolutismo porque a doutrina da monarquia absolutista coloca o soberano e os súditos em guerra entre si. Porém considerava aceitável um povo substituir seu soberano ou governo se ele faltasse com sua parte do compromisso. Sempre que um governante confisca e destroi a propriedade do povo, ou o reduz à escravidão, esse governante se coloca em estado de guerra com o povo. A partir daí os súditos estão dispensados de qualquer obediência, e podem recorrer ao recurso comum, que Deus deu a todo homem contra a força e a violência. A opinião de Locke sobre a rebelião do povo é contrária à de Hobbes para quem o pacto social era a fonte do poder absoluto do monarca. Hobbes achava que a rebelião dos cidadãos contra as autoridades constituídas só se justifica quando os governantes renunciam a usar plenamente o poder absoluto do Estado. Contra essa tese, Locke justifica o direito de resistência e insurreição não pelo desuso mas pelo abuso do poder por parte das autoridades. Quando um governante se torna tirano, coloca-se em estado de guerra contra o povo .
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Sex Jan 08, 2010 6:07 pm

Economia

Nesta área Locke não trata da questão em seus pressupostos básicos, mas sim de questões circunstanciais sobre as quais desejou opinar: a questão das colônias americanas, da Companhia das Índias Orientais, da colonização da Irlanda, da rivalidade comercial com a Holanda e França, como também a questão da taxa de juros e a moeda. No seu Some Considerations of the Consequences of the Lowering of Interest and Raising the Value of Money ("Algumas considerações sobre as consequências da redução dos juros e aumento do valor da moeda", 1691), Locke aponta os prejuízos para o comércio que são causados quando a taxa de juros é fixada por lei, advogando que a taxa deve flutuar livremente. Para ele, o dinheiro faz girar a roda do comércio e seu curso não deveria ser dificultado. Quatro anos mais tarde, em seu novo "Further Considerations..." ele defendia sua posição contra a desvalorização da moeda pretendida pelo secretário do Tesouro (1695).

Religião

Locke era religioso e considerou tornar-se pastor, porém não era um puritano. Em seu pensamento religioso Locke foge da linha tradicional tanto quanto seus pensamentos contidos no "Ensaio". Não critica a Bíblia, porém examina livremente as escrituras com a mesma objetividade de sua filosofia. Com essa atitude chega a conclusões bastante simples, que são um marco na história da teologia liberal, basicamente em acordo com a fé cristã. Na sua concepção da natureza da religião, ele a descreve como consistindo quase inteiramente em uma atitude de fé intelectual. Em sua opinião, o povo necessita de assistência moral e não de dogmas teológicos ou inspiração intelectual. O propósito do tratado Resonableness of Christianity (1695) é o de lembrar aos homens das controvérsias das escolas teológicas até a simplicidade dos evangelhos como rega da vida humana.

Uma Igreja, de acordo com Locke, é uma sociedade voluntária e livre com o propósito de adorar a Deus. O valor da adoração depende da fé que a inspira. O estado não interfere exceto em relação aos católicos e ateus, os primeiros porque professam obediência a um príncipe estrangeiro e os segundos porque não se pode confiar neles em questões morais como a obediência ao contrato social. "O negócio do Estado, diz ele, não é garantir a verdade das opiniões mas a segurança da comunidade, e de modo muito particular a pessoa e os bens do homem. A Epistola de Tolerantia (Carta a respeito da tolerância) é um apelo à tolerância religiosa; foi publicada anonimamente em 1689, porém era um tema que Locke vinha trabalhando deste seus primeiros tempos em Oxford. Sua correspondência e um trabalho por ele escrito em 1667 mostram seu apoio pela tolerância religiosa, apesar de ter escrito, em 1669, dois outros considerados surpreendentemente conservadores. Sua posição assim se resumia: (1) Nenhum homem tem uma tão completa sabedoria e conhecimento, ele sustenta, que ele possa ditar a forma da religião de outro homem; (2) Cada indivíduo é um ser moral, responsável perante Deus, e isto pressupõe liberdade; e (3) Nenhuma coerção que é contrária à vontade do indivíduo pode assegurar mais que uma conformidade aparente. Seu Common-Place Book (caderno de anotações) indica que a questão já o preocupava mais de vinte anos antes da publicação da primeira "Carta". Se os magistrados deviam ou não ter sob sua alçada as questões religiosas era um assunto acidamente discutido, pela assembléia dos "Divinos" (téologos), ao tempo que era aluno em Westminster e quando entrou na Christ Church, o reitor era John Owen, líder dos independentes.

De interesse religioso são também três da obras que vieram a lume após sua morte: Comentários sobre as epístolas de São Paulo, e o Discourse on Miracles, tanto quanto um fragmento de Fourth Letter for Toleration e An Examination of Father Malebranche's Opinion of Seeing all things in God, e mais Remarks on Some of Mr Norris's Books.

Deus: A respeito da existência de Deus, sua prova está em nossa própria existência. Uma pessoa sabe intuitivamente que ela é algo que existe. Ela sabe que o nada não pode produzir qualquer coisa e então, se ela existe, esta é uma demonstração de que, por toda a eternidade antes dela, existiu aquele que a criou e criou todas as coisas. Esse argumento é do tipo cosmológico.
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MensagemAssunto: Re: JOHN LOCKE - Vida, época, filosofia e obras   Seg Jan 11, 2010 11:13 pm

Educação

Seu ponto de vista era de que a educação devia ter fins práticos, de preparar o homem para a vida, e não para o deleite intelectual e o êxito universitário. Os livros Thoughts concerning Education ("Pensamentos sobre a Educação") e Conduct of the Understanding ("Condução do Conhecimento") tem lugar importante na história da filosofia educacional. Neles Locke enfatizou o valor da experiência no desenvolvimento da mente, porém desconsidera radicalmente as diferenças genéticas.

Principais obras:

Letter on Toleration (1689)
Second Letter on Toleration (1690)
Two Treatises of Government (1690)
Essay concerning Human Understanding (1690)
Some Considerations of the Consequences of Lowering of Interest, and Raising the Value of Money (1691)
Third Letter on Toleration (1692)
Some Thoughts concerning Education (1693)
Further Considerations concerning Raising the Value of Money (1693)
The Reasonableness of Christianity (1695)
A Vindication of the Reasonableness of Christianity (1695)
A Second Vindication of the Reasonableness of Christianity (1695)
A Letter to the Bishop of Worcester (1697)
Discourse on Miracles (posthumous)
Fourth Letter for Toleration (posthumous)
An Examination of Father Malebranche's Opinion of Seeing all things in God (posthumous)
Remarks on Some of Mr Norris's Books (posthumous)
The Conduct of the Understanding (posthumous) um pequeno tratado originalmente destinado a ser um capítulo do "Ensaio".
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