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 NUNO MARQUES PEREIRA - Vida e Obra

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Anarca



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MensagemAssunto: NUNO MARQUES PEREIRA - Vida e Obra   Qui Out 01, 2009 10:45 pm

INTRODUÇÃO.

Filósofo moralista que viveu no Brasil na segunda metade do século XVII e primeira metade do século XVIII, Nuno Marques Pereira foi autor de um livro muito lido na época colonial, intitulado Compêndio Narrativo do Peregrino da América, em que se tratam vários discursos espirituais e morais, com muitas advertências e documentos contra os abusos que se acham introduzidos pela malícia diabólica no Estado do Brasil. Oferecido a Nossa Senhora da Vitória, Imperatriz do céu, Rainha do mundo e Senhora da Piedade, Mãe de Deus.
A edição geralmente disponível é Compêndio Narrativo do Peregrino da América, 6a. edição completada com a 2a. parte, uma publicação da Academia Brasileira de Letras, datada de 1939. A edição, das duas partes da obra reunidas em um só volume, contem estudos e notas por Varnhagen, Leite de Vasconcelos, Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Pedro Calmon.

VIDA:

Afrânio Peixoto, ao fazer a apresentação da obra, nota que os autores divergem quanto a ser Nuno Marques Pereira nascido no Brasil ou em Portugal. Diogo Barbosa Machado, na Biblioteca Lusitana, diz que era "natural da Villa de Cairú, distante quatorze léguas da Cidade da Bahia de Todos os Santos, Capital da América Portuguesa". Porém, sua grande erudição ele não poderia tê-la adquirido no Brasil. Com certeza estudou em Portugal e muito provavelmente teria lá nascido, pois faz crer que seja estrangeiro não só por se qualificar como Peregrino, título de seu livro, como por afirmar: "Não merece pouca estimação, o que, desprezando os mimos e regalos de sua Pátria, busca as alheias, para nelas se qualificar com mais largas experiências".
O livro todo é a narrativa da viagem do Peregrino pelo caminho das Minas.

Diz o Peregrino que se deliberou a ir às minas de São Paulo (atual estado de Minas Gerais), curioso devido à fama de suas riquezas. Em nota ao fim do Capítulo I o comentarista Pedro Calmon sugere que Nuno Pereira que teria ido às Minas como fuga em razão de sua condenação pelo juiz de Camamu, em 1704. Cita Calmon, em nota à p. 36, vol. I, que se descobriu uma carta, na Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional, na qual o Governador geral do Brasil, D. Rodrigo da Costa, responde ao Juiz da Vila de Camamu, no litoral da Bahia, dizendo haver recebido sua comunicação. Nesta o juiz havia lhe comunicado que três pessoas haveriam de procurá-lo para buscar o perdão de seus crimes. Um dos três nomes é o de Nuno Marques Pereira. O governador diz estar prevenido mas que ainda não o haviam procurado.

Me parece, no entanto, que esta viagem pode ter sido apenas fantástica. O Peregrino não se refere a nenhum lugar do Caminho da Bahia para as Minas, o que me faz crer que toda a sua jornada foi imaginária. Além de dizer que embarcou para Cachoeira, que era o início do Caminho, e que de lá foi ao Colégio de Belém onde visita o túmulo do Arcebispo da Bahia, não fala mais senão de campinas, matos e serras, sem lhes dar nomes ou sugerir qualquer semelhança com a topografia e toponímia do Caminho Velho.

A carta transcrita por Calmon, de fins de 1704, não indica quais delitos Nuno Marques teria praticado. Permite conjecturar se foi ou não perdoado, e se o delito praticado o teria levado a uma espécie de catarse através de sua obra moralista. A carta, pelo menos, mostra que residiu em Camamu e que aquele seria o ano em que deixou a vila, mais provavelmente de mudança para Salvador.


Última edição por Anarca em Qua Out 07, 2009 4:36 pm, editado 1 vez(es)
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: NUNO MARQUES PEREIRA - Vida e Obra   Ter Out 06, 2009 4:54 pm

Nuno Marques Pereira não teve recursos para publicar seu livro, o que só poderia ser feito em Portugal, e a custos certamente elevados. Solicitou o financiamento da obra a uma figura poderosa e rica, o português Mestre de Campo Manuel Nunes Viana, residente nas Minas, importante criador de gado e minerador, chefe político dos portugueses na disputa com os mestiços paulistas pelo controle das Minas de Ouro.

Aquele potentado, grande latifundiário e líder político, que praticamente governou Minas Gerais paralelamente com os governadores nas primeiras décadas da época do ouro, foi preso em 1725 pelo vice-rei Vasco Fernandes César de Meneses em a seu pedido, lhe foi concedida por menagem a cidade da Bahia. Deve ter sido motivo de grande alvoroço sua chegada à cidade e de onde seguiria em julho daquele mesmo para Lisboa, autorizado que estava pelo Rei a ir a Portugal internar umas filhas em um Convento.

Portanto, Manuel Nunes Viana estava em Salvador em 28 de junho de 1725, e prestes a viajar para Lisboa, quando Marques Pereira lhe solicita patrocinar a edição do seu livro e possivelmente avistou-se pessoalmente com ele e deve lhe haver entregue em mãos a carta transcrita no livro, a qual data de 28 de junho, apenas alguns dias antes da partida do Mestre de Campo. Este me parece outro indício de que Nuno Marques Pereira não esteve nas Minas, o quanto só tardiamente lembrou-se de recorrer à ajuda de Manuel Nunes Viana.

Manuel Nunes com certeza levou consigo para Lisboa o manuscrito do volumoso livro de Nuno Marques Pereira, o qual apareceu publicado três anos depois. O livro teve cinco edições sucessivas, em 1728, 1731, 1752, 1760 e 1765.

Aparentemente a obra, de grande tiragem, rendeu pouco ao seu autor, que ficou sem recursos para publicar a segunda parte, que por muitos anos foi copiada manualmente por interessados em lê-la e divulgá-la, do que resultaram muitos erros e muitas variações do texto original, segundo se lê nas notas introdutórias da edição da Academia. Em sua nota Preliminar à edição de 1939, Afrânio Peixoto não tem dúvidas em aceitar que a segunda parte é inédita. Diz que o manuscrito dessa segunda parte, apógrafo, inédito, que se tornou o II tomo da edição da Academia feita em 1939, foi buscada por João Lúcio de Azevedo na Biblioteca Nacional de Lisboa, a pedido seu. Pedro Calmon se ofereceu para fazer as anotações ao final dos capítulos, Rodolfo Garcia fez a nota biográfica.

No entanto essa Segunda Parte contem uma carta de agradecimento de Nuno Pereira ao rico cidadão da Bahia, Miguel de Passos Dias, que teria sido o patrocinador da publicação da segunda parte, como fora a primeira patrocinada por Manuel Nunes Viana, era alto comerciante, e dedicado também a afazeres sociais. Foi duas vezes vereador e, irmão desde 1717, foi por um ano (1730-1731) Provedor da Santa Casa da Misericórdia. Era informante do Santo Ofício ("familiar"), cavaleiro da Ordem de S. Tiago, e, em 1731, ministro da Ordem Terceira de S. Francisco. Esses títulos deveriam indicar que era branco e cristão velho, sem raça de judeu, porém naqueles anos, quando se tratava de comerciante, com muita probabilidade este seria da terceira ou quarta geração de cristãos novos, o que ninguém buscava averiguar muito a fundo, quando se tratava de benfeitor rico.
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: NUNO MARQUES PEREIRA - Vida e Obra   Qua Out 07, 2009 4:34 pm

Nuno Pereira não foi sacerdote, mas homem muito piedoso. Ele próprio afirma: "Bem é verdade, que me dirão muitos, que escrever, e ainda em matérias espirituais, só incumbe a seus professores, e que eu o não sou" (p. 6, vol. I). Diz também que estudou direito, mas não se graduou. Também não se descobriu que fosse professor de filosofia na Bahia. Teria vivido pelo menos até 1733, data da parte inédita do Peregrino da América.

LIVRO:

Seu livro conta as reflexões e aconselhamento que um peregrino faz aos moradores ao longo do Caminho da Bahia que desde Cachoeira seguia para o sudoeste, levando às Minas do ouro. O peregrino segue de pouso em pouso, hospedando-se em mosteiros, fazendas e hospedarias dos sesmeiros ao longo do caminho, aproveitando para doutrinar sua filosofia conforme se apresentavam oportunidades em torno de casos, histórias e acontecimentos locais. Já salientamos os indícios que nos parecem bastante seguros de que tal viagem foi apenas imaginada. A obra é essencialmente de moral social e ética cristã. A razão da peregrinação do velho é o interesse em analisar as causas das perturbações políticas que nessa época agitava a capitania de São Paulo e Minas, em torno da disputa pelas minas, que os judeus portugueses cristãos novos invadiam e dominavam, em detrimento dos paulistas, os descobridores dessas minas. Essa disputa havia motivado a chamada Guerra dos Emboabas, que o Peregrino da América condena.

A erudição de Nuno Marques Pereira transparece da abundância de citações por toda a sua obra. Seu livro mostra que Nuno Marques Pereira conhecia profundamente a filosofia clássica, pelas citações precisas que faz de Aristóteles, Platão, Diógenes, Cícero e outros pagãos, alem dos cristãos Santo Ambrósio, São Tomás, Santo Agostinho, e dezenas de outros padres e santos da Igreja, e referir-se inúmeros personagens da história grega, romana e portuguesa paralelamente. Muitos nomes citados por Nuno são hoje desconhecidos e de difícil identificação no cenário histórico ou filosófico. Aí está, aliás, uma fonte de objetos de pesquisa que poderá eventualmente revelar algum erudito e autor esquecido.

Nuno conhecia com certeza o Utopia (1617), de São Tomas More (1478-1535), chanceler da Inglaterra reinando Henrique VIII, no qual parece inspirar-se. Pelo menos o início do Utopia e do Peregrino da América são muito semelhantes em estilo. O herói do Utopia é um sábio viajante, Rafael Hythlodaye, com o qual More e um amigo se deparam numa praça frente à catedral, na Antuérpia. Cenário parecido cria Nunes Pereira para o encontro com seu personagem, no Capítulo I do primeiro Volume. Diz que se achava na praça junto à Igreja de Nossa Senhora da Vitória, numa tarde de verão, quando se depara com um venerável Ancião que dirigia seus passos para o mesmo lugar, onde ele se achava.

Efetivamente, no Capítulo XXVIII, último da primeira parte, o autor mostra conhecer o drama de Tomas More, aludindo às instancias da mulher daquele filósofo e mártir católico a que se retratasse para escapar ao cadafalso e este diz em resposta que não trocaria os poucos anos que lhe restariam de vida na terra pela recompensa em guardar a fé, na eternidade com Deus.
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MensagemAssunto: Re: NUNO MARQUES PEREIRA - Vida e Obra   Sab Out 10, 2009 11:52 am

Nuno Marques Pereira não teve recursos para publicar seu livro, o que só poderia ser feito em Portugal, e a custos certamente elevados. Solicitou o financiamento da obra a uma figura poderosa e rica, o português Mestre de Campo Manuel Nunes Viana, residente nas Minas, importante criador de gado e minerador, chefe político dos portugueses na disputa com os mestiços paulistas pelo controle das Minas de Ouro.

Aquele potentado, grande latifundiário e líder político, que praticamente governou Minas Gerais paralelamente com os governadores nas primeiras décadas da época do ouro, foi preso em 1725 pelo vice-rei Vasco Fernandes César de Meneses em a seu pedido, lhe foi concedida por menagem a cidade da Bahia. Deve ter sido motivo de grande alvoroço sua chegada à cidade e de onde seguiria em julho daquele mesmo para Lisboa, autorizado que estava pelo Rei a ir a Portugal internar umas filhas em um Convento.

Portanto, Manuel Nunes Viana estava em Salvador em 28 de junho de 1725, e prestes a viajar para Lisboa, quando Marques Pereira lhe solicita patrocinar a edição do seu livro e possivelmente avistou-se pessoalmente com ele e deve lhe haver entregue em mãos a carta transcrita no livro, a qual data de 28 de junho, apenas alguns dias antes da partida do Mestre de Campo. Este me parece outro indício de que Nuno Marques Pereira não esteve nas Minas, o quanto só tardiamente lembrou-se de recorrer à ajuda de Manuel Nunes Viana.

Manuel Nunes com certeza levou consigo para Lisboa o manuscrito do volumoso livro de Nuno Marques Pereira, o qual apareceu publicado três anos depois. O livro teve cinco edições sucessivas, em 1728, 1731, 1752, 1760 e 1765.

Aparentemente a obra, de grande tiragem, rendeu pouco ao seu autor, que ficou sem recursos para publicar a segunda parte, que por muitos anos foi copiada manualmente por interessados em lê-la e divulgá-la, do que resultaram muitos erros e muitas variações do texto original, segundo se lê nas notas introdutórias da edição da Academia. Em sua nota Preliminar à edição de 1939, Afrânio Peixoto não tem dúvidas em aceitar que a segunda parte é inédita. Diz que o manuscrito dessa segunda parte, apógrafo, inédito, que se tornou o II tomo da edição da Academia feita em 1939, foi buscada por João Lúcio de Azevedo na Biblioteca Nacional de Lisboa, a pedido seu. Pedro Calmon se ofereceu para fazer as anotações ao final dos capítulos, Rodolfo Garcia fez a nota biográfica.

No entanto essa Segunda Parte contem uma carta de agradecimento de Nuno Pereira ao rico cidadão da Bahia, Miguel de Passos Dias, que teria sido o patrocinador da publicação da segunda parte, como fora a primeira patrocinada por Manuel Nunes Viana, era alto comerciante, e dedicado também a afazeres sociais. Foi duas vezes vereador e, irmão desde 1717, foi por um ano (1730-1731) Provedor da Santa Casa da Misericórdia. Era informante do Santo Ofício ("familiar"), cavaleiro da Ordem de S. Tiago, e, em 1731, ministro da Ordem Terceira de S. Francisco. Esses títulos deveriam indicar que era branco e cristão velho, sem raça de judeu, porém naqueles anos, quando se tratava de comerciante, com muita probabilidade este seria da terceira ou quarta geração de cristãos novos, o que ninguém buscava averiguar muito a fundo, quando se tratava de benfeitor rico.
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MensagemAssunto: Re: NUNO MARQUES PEREIRA - Vida e Obra   Dom Out 11, 2009 3:23 pm

Nuno Pereira não foi sacerdote, mas homem muito piedoso. Ele próprio afirma: "Bem é verdade, que me dirão muitos, que escrever, e ainda em matérias espirituais, só incumbe a seus professores, e que eu o não sou" (p. 6, vol. I). Diz também que estudou direito, mas não se graduou. Também não se descobriu que fosse professor de filosofia na Bahia. Teria vivido pelo menos até 1733, data da parte inédita do Peregrino da América.

LIVRO.

Seu livro conta as reflexões e aconselhamento que um peregrino faz aos moradores ao longo do Caminho da Bahia que desde Cachoeira seguia para o sudoeste, levando às Minas do ouro. O peregrino segue de pouso em pouso, hospedando-se em mosteiros, fazendas e hospedarias dos sesmeiros ao longo do caminho, aproveitando para doutrinar sua filosofia conforme se apresentavam oportunidades em torno de casos, histórias e acontecimentos locais. Já salientamos os indícios que nos parecem bastante seguros de que tal viagem foi apenas imaginada. A obra é essencialmente de moral social e ética cristã.

A razão da peregrinação do velho é o interesse em analisar as causas das perturbações políticas que nessa época agitava a capitania de São Paulo e Minas, em torno da disputa pelas minas, que os judeus portugueses cristãos novos invadiam e dominavam, em detrimento dos paulistas, os descobridores dessas minas. Essa disputa havia motivado a chamada Guerra dos Emboabas, que o Peregrino da América condena.

A erudição de Nuno Marques Pereira transparece da abundância de citações por toda a sua obra. Seu livro mostra que Nuno Marques Pereira conhecia profundamente a filosofia clássica, pelas citações precisas que faz de Aristóteles, Platão, Diógenes, Cícero e outros pagãos, alem dos cristãos Santo Ambrósio, São Tomás, Santo Agostinho, e dezenas de outros padres e santos da Igreja, e referir-se inúmeros personagens da história grega, romana e portuguesa paralelamente. Muitos nomes citados por Nuno são hoje desconhecidos e de difícil identificação no cenário histórico ou filosófico. Aí está, aliás, uma fonte de objetos de pesquisa que poderá eventualmente revelar algum erudito e autor esquecido.

Nuno conhecia com certeza o Utopia (1617), de São Tomas More (1478-1535), chanceler da Inglaterra reinando Henrique VIII, no qual parece inspirar-se. Pelo menos o início do Utopia e do Peregrino da América são muito semelhantes em estilo. O herói do Utopia é um sábio viajante, Rafael Hythlodaye, com o qual More e um amigo se deparam numa praça frente à catedral, na Antuérpia. Cenário parecido cria Nunes Pereira para o encontro com seu personagem, no Capítulo I do primeiro Volume. Diz que se achava na praça junto à Igreja de Nossa Senhora da Vitória, numa tarde de verão, quando se depara com um venerável Ancião que dirigia seus passos para o mesmo lugar, onde ele se achava.

Efectivamente, no Capítulo XXVIII, último da primeira parte, o autor mostra conhecer o drama de Tomas More, aludindo às instancias da mulher daquele filósofo e mártir católico a que se retratasse para escapar ao cadafalso e este diz em resposta que não trocaria os poucos anos que lhe restariam de vida na terra pela recompensa em guardar a fé, na eternidade com Deus.
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MensagemAssunto: Re: NUNO MARQUES PEREIRA - Vida e Obra   Ter Out 13, 2009 5:57 pm

Declarando-se um peregrino, diz ao Ancião o quanto merece louvor o que, desprezando o conforto em sua Pátria, peregrina por terras alheias em busca de mais largas experiências: "por cuja razão é o sair da Pátria, o que faz aos homens mais capazes, e idôneos para mui grandes empresas, e suficientes para tudo; como o tem feito a tantos Varões ilustres". E logo aí aproveita para dar uma lição de ética: "Porém, há de ser com tenção de não mudar só de lugar, senão também de costumes; porque é certo, que quem peregrina acompanhado de seus vícios, mais valera não haver saído; pois tornará mais perdido, que aproveitado: porque as enfermidades da alma não se curam com a mudança do lugar. O Peregrino vai por onde há de achar cada dia novos costumes, e os deve ser, e aprovar; e não repreendê-los: pois é mais razão acomodar-se ao uso da terra, que pertender (sic), e querer trazer aos mais ao costume da sua Pátria. Há de considerar que vai obedecer às leis, que achar estabelecidas; e não a dar regra aos mais: e que vai aprender, e não a ensinar. E peregrinando assim, se qualificará em um perfeito Heróe" (p.22-23, vol.I)

No Capítulo II inicia seu discurso moralista. Dá a ambição como irmã da Soberba, e ambas produzidas da Inveja. Exemplifica com o Imperador Cômodo, Calígula e Nero, e lembra que Dario pode ter sido o primeiro Rei a cunhar dinheiro. Cita Sêneca: "as riquezas fazem aos homens altivos, soberbos e invejosos: e que são poucos os Ricos e Grandes do mundo que não tenham estes efeitos consigo". Nos tempos modernos cita a Robert, Conde de Essex, executado por suas ambições políticas, e que fora amigo de Francis Bacon.

Capítulo III. Aqui dá vários exemplos históricos, sobre quantos souberam ser virtuosos, apesar de terem riqueza e poder, e diz que o ouro tem valor conforme seu dono: "E reparai, que sendo só de uma mesma espécie este metal, toma os efeitos das pessoas, em cujo poder se acha". Compara o avarento ao porco: "O cevado, enquanto vivo, para nenhuma coisa serve; e só trata de comer, e engordar: o que se não acha em outros animais, como largamente tratam vários Autores, e com especialidade Jerônimo Cortez no seu Tratado dos Animais, assim domésticos, como silvestre, e ainda voláteis. Porque vemos, que o boi trabalha, o cavalo carrega, o carneiro dá lã, a cabra dá leite, o cão caça, o gato limpa a casa: e finalmente não há animal, que não tenha o seu ministério. Porém, o Cevado, só depois de morto se aproveitam dele: come-se-lhe a carne, guarda-se-lhe a banha, apanha-se-lhe o sangue, não se lhe perdem os miúdos, e finalmente tudo se lhe aproveita. Assim também o rico avarento: em quanto vivo, para nada vale; tanto que morre, para todos serve. Aparece o dinheiro, que tinha escondido, e talvez pelo ter furtado: come o parente, aproveita-se o testamenteiro, pagam-se os clérigos, remedeiam-se os pobres, satisfaz-se aos que trabalharam no Funeral: e enfim todos se aproveitam, porque em sua vida a ninguém prestou."
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MensagemAssunto: Re: NUNO MARQUES PEREIRA - Vida e Obra   Qua Out 14, 2009 4:45 pm

No Capítulo IV, discorre sobre formas de pobreza e explica ao Ancião porque, se a Pobreza é tão louvada, e de todos acreditada por virtude, como fogem muitos dela. A Justiça, "vista de perto, ofende; porém assentando-se no tribunal da razão, quem a quiser ver, reconhecerá suas excelências", e assim também é com a Pobreza.
O Capítulo V é dedicado à memória de D. Fr. Manuel da Ressurreição, Arcebispo da Bahia, enterrado no Seminário de Belém, próximo a Cachoeira, em 1691. Diz ter lembrança do Arcebispo, provavelmente de quando aquele prelado esteve em Camamu, em sua jornada de visita às vilas do sul da Bahia, "por ásperos campos e rios caudalosos", tendo permanecido mais dias naquela vila que nas demais "pelo maior concurso da gente, e ter mais que fazer na sua visita, e Missão".

Cap. VI dá uma relação dos Bispos e Arcebispos da Bahia, até o seu tempo.

Os Capítulo de VII a X são eminentemente devocionais; no VIII fala brevemente da criação do homem segundo a Bíblia e, a partir do XI, apresenta a seqüência de comentários relativos aos 10 mandamentos.

No Capítulo XII do primeiro volume cita Rocafuli a respeito dos tipos de juramento aceitos nos tribunais e analisa os 3 principais. Fala de certas práticas dos tribunais a respeito de condenações por dívidas. Faz sobre o assunto abundantes citações de Juristas e filósofos. Mostra ter conhecimentos jurídicos, o que está de acordo com a afirmação de Rodolfo Garcia, em sua nota biográfica ao início do Volume I, de que "Estudara Direito, mas não completara o curso e não se graduara, - é ele mesmo quem o diz".

Sobre a natureza humana afirma: "A nossa natureza, de uma composição, que nem sempre pode estar em um ser: motivo (além do mais) porque chamam ao homem mundo abreviado. Porque assim como sucede estar o mundo em umas ocasiões com serenidade, em outras tempestuoso, já ventando, já chovendo, e enfim noutras com relâmpagos e trovões, assim também o homem em uma ocasião se acha alegre, em outra triste, já gritando, já chorando, e mal dizendo-se" (p.137).

Cita Dom Francisco Manuel, a quem chama "o nosso Séneca de Portugal" que havia dito que sempre desejara aos seus inimigos tres males: pedir, ainda que lhe dessem; jogar, ainda que ganhassem, e pleitear, ainda que vencessem (p.149, Vol.I).

No Capítulo XIII, a respeito dos escravos adverte: "(aos domingos) vede se assistem aos Ofícios Divinos com aquela decência, que são obrigados, e trazei-os outra vez em vossa companhia. E do meio dia para a noite, deixai-os ocupar em alguma coisa, que nunca lhes faltará em que se entretenham. Dai-lhes algumas férias no ano, em que totalmente cesse o trabalho, comam, folguem e se alegrem, para que cobrem alento e desejo de continuarem no serviço; e trazei-os sempre diante dos olhos, que o prêmio e o castigo são dois eixos em que se move o acertado governo"(p. 156, Vol.I)
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MensagemAssunto: Re: NUNO MARQUES PEREIRA - Vida e Obra   Qui Out 15, 2009 2:19 pm

No Capítulo XIV, sobre os extremos das emoções diz: Primeiramente, haveis de saber que as causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários. A dor faz gritar, mas se é grande, faz emudecer; a luz faz ver, mas se é excessiva, cega: a alegria alenta, mas se é estupenda, mata; o amor pode ser extremoso que passa loucuras; o ódio poderá ser tão extraordinário, que cometa absurdos; as espécies se fazem venenos e matam, tanto que passam dos quatro graus de quente a frio. Esta é a razão porque mata o grande pesar ou a demasiada alegria." E continua:
"Mas, falando agora dos efeitos do pesar: sabeis que o homem tem alma racional, que os outro animais não têm. Dela resultam a reminicência, memória, entendimento, razão e vontade, situadas na cabeça, membro mais nobre do corpo, sítio e morada da alma racional. Pelo entendimento entende e sente os males e danos ressentes; pela memória, os males passados; pela razão espera e teme os males futuros, e pela vontade aborrece; estes três gêneros de males, presentes, passados e futuros, ama, deseja, teme e aborrece" (p.170, Vol.I).

No Capítulo XVI afirma: "Pode um homem matar em sua fiel defesa, ou por algum outro incidente, que poderá ter desculpa. Pode furtar em tão extrema necessidade, que não seja pecado, porque no tempo da necessidade extrema todos os bens são comuns" (p.218, Vol.I).

Sobre a paixão, define seu ponto fraco: "Vamos ao remédio, que me pedistes. Haveis de saber, que para sarar do amor e dessa enfermidade (a paixão) é necessário haver ausência. Muitas doenças se curam só com a mudança do ar: porém, a do amor só se cura com a (mudança) da terra. É o amor, como a lua, que em havendo terra (distância) entre meio, logo se eclipsa" (p. 233, Vol.I).

Até o Capítulo XXV os temas são religiosos, relativos a penitências respectivas a transgressões aos dez mandamentos.

No Capítulo XXVI, que é o antepenúltimo, a narração do peregrino dá lugar à narração do personagem Pastrano, o qual na cidade da Bahia havia conhecido o Sr. Desengano, a Sra. Verdade e seus escravos Prontidão e Diligência. Neste capítulo faz uma crítica moral não de casos pessoais, mas das profissões (meirinhos, juízes, escrivães, mercadores, etc.).

O capítulo XXVII é a descrição do terremoto de Lima de outubro de 1687. E no capítulo final da primeira parte, o ancião que havia dialogado com o peregrino ao longo dos primeiros capítulos, agradece a "narração e conversação moral e ascética" que tiveram aqueles dias e dá-se a conhecer como "O Tempo bem empregado" (Bem empregado em ouvir o Peregrino, por certo).

Volume II.

A segunda parte do Peregrino são capítulos dedicados ao Palácio da saúde, Casa da música, Casa da poesia, Casa da matemática, em que mostra erudição em relação à astronomia em seu tempo; Casa da filosofia no cap. VII, na verdade dedicado à medicina, farmácia (boticas) e barbeiros (cirurgiões), seguindo-se os derradeiros capítulos tratando das enfermidades, da morte, do juízo, do inferno e do paraíso.

Ao final da segunda parte o Peregrino promete escrever um terceiro volume de suas reflexões, condicionando a promessa a que lhe apareça outra vez o seu personagem "Tempo bem empregado", dizendo: "E por agora dobrarei aqui a folha desta escrita, até que suceda tornar outra vez o Tempo bem empregado, para continuarmos na terceira parte deste livro, quando assim o permita Deus."
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