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 ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS

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Anarca



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MensagemAssunto: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Seg Set 28, 2009 11:51 pm

ALLAN KARDEC

FILOSOFIA ESPIRITUALISTA

O LIVRO DOS ESPÍRITOS


Contendo os Princípios da Doutrina Espírita sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da humanidade (segundo o ensinamento dos Espíritos superiores, através de diversos médiuns, recebidos e ordenados por Allan Kardec.)
Tradução de
J. HERCULANO PIRES
Revista e anotada pelo tradutor
Edições
FEESP

O LIVRO DOS ESPÍRITOS
8ª Edição - Março de 1995 - Do 61º ao 70º Milheiros
FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Livraria e Editora Espírita "Humberto de Campos"
Rua Santo Amaro, 372, Bela Vista, São Paulo, SP
CEP 01315-001, Tel.: (O11) 607-5544 - Fax: (O11) 604-5245
CGC 61.669.966/0003-72 - Insc. Estadual 112.061.126.114
ÁREA DE DIVULGAÇÃO
Diretor: Cáio Atanácios Petro Salama
Secretaria Gráfica: Rosana Moreira da Silva
Os Direitos Autorais desta edição foram graciosamente cedidos à
Federação Espírita do Estado de São Paulo.

NOTA:

É com satisfação que a FEESP lega ao público esta edição da magistral obra do Codificador, em cuidadosa tradução elaborada pelo Prof. J. Herculano Pires, esperando que ela alcance a mesma penetração colimada por todas as demais que constituem o chamado pentateuco Kardequiano.

"O Livro dos Espíritos" deu autêntica guinada em todos os conceitos que até então se prevaleciam, no tocante à realidade do mundo dos Espíritos, e principalmente no sempre momentoso tema da pré-existência e persistência da alma. Desta forma, a exemplo do que afirmou Jesus Cristo, quando proclamou que não vinha destruir a lei mas dar-lhe cumprimento, o papel desempenhado pelo "O Livro dos Espíritos", é de ajudar as demais religiões a consolidar a crença na imortalidade da alma, representando assim poderosa barreira a impedir a avassaladora marcha do materialismo desintegrador.

O Espiritismo veio oferecer o mais lógico conjunto doutrinário que tem surgido, mas, ainda assim, tudo o que sustenta em sua estrutura está, à saciedade, comprovado pela experimentação metódica de grandes sábios, de projeção mundial e também por tudo aquilo que está contido no Evangelho.

O majestoso edifício de suas verdades irretorquíveis, alicerça-se sobre a base granítica da ciência. Antes de tudo a Doutrina dos Espíritos faz um apelo à razão e daí o seu progresso assombroso como nenhuma outra pode alcançar, no mesmo espaço de tempo, através de toda a história do pensamento humano.

A razão de ser dos sistemas filosóficos e das religiões consiste em propiciar uma explicação lógica sobre a vida e o seu objetivo e, conseqüentemente, prescrever o remédio necessário à dor que nasce em todas as almas e orvalha de lágrimas, de forma indiscriminada, as faces dos pobres e dos potentados.

A Terceira Revelação, consubstanciada nas obras da Codificação Kardequiana mostra, de um modo claro, a origem do sofrimento; desvenda o mistério da vida e da desencarnação; assegura o progresso de todos os Espíritos dentro do tempo e do espaço, sob a égide das leis eternas e imutáveis do Criador de todas as coisas.

Mais do que nunca, pois, os ensinamentos contidos nessa obra ajudarão os homens a encontrarem o seu verdadeiro caminho e, os exemplos vivos com os quais eles deparam no perlustrar das páginas; têm propiciado, a milhões e milhões de pessoas, a prova irretorquível da sobrevivência da alma. Os testemunhos de muitos nos dão conta de que uma quantidade infinda daqueles que tiveram a ventura de conhecer o Espiritismo, tem trocado o caminho íngreme e obscuro da descrença, pela estrada florida da crença fundamentada sobre a razão e a lógica.

Esperamos, assim, que o contributo da Federação Espírita do Estado de S. Paulo, lançando mais uma edição desta majestosa obra, seja visto como mais uma fonte geratriz de consolações e de orientação, atendendo às ponderações do Espírito de Verdade, quando disse que o papel do Espiritismo é de evolver e revolucionar o mundo inteiro.

A Editora
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Seg Set 28, 2009 11:55 pm

EXPLICAÇÃO

Com este livro surgiu no mundo o Espiritismo. Sua primeira edição foi lançada a 18 de abril de 1857, em Paris, pelo editor E. Dentu, estabelecido no Palais Royal, Galérie d'Orleans, 13. Três novidades, à maneira das tríades druídicas, apareciam com este livro; a DOUTRINA ESPÍRITA e a palavra ESPIRITISMO, que a designava; o nome ALLAN KARDEC, que provinha do passado celta das Gálias.

A primeira novidade era apresentada como antiga, em virtude de representar a eterna realidade espiritual, servindo de fundamento a todas as religiões de todos os tempos: a Doutrina Espírita. Era, entretanto, a primeira vez que aparecia na sua inteireza, graças à revelação do Espírito da Verdade prometida pelo Cristo. A segunda, a palavra Espiritismo, era um neologismo criado por Kardec e desde aquele momento integrado na língua francesa e nos demais idiomas do mundo. A terceira representava a ressurreição do nome de um sacerdote druída desconhecido.

A maneira por que o livro fora escrito era também inteiramente nova. O prof. Denizard Hippolyte Léon Rivail fizera as perguntas que eram respondidas pelos Espíritos, sob a direção do Espírito da Verdade, através da cestinha-de-bico. Psicografia indireta. Os médiuns, duas meninas, Caroline Baudin, de 16 anos e, Julie Baudin, de 14, colocavam as mãos nas bordas da cesta e o lápis (o bico) escrevia numa lousa. Pelo mesmo processo o livro foi revisado pelo Espírito da Verdade através de outra menina, a srta. Japhet. Outros médiuns foram posteriormente consultados e Kardec informa, em Obras Póstumas: "Foi dessa maneira que mais de dez médiuns prestaram concurso a esse trabalho".

Este livro é portanto, o resultado de um trabalho coletivo e conjugado entre o Céu e a Terra. O prof. Denizard não o publicou com o seu nome ilustre de pedagogo e cientista, mas com o nome obscuro de Allan Kardec, que havia tido entre os druídas, na encarnação em que se preparara ativamente para a missão espírita. O nome obscuro suplantou o nome ilustre, pois representava na Terra a Falange do Consolador. Esta Falange se constituía dos Espíritos Reveladores, sob a orientação do Espírito da Verdade e, dos pioneiros encarnados, com Allan Kardec à frente.

A 16 de março de 1860 foi publicada a segunda edição deste livro, inteiramente revisto, reestruturado e aumentado por Kardec sob orientação do Espírito da Verdade, que desde a elaboração da primeira edição já o avisara de que nem tudo podia ser feito naquela.

Assim, a primeira edição foi o primeiro impacto da Doutrina Espírita no mundo, preparando ambiente para a segunda que a completaria. Toda a Doutrina está contida neste livro, de forma sintética e, foi posteriormente desenvolvida nos demais volumes da Codificação.

Escrito na forma dialogada da Filosofia Clássica, em linguagem clara e simples, para divulgação popular, este livro é um verdadeiro tratado filosófico que começa pela Metafísica, desenvolvendo em novas perspectivas a Ontologia, a Sociologia, a Psicologia, a Ética e, estabelecendo as ligações históricas de todas as fases da evolução humana em seus aspectos biológico, psíquico, social e espiritual. Um livro para ser estudado e meditado, com o auxílio dos demais volumes da Codificação.

O Tradutor
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Anarca



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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Ter Set 29, 2009 10:51 pm

Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita

I — ESPIRITISMO E ESPIRITUALISMO

Para as coisas novas necessitamos de palavras novas, pois assim o exige a clareza de linguagem, para evitarmos a confusão inerente aos múltiplos sentidos dos próprios vocábulos. As palavras espiritual, espiritualista, espiritualismo têm uma significação bem definida; dar-lhes outra, para aplicá-las à Doutrina dos Espíritos, seria multiplicar as causas já tão numerosas de anfibologia. Com efeito, o espiritualismo é o oposto do materialismo; quem quer que acredite haver em si mesmo alguma coisa além da matéria é espiritualista; mas não se segue daí que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível.
Em lugar das palavras espiritual e espiritualismo empregaremos, para designar esta última crença, as palavras espírita e espiritismo, nas quais a forma lembra a origem e o sentido radical e que por isso mesmo têm a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando para espiritualismo a sua significação própria. Diremos, portanto, que a Doutrina Espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se o quiserem, os espiritistas.
Como especialidade o Livro dos Espíritos contém a Doutrina Espírita; como generalidade liga-se ao Espiritualismo, do qual representa uma das fases. Essa a razão porque traz sobre o título as palavras: Filosofia Espiritualista.


Última edição por Anarca em Qua Set 30, 2009 9:53 pm, editado 1 vez(es)
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Qua Set 30, 2009 9:53 pm

II — ALMA, PRINCÍPIO VITAL E FLUIDO VITAL

Há outra palavra sobre a qual igualmente devemos entender-nos porque é uma das chaves de toda doutrina moral e tem suscitado numerosas controvérsias por falta de uma acepção bem determinada: é a palavra alma. A divergência de opiniões sobre a natureza da alma provém da aplicação particular que cada qual faz desse vocábulo. Uma língua perfeita, em que cada idéia tivesse a sua representação por um termo próprio, evitaria muitas discussões; com uma palavra para cada coisa todos se entenderiam.

Segundo uns, a alma é o princípio da vida orgânica material; não tem existência própria e se extingue com a vida: é o puro materialismo. Neste sentido e por comparação dizem de um instrumento quebrado, que não produz mais som, que ele não tem alma. De acordo com esta opinião a alma seria um efeito e não uma causa.

Outros pensam que a alma é o princípio da inteligência, agente universal de que cada ser absorve uma porção. Segundo estes, não haveria em todo o Universo senão uma única alma, distribuindo fagulhas para os diversos seres inteligentes durante a vida; após a morte cada fagulha volta à fonte comum, confundindo-se no todo, como os córregos e os rios retornam ao mar de onde saíram. Esta opinião difere da precedente em que, segundo esta hipótese, existe em nós algo mais do que a matéria, restando qualquer coisa após a morte; mas é quase como se nada restasse, pois não subsistindo a individualidade não teríamos mais consciência de nós mesmos. De acordo com esta opinião, a alma universal seria Deus e cada ser uma porção da Divindade; é esta uma variedade do Panteísmo.

Segundo outros, enfim, a alma é um ser moral, distinto, independente da matéria e que conserva a sua individualidade após a morte. Esta concepção é incontestavelmente a mais comum, porque sob um nome ou outro a idéia desse ser que sobrevive ao corpo se encontra em estado de crença instintiva, e independente de qualquer ensinança, entre todos os povos, qualquer que seja o seu grau de civilização. Essa doutrina, para a qual a alma é causa e não efeito, é a dos espiritualistas.

Sem discutir o mérito dessas opiniões, e não considerando senão o lado lingüístico da questão, diremos que essas três aplicações da palavra alma constituem três idéias distintas, que reclamariam, cada uma, um termo diferente. Essa palavra tem, portanto, significação tríplice, e cada qual está com a razão, segundo o seu ponto de vista, ao lhe dar uma definição; a falha se encontra na língua, que não dispõe de mais de uma palavra para três idéias. Para evitar confusões, seria necessário restringir a acepção da palavra alma a uma de suas idéias. Escolher esta ou aquela é indiferente, simples questão de convenção, e o que importa é esclarecer. Pensamos que o mais lógico é tomá-la na sua significação mais vulgar, e por isso chamamos alma ao ser imaterial e individual que existe em nós e sobrevive ao corpo. Ainda que este ser não existisse e não fosse mais que um produto da imaginação, seria necessário um termo para designá-lo.

Na falta de uma palavra especial para cada uma das duas outras idéias, chamaremos:

Princípio vital, o princípio da vida material e orgânica, seja qual for a sua fonte, que é comum a todos os seres vivos, desde as plantas ao homem. A vida podendo existir sem a faculdade de pensar, o princípio vital é coisa distinta e independente. A palavra vitalidade não daria a mesma idéia. Para uns, o princípio vital é uma propriedade da matéria, um efeito que se produz quando a matéria se encontra em dadas circunstâncias; segundo outros, e essa idéia é mais comum, ele se encontra num fluido especial, universalmente espalhado, do qual cada ser absorve e assimila uma parte durante a vida, como vemos os corpos inertes absorverem a luz. Este seria então o fluido vital, que segundo certas opiniões, não seria outra coisa senão o fluido elétrico animalizado, também designado por fluido magnético, fluido nervoso, etc.

Seja como for, há um fato incontestável, — pois resulta da observação, — e é que os seres orgânicos possuem uma força íntima que produz o fenômeno da vida, enquanto essa força existe; que a vida material é comum a todos os seres orgânicos, e que ela independe da inteligência e do pensamento; que a inteligência e o pensamento são faculdades próprias de certas espécies orgânicas; enfim, que entre as espécies orgânicas dotadas de inteligência e pensamento, há uma, dotada de um senso moral especial, que lhe dá incontestável superioridade perante as outras, e que é a espécie humana.

Compreende-se que, com uma significação múltipla, a alma não exclui o materialismo, nem o panteísmo. Mesmo o espiritualista pode muito bem entender a alma segundo uma ou outra das duas primeiras definições, sem prejuízo do ser imaterial distinto, ao qual dará qualquer outro nome. Assim, essa palavra não representa uma opinião: é um Proteu, que cada qual ajeita a seu modo, o que dá origem a tantas disputas intermináveis.

Evitaríamos igualmente a confusão, mesmo empregando a palavra alma nos três casos, desde que lhe ajuntássemos um qualificativo para especificar a maneira pela qual a encaramos, ou a aplicação que lhe damos. Ela seria então um termo genérico, representando ao mesmo tempo o princípio da vida material, da inteligência e do senso moral, que se distinguiriam pelo atributo, como o gás, por exemplo, que se distingue ajuntando-se-lhe as palavras hidrogênio, oxigênio e azoto. Poderíamos dizer, e talvez fosse o melhor, a alma vital, para designar o princípio da vida material, a alma intelectual, para o princípio da inteligência, e a alma espírita, para o princípio da nossa individualidade após a morte. Como se vê, tudo isto é questão de palavras, mas questão muito importante para nos entendermos. Dessa maneira, a alma vital seria comum a todos os seres orgânicos: plantas, animais e homens; a alma intelectual seria própria dos animais e dos homens, e a alma espírita pertenceria somente ao homem.

Acreditamos dever insistir tanto mais nestas explicações, quanto a Doutrina Espírita repousa naturalmente sobre a existência em nós, de um ser independente da matéria e que sobrevive ao corpo. Devendo repetir freqüentemente a palavra alma no curso desta obra tínha-mos de fixar o sentido em que a tomamos, a fim de evitar qualquer engano.

Vamos, agora, ao principal objetivo desta instrução preliminar.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Qui Out 01, 2009 10:37 pm

III — A DOUTRINA E SEUS CONTRADITORES

A Doutrina Espírita, como toda novidade, tem seus adeptos e seus contraditores. Tentaremos responder a algumas das objeções destes últimos, examinando o valor das razões em que se apoiam, sem termos entretanto a pretensão de convencer a todos; pois há pessoas que acreditam que a luz foi feita somente para eles. Dirigimo-nos às pessoas de boa-fé, sem idéias preconcebidas ou posições firmadas mas sinceramente desejosas de se instruirem, e lhes demonstraremos que a maior parte das objeções que fazem à doutrina provêm de uma observação incompleta dos fatos e de um julgamento formado com muita ligeireza e precipitação.

Recordemos inicialmente, em breves palavras, a série progressiva de fenômenos que deram origem a esta doutrina.

O primeiro fato observado foi o movimento de objetos; designaram-no vulgarmente com os nomes de mesas girantes ou dança das mesas. Esse fenômeno, que parece ter sido observado primeiramente na América, ou melhor, que se teria repetido nesse país, porque a História prova que ele remonta à mais alta Antigüidade, produziu-se acompanhado de circunstâncias estranhas, como ruídos insólitos e golpes desferidos sem uma causa ostensiva, conhecida. Dali, propagou-se rapidamente pela Europa e por outras partes do mundo; a princípio provocou muita incredulidade, mas a multiplicidade das experiências em breve não mais permitiu que se duvidasse da sua realidade.

Se esse fenômeno se tivesse restringido ao movimento de objetos materiais poderia ser explicado por uma causa puramente física. Estamos longe de conhecer todos os agentes ocultos da Natureza e mesmo todas as propriedades dos que já conhecemos; a eletricidade, aliás, multiplica diariamente ao infinito os recursos que oferece ao homem e parece dever iluminar a Ciência com uma nova luz. Não haveria, portanto, nada de impossível em que a eletricidade, modificada por certas circunstâncias, ou qualquer outro agente desconhecido, fosse a causa desse movimento. A reunião de muitas pessoas, aumentando o poder da ação, parecia dar apoio a essa teoria porque se poderia considerar essa reunião como uma pilha múltipla, em que a potência corresponde ao número de elementos.

O movimento circular nada tinha de extraordinário: pertence à Natureza. Todos os astros se movem circularmente; poderíamos, pois, estar em face de um pequeno reflexo do movimento geral do Universo; ou, melhor dito, uma causa até então desconhecida poderia produzir acidentalmente, nos pequenos objetos e em dadas circunstâncias, uma corrente mais análoga à que impulsiona os mundos.

Mas o movimento não era sempre circular. Freqüentemente era brusco, desordenado, o objeto violentamente sacudido, derrubado, conduzido numa direção qualquer e contrariamente a todas as leis da Estática, suspenso e mantido no espaço. Não obstante, nada havia ainda nesses fatos que não pudesse ser explicado pelo poder de um agente físico invisível. Não vemos a eletricidade derrubar edifícios, arrancar árvores, lançar à distância os corpos mais pesados, atraí-los ou repeli-los?

Supondo-se que os ruídos insólitos e os golpes não fossem efeitos comuns da dilatação da madeira ou de qualquer outra causa acidental, poderiam ainda muito bem ser produzidos por acumulação do fluido oculto. A eletricidade não produz os ruídos mais violentos?

Até esse momento, como se vê, tudo pode ser considerado no domínio dos fatos puramente físicos e fisiológicos. E sem sair dessa ordem de idéias, ainda haveria matéria para estudos sérios, digna de prender a atenção dos sábios. Por que não aconteceu assim? É penoso dizer, mas o fato se liga a causas que provam, entre mil outras semelhantes, a leviandade do espírito humano. De início, a vulgaridade do objeto principal que serviu de base às primeiras experiências talvez não lhe seja estranha. Que influência não teve uma simples palavra, muitas vezes, sobre as coisas mais graves! Sem considerar que o movimento poderia ser transmitido a um objeto qualquer, prevaleceu a idéia da mesa, sem dúvida por ser o objeto mais cômodo e porque todos se sentam mais naturalmente em torno de uma mesa que de qualquer outro móvel. Ora, os homens superiores são às vezes tão pueris, que não seria impossível certos espíritos de elite se julgarem diminuídos se tivessem de ocupar-se daquilo que se convencionara chamar a dança das mesas. É mesmo provável que, se o fenômeno observado por Galvani o tivesse sido por homens vulgares e caracterizado por um nome burlesco, estivesse ainda relegado ao lado da varinha mágica. Qual o sábio que não se teria julgado diminuído ao ocupar-se da dança das rãs?

Alguns, entretanto, bastante modestos para aceitarem que a Natureza poderia não lhes ter dito a última palavra, quiseram ver, para tranqüilidade de consciência. Mas aconteceu que o fenômeno nem sempre correspondeu à sua expectativa, e por não se ter produzido constantemente, à sua vontade e segundo a sua maneira de experimentação, concluíram eles pela negativa. Malgrado, porém, sua sentença, as mesas, pois que há mesas, continuam a girar, e podemos dizer com Galileu: "Contudo, elas se movem". Diremos ainda que os fatos se multiplicaram de tal modo que têm hoje direito de cidadania e que se trata apenas de encontrar para eles uma explicação racional.

Pode-se induzir qualquer coisa contra a realidade do fenômeno, pelo fato de ele não se produzir sempre de maneira idêntica, segundo a vontade e as exigências do observador? Os fenômenos de eletricidade e de química não estão subordinados a determinadas condições, e devemos negá-los porque não se produzem fora delas? Devemos estranhar que o fenômeno do movimento de objetos pelo fluido humano tenha também as suas condições e deixe de se produzir quando o observador, firmado no seu ponta de vista; pretende fazê-lo seguir ao seu capricho ou sujeitá-lo às leis dos fenômenos comuns, sem considerar que para fatos novos pode e deve haver novas leis? Ora, para conhecer essas leis é necessário estudar as circunstâncias em que os fatos se produzem e esse estando não pode ser feito sem uma observação perseverante, atenta, e por vezes bastante prolongada.

Mas, objetam algumas pessoas, há freqüentemente fraudes visíveis. Perguntaremos inicialmente se estão bem certas de que há fraudes e se não tomaram por fraudes efeitos que não conseguiram apreender, mais ou menos como o camponês que tomava um sábio professor de Física, fazendo experiências, por um destro escamoteador. E mesmo supondo-se que as fraudes tenham ocorrido algumas vezes, seria isso razão para se negar o fato? Deve-se negar a Física, porque há prestidigitadores que se enfeitam com o título de físicos? É necessário aos demais considerar o caráter das pessoas e o interesse que elas poderiam ter em enganar. Seria tudo, então, simples brincadeira? Pode-se muito bem brincar um instante, mas uma brincadeira indefinidamente prolongada seria tão fastidiosa para o mistificador como para o mistificado. Haveria, além disso, numa mistificação que se propaga de um extremo a outro do mundo e entre as pessoas mais graves, mais veneráveis e esclarecidas, alguma coisa pelo menos tão extraordinária quanto o próprio fenômeno.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Ter Out 06, 2009 9:28 pm

IV — MANIFESTAÇÕES INTELIGENTES

Se os fenômenos de que nos ocupamos se restringissem ao movimento de objetos, teriam permanecido no domínio das Ciências Físicas: mas não aconteceu assim: estavam destinados a nos colocar na pista dos fatos de uma ordem estranha. Acreditou-se haver descoberto, não sabemos por iniciativa de quem, que o impulso dado aos objetos não era somente o produto de uma força mecânica cega, mas que havia nesse movimento a intervenção de uma causa inteligente. Esta via, uma vez aberta, oferecia um campo inteiramente novo de observações; era o véu que se levantava sobre muitos mistérios. Mas haverá realmente neste caso uma potência inteligente? Essa é a questão. Se essa potência existe, o que é ela, qual a sua natureza, a sua origem? É ela superior a Humanidade? Tais são as outras questões que decorrem da primeira.

As primeiras manifestações inteligentes verificaram-se por meio de mesas que se moviam e davam determinados golpes, batendo um pé, e assim respondiam, segundo o que se havia convencionado, por "sim" ou por "não" a questão proposta. Até aqui, nada há de bastante convincente para os céticos, porque se poderia crer num efeito do acaso. Em seguida, obtiveram-se respostas mais desenvolvidas por meio das letras do alfabeto: dando o móvel um número de ordem de cada letra, chegava-se a formar palavras e frases que respondiam as questões propostas. A justeza das respostas e sua correspondência com a pergunta provocaram a admiração. O ser misterioso que assim respondia, interpelado sobre a sua natureza, declarou que era um Espírito ou Gênio, deu o seu nome e forneceu diversas informações a seu respeito. Esta é uma circunstância muito importante a notar. Ninguém havia então pensado nos Espíritos como um meio de explicar o fenômeno; foi o próprio fenômeno que revelou a palavra. Fazem-se hipóteses freqüentemente nas Ciências exatas para se conseguir uma base ao raciocínio; mas neste caso não foi o que se deu.

Esse meio de correspondência era demorado e incômodo. O Espírito, e esta é também uma circunstância digna de nota, indicou outro. Foi um desses seres invisíveis quem aconselhou a adaptar-se um lápis a uma cesta ou a outro objeto. A cesta, posta sobre uma folha de papel, é movimentada pela mesma potência oculta que faz girar as mesas; mas em lugar de um simples movimento regular, o lápis escreve por si mesmo, formando palavras, frases, discursos inteiros de muitas páginas, tratando das mais altas questões de Filosofia, de Moral de Metafísica, de Psicologia, etc., e isso com tanta rapidez como se escrevesse a mão.

Esse conselho foi dado simultaneamente na América, na França e em diversos países. Eis os termos em que foi dado em Paris, a 10 de julho de 1853, a um dos mais fervorosos adeptos da doutrina, que há muitos anos, desde 1849, se ocupava com a evocação dos Espíritos: "Vá buscar no quarto ao lado a cestinha; prenda nela um lápis, coloque-a sobre o papel e ponha-lhe os dedos na borda". Feito isso, depois de alguns instantes a cesta se pôs em movimento e o lápis escreveu legivelmente esta frase: "Isto que eu vos disse, proibo-vos expressamente de o dizer a alguém; da primeira vez que escrever, escreverei melhor".

O objeto a que se adapta o lápis, não sendo mais que simples instrumento, sua natureza e sua forma não importam; procurou-se a disposição mais cômoda e foi assim que muitas pessoas passaram a usar uma prancheta.

A cesta ou a prancheta não podem ser postas em movimento senão sob a influência de certas pessoas, dotadas para isso de um poder especial e que se designam pelo nome de médiuns, ou seja, intermediários entre os Espíritos e os homens. As condições que produzem este podes estão ligadas a causas ao mesmo tempo físicas e morais ainda imperfeitamente conhecidas, porquanto se encontram médiuns de todas as idades, de ambos os sexos e em todos os graus de desenvolvimento intelectual. Essa faculdade, entretanto, se desenvolve pelo exercício.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Qua Out 07, 2009 9:05 pm

V — DESENVOLVIMENTO DA PSICOGRAFIA

Mais tarde reconheceu-se que a cesta e a prancheta nada mais eram do que apêndices da mão, e o médium, tomando diretamente o lápis, pôs-se a escrever por um impulso involuntário e quase fébril. Por esse meio as comunicações se tornaram mais rápidas, mais fáceis e mais completas: é esse, hoje, o meio mais comum, tanto que o número de pessoas dotadas dessa aptidão é bastante considerável e se multiplica dia a dia. A experiência, por fim, tornou conhecidas muitas outras variedades da faculdade mediúnica, descobrindo-se que as comunicações podiam igualmente verificar-se através da escrita direta dos Espíritos, ou seja, sem o concurso da mão do médium nem do lápis.

Verificado o fato, um ponto essencial restava a considerar: o papel do médium nas respostas e a parte que nelas tomava, mecânica e moralmente. Duas circunstâncias capitais, que não escapariam a um observador atento, podem resolver a questão. A primeira é a maneira pela qual a cesta se move sob a sua influência, pela simples imposição dos dedos na borda; o exame demonstra a impossibilidade de o médium imprimir uma direção a cesta. Essa impossibilidade se torna sobretudo evidente quando duas ou três pessoas tocam ao mesmo tempo na mesma cesta; seria necessário entre elas uma concordância de movimentos realmente fenomenal; seria ainda necessária a concordância de pensamentos para que pudessem entender-se sobre a resposta a dar. Outro fato, não menos original, vem ainda aumentar a dificuldade. É a mudança radical da letra, segundo o Espírito que se manifesta e a cada vez que o mesmo Espírito volta, repetindo-a. Seria pois necessário que o médium se tivesse exercitado em modificar a própria letra de vinte maneiras diferentes e, sobretudo, que ele pudesse lembrar-se da caligrafia deste ou daquele Espírito.

A segunda circunstância resulta da própria natureza das respostas, que são, na maioria dos casos, mormente quando se trata de questões abstratas ou científicas, notoriamente fora dos conhecimentos e às vezes do alcance intelectual do médium. Este, de resto, em geral não tem consciência do que escreve e por outro lado nem mesmo entende a questão proposta, que pode ser feita numa língua estranha ou mentalmente, sendo a resposta dada nessa língua. Acontece, por fim, que a cesta escreve de maneira espontânea, sem nenhuma questão proposta, sobre um assunto absolutamente inesperado.

As respostas, em certos casos, revelam um teor de sabedoria, de profundeza e de oportunidade; pensamentos tão elevados e tão sublimes, que não podem vir senão de uma inteligência superior, impregnada da mais pura moralidade. De outras vezes são tão levianas, tão frívolas, e mesmo tão banais que a razão se recusa a admitir que possam vir da mesma fonte. Essa diversidade de linguagem não se pode explicar senão pela diversidade de inteligências que se manifestam. Essas inteligências são humanas ou não? Este é o ponto a esclarecer e sobre o qual se encontrará nesta obra a explicação completa, tal como foi dada pelos próprios Espíritos.

Eis, portanto, os efeitos evidentes que se produzem fora do círculo habitual de nossas observações; que não se passam de maneira misteriosa mas a luz do dia; que todos podem ver e constatar; que não são privilégios de nenhum indivíduo e que milhares de pessoas repetem a vontade todos os dias. Esses efeitos têm necessariamente uma causa e desde que revelam a ação de uma inteligência e de uma vontade, saem fora do domínio puramente físico.

Muitas teorias foram formuladas a respeito. Passaremos a examiná-las dentro em pouco e veremos se podem tornar compreensíveis todos os fatos produzidos. Admitamos por enquanto a existência de seres distintos da humanidade, pois é essa a explicação dada pelas inteligências que se manifestam, e vejamos o que eles nos dizem.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Qui Out 08, 2009 10:07 pm

VI — RESUMO DA DOUTRINA DOS ESPÍRITOS

Os seres que se manifestam designam-se a si mesmos, como dissemos, pelo nome de Espíritos ou Gênios, e dizem, alguns pelo menos, que viveram como homens na Terra. Constituem o mundo espiritual, como nós constituímos, durante a nossa vida, o mundo corporal.

Resumimos em poucas palavras os pontos principais da doutrina que nos transmitiram, a fim de mais facilmente responder a certas objeções:

"Deus é eterno, imutável, imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom.

Criou o Universo, que compreende todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais.

Os seres materiais constituem o mundo visível ou corporal e os seres imateriais o mundo invisível ou espírita, ou seja, dos Espíritos.

O mundo espírita é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente e sobrevivente a tudo.

O mundo corporal é secundário; poderia deixar de existir ou nunca ter existido, sem alterar a essência do mundo espírita.

Os Espíritos revestem temporariamente um invólucro material perecível e sua destruição pela morte os devolve a liberdade.

Entre as diferentes espécies de seres corporais. Deus escolheu a espécie humana para a encarnação dos Espíritos que chegaram a um certo grau de desenvolvimento, o que lhe dá superioridade moral e intelectual ante as demais.

A alma é um espírito encarnado, e o corpo apenas o seu invólucro.

Há no homem três coisas: lº) O corpo ou ser material, semelhante ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2º) A alma ou ser imaterial, espírito encarnado no corpo; 3º) O laço que une a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito.

O homem tem assim duas naturezas: pelo corpo participa da natureza dos animais, dos quais possui os instintos; pela alma participa da natureza dos Espíritos.

O laço ou perispírito que une corpo e Espírito é uma espécie de invólucro semimaterial. A morte é a destruição do invólucro mais grosseiro. O Espírito conserva o segundo, que constitui para ele um corpo etéreo, invisível para nós no seu estado normal, mas que ele pode tornar acidentalmente visível e mesmo tangível, como se verifica nos fenômenos de aparição.

O Espírito não é, portanto, um ser abstrato, indefinido, que só o pensamento pode conceber. É um ser real, definido, que em certos casos pode ser apreendido pelos nossos sentidos da vista, da audição e do tato.

Os Espíritos pertencem a diferentes classes, não sendo iguais em poder nem em inteligência, saber ou moralidade. Os da primeira ordem são os Espíritos Superiores que se distinguem pela perfeição, pelos conhecimentos e pela proximidade de Deus, pela pureza dos sentimentos e o amor do bem: são os anjos ou Espíritos puros. As demais classes se distanciam mais e mais desta perfeição. Os das classes inferiores são inclinados as nossas paixões: o ódio, a inveja, o ciúme, o orgulho, etc. e se comprazem no mal. Nesse número há os que não são nem muito bons, nem muito maus; antes, perturbadores e intrigantes do que maus; a malícia e a inconseqüência parecem ser as suas características: são os Espíritos estouvados ou levianos.

Os Espíritos não pertencem eternamente a mesma ordem. Todos melhoram, passando pelos diferentes graus da hierarquia espírita. Esse melhoramento se verifica pela encarnação, que a uns é imposta como uma expiação, a outros como missão. A vida material é uma prova a que devem submeter-se repetidas vezes até atingirem a perfeição absoluta; é uma espécie de peneira ou depurador de que eles saem mais ou menos purificados.

Deixando o corpo, a alma volta ao mundo dos Espíritos, de que havia saído para reiniciar uma nova existência material, após um lapso de tempo mais ou menos longo durante o qual permanecerá no estado de espírito errante.

Devendo o Espírito passar por muitas encarnações, conclui-se que todos nós tivemos muitas existências e que teremos outras, mais ou menos aperfeiçoadas, seja na Terra ou em outros mundos.

A encarnação dos Espíritos ocorre sempre na espécie humana. Seria um erro acreditar que a alma ou espírito pudesse encarnar num corpo de animal.

As diferentes existências corporais do Espírito são sempre progressivas e jamais retrógradas, mas a rapidez do progresso depende dos esforços que fazemos para chegar à perfeição.

As qualidades da alma são as do Espírito encarnado. Assim, o homem de bem é a encarnação de um bom Espírito e o homem perverso a de um Espírito impuro.

A alma tinha a sua individualidade antes da encarnação e a conserva após a separação do corpo.

No seu regresso ao mundo dos Espíritos a alma reencontra todos os que conheceu na Terra e todas as suas existências anteriores se delineiam na sua memória, com a recordação de todo o bem e todo o mal que tenha feito.

O Espírito encarnado está sob a influência da matéria. O homem que supera essa influência, pela elevação e purificação de sua alma, aproxima-se dos bons Espíritos com os quais estará um dia. Aquele que se deixa dominar pelas más paixões e põe todas as suas alegrias na satisfação dos apetites grosseiros aproxima-se dos Espíritos impuros, dando preponderância a natureza animal.

Os Espíritos encarnados habitam os diferentes globos do Universo.

Os Espíritos não-encarnados ou errantes não ocupam nenhuma região determinada ou circunscrita; estão por toda parte, no espaço e ao nosso lado, vendo-nos e acotovelando-nos sem cessar. É toda uma população invisível que se agita ao nosso redor.

Os Espíritos exercem sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico uma ação incessante. Agem sobre a matéria e sobre o pensamento e constituem uma das forças da Natureza, causa eficiente de uma multidão de fenômenos até agora inexplicados ou mal explicados, que não encontram solução racional.

As relações dos Espíritos com os homens são constantes. Os bons Espíritos nos convidam ao bem, nos sustentam nas provas da vida e nos ajudam a suportá-las com coragem e resignação; os maus nos convidam ao mal: é para eles um prazer ver-nos sucumbir e cair no seu estado.

As comunicações ocultas verificam-se pela influência boa ou má que eles exercem sobre nós sem o sabermos, cabendo ao nosso julgamento discernir as más e boas inspirações. As comunicações ostensivas realizam-se por meio da escrita, da palavra ou de outras manifestações materiais, na maioria das vezes através dos médiuns que lhes servem de instrumento.

Os Espíritos se manifestam espontaneamente ou pela evocação. Podemos evocar todos os Espíritos: os que animaram homens obscuros e os dos personagens mais ilustres, qualquer que seja a época em que tenham vivido; os de nossos parentes, de nossos amigos ou inimigos e deles obter, por comunicações escritas ou verbais, conselhos, informações sobre a situação em que se acham no espaço, seus pensamentos a nosso respeito, assim como as revelações que lhes seja permitido fazer-nos.

Os Espíritos são atraídos na razão de sua simpatia pela natureza moral do meio que os evoca. Os Espíritos superiores gostam das reuniões sérias em que predominem o amor do bem e o desejo sincero de instrução e de melhoria. Sua presença afasta os Espíritos inferiores, que encontram, ao contrário, livre acesso e podem agir com inteira liberdade entre as pessoas frívolas ou guiadas apenas pela curiosidade e por toda parte onde encontrem maus instintos. Longe de obtermos bons conselhos e informações úteis desses Espíritos, nada mais devemos esperar do que futilidades, mentiras, brincadeiras de mau gosto ou mistificações, pois freqüentemente se servem de nomes veneráveis para melhor nos induzirem ao erro.

Distinguir os bons e os maus Espíritos e extremamente fácil. A linguagem dos Espíritos superiores é constantemente digna, nobre, cheia da mais alta moralidade, livre de qualquer paixão inferior, seus conselhos revelam a mais pura sabedoria e têm sempre por alvo o nosso progresso e o bem da Humanidade. A dos Espíritos inferiores, ao contrário, é inconseqüente, quase banal e mesmo grosseira; se dizem às vezes coisas boas e verdadeiras, dizem com mais freqüência falsidades e absurdos, por malícia ou por ignorância; zombam da credulidade e divertem-se a custa dos que os interrogam, lisonjeando-lhes a vaidade e embalando-lhes os desejos com falsas esperanças. Em resumo, as comunicações sérias, na perfeita acepção do termo, não se verificam senão nos centros sérios, cujos membros estão unidos por uma íntima comunhão de pensamentos dirigidos para o bem.

A moral dos Espíritos superiores se resume, como a do Cristo, nesta maxima evangélica: "Fazer aos outros o que desejamos que os outros nos façam", ou seja, fazer o bem e não o mal. O homem encontra nesse princípio a regra universal de conduta, mesmo para as menores ações.

Eles nos ensinam que o egoísmo, o orgulho, a sensualidade são paixões que nos aproximam da natureza animal, prendendo-nos a matéria: que o homem que, desde este mundo, se liberta da matéria pelo desprezo das futilidades mundanas e o cultivo do amor ao próximo, aproxima-se da natureza espiritual; que cada um de nós deve tornar-se útil segundo as faculdades e os meios que Deus nos colocou nas mãos para nos provar; que o Forte e o Poderoso devem apoio e proteção ao Fraco, porque aquele que abusa da sua força e do seu poder para oprimir o seu semelhante viola a lei de Deus. Eles ensinam, enfim, que no mundo dos Espíritos nada pode estar escondido: o hipócrita será desmascarado e todas as suas torpezas reveladas; a presença inevitável e incessante daqueles que prejudicamos é um dos castigos que nos estão reservados; ao estado de inferioridade e de superioridade dos Espíritos correspondem penas e alegrias que nos são desconhecidas na Terra.

Mas eles nos ensinam também que não há faltas irremissíveis, que não possam ser apagadas pela expiação. O homem encontra o meio necessário nas diferentes existências, que lhe permitem avançar, segundo o seu desejo e os seus esforços, na via do progresso, em direção a perfeição que é o seu objetivo final."

Este é o resumo da doutrina espírita, como ela aparece no ensinamento dos Espíritos superiores. Vejamos agora as objeções que lhe fazem.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Sab Out 10, 2009 1:07 pm

VII — A CIÊNCIA E O ESPIRITISMO

A oposição das corporações científicas é, para muita gente, senão uma prova, pelo menos uma forte presunção contrária. Não somos dos que levantam a voz contra os sábios, pois não queremos dar motivo a nos chamarem de estouvados; temo-los, pelo contrário, em grande estima e ficaríamos muito honrados se fossemos contados entre eles. Entretanto, sua opinião não poderia representar todas as circunstâncias, um julgamento irrevogável.

Quando a Ciência sai da observação material dos fatos e trata de apreciá-los e explicá-los, abre-se para os cientistas o campo das conjecturas: cada um constrói o seu sistemazinho, que deseja fazer prevalecer e sustenta encarniçadamente. Não vemos diariamente as opiniões mais contraditórias serem preconizadas e rejeitadas, repelidas como erros absurdos e depois proclamadas como verdades incontestáveis? Os fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos julgamentos, o argumento sem réplica. Na ausência dos fatos, a dúvida é a opinião do homem prudente.

No tocante as coisas evidentes, a opinião dos sábios e justamente digna de fé, porque eles as conhecem mais e melhor que o vulgo. Mas no tocante a princípios novos, a coisas desconhecidas, a sua maneira de ver não é mais do que hipotética, porque eles não são mais livres de preconceitos que os outros. Direi mesmo que o sábio terá, talvez, mais preconceitos que qualquer outro, pois uma propensão natural o leva a tudo subordinar ao ponto de vista de sua especialidade: o matemático não vê nenhuma espécie de prova, senão através de uma demonstração algébrica, o químico relaciona tudo com a ação dos elementos, e assim por diante. Todo homem que se dedica a uma especialidade escraviza a ela as suas idéias. Afastai-o do assunto e ele quase sempre se confundirá, porque deseja tudo submeter ao seu modo de ver; é esta uma conseqüência da fragilidade humana. Consultarei, portanto, de bom grado e com absoluta confiança, um químico sobre uma questão de análise; um físico sobre a força elétrica; um mecânico sobre a força motriz; mas eles me permitirão, sem que isto afete a estima que lhes devo por sua especialização, que não tenha em melhor conta a sua opinião negativa sobre o Espiritismo do que a de um arquiteto sobre questões de música.

As ciências comuns se apóiam nas propriedades da matéria, que pode ser experimentada e manipulada à vontade; os fenômenos espíritas se apoiam na ação de inteligências que têm vontade própria e nos provam a todo instante não estarem submetidas ao nosso capricho. As observações, portanto, não podem ser feitas da mesma maneira, num e noutro caso. No Espiritismo elas requerem condições especiais e outra maneira de encará-las: querer sujeitá-las aos processos ordinários de investigação, seria estabelecer analogias que não existem. A Ciência propriamente dita, como Ciência, é incompetente para se pronunciar sobre a questão do Espiritismo: não lhe cabe ocupar-se do assunto e seu pronunciamento a respeito, qualquer que seja, favorável ou não, nenhum peso teria.

O Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal que os sábios podem ter como indivíduos, independente de sua condição de sábios. Querer, porém, deferir a questão à Ciência seria o mesmo que entregar a uma assembléia de físicos ou astrônomos a solução do problema da existência da alma. Com efeito, o Espiritismo repousa inteiramente sobre a existência da alma e o seu estado após a morte. Ora, é supinamente ilógico pensar que um homem deve ser grande psicólogo pelo simples fato de ser grande matemático ou grande anatomista. O anatomista, dissecando o corpo humano, procura a alma e porque não a encontra com o seu bisturi, como se encontrasse um nervo, ou porque não a vê evolar-se como um gás, conclui que ela não existe. Isto, em razão de colocar-se num ponto de vista exclusivamente material. Segue-se daí que ele esteja com a razão, contra a opinião universal? Não. Vê-se, portanto, que o Espiritismo não é da alçada da Ciência.

Quando as crenças espíritas estiverem vulgarizadas, quando forem aceitas pelas massas, — o que, a julgar pela rapidez com que se propagam, não estaria muito longe, — dar-se-á com elas o que se tem dado com todas as idéias novas que encontraram oposição: os sábios se renderão a evidência. Eles as aceitarão individualmente, pela força das circunstâncias. Até que isso aconteça, seria inoportuno desviá-los de seus trabalhos especiais para constrangê-los a ocupar-se de coisa estranha, que não está nas suas atribuições nem nos seus programas. Enquanto isso, os que, sem estudo prévio e aprofundado da questão, pronunciam-se pela negativa e zombam dos que não concordam com a sua opinião, esquecem que o mesmo aconteceu com a maioria das grandes descobertas que honram a Humanidade. Arriscam-se a ver os seus nomes aumentando a lista dos ilustres negadores das idéias novas, inscritos ao lado dos membros da douta assembléia que, em 1752, recebeu com estrondosa gargalhada o relatório de Franklin sobre os pára-raios, julgando-o indigno de figurar entre as comunicações da pauta, e daquela outra que fez a França perder as vantagens da navegação a vapor ao declarar o sistema de Fulton um sonho impraticável. Não obstante, eram questões de alçada da Ciência. Se essas assembléias, que contavam com os maiores sábios do mundo, só tiveram zombaria e sarcasmo para as idéias que ainda não compreendiam e que alguns anos mais tarde deviam revolucionar a Ciência, os costumes e a indústria, como esperar que uma questão estranha aos seus trabalhos possa ser melhor aceita?

Esses erros lamentáveis não tirariam aos sábios, entretanto, os títulos com que, noutros assuntos, conquistam o nosso respeito. Mas é necessário um diploma oficial para se ter bom senso? E fora das cátedras acadêmicas não haverá mais do que tolos e imbecis? Basta olhar para os adeptos da doutrina espírita, para se ver se entre eles só existem ignorantes e se o número imenso de homens de mérito que a abraçaram permite que a releguemos ao rol das simples crendices. O caráter e o saber desses homens autorizam-nos a dizer: pois se eles o afirmam, deve pelo menos haver alguma coisa.

Repetimos ainda que, se os fatos de que nos ocupamos estivessem reduzidos ao movimento mecânico dos corpos, a pesquisa da causa física do fenômeno seria do domínio da Ciência; mas desde que se trata de uma manifestação fora do domínio das leis humanas, escapa a competência da Ciência material porque não pode ser explicada por números, nem por forças mecânicas. Quando surge um fato novo, que não se enquadra em nenhuma Ciência conhecida, o sábio, para o estudar, deve fazer abstração de sua ciência e dizer a si mesmo que se trata de um estudo novo, que não pode ser feito com idéias preconcebidas.

O homem que considere a sua razão infalível está bem próximo do erro; mesmo aqueles que têm as mais falsas idéias apoiam-se na própria razão e é por isso que rejeitam tudo quanto lhes parece impossível. Os que ontem repeliram as admiráveis descobertas de que a Humanidade hoje se orgulha, apelaram a esse juiz para as rejeitar. Aquilo que chamamos razão é quase sempre o orgulho mascarado e quem quer que se julgue infalível coloca-se como igual a Deus. Dirigimo-nos, portanto, aos que são bastante ponderados para duvidar do que não viram, e julgando o futuro pelo passado, não acreditam que o homem tenha chegado ao apogeu nem que a Natureza lhes tenha virado a última página do seu livro.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Dom Out 11, 2009 11:15 pm

VIII — PERSEVERANÇA E SERIEDADE

Acrescentemos que o estudo de uma doutrina como a espírita, que nos lança de súbito numa ordem de coisas tão nova e grande, não pode ser feito proveitosamente senão por homens sérios, perseverantes, isentos de prevenções e animados de uma firme e sincera vontade de chegar a um resultado. Não podemos classificar assim aos que julgam a priori, levianamente, sem terem visto tudo: os que não imprimem aos seus estudos nem a continuidade, nem a regularidade e o recolhimento necessários; e menos ainda aos que para não diminuírem a sua reputação de homens de espírito, esforçam-se por encontrar um lado burlesco nas coisas mais verdadeiras ou assim consideradas por pessoas cujo saber, caráter e convicções merecem a consideração dos que se prezam de urbanidade. Que se abstenham, portanto, os que não julgam os fatos dignos de sua atenção; ninguém pretende violentar-lhes a crença, - mas que eles também saibam respeitar as dos outros.

O que caracteriza um estudo sério é a continuidade. Devemos admirar-nos de não obter respostas sensatas a perguntas naturalmente sérias, quando as fazemos ao acaso e de maneira brusca, em meio a perguntas ridículas? Uma questão complexa requer, para ser esclarecida, perguntas preliminares ou complementares. Quem quer adquirir uma Ciência deve estudá-la de maneira metódica, começando pelo começo e seguindo o seu encadeamento de idéias. Aquele que propõe a um sábio, ao acaso, uma questão sobre Ciência de que ignora os rudimentos, obterá algum proveito? O próprio sábio poderá, com a maior boa vontade, dar-lhe uma resposta satisfatória? Essa resposta isolada será forçosamente incompleta e, por isso mesmo, quase sempre ininteligível, ou poderá parecer absurda e contraditória. Acontece o mesmo em nossas relações com os Espíritos. Se desejamos aprender com eles, temos de seguir-lhes o curso; mas, como entre nós, é necessário escolher os professores e trabalhar com assiduidade.

Dissemos que os Espíritos superiores só comparecem as reuniões sérias, aquelas sobretudo em que reina perfeita comunhão de pensamentos e de bons sentimentos. A leviandade e as perguntas ociosas os afastam, como entre os homens afastam as criaturas ponderadas; o campo fica então livre a turba de Espíritos mentirosos e frívolos, sempre a espreita de oportunidades para zombarem de nós e se divertirem a nossa custa. Em que se transformaria uma pergunta séria, numa reunião dessas? Teria resposta? De quem? Seria o mesmo que lançarmos, numa reunião de gaiatos, estas perguntas: O que é a alma? O que é a morte? e outras coisas assim divertidas.

Se quereis respostas sérias, sede sérios vós mesmos, em toda a extensão do termo e mantende-vos nas condições necessárias: somente então obtereis grandes coisas. Sede, além disso, laboriosos e perseverantes em vossos estudos, para que os Espíritos superiores não vos abandonem como faz um professor com os alunos negligentes.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Qua Out 14, 2009 11:54 pm

IX — MONOPOLIZADORES DO BOM SENSO

O movimento de objetos é um fato comprovado; resta saber se nesse movimento há ou não manifestação inteligente e, em caso afirmativo, qual a sua origem.

Não falamos do movimento inteligente de certos objetos, nem das comunicações verbais ou das que são escritas diretamente pelos médiuns. Esse gênero de manifestações, tão evidente para aqueles que viram e aprofundaram o assunto, não é, a primeira vista, bastante independente da vontade para convencer um observador novato. Não trataremos, portanto, senão da escrita obtida com a ajuda de um objeto munido de lápis, como a cesta, a prancheta, etc. A maneira por que os dedos do médium são postos sobre o objeto desafia, como já dissemos, a mais consumada destreza em particular de qualquer forma da formação das letras. Mas admitamos ainda que, por uma habilidade maravilhosa, possa ele enganar os olhos mais atentos. Como explicar a natureza das respostas, quando elas superam as idéias e os conhecimentos do médium? E note-se que não se trata de respostas monossilábicas, mas quase sempre de muitas páginas escritas com admirável rapidez, espontaneamente ou sobre assunto determinado. Pela mão do médium menos versado em literatura surgem poesias de uma sublimidade e de uma pureza impecáveis, que não desmereceriam os melhores poetas humanos. E o que aumenta ainda a estranheza desses fatos é que eles se produzem por toda parte e que os médiuns se multiplicam ao infinito. Esses fatos são reais ou não? A essa pergunta só podemos responder: Vede e observai; não vos faltará, oportunidades; mas, sobretudo, observai com constância, por longo tempo e obedecendo as condições necessárias.

A evidência, o que respondem os antagonistas? Sois vítimas do charlatanismo, dizem eles, ou joguetes de uma ilusão. Responderemos de início que é preciso afastar a palavra charlatanismo de onde não existem lucros, pois os charlatões não agem gratuitamente. Seria, quando muito, uma mistificação. Mas por que estranha coincidência os mistificadores se teriam entendido, de um extremo a outro do mundo, para agir da mesma maneira, produzir os mesmos efeitos e dar aos mesmos assuntos e nas diversas línguas respostas idênticas, senão quanto as palavras, pelo menos quanto ao sentido? Como é que pessoas sérias, honradas e instruídas se prestariam a semelhantes manobras, e com que objetivo? Como teriam encontrado entre as crianças a paciência e a habilidade necessárias? Porque, se os médiuns não forem instrumentos passivos, é claro que necessitam de habilidade e de conhecimentos incompatíveis com certas idades e posições sociais.

Então acrescentam que, se não há embuste, os dois lados podem estar embuídos por uma ilusão. Em boa lógica, a qualidade das testemunhas tem um certo peso; ora, é o caso de se perguntar se a doutrina espírita, que conta hoje milhões de adeptos, só os recruta entre os ignorantes. Os fenômenos em que ela se apóia são tão extraordinários que concebemos a dúvida, mas não se pode admitir a pretensão de alguns incrédulos ao monopólio do bom senso, ou que, sem respeito as conveniências e ao valor moral dos adversários, tachem de ineptos a todos os que não concordam com as suas opiniões. Aos olhos de toda pessoa judiciosa, a opinião dos homens esclarecidos que viram determinado fato por longo tempo e o estudaram e meditaram será sempre uma prova ou pelo menos uma presunção favorável, por ter podido prender a atenção de homens sérios que não tinham nenhum interesse em propagar erros, nem tempo a perder com futilidades.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Qui Out 15, 2009 10:43 pm

X — A LINGUAGEM DOS ESPÍRITOS E O PODER DIABÓLICO

Entre as objeções, algumas são mais consideráveis pelo menos na aparência, porque baseiam-se na observação de pessoas sérias.

Uma dessas observações refere-se a linguagem de certos Espíritos, que não parece digna da elevação atribuída aos seres sobrenaturais. Se quisermos reportar-nos ao resumo da doutrina, atrás apresentado, veremos que os próprios Espíritos ensinam que não são iguais em conhecimentos, nem em qualidades morais, e que não se deve tomar ao pé da letra tudo o que dizem. Cabe as pessoas sensatas separar o bom do mau. Seguramente os que deduzem, desse fato, que tratamos com seres malfazejos, cuja única intenção é a de nos mistificarem, não conhecem as comunicações dadas nas reuniões em que se manifestam Espíritos superiores, pois de outra maneira não pensariam assim, é pena que o acaso tenha servido tão mal a essas pessoas, não lhes mostrando senão o lado mau do mundo espírita, pois não queremos supor que uma tendência simpática atraia para elas os maus Espíritos em lugar dos bons, os Espíritos mentirosos ou esses cuja linguagem é de revoltante grosseria. Poderíamos concluir, quando muito que a solidez dos seus princípios não seja bastante forte para preservá-las do mal, e que, encontrando um certo prazer em lhes satisfazer a curiosidade, os maus Espíritos, por seu lado, aproveitam-se disso para se introduzirem entre elas, enquanto os bons se afastam.

Julgar a questão dos Espíritos por esses fatos seria tão pouco lógico como julgar o caráter de um povo pelo que se diz e se faz numa reunião de alguns estabanados, ou gente de má fama, a que não compareçem os sábios nem as pessoas sensatas. Os que assim julgam estão na situação de um estrangeiro que, chegando a uma grande capital pelo seu pior arrabalde, julgasse toda a população da cidade pelos costumes e a linguagem desse bairro mesquinho. No mundo dos Espíritos há também desníveis sociais; se aquelas pessoas quisessem estudar as relações entre os Espíritos elevados ficariam convencidas de que a cidade celeste não contém apenas a escória popular. Mas, perguntam elas, os Espíritos elevados chegam até nós? Responderemos: não permanecais no subúrbio; vede, observai e julgai; os fatos aí estão para todos. A menos que a essas pessoas se apliquem estas palavras de Jesus: "Têm olhos e não vêem; têm ouvidos e não ouvem".

Uma variante desta opinião consiste em não ver nas comunicações espíritas e em todos os fatos materiais a que elas dão lugar senão a intervenção de um poder diabólico, novo Proteu que revestiria todas as formas para melhor nos iludir. Não a consideramos suscetível de um exame sério e por isso não nos deteremos no caso: ela já está refutada pelo que dissemos atrás. Acrescentaremos apenas que, se assim fosse, teríamos de convir que o diabo é às vezes bem inteligente, bastante criterioso, e sobretudo muito moral, ou então que existem bons diabos.

Como acreditar, de fato, que Deus não permita senão ao Espírito do mal manifestar-se para nos perder, sem nos dar por contrapeso os conselhos dos bons Espíritos? Se Ele não o pode, isto é uma impotência; se Ele o pode e não faz, isso é incompatível com a sua bondade; e uma e outra suposição seriam blasfêmías. Acentuemos que admitir a comunicação dos maus Espíritos é reconhecer o princípio das manitestações. Ora, desde que estas existem, será com a permissão de Deus. Como acreditar, sem cometer impiedade, que Ele só permita o mal, com exclusão do bem? Uma doutrina assim é contraria ao bom senso e as mais simples noções da religião.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Sab Out 17, 2009 8:42 pm

XI — GRANDES E PEQUENOS

É estranho, acrescentam, que só falem de Espíritos de personalidades conhecidas. E perguntam por que motivo só estes se manifestam. É um erro proveniente, como muitos outros, de observação superficial. Entre os Espíritos que se manifestam espontaneamente há maior número de desconhecidos do que de ilustres. Eles se designam por qualquer nome, muitas vezes por nomes alegóricos ou característicos. Quanto aos evocados, desde que não se trate de parentes ou amigos, é muito natural que sejam de preferência os conhecidos. Os nomes de personagens ilustres chamam mais a atenção por serem mais destacados.

Acham ainda estranho que os Espíritos de homens eminentes atendam familiarmente ao nosso apelo, ocupando-se às vezes de coisas insignificantes, em comparação com as de que se ocupavam durante a vida. Isso nada tem de estranho para os que sabem que o poder ou a consideração de que esses homens gozavam no mundo não lhes da nenhuma supremacia no mundo espírita. Os Espíritos confirmam com isto as palavras do Evangelho: Os grandes serão humilhados e os pequenos serão exaltados, que devem ser entendidas em relação a categoria que cada um de nós ocupará entre eles. É assim que aquele que foi o primeiro na Terra podera encontrar-se entre os últimos; aquele que nos faz curvar a cabeça nesta vida pode voltar como o mais humilde artesão, porque ao deixar a vida perdeu toda a sua grandeza, e o mais poderoso monarca talvez lá se encontre abaixo do último dos seus soldados.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Seg Out 19, 2009 10:51 pm

XI — DA IDENTIFICAÇÃO DOS ESPÍRITOS

Um facto demonstrado pela observação e confirmado pelos próprios Espíritos é que os Espíritos inferiores apresentam-se muitas vezes com nomes conhecidos e respeitados. Quem pode, portanto, assegurar que aqueles que dizem ter sido Sócrates, Júlio César, Carlos Magno, Fénelon, Napoleão, Washington, etc. tenham realmente animado esses personagens? Essa dúvida existe entre alguns adeptos bastante fervorosos da Doutrina Espírita. Admitem a intervenção e a manifestação dos Espíritos, mas perguntam que controle podemos ter da sua identidade. Esse controle é de fato bastante difícil de realizar, mas se não pode ser feito de maneira tão autêntica como por uma certidão de registro civil, pode sê-lo por presunção, através de certos indícios.

Quando se manifesta o Espírito de alguém que pessoalmente conhecemos, de um parente ou de um amigo, sobretudo se morreu há pouco tempo, acontece geralmente que sua linguagem corresponde com perfeição às características que conhecíamos. Isto já é um indício de identidade. Mas a dúvida já não será certamente possível quando esse Espírito fala de coisas particulares, lembra casos familiares que somente o interlocutor conhece. Um filho não se enganará, por certo, com a linguagem de seu pai e de sua mãe, nem os pais com a linguagem do filho. Passam-se algumas vezes, nessas evocações íntimas coisas impressionantes, capazes de convencer o mais incrédulo. O cético mais endurecido é muitas vezes aterrado com as revelações inesperadas que lhe são feitas.

Outra circunstância bastante característica favorece a identidade. Dissemos que a caligrafia do médium muda geralmente com o Espírito evocado, reproduzindo-se exatamente a mesma, de cada vez que o mesmo Espírito se manifesta. Constatou-se inúmeras vezes que, para pessoas mortas recentemente, a escrita revela semelhança flagrante com a que tinha em vida: têm-se visto assinaturas perfeitamente idênticas. Estamos longe, entretanto, de citar esse fato como uma regra, sobretudo como constante; mencionamo-lo como coisa digma de registro.

Os Espíritos que atingiram certo grau de depuração são os únicos libertos de toda influência corporal; mas quando não estão completamente desmaterializados (esta é a expressão de que se servem) conservam a maior parte das idéias, dos pendores e até mesmo das manias que tinham na Terra e este é ainda um meio pelo qual podemos reconhecê-los. Mas chegamos ao reconhecimento, sobretudo, através de uma multidão de detalhes que somente uma observação atenta e contínua pode revelar. Vêem-se escritores discutirem suas próprias obras ou suas doutrinas, aprovando-lhes ou condenando-lhes certas partes; outros Espíritos lembrarem circunstâncias ignoradas ou pouco conhecidas de suas vidas ou suas mortes; todas as coisas, enfim, que são pelo menos provas morais de identidade, as únicas que se podem invocar tratando-se de coisas abstratas.

Se, pois, a identidade do Espírito evocado pode ser, até certo ponto, estabelecida em alguns casos, não há razão para que ela não o possa ser em outros. E se, para as pessoas de morte mais remota não temos os mesmos meios de controle, dispomos sempre daqueles que se referem a linguagem e ao caráter. Porque, seguramente, o Espírito de um homem de bem nunca falará como o de um perverso ou imoral. Quanto aos Espíritos que se servem de nomes respeitáveis, logo se traem por sua linguagem e suas máximas. Aquele que se dissesse Fénelon, por exemplo, e ainda que acidentalmente ferisse o bom senso e a moral, mostraria nisso mesmo o seu embuste. Se, ao contrário, os pensamentos que exprime são sempre puros, sem contradições, constantemente a altura do caráter de Fénelon, não haverá motivos para duvidar-se de sua identidade. Do contrário, teríamos de supor que um Espírito que só prega o bem pode conscientemente empregar a mentira, sem nenhuma utilidade. A experiência nos ensina que os Espíritos do mesmo grau, do mesmo caráter e animados dos mesmos sentimentos, reúnem-se em grupos e em famílias. Ora, o número dos Espíritos é incalculável e estamos longe de conhecê-los a todos; a maioria deles não tem nomes para nós. Um Espírito da categoria de Fénelon pode, portanto, vir em seu lugar, às vezes mesmo com o seu nome, porque é idêntico a ele e pode substituí-lo e porque necessitamos de um nome para fixar as nossas idéias. Mas que importa, na verdade, que um Espírito seja realmente o de Fénelon? Desde que só diga boas coisas e não fale senão como o faria o próprio Fénelon, é um bom Espírito; o nome sob o qual se apresenta é indiferente e nada mais é, freqüentemente, do que um meio para a fixação de nossas idéias. Não se verifica o mesmo nas evocações íntimas, pois nestas, como já dissemos, a identidade pode ser estabelecida por meio de provas que são, de alguma forma, evidentes.

Por fim, é certo que a substituição dos Espíritos pode ocasionar uma porção de enganos, resultar em erros e muitas vezes em mistificações. Esta é uma das dificuldades do Espiritismo prático. Mas jamais dissemos que esta Ciência seja fácil nem que se possa aprendê-la brincando, como também não se dá com qualquer outra Ciência. Nunca será demais repetir que ela exige estudo constante e quase sempre bastante prolongado. Não se podendo provocar os fatos, e necessário esperar que eles se apresentem por si mesmos, e freqüentemente eles nos são trazidos pelas circunstâncias em que menos pensávamos. Para o observador atento e paciente os fatos se tornam abundantes, porque ele descobre milhares de nuanças características que lhe parecem como raios de luz. O mesmo se dá com referência as ciências comuns; enquanto o homem superficial só vê numa flor a sua forma elegante, o sábio descobre verdadeiras maravilhas para o seu pensamento.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Qua Out 21, 2009 9:17 pm

XIII — AS DIVERGÊNCIAS DE LINGUAGEM

Estas observações levam-nos a dizer algumas palavras sobre outra dificuldade, referente a divergência de linguagem dos Espíritos.

Sendo os Espíritos muito diferentes uns dos outros, quanto ao conhecimento e a moralidade, é evidente que a mesma questão pode ser resolvida por eles de maneira contraditória, de acordo com suas respectivas categorias, como o fariam, entre os homens, um sábio, um ignorante ou um brincalhão de mau gosto. O essencial é saber a quem nos dirigimos.

Mas, acrescentam, como se explica que os Espíritos reconhecidos como superiores não estejam sempre de acordo? Diremos, inicialmente, que além da causa já assinalada há outras que podem exercer certa influência sobre a natureza das respostas, independente da qualidade dos Espíritos. Este é um ponto capital, cuja explicação obteremos pelo estudo. Eis porque dizemos que estes estudos requerem atenção contínua, observação profunda e, sobretudo, como aliás todas as ciências humanas, a continuidade e a perseverança. Necessitamos de anos para fazer um médico medíocre e três quartas partes da vida para fazer um sábio, mas quer-se obter em algumas horas a Ciência do infinito! Que ninguém, portanto, se iluda: o estudo do Espiritismo é imenso; liga-se a todas as questões metafísicas e de ordem social; é todo um mundo que se abre diante de nós. Será de espantar que exija tempo, e muito tempo, para a sua realização?

A contradição, aliás, não é sempre tão real quanto pode parecer. Não vemos todos os dias homens que professam a mesma Ciência divergirem nas suas definições, seja porque empregam termos diferentes, seja por diferenças de ponto de vista, embora a idéia fundamental seja sempre a mesma? Que se conte, se possível, o número de definições dadas sobre a gramática! Acrescentemos que a forma da resposta depende quase sempre da forma da pergunta. Seria pueril, portanto, ver-se uma contradição onde geralmente não existe mais do que uma diferença de palavras. Os Espíritos superiores não se preocupam absolutamente com a forma; para eles, a essência do pensamento é tudo.

Tomemos, por exemplo, a definição de alma. Não tendo esta palavra uma definição única, os Espíritos podem, como nós, divergir na sua aplicação: um poderá dizer que ela é o princípio da vida; outro, chamá-la de centelha anímica; um terceiro dizer que ela é interna; um quarto, que é externa, etc., e todos terão razão segundo os seus pontos de vista. Poderíamos mesmo acreditar que alguns deles professem teorias materialistas e no entanto não ser assim. O mesmo acontece com relação a Deus: será ele o princípio de todas as coisas, o Criador do Universo, a inteligência suprema, o infinito, o grande Espírito, etc., etc., mas em definitivo será sempre Deus. Citemos ainda a classificação dos Espíritos. Formam eles uma série ininterrupta, do mais baixo ao mais alto grau, e sua classificação é portanto arbitrária: um poderá estabelecê-la em três classes, outro em cinco, dez ou vinte, à vontade, sem por isso estar em erro.

Todas as ciências humanas oferecem o mesmo exemplo: cada sábio tem o seu sistema; os sistemas variam mas a Ciência é sempre a mesma. Quer se aprenda Botânica pelo sistema de Lineu, de Jussieu ou de Tournefort não se saberá menos Botânica. Deixemos, portanto, de dar as coisas puramente convencionais mais importância do que merecem, para nos atermos ao que é verdadeiramente sério, e não raro a reflexão nos fará descobrir, naquilo que parece mais contraditório, uma similitude que nos escapara ao primeiro exame.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Sab Out 24, 2009 2:33 pm

XIV — AS QUESTÕES DE ORTOGRAFIA

Passaríamos ligeiramente sobre a objeção de alguns céticos quanto as falhas ortográficas de alguns Espíritos, se ela não nos desse oportunidade a uma observação essencial. Essa ortografia, deve-se dizer, nem sempre é impecável; mas somente a falta de argumentos pode torná-la objeto de uma crítica séria, com a alegação de que se os Espíritos tudo sabem, devem saber ortografia. Poderíamos opor-lhes numerosos pecados desse gênero cometidos por sábios da Terra, sem que lhes tenha diminuído o mérito. Mas há neste fato uma questão mais grave.

Para os Espíritos, principalmente para os Espíritos superiores, a idéia é tudo, a forma não é nada. Livres da matéria, sua linguagem é rápida como o pensamento, pois é o próprio pensamento que entre eles se comunica sem intermediários. Devem, portanto, sentir-se mal quando são obrigados, a se comunicarem conosco, a se servirem das formas demoradas e embaraçosas da linguagem humana e sobretudo de sua insuficiência e imperfeição, para exprimirem todas as suas idéias. É o que eles mesmos dizem, sendo curioso observar os meios que empregam para atenuar esse inconveniente. O mesmo aconteceria conosco se tivéssemos de nos exprimir numa língua de palavras e fraseados mais longos, e mais pobre de expressões do que a nossa. É a dificuldade que experimenta o homem de gênio, impaciente com a lentidão da pena, sempre atrasada em relação ao pensamento.

Compreende-se, pois, que os Espíritos liguem pouca importância as puerilidades ortográficas, principalmente quando tratam de um ensinamento profundo e sério. Não é, aliás, maravilhoso que se exprimam indiferentemente em todas as línguas, a todas compreendendo? Disso não se deve concluir, entretanto, que a correção convencional da linguagem lhes seja desconhecida, pois a observam quando necessário. Por exemplo, a poesia por eles ditada quase sempre desafia a crítica do mais exigente purista, e isto, apesar da ignorância do médium.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Dom Out 25, 2009 8:55 pm

XV — A LOUCURA E SUAS CAUSAS

Há ainda criaturas que vêem perigo por toda parte, em tudo aquilo que não conhecem, não faltando as que tiram conclusões desfavoráveis ao Espiritismo do fato de terem algumas pessoas, que se entregaram a estes estudos, perdido a razão. Como podem os homens sensatos aceitar essa objeção? Não acontece o mesmo com todas as preocupações intelectuais, quando o cérebro é fraco? Conhece-se o número de loucos e maníacos produzidos pelos estudos matemáticos, médicos, musicais, filosóficos e outros? E devemos, por isso, banir tais estudos? O que provam esses fatos? Nos trabalhos físicos, estropiam-se os braços e as pernas que são os instrumentos da ação material; nos trabalhos intelectuais, estropia-se o cérebro que é o instrumento do pensamento. Mas se o instrumento se quebrou, o mesmo não acontece com o Espírito: ele continua intacto e quando se libertar da matéria não desfrutará menos da plenitude de suas faculdades. Foi no seu setor, como homem, um mártir do trabalho.

Todas as grandes preocupações intelectuais podem ocasionar a loucura: as Ciências, as Artes e a Religião fornecem os seus contingentes. A loucura tem por causa primária uma predisposição orgânica do cérebro, que o torna mais ou menos acessível a determinadas impressões. Havendo essa predisposição à loucura, ela se manifestará com o caráter da preocupação principal do indivíduo, que se tornará uma idéia fixa. Essa idéia poderá ser a dos Espíritos, naquele que se ocupa do assunto, ou a de Deus, dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma arte, de uma ciência, da maternidade ou de um sistema político ou social. É provável que o louco religioso se apresente como louco espírita, se o Espiritismo foi a sua preocupação dominante, como o louco espírita se apresentaria de outra forma, segundo as circunstâncias.

Digo, portanto, que o Espiritismo não tem nenhum privilégio neste assunto. E vou mais longe: digo que o Espiritismo bem compreendido é um preservativo da loucura.

Entre as causas mais freqüentes de superexcitação cerebral devemos contar as decepções, as desgraças, as afeições contrariadas que são também as causas mais freqüentes do suicídio. Ora, o verdadeiro espírita olha as coisas deste mundo de um ponto de vista tão elevado; elas lhe parecem tão pequenas, tão mesquinhas, em face do futuro que o aguarda; a vida é para ele tão curta, tão fugitiva, que as tribulações não lhe parecem mais do que incidentes desagradáveis de uma viagem. Aquilo que para qualquer outro produziria violenta emoção, pouco o afeta, pois sabe que as amarguras da vida são provas para o seu adiantamento, desde que as sofra sem murmurar, porque será recompensado de acordo com a coragem demonstrada ao suportá-las. Suas convicções lhe dão uma resignação que o preserva do desespero e conseqüentemente de uma causa constante de loucura e suicídio. Além disso, conhece, pelo exemplo das comunicações dos Espíritos, a sorte daqueles que abreviam voluntariamente os seus dias, e esse quadro é suficiente para o fazer meditar. Assim, o número dos que tem sido detidos à beira desse funesto despenhadeiro é considerável. Este é um dos resultados do Espiritismo. Que os incrédulos se riam quanto quiserem: eu lhes desejo as consolações que ele proporciona a todos os que se dão ao trabalho de lhe sondar as misteriosas profundidades.

Entre as causas da loucura devemos ainda incluir o pavor, sendo que o medo do Diabo já desequilibrou alguns cérebros. Sabe-se o número de vítimas que ele tem feito ao abalar imaginações fracas com essa ameaça, que cada vez se procura tornar mais terrível através de hediondos pormenores? O diabo, dizem, só assusta as crianças, é um meio de torná-las mais ajuizadas. Sim, como o bicho-papão e o lobisomem. Mas quando elas deixam de temê-lo ficam piores do que antes. E para conseguir tão belo resultado não se levam em conta as epilepsias causadas pelo abalo de cérebros delicados. A religião seria bem fraca se, por não usar o medo, seu poder ficasse comprometido. Felizmente assim não acontece. Ela dispõe de outros meios para agir sobre as almas e o Espiritismo lhe fornece os mais eficazes e mais sérios, desde que os saiba aproveitar. Mostra as coisas na sua realidade e com isso neutraliza os efeitos funestos de um temor exagerado.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Ter Out 27, 2009 12:08 am

XVI — A TEORIA MAGNÉTICA E A DO MEIO AMBIENTE

Resta-nos examinar duas objeções: as únicas que realmente merecem esse nome porque se apoiam em teorias racionais. Uma e outra admitem a realidade de todos os fenômenos materiais e morais, mas excluem a intervenção dos Espíritos.

Para a primeira dessas teorias, todas as manifestações atribuídas aos Espíritos seriam apenas efeitos magnéticos. Os médiuns ficariam num estado que se poderia chamar de sonambulismo acordado, fenômeno conhecido de todos os que estudaram o magnetismo. Nesse estado as faculdades intelectuais adquirem um desenvolvimento anormal, os círculos da percepção intuitiva se ampliam além dos limites de nossa percepção ordinária. Dessa maneira, o médium tiraria de si mesmo e por efeito de sua lucidez tudo quanto diz e todas as noções que transmite, mesmo sobre as coisas que lhe sejam mais estranhas no estado normal.

Não seremos nós quem contestará o poder do sonambulismo, cujos prodígios presenciamos, estudando-lhe todas as facetas, durante mais de trinta e cinco anos. Concordamos que, de fato, muitas manifestações espíritas podem ser explicadas por esse meio. Mas uma observação prolongada e atenta mostra uma multidão de fatos em que a participação do médium, a não ser como instrumento passivo, é materialmente impossível. Aos que participam desta opinião, diremos como já dissemos aos outros: "Vede e observai, porque seguramente ainda não vistes tudo".

E a seguir lhes apresentaremos duas considerações tiradas de sua própria doutrina. De onde veio a teoria espírita? É um sistema imaginado por alguns homens para explicar os fatos? De maneira alguma. Mas, então, quem as revelou? Precisamente esses médiuns de quem exaltais a lucidez. Se, portanto, essa lucidez é tal como a supondes, por que teriam eles atribuído aos Espíritos aquilo que teriam tirado de si mesmos? Como teriam dado esses ensinamentos tão preciosos, tão lógicos, tão sublimes sobre a natureza das inteligências extra-humanas? De duas, uma: ou eles são lúcidos, ou não o são. Se o são, e se podemos confiar na sua veracidade, não se poderia admitir sem contradição que não estejam com a verdade. Em segundo lugar, se todos os fenômenos provêm do médium, deviam ser idênticos para um mesmo indivíduo e não se veria a mesma pessoa falar linguagens diferentes, nem exprimir alternadamente as coisas mais contraditórias. Essa falta de unidade nas manifestações de um mesmo médium prova a diversidade das fontes. Se, pois, não podemos encontrá-las todas no médium, é necessário procurá-las fora dele.

Segundo a outra teoria, o médium é ainda a fonte das manifestações, mas em vez de tirá-las de si mesmo, tira-as do meio ambiente. O médium seria uma espécie de espelho refletindo todas as idéias, todos os pensamentos e todos os conhecimentos das pessoas que o cercam: nada diria que não fosse conhecido pelo menos de algumas delas. Não se poderia negar, e vai mesmo nisto um princípio da Doutrina, a influência exercida pelos assistentes sobre a natureza das manifestações. Mas esta influência é bem diversa do que se pretende e entre ela e a que faria do médium um eco dos pensamentos alheios, há grande distância, pois milhares de fatos demonstram peremptoriamente o contrário. Há, portanto, um erro grave, que mais uma vez prova o perigo das conclusões prematuras.

Essas pessoas, incapazes de negar a existência de um fenômeno que a Ciência comum não consegue explicar, e não querendo admitir a intervenção dos Espíritos, explicam-no a seu modo. A teoria que sustentam seria sedutora, se pudesse abarcar todos os fatos, mas assim não acontece. E quando se demonstra, até a evidência, que algumas comunicações do médium são completamente estranhas aos pensamentos, aos conhecimentos, as próprias opiniões de todos os presentes, e que essas comunicações são muitas vezes espontâneas e contradizem as idéias preconcebidas, elas não se entregam por tão pouco. A irradiação, respondem, amplia-se muito além do círculo imediato; o médium é o reflexo de toda a Humanidade e dessa maneira, se não encontra as inspirações ao seu redor, vai procurá-las fora: na cidade, no país, no mundo inteiro e até mesmo em outras esferas.

Não creio que esta teoria encerre uma explicação mais simples e mais provável que a do espiritismo, pois supõe uma causa bem mais maravilhosa. A idéia de que seres do espaço, em contato permanente conosco, nos comuniquem os seus pensamentos, nada tem que choque mais a razão do que a suposição dessas irradiações universais, vindas de todos os pontos do Universo para se concentrarem no cérebro de um indivíduo.

Diremos ainda uma vez — e este é um ponto capital, sobre o qual nunca será demais insistir, — que a teoria sonambúlica e a que se poderia chamar reflectiva foram imaginadas por alguns homens; são opiniões individuais, formuladas para explicar um fato, enquanto a Doutrina dos Espíritos não é uma concepção humana; foi ditada pelas próprias inteligências que se manifestam, quando ninguém a imaginava e a opinião geral até mesmo a repelia. Ora, perguntamos, onde os médiuns foram buscar uma doutrina que não existia no pensamento de ninguém sobre a Terra? Perguntamos ainda por que estranha coincidência milhares de médiuns espalhados por todas as partes do globo, sem nunca se terem visto, concordaram em dizer a mesma coisa? Se o primeiro médium que apareceu em França sofreu a influência de opiniões já aceitas na América, por que estranha razão foi ele buscar as suas idéias a duas mil léguas além-mar, no seio de um povo estranho por seus costumes e sua língua, em vez de tomar o que estava ao seu redor?

Mas há ainda uma circunstância em que não se pensou bastante. As primeiras manifestações, em França como na América, não se verificam nem pela escrita, nem pela palavra, mas através de pancadas correspondentes as letras do alfabeto, formando palavras e frases. Foi por esse meio que as inteligências manifestantes declararam ser Espíritos. Se, portanto, pudéssemos supor a intervenção do pensamento do médium nas comunicações verbais ou escritas, o mesmo não se poderia fazer com relação as pancadas, cuja significação não poderia ser conhecida previamente.

Poderíamos citar numerosos fatos que demonstram na inteligência manifestante uma individualidade evidente e uma absoluta independência de vontade. Enviaremos, portanto, os nossos contraditores a uma observação mais atenta, e se eles quiserem estudar bem, sem prevenções, nada concluindo antes de terem visto o necessário, reconhecerão a impotência de suas teorias para explicar todos os fatos. Limitar-nos-emos a propor as seguintes questões: Por que a inteligência que se manifesta, qualquer que seja, recusa-se a responder a algumas perguntas sobre assuntos perfeitamente conhecidos, como por exemplo o nome ou a idade do interrogante, o que ele traz na mão, o que fez na véspera, o que pretende fazer amanhã e assim por diante? Se o médium é o espelho do pensamento dos presentes, nada lhe seria mais fácil de responder.

Os adversários respondem a esse argumento perguntando, por sua vez, por que os Espíritos, que tudo devem saber, não podem dizer coisas tão simples, segundo o axioma: "Quem pode o mais, pode o menos". E disso concluem que não se trata de Espíritos. Se um ignorante ou um brincalhão, apresentando-se perante uma douta assembléia, perguntasse, por exemplo, por que se faz dia pleno ao meio-dia, seria crível que ela se desse ao trabalho de responder seriamente e seria lógico concluir, do seu silêncio ou das zombarias que dirigisse ao interpelante, que seus membros eram tolos? Ora, é precisamente por serem superiores que os Espíritos não respondem a perguntas ociosas ou ridículas, não querem entrar na berlinda; é por isso que eles se calam ou dizem que só se ocupam de coisas mais sérias.

Perguntaremos, afinal, por que os Espíritos vêm e vão, muitas vezes, num dado momento, e por que, passando esse momento não há nem preces nem súplicas que os façam voltar? Se o médium não agisse senão pela impulsão mental dos assistentes é claro que, nessa circunstância, o concurso de todas as vontades reunidas deveria estimular a sua clarividência. Se, entretanto, ele não cede aos desejos da assembléia, apoiado pela sua própria vontade, é porque obedece a uma influência estranha, tanto a ele quanto aos demais, e essa influência demonstra com isso a sua independência e a sua individualidade.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Qua Out 28, 2009 10:38 pm

XVII — PREENCHENDO OS VAZIOS NO ESPAÇO

O ceticismo, no tocante a Doutrina Espírita, quando não resulta de uma oposição sistemática, interesseira, provém quase sempre de um conhecimento incompleto dos fatos, o que não impede algumas pessoas de liquidarem a questão como se a conhecessem perfeitamente. Pode-se ter muito espírito e até mesmo muita instrução e não se ter bom senso; ora, o primeiro indício da falta de senso é a crença na própria infalibilidade. Muitas pessoas também não vêem nas manifestações espíritas mais que um motivo de curiosidade. Esperamos que, pela leitura deste livro, encontrem nesses fenômenos estranhos alguma coisa além de um simples passatempo.

A Ciência Espírita contém duas partes: uma experimental, sobre as manifestações em geral; outra filosófica, sobre as manifestações inteligentes. Quem não tiver observado senão a primeira estará na posição daquele que só conhecesse a Física pelas experiências recreativas, sem haver penetrado na Ciência. A verdadeira Doutrina Espírita está no ensinamento dado pelos Espíritos, e os conhecimentos que esse ensinamento encerra são muito sérios para serem adquiridos em outro modo que não por um estudo profundo e continuado, feito no silêncio e no recolhimento. Mesmo porque só nestas condições pode ser observado um número infinito de fatos e suas nuanças, que escapam ao observador superficial e que permitem firmar-se uma opinião.

Se este livro não tivesse por fim mais do que mostrar o lado sério da questão, provocando estudos a respeito, isto já seria bastante e nos felicitaríamos por termos sido escolhidos para realizar uma obra sobre a qual não pretendemos ter nenhum mérito pessoal, pois os princípios aqui expostos não são de nossa criação: o mérito é, portanto, inteiramente dos Espíritos que o ditaram. Esperamos que ele tenha outro resultado, —o de guiar os homens desejosos de se esclarecerem, mostrando-lhes nestes estudos um objetivo grande e sublime, o do progresso individual e social, e indicando-lhes o caminho a seguir para a sua consecução.

Concluiremos com uma derradeira consideração. Os astrônomos, sondando os espaços, encontraram na distribuição dos corpos celestes lacunas injustificáveis e em desacordo com as leis do conjunto. Suspeitaram que essas lacunas deviam corresponder a corpos que haviam escapado as observações. Por outro lado, observaram certos efeitos cuja causa lhes era desconhecida e disseram a si mesmos: "ali deve haver um mundo, porque essa lacuna não pode existir e esses efeitos devem ter uma causa". Julgando então da causa pelos efeitos puderam calcular os elementos, e mais tarde os fatos vieram justificar as suas previsões.

Apliquemos este raciocínio a outra ordem de idéias. Se observamos a série dos seres percebemos que eles formam uma cadeia sem solução de continuidade, desde a matéria bruta até o homem mais inteligente. Mas, entre o homem e Deus, que são o alfa e o ômega de todas as coisas, que imensa lacuna! Será razoável pensar que seja o homem o último anel dessa cadeia? Que ele transponha, sem transição, a distância que o separa do infinito? A razão nos diz que entre os mundos conhecidos devia haver outros mundos. Qual a filosofia que preencheu essa lacuna? O Espiritismo no-la apresenta preenchida pelos seres de todas as categorias do mundo invisível, e esses seres não são mais que os Espíritos dos homens nos diferentes graus que conduzem a perfeição. E assim tudo se liga, tudo se encadeia, do alfa ao ômega. Vós, que negais a existência dos Espíritos, preenchei o vazio que eles ocupam. E vós, que deles rides, ousai rir das obras de Deus e da sua onipotência!

Allan Kardec
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Qui Out 29, 2009 11:46 pm


Prolegômenos


Fenômenos que escapam as leis da Ciência ordinária manifestam-se por toda parte. E revelam como causa a acão de uma vontade livre e inteligente.

A razão nos diz que um efeito inteligente deve ter como causa uma força inteligente. E os fatos provaram que essa força pode entrar em comunicação com os homens, através de sinais materiais.

Essa força, interrogada sobre a sua natureza, declarou pertencer ao mundo dos seres espirituais que se despojaram do envoltório corporal do homem. Desta maneira é que foi revelada a Doutrina dos Espíritos.

As comunicações entre o mundo espírita e o mundo corpóreo pertencem a Natureza e não constituem nenhum fato sobrenatural. E por isso que encontramos os seus traços entre todos os povos e em todas as épocas, hoje elas são gerais e evidentes por todo o mundo.

Os Espíritos anunciam que os tempos marcados pela Providência para uma manifestação universal estão chegados e que, sendo os ministros de Deus e os agentes da sua vontade, cabe-lhes a missão de instruir e esclarecer os homens, abrindo uma nova era para a regeneração da Humanidade.

Este livro é o compêndio dos seus ensinamentos. Foi escrito por ordem e sob ditado dos Espíritos superiores para estabelecer os fundamentos de uma filosofia racional, livre dos prejuízos do espírito de sistema. Nada contém que não seja a expressão do seu pensamento e não tenha sofrido o seu controle. A ordem e a distribuição metódica das materias, assim como as notas e a forma de algumas partes da redação constituem a única obra daquele que recebeu a missão de o publicar.

No número dos Espíritos que concorreram para a realização desta obra há muitos que viveram em diferentes épocas na Terra, onde pregaram e praticaram a virtude e a sabedoria. Outros não pertencem, por seus nomes, a nenhum personagem de que a História tenha guardado a memória, mas a sua elevação é atestada pela pureza de sua doutrina e pela união com os que trazem nomes venerados.

Eis os termos em que nos deram, por escrito e por meio de muitos médiuns, a missão de escrever este livro:

"Ocupa-te, com zelo e perseverança, do trabalho que empreendeste com o nosso concurso, porque esse trabalho é nosso. Nele pusemos as bases do novo edifício que se eleva e que um dia devera reunir todos os homens num mesmo sentimento de amor e caridade; mas, antes de o divulgares, reve-lo-emos juntos, a fim de controlar todos os detalhes.

Estaremos contigo sempre que o pedires, para te ajudar nos demais trabalhos, porque esta não é mais do que uma parte da missão que te foi confiada e que um de nós já te revelou.

Entre os ensinamentos que te são dados há alguns que deves guardar somente para ti, até nova ordem; avisar-te-emos quando chegar o momento de os publicar. Enquanto isso, medita-os a fim de estares pronto quando te avisarmos.

Porás no cabeçalho do livro o ramo de parreira que te desenhamos, porque é ele o emblema do trabalho do Criador. Todos os princípios materiais que podem melhor representar o corpo e o espírito nele se encontram reunidos: o corpo é o ramo; o espírito é a seiva; a alma, ou o espírito ligado a matéria é o bago. O homem quintessência o espírito pelo trabalho e tu sabes que não é senão pelo trabalho do corpo que o espírito adquire conhecimentos.

Não te deixes desencorajar pela crítica. Encontrarás contraditores encarniçados, sobretudo entre as pessoas interessadas em trapaças. Encontrá-los-as mesmo entre os Espíritos, pois aqueles que não estão completamente desmaterializados procuram muitas vezes semear a dúvida, por malícia ou por ignorância. Mas prossegue sempre; crê em Deus e marcha confiante: aqui estaremos para te sustentar e aproxima-se o tempo em que a verdade brilhará por toda parte.

A vaidade de certos homens, que crêem saber tudo e tudo querem explicar à sua maneira, dará origem a opinões dissidentes; mas todos os que tiverem em vista o grande princípio de Jesus se confundirão no mesmo sentimento de amor ao bem e se unirão por um laço fraterno que envolverá o mundo inteiro; deixarão de lado as mesquinhas disputas de palavras para somente se ocuparem das coisas essenciais. E a doutrina será sempre a mesma, quanto ao fundo, para todos os que receberem as comunicações dos Espíritos superiores.

E com perseverança que chegarás a recolher o fruto dos teus trabalhos. A satisfação que terás, vendo a doutrina propagar-se e bem compreendida, será para ti uma recompensa, cujo valor total conhecerás, talvez, mais no futuro do que no presente. Não te inquietem, pois, os espinhos e as pedras que os incrédulos ou os maus espalharão no teu caminho; conserva a confiança; com ela chegarás ao alvo e merecerás sempre a nossa ajuda.

Lembra-te de que os Bons Espíritos assistem aos que servem a Deus com humildade e desinteresse, e repudiam a qualquer que procure, no caminho do céu, um degrau para as coisas da Terra; eles se afastam dos orgulhosos e dos ambiciosos. O orgulho e a ambição serão sempre uma barreira entre o homem e Deus; são um véu lançado sobre as claridades celestes e Deus não pode servir-se do cego para fazer-nos compreender a luz".

São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luiz, O Espírito da Verdade, Sócrates, Platão, Fénelon, Franklin, Swedenborg, etc.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Qui Out 29, 2009 11:49 pm


LIVRO PRIMEIRO
As Causas Primárias

Capítulo I
Deus


I — Deus e o Infinito

1. O que é Deus?
— Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.

2. O que devemos entender por infinito?
— Aquilo que não tem começo nem fim: o desconhecido; todo o desconhecido é infinito.

3. Poderíamos dizer que Deus é o infinito?
— Definição incompleta. Pobreza da linguagem dos homens, insuficiente para definir as coisas que estão além da sua inteligência.

Deus é infinito nas suas perfeições, mas o infinito é uma abstração; dizer que Deus é o infinito é tomar o atributo de uma coisa por ela mesma, definir uma coisa, ainda não conhecida, por outra que também não o é.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Sex Out 30, 2009 10:51 pm

II — Provas da Existência de Deus

4. Onde podemos encontrar a prova da existência de Deus?
— Num axioma que aplicais as vossas ciências: Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem, e vossa razão vos responderá.
Para crer em Deus é suficiente lançar os olhos as obras da Criação. O Universo existe; ele tem, portanto, uma causa. Duvidar da existência de Deus seria negar que todo efeito tem uma causa, e avançar que o nada pode fazer alguma coisa.

5. Que conseqüência podemos tirar do sentimento intuitivo, que todos os homens trazem consigo, da existência de Deus?
— Que Deus existe; pois de onde lhes viria esse sentimento, se ele não se apoiasse em nada? É uma conseqüência do princípio de que não há efeito sem causa.

6. O sentimento íntimo da existência de Deus, que trazemos conosco, não seria o efeito da educação e o produto de idéias adquiridas?
— Se assim fosse, por que os vossos selvagens também teriam esse sentimento?
Se o sentimento da existência de um ser supremo não fosse mais que o produto de um ensinamento, não seria universal e nem existiria, como as noções científicas, senão entre os que tivessem podido receber esse ensinamento.

7. Poderíamos encontrar a causa primária da formação das coisas nas propriedades íntimas da matéria?
— Mas, então, qual seria a causa dessas propriedades? É sempre necessária uma causa primária.
Atribuir a formação primária das coisas as propriedades íntimas da matéria seria tomar o efeito pela causa, pois essas propriedades são em si mesmas um efeito, que deve ter uma causa.

8. Que pensar da opinião que atribui a formação primária a uma combinação fortuita da matéria, ou seja, ao acaso?
— Outro absurdo! Que homem de bom senso pode considerar o acaso como um ser inteligente? E, além disso, o que é o acaso? Nada.
A harmonia que regula as forças do Universo revela combinações e fins determinados, e por isso mesmo um poder inteligente. Atribuir a formação primária ao acaso seria uma falta de senso, por que o acaso é cego e não pode produzir efeitos inteligentes. Um acaso inteligente já não seria acaso.

9. Onde se pode ver, na causa primária, uma inteligência suprema, superior a todas as outras?
— Tendes um provérbio que diz o seguinte: Pela obra se conhece o autor. Pois bem: vede a obra e procurai o autor! É o orgulho que gera a incredulidade. O homem orgulhoso nada admite acima de si, e é por isso que se considera um espírito forte. Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater!
Julga-se o poder de uma inteligência pelas suas obras. Como nenhum ser humano pode criar o que a Natureza produz, a causa primária há de estar numa inteligência superior à Humanidade.
Sejam quais forem os prodígios realizados pela inteligência humama, esta inteligência tem também uma causa primária. É a inteligência superior a causa primária de todas as coisas, qualquer que seja o nome pelo qual o homem a designe.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Dom Nov 01, 2009 2:14 pm

III — Atributos da Divindade

10. 0 homem pode compreender a natureza íntima de Deus?
— Não. Falta-lhe, para tanto, um sentido.

11. Será um dia permitido ao homem compreender o mistério da Divindade?
— Quando o seu espírito não estiver mais obscurecido pela matéria, e pela sua perfeição tiver se aproximado dela, então a verá e compreenderá.
A inferioridade das faculdades do homem não lhe permite compreender a natureza íntima de Deus. Na infância da humanidade, o homem o confunde muitas vezes com a criatura, cujas imperfeições lhe atribui; mas, à medida que o seu senso moral se desenvolve, seu pensamento penetra melhor o fundo das coisas, e ele faz então, a seu respeito, uma idéia mais justa e mais conforme com a boa razão, embora sempre incompleta.

12. Se não podemos compreender a natureza íntima de Deus, podemos ter uma idéia de algumas de suas perfeições?
— Sim, de algumas. O homem as compreende melhor, à medida que se eleva sobre a matéria; ele as entrevê pelo pensamento.

13. Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, não temos uma idéia completa de seus atributos?
— Do vosso ponto de vista, sim, porque acreditais abranger tudo; mas ficai sabendo que há coisas acima da inteligência do homem mais inteligente, e para as quais a vossa linguagem, limitada às vossas idéias e às vossas sensações, não dispõe de expressões. A razão vos diz que Deus deve ter essas perfeições em grau supremo, pois se tivesse uma de menos, ou que não fosse em grau infinito, não seria superior a tudo, e por conseguinte não seria Deus. Para estar acima de todas as coisas, Deus não deve estar sujeito a vicissitudes e não pode ter nenhuma das imperfeições que a imaginação é capaz de conceber.
DEUS É ETERNO. Se ele tivesse tido um começo, teria saído do nada, ou, então, teria sido criado por um ser anterior. É assim que, pouco a pouco, remontamos ao infinito e a eternidade,
É IMUTÁVEL. Se Ele estivesse sujeito a mudanças as leis que regem o Universo não teriam nenhuma estabilidade.
É IMATERIAL. Quer dizer, sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria, pois de outra forma Ele não seria imutável, estando sujeito as transformações da matéria.
É ÚNICO. Se houvesse muitos Deuses, não haveria unidade de vistas nem de poder na organização do Universo.
É TODO-PODEROSO. Porque é único. Se não tivesse o poder soberano, haveria alguma coisa mais poderosa ou tão poderosa quanto Ele, que assim não teria feito todas as coisas. E aquelas que ele não tivesse feito seriam obra de um outro Deus.
É SOBERANAMENTE JUSTO E BOM. A sabedoria providencial das leis divinas se revela nas menores como nas maiores coisas, e esta sabedoria não nos permite duvidar da sua justiça nem da sua bondade.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Seg Nov 02, 2009 11:05 pm

IV — Panteísmo

14. Deus é um ser distinto, ou seria, segundo a opinião de alguns, o resultante de todas as forças e de todas as inteligências do Universo, reunidas?
— Se assim fosse, Deus não existiria, porque seria efeito e não causa; ele não pode ser, ao mesmo tempo, uma coisa e outra.
— Deus existe, não o podeis duvidar, e isso é o essencial. Acreditai no que vos digo e não queirais ir além. Não vos percais num labirinto, de onde não poderíeis sair. Isso não vos tornaria melhores, mas talvez um pouco mais orgulhosos, porque acreditaríeis saber, quando na realidade nada saberíeis. Deixai, pois, de lado, todos esses sistemas; tendes que vos desembaraçar de muitas coisas que vos tocam mais diretamente. Isto vos seria mais útil do que querer penetrar o que é impenetrável.

15. Que pensar da opinião segundo a qual todos os corpos da Natureza, todos os seres, todos os globos do Universo, seriam partes da Divindade e constituiriam, pelo seu conjunto, a própria Divindade, ou seja, que pensar da doutrina panteísta?
— Não podendo ser Deus, o homem quer pelo menos ser uma parte de Deus.

16. Os que professam esta doutrina pretendem nela encontrar a demonstração de alguns dos atributos de Deus. Sendo os mundos infinitos, Deus é, por isso mesmo, infinito; o vácuo ou o nada não existindo em parte alguma, Deus está em toda parte; Deus estando em toda parte, pois que tudo é parte integrante de Deus, dá a todos os fenômenos da Natureza uma razão de ser inteligente. O que se pode opor a este raciocínio?
— A razão. Refleti maduramente e não vos será difícil reconhecer-lhe o absurdo.
Esta doutrina faz de Deus um ser material que, embora dotado de inteligência suprema, seria em ponto grande aquilo que somos em ponto pequeno. Ora, a matéria se transformando sem cessar, Deus, nesse caso, não teria nenhuma estabilidade e estaria sujeito a todas as vicissitudes e mesmo a todas as necessidades da humanidade; faltar-lhe-ia um dos atributos essenciais da Divindade: a imutabilidade. As propriedades da matéria não podem ligar-se a idéia de Deus, sem que o rebaixemos em nosso pensamento, e todas as sutilezas do sofisma não conseguirão resolver o problema da sua natureza íntima. Não sabemos tudo o que ele é, mas sabemos aquilo que não pode ser, e este sistema está em contradição com as suas propriedades mais essenciais, pois confunde o criador com a criatura precisamente como se quiséssemos que uma máquina engenhosa fosse parte integrante do mecânico que a concebeu.
A inteligência de Deus se revela nas suas obras, como a de um pintor no seu quadro; mas as obras de Deus não são o próprio Deus, como o quadro não é o pintor que o concebeu e executou.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Qua Nov 04, 2009 10:56 pm

Capítulo II

Elementos Gerais do Universo

I — Conhecimento do Princípio das Coisas


17. Pode o homem conhecer o princípio das coisas?
— Não. Deus não permite que tudo seja revelado no homem, aqui na Terra.

18. O homem penetrará um dia o mistério das coisas que lhe estão ocultas?
— O véu se ergue na medida em que ele se depura; mas, para a compreenção de certas coisas, necessita de faculdades que ainda não possui.

19. O homem não poderá, pelas investigações da Ciência, penetrar alguns dos segredos da Natureza?
— A Ciência lhe foi dada para o seu adiantamento em todos os sentidos, mas ele não pode ultrapassar os limites fixados por Deus.
Quanto mais é permitido ao homem penetrar nesses mistérios, maior deve ser a sua admiração pelo poder e a sabedoria do Criador. Mas, seja por orgulho, seja por fraqueza, sua própria inteligência o torna freqüentemente joguete da ilusão. Ele formula sistemas sobre sistemas, e cada dia que passa mostra quantos erros tomou por verdades e quantas verdades repeliu como erros. São outras tantas decepções para o seu orgulho.

20. Pode o homem receber, fora das investigações da Ciência, comunicações de uma ordem mais elevada sobre aquilo que escapa ao testemunho dos sentidos?
— Sim, se Deus o julgar útil, pode revelar-lhe aquilo que a Ciência não consegue apreender.
É através dessas comunicações que o homem recebe, dentro de certos limites, o conhecimento do seu passado e do seu destino futuro.
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MensagemAssunto: Re: ALLAN KARDEC - O LIVRO DOS ESPÍRITOS   Hoje à(s) 11:00 am

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